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Estranguladores

domingo, 10 de abril de 2016.



Susana sempre foi a mais prática de sua familia: nos métodos menos dispensadores de recursos economicamente grandiosos para a manutenção material de sua casa; na facilidade em lidar com cada dificultoso momento vivido ao lado do marido e dos quatro filhos pequenos; na habilidade em arquitetar maneiras de sair de cada drama familiar sempre de modo otimista; no uso deste otimismo para fortalecer o muitas vezes frágil marido; na ampliação desse mesmo otimismo, sempre esboçando um largo sorriso, quando ao carinhosamente tratar dos filhos que nos momentos difíceis muito reclamavam por não terem muito para encher suas barriguinhas; na faculdade de guardar para si as mágoas, as dores, as fraquezas e um abissal ódio que a levou a estrangular o marido e os quatro filhos após dar-lhes o último jantar que saborearam.


Bernardo sempre procurou um equilíbrio em seu trabalho como cabeleireiro: para apresentar o trabalho mais cuidadoso e sofisticado para a sua patroa; no modo como tratava suas amigas de salão; no modo como dispensava muitas destas, que se interessavam por ele, com educação; no estudo na Faculdade de Biologia que à noite frequentava, sem faltar a nenhuma aula; no grande esforço que fazia para não deixar que ninguém percebesse sua falta de apatia ou consideração por qualquer ser humano, uma qualidade de sua natureza que lhe ajudou até hoje a esconder de todos o fato de já ter estrangulado desde a adolescência vinte e duas mulheres.


Rafaela sempre buscava caminhar nas diariamente repetitivas ações politicamente corretas: dava bom dia a cada vizinho de sua rua, sempre sorridente, sempre simpática; dava esmolas a cada mendigo que encontrava pelas ruas; ajudava idosos a atravessarem a rua; trabalhava como voluntária em asilos; trabalhava como voluntária em abrigos para animais abandonados; realizava visitas a doentes em estado terminal nos hospitais; e tudo fazia para continuar sendo bem vista por todos, a mulher perfeita, tão perfeita que em uma manhã de domingo estrangulou os pais idosos e a irmã doente mental, enterrando os corpos no quintal de sua mansão em um nobre bairro.


Daniel sempre se esforçou em ser o médico mais atencioso, o mais educado e infalível do hospital onde trabalha: como clínico geral, atendia a cada paciente com uma dedicação ímpar; sempre amparava os parentes daqueles que chegavam na emergência e não podia salva; sempre se voltou para os estudos, dispensando amizades e relacionamentos amorosos; sempre, sempre é sempre tomando a rotina de plantões que o faziam relaxar após dias de folga nos quais sai pelas ruas para caçar e estrangular moradores de rua.


Sofia sempre foi a professora mais querida de todas as escolas onde trabalhou: fazia os alunos se sentirem como nas casas deles; dava aulas sempre sorridente, brincalhona e amável; conversava com cada aluno problemático, aconselhando-os a modificarem seus comportamentos; auxiliava diretores e outros professores a sempre montarem planos de ações em conjunto para melhorias na estrutura das escolas; e com o mesmo sorriso e simpatia estrangulou vinte alunos em uma noite quando todos se encontravam com ela em um hotel fazenda, parte de uma excursão escolar.


Igor sempre foi o mais fechado, solitário e recluso de sua família: nunca gostou de Futebol; nunca gostou de festas; nunca gostou de sair de casa; preferia estudar Matemática e Física Quântica; um gênio com um QI de 350; se tornou doutor em Física Nuclear aos nove anos; durante vinte anos lecionou nas melhores universidades do mundo; publicou 234 livros com assuntos inteiramente dentro de sua área de estudos; e foi com o mesmo silêncio de sempre que calmamente estrangulou sua primeira e única namorada quando está lhe propôs casamento.


Josué sempre foi o meteoro avassalador de mudanças em sua religião: o pastor mais querido de sua Congregacão; o pastor mais devotado ao poder do Espírito Santo; o pastor mais procurado pelas instituições de caridade; o pastor mais ferrenho na defesa da moral e dos bons costumes; o pastor mais nobre na defesa das convicções do tradicionalismo; o pastor que gosta de gargantas femininas, mas que somente teve coragem de estrangular uma fiel de sua igreja depois do último culto de domingo à noite.


Renan sempre foi obcecado pelos detalhes: os minimalismos de um ambiente por ele decorado; os empregos corretos das cores em uma casa por ele decorada; a disposição simétrica dos móveis em todas as casas que, como decorador mais requisitado da cidade, sempre embelezou com muito cuidado e carinho; a decoração em si sempre perfeita, o que não foi acompanhado pelo pintor que não respeitou o plano decorativo do perfeccionista obcecado, este que estrangulou-o em meio a tintas, pincéis e escadas.


Bianca sempre enfocou seu trabalho como politicamente centrado: como policial, alerta toda hora; diligências que a motivavam; prisões que a excitavam; tiroteios que a exercitavam; perseguições que faziam-na sentir-se viva; e um ou dois dias de extremo estresse nos quais estrangulou seis bandidos baleados no caminho até o hospital dentro do camburão sem que seus colegas percebessem.


Eles são repugnantes?


Eles são monstros?


Eles são doentes?


Eles merecem a pena de morte?


Merecem qualquer pena de morte?


Olhe para você aí, sempre julgando os outros, sempre apontando os outros, sempre sempre sempre fazendo com que “sempre” seja uma eterna nota a ser bem alto tocada! Como não dizer que, amanhã um deles pode ser você? Como dizer que se agora mesmo seu sangue pedir pelas mãos envoltas em um pescoço você se manterá firme em sua sanidade? Como dizer que um dia você não vai estrangular alguém, literalmente falando?


Como dizer?


Como dizer?


Como dizer?


Pense nisso, futura estranguladora!


Pense nisto, futuro estrangulador!


Inominável Ser
ESTRANGULADO



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A Apodrecida Cidade

sexta-feira, 18 de março de 2016.


Rangem os dentes das ruas, dentes mastigadores das gentes que por elas passam. Pessoas de almas que estão deterioradas, erguendo bandeiras a favor de cores degeneradas. Cores de ideologias estagnantes que atrofiam a interna verdade, o interno sentimento de identidade para com algo autêntico. Algo que ficou perdido desde que os baluartes da sobriedade foram extintos pelo avanço da mais irracional e irredutível passagem de um ponto de vista maior para um ponto de vista velozmente danificante de cada existência da Cidade. Cidade que sussurra o nome correto da Desgraça. Cidade que grita o nome correto da Miséria. Cidade que balbucia o nome correto da Maldição. Apodrecida Cidade concentrando em si todos os males de uma ridícula decadente sociedade parindo o colapso de si mesma a cada dia.


— Façamos um ídolo para adotarmos como nosso único guia! Algo fantástico, algo fantasioso, um sublime fantoche para enganar a população e envolvê-la na mentira de que ela é livre! Um princípio basicamente fraco para que os fortes domem os inferiores entre nós com mãos pressionantes de suas mentes e almas! Controlemos mentes e almas com nosso ídolo, regras diremos, leis inventarenos e mandamentos faremos para mantermos os inferiores em suas próprias fantasias existenciais!


A Apodrecida Cidade ouviu emergir das entranhas de uma hipócrita terra de salvadores uma voz que se dirigia a cada um que fazia parte de suas podres partes em um distante esquecido passado.


— Narremos a História como se ela fosse um amontoado de consequências baseadas em causas a nós favoráveis. A horda de inferiores desta Cidade não merece saber sobre toda a verdade que fundamenta sua própria trajetória. É para isso que os livros a narrarem antigos tempos devem sempre enfocar as visões dos superiores. Que as escolas daqueles que dominamos ensinem a determinista visão que nós moldaremos para que nenhuma falha no curso histórico daqui seja percebida. Pela História, dominaremos ainda mais cada ignorante que nascer através das eras entre os inferiores que sob nós serão sempre esmagáveis.


A Apodrecida Cidade ouviu emergir dos esgotos mais abastados de uma opressora terra de conquistadores a voz que anunciou toda forma de maior mentira dentro de sua estrutura organizada.


— Eles não podem pensar por si mesmos porque é nosso único dever pensar por cada um deles. A cada um dos inferiores cabe alimentar-se do que a terra e a indústria produzem; vestir o que nossas fábricas costurarem; dizer o que nossos lábios dizem; cultuar o que determinarmos que deva ser cultuado; e valorizar o que nós queremos que seja valorizado. Cidadãos obedientes são cidadãos civilizados, limpos, ordeiros e honestos.


A Apodrecida Cidade ouviu emergir de pântanos asquerosos maquinadores de falcatruas e roubos de uma terra de pérfidos escroques a voz que declarou o manto acobertante das realidades mais luminosas em redor de toda sua área geográfica.


— Nada de benefícios maiores para essa gente inferior toda! Sabem o porquê de assim trabalharmos no controle de cada um deles? Para evitarmos que apenas um deles ae arvore como um líder acima dos demais. Um líder que seria um exemplo para que outros se antecipem a outros de seus grupos pessoais e se declarem dimensionalmente também como líderes. Até líderes eles poderão ter, líderes por nós controlados, portando nossas idéias e alimentando neles apenas o sentido da servidão para a qual nasceram. É óbvio que toda a governabilidade sobre eles apenas deverá ser voltada para o objetivo de torná-los reféns das nossas diretrizes e determinações. Maquinalmente, cada um deles tem que se tornar autômato a nosso serviço e para o nosso aprimoramento de poder. Para serem escravos, todos eles, os inferiores, também nasceram, nascem e nascerão.


A Apodrecida Cidade ouvir emergir de latrinas cheias de fezes cagadas por monstros morais e imorais de uma terra de canalhas travestidos de bons senhores a voz que calculou o formato de todo ato de domínio sobre seus habitantes por aqueles inferiorizados.


— Inferiores marcham todos os dias para seus insanos inúteis trabalhos.


A Apodrecida Cidade agora fala.


— Inferiores festejam sua inferioridades a cada depravado dia de sua existência.


A Apodrecida Cidade agora declama.


— Inferiores realizam o ato de procriarem ano a ano a fim de gerarem outros inferiores.


A Apodrecida Cidade agora declara.


— Inferiores constroem monumentos e crenças a cada segundo gerando apenas mais e mais o predomínio da inventividade de nulas visões sobre o cemitério por onde caminham.


A Apodrecida Cidade agora fala contigo:


— Você é um inferior.


A Apodrecida Cidade agora fala comigo:


— Você é um inferior.


A Apodrecida Cidade agora fala com toda esta Humanidade:


— Você é Inferior.


A Apodrecida Cidade nunca se cala.


— Eu domino você.


A Apodrecida Cidade nunca se calou.


— Eu sempre dominei você.


A Apodrecida Cidade nunca se calará.


— Eternamente dominarei todos vocês.


A Apodrecida Cidade e suas Ocultas Vozes…


— NÓS SEMPRE SEREMOS OS DONOS DE TODOS VOCÊS!


Inominável Ser
APODRECIDO
SER



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Muito Prazer, Me Chamo Enganação!

domingo, 6 de março de 2016.


Muito prazer, me chamo Enganação! Mas, pode me chamar de Religião. Eu bagunço a sua razão e te faço acreditar na falsidade das minhas mãos. Eu invento histórias sagradas, milagres, santos, apóstolos e mártires apenas para tirar tudo da sua razão. Eu sou pai e mãe do Cristianismo, do Islamismo, do Judaismo, do Espiritismo, do Satanismo, da Umbanda, do Candomblé, da Quimbanda, da Teosofia Moderna, de Thelema, do Protestantismo, de toda coisa que te faz uma lavagem cerebral. Inspirei Paulo, Maomé, Moisés, Blavatsky, Kardec, LaVey, Crowley, Lutero, Fernandino de Morais, Adetá, Ìyá Kalá, Ìyá Nasò, todo aquele, toda aquela, a seu modo, com diversos propósitos, que inventou uma doutrina, uma seita ou uma crença no Não que eu sou com tanta persistência. Eu sou o Exu e a Pombagira nas beiras das esquinas. Eu sou o Orixá nos terreiros de macumbas. Eu sou o Varão de Fogo nos cultos pentecostais. Eu sou o Espírito a falar nas reuniões espíritas. Eu sou o Djinn na mesquita muçulmana. Eu sou o Anjo nas igrejas católicas. Eu sou o Demônio nas reuniões satânicas. Eu sou a Serpente nas orgias thelêmicas. Eu sou Aquilo que você chama, venera e louva quando o caminho para a forca faz com que seus joelhos se dobrem ante os mais efêmeros altares. Você se engana. Eu me alimento do seu engano. E continuo existindo por sua causa, seu arrombado, sua arrombada.

Muito prazer, me chamo Enganação! Mas, pode me chamar de Política. De quatro em quatro anos, seu otário filho da puta, sua otária filha da puta, eu te engano. Eu prometo o que nunca vou cumprir diante da sua fuça escrota. Eu beijo criancinhas pobres que depois eu esqueço quando a eleição termina. Eu abraço anciães que depois eu chuto para fora da minha jogatina. Eu exploro outros otários como você, outras otárias como você, aqueles que entregam papéis com as fotos e os números para as votações nos meus asseclas. Eu roubo do seu salário de fome, enriquecendo aqueles que te enganam de quatro em quatro anos. Sou a dona do Teatro dos Ladrões, ladrões de Brasília, ladrões de Washington, ladrões de Londres, ladrões de Tóquio, ladrões de Paris, ladrões de Roma, ladrões de todas as capitais mundiais, ladrões que amebas como você posicionam em postos vitais estatais. Eu sou as presidentes e os presidentes. Eu sou as governadoras e os governadores. Eu sou as senadoras e os senadores. Eu sou as deputadas e os deputados. Eu sou as prefeitas e os prefeitos. Eu sou as vereadoras e os vereadores. Eu sou todos que te enganam com charme, requinte e hipocrisia à vontade. Hitler foi meu filho dileto. Collor é o meu sobrinho querido. Lula é meu outro sobrinho amado. Os Bush são meus afilhados de altíssimo grau. Dilma é minha afilhada semigual. E todos aqueles sentados ou que se sentaram nas cadeiras de couro negro mais famosas do mundo são a minha família, por igual. Você vota neles. Você vota em mim. E continuo existindo por sua causa, seu desgraçado, sua desgraçada.

Muito prazer, me chamo Enganação! Mas, pode me chamar de Ciência. Eu tenho a cura para todas as doenças, mas os que me manipulam querem enriquecer as indústrias farmacêuticas a fim de engordarem os próprios rabos. Eu tenho a solução para o controle climático, mas os que me manipulam fazem-se de cegos e ignoram toda tragédia nascida dos eventos naturais mais catastróficos. Eu tenho todas as respostas deste universo, mas os que me manipulam querem que você e o resto do rebanho de vermes acerebrados aos quais pertenceis continuem ignorantes gratos pelo paõzinho suado de cada dia. Todo cientista e toda tecnologia de mim nascida não serve para libertá-lo ou torná-lo atualizado com as novidades do seu puto mundinho deterioridao, mas serve para cada vez mais escravizá-lo. Eu sou cada peça do seu PC. Eu sou cada peça do seu ultrabook. Eu sou cada peça da sua workstation. Eu sou cada peça do seu notebook. Eu sou cada peça do seu netbook. Eu sou cada peça do seu laptop. Eu sou cada peça do seu iPod. Eu sou cada peça do seu iPad. Eu sou cada peça do seu iPhone. Eu sou cada peça do seu smartphone. Eu sou cada pça do seu DVD. Eu sou cada peça do seu Blu-Ray. Eu sou cada peça da sua TV de plasma. Eu sou cada peça da sua TV 3D. Eu sou cada peça do seu Playstation. Eu sou cada peça do seu tablet. Eu sou cada peça do seu MP4. Eu sou cada peça do seu carro computadorizado. Você e a sua Humanidade nada evoluiram, apenas passaram do estado de protozoários para os de vírus e bactérias. Os cientistas ajudam a manter as infecções que você e sua gente são sob controle, criando novas doenças a cada dia, doenças que nunca possuem uma cura próxima ou conhecida, doenças que servem ao propósito das corporações amigas do bezerro de ouro da contemporaneidade, o dinheiro. O atraso humano é obra minha, meus cientistas controlam o que pode e o que não pode cair em suas mãos vadias. Você nunca vai me compreender, imbecis não são cientistas. Eu sempre vou te compreender, neanderthal de QI abaixo de zero. E continuo existindo por sua causa, seu cachorro, sua cachorra.

Muito prazer, me chamo Enganação! Mas, pode me chamar de Mídia. Eu invento tudo que você assiste, ouve e lê. Eu controlo a programação televisiva. Eu te faço engolir novelas através de novelas dominantes que insiro como códigos em cada novelinha da Record, do SBT, da Globo, da Televisa ou de qualquer outra emissora televisiva do mundo. Eu moldo as notícias dos jornais impressos e virtuais e televisivos, modifico as versões de cada faço e te faço envolver-se nas notícias que passam aptrovadas pelo meu laço. Eu te faço ouvir as músicas que quero, as que te hipnotizam, as que te imbecilizam mais, as que te cegam mais e as que te tornam um robôzinho em minhas mãos. Eu elevo atores, atrizes, cantores e cantoras como os Novos Deuses do seu mundo, apenas para rir da forma como seu cu venera cada ídolo de merda por mim erigido. Eu edito as revistas de todos os tipos, elementos ricos do meu império que te reduzem a favor da alienação que excito. Eu sou a cara de bunda da Caras. Eu sou a canalhice editorial da Veja. Eu sou a voz desafinada da Rihanna. Eu sou a voz irritante da Anitta. Eu sou os lábios desejáveis da Angelina Jolie. Eu sou os músculos de aço do Henry Cavill. Eu sou o Funk gerador das meninas do tamborzão putas de montão e dos meninos da ostentação vadios sem massa cerebral. Eu sou o Pagode inventor dos Tiaguinhos e dos Belos sem noção. Eu sou o sorrisinho irônico e hipócrita do “Boa noite” do William Bonner no Jornal Nacional. Eu sou a beleza estonteante e mágica da Ticiana Villas-Boas no Jornal da Band. Eu sou as grgalhadas hipnotizantes do Sílvio Santos nas noites dominicais do SBT. Eu sou as bundas malhadas das Panicats, rebolativas atuais chacretes, no Pânico na Banda. Eu sou os gritos do Datena no Brasil Urgente. Eu sou a voz teatral do Marcelo Rezende no Cidade Alerta. Eu sou Rebelde. Eu sou Amor à Vida. Eu sou Pecado Mortal. Eu sou o sangue rolando em True Blood na HBO. Eu sou a fanfarronice deliciosa de Supernatural na Warner. Eu sou a dureza da vida policial em Law & Order – SVU no Universal Channel. Eu sou o humor apocalíptico de South Park no VH1. Eu sou os clipes megalomaníacos da Beyoncè na MTV. Eu sou as lutas ferozes do Anderson Silva no Combate. Eu sou os filmes pornô excitantes e famosos do Alexandre Frota no Sexy Hot. Eu sou os documentários monótonos do Discovery Channel. Eu sou cada filme de cada canal Telecine. Eu sou os desenhos repetidos do Cartoon Network. Você me adora. Eu adoro aprisioná-lo. E continuo existindo por sua causa, seu jumento, sua jumenta.

Muito prazer, me chamo Enganação! Mas, pode me chamar de Educação. Ironizo a inteligência e incentivo a domesticação mental. Descarto a perspicácia intelectual e induzo a mecanização cerebral. Desprezo a criatividade e defendo a cópia, op decorar e a falta de imaginação. As escolas são meus iniciais palcos e centros de atuação, sou uma artista geradora de tros como Columbine e Realengo, adolescentes mortos e crianças mortas são apenas consequências da minha ação. As faculdades completam a minha dominação, não existem nelas os criadores ou recriadores, apenas imitadores dos anteriores rabos sentados nas cadeiras das cátedras que mais parecem tronos de pó. Eu sufoco toda diferença, apenas estou a favor das histórias oficiais e das tradições que controlam as almas mais afoitas. Eu deseduco para continuar a imperar comandando a maior forma de imbecilizar, desde a infância, uma alma humana. Os professores e as notas são os donos dos meus ensinamentos, cada um controla como marionete a você na escola, na faculdade ou em qualquer curso que faça. Conto mentiras nos livros, nas aulas e na ilusão que é alguém se dizer “Doutor” em alguma outra mentira das minhas. Falo o idioma do controle. Calculo a fórmula da ignorância.das coisas essenciais. Desenho círculos aprisionantes inderrubáveis. Você me valoriza. Eu te iludo. E continuo existindo por sua causa, seu retardado, sua retardada.

Muito prazer, me chamo Enganação! Mas, pode me chamar de Internet. Eu sou o site de notícias. Eu sou o site de entretenimento. Eu sou o site pornográfico. Eu sou os jogos virtuais. Eu sou as redes sociais. Eu te retiro da humana realidade e te enveneno com a maior das ilusões do mundo atual. De clique em clique, de navegação em navegação, vou te viciando em mim, verdadeiro animal irracional. Meus encantos te seduzem e te induzem a ser um vegetal diante dos bits e bytes do meu arsenal. Meus chamados te transformam em um inseto pousando sobre cada migalha de pseudoconhecimentos que lhe dou. Eu estupro a sua mente e espanco o seu corpo durante horas, te afastando do convívio social, te metamorfoseando em um ser virtual. Você,  meu escravo real, me ama, sou muito mais do que seu pai, sua mãe, seus irmãos, seus primos, seus tios, seus avós, seus amigos, sua esposa, sua namorada, seu marido, seu namorado, ou a prostituta ou o michê ou o travesti ou o transexual com os quais ocorre apenas uma boa foda. Eu sou o Google, você me pesquisa. Eu sou o Facebook, você me curte. Eu sou o Twitter, você me segue. Eu sou o Youtube, você me compartilha. Eu sou o Dailymotion, você me assiste. Eu sou o Blogger e o Wordpress, você me lê. Eu sou o site da Times, da R7 e do Globo.com, você me vasculha. Eu sou o site da Playboy, do Bang Bros, da Brasileirinhas e do Porn Pros, você se delicia. Eu sou os paus do Kid Bengala e do Big Mac duríssimos, dentro de cus e bucetas, você me chupa. Eu sou as bucetas da Babalu e da Cherokee D'ass abertíssimas, preenchidas por mil picas, você se masturba. Eu sou os cus abertíssimos da Sara Jay e da Mônica Santhiago, com todas as pregas perdidas, penetradas por milhões de picas, você chega ao orgasmo. Eu sou as bundas grandes da Elke The Stallion e da Mulher-Melancia, você goza. Eu sou os downloads ilegais de filmes, livros, álbuns musicais, animes e seriados, você rouba. Eu sou o GTA, você se sente como um Deus. Eu sou as fotos de pedofilia e os vídeos de estupro, você festeja. Você me eleva a um trono maior do que o de qualquer Deus ou Deusa. Eu te engolfo no oceano vermelho da ilusão de Maya. E continuo existindo por sua causa, seu bode, sua cabrita.

Muito prazer, me chamo Enganação! Mas, pode me chamar de Amor. Eu sou apenas uma desculpa para que todos fodam e procriem como ratos, moscas e baratas. Eu sou apenas uma orgânica mentira gerada por hormônios canalhas. Eu sou a falsa fórmula solucionante das solidões, reduzindo talentos grandiosos a míseros pais e mães de família. Você me namora, me beijando e fodendo e procriando comigo. Você se casa comigo, amadurecendo, envelhecendo e morrendo em meus braços. Todos os tipos de amor que eu sou são mentiras, não existe amor absoluto em nenhum ser humano. Quando alguém importante em sua vida adquire uma doença degenerativa, para onde vão seus amigos, os amigos daquela pessoa e a sua família? Te esquecem, esquecem o adoentado e se afastam. Quando você deixa de ter condições financeiras altas e passa a ter dificuldades de várias maneiras, para onde vão os seus amigos, a sua família, o seu companheiro ou a sua companheira? Te abandonam, te esquecem e se afastam. Quando alguém amado por você intensamente morre e a sua dor lhe faz ter a necessidade de um ombro amigo para chorar, com quantos amigos e familiares sinceros você pode contar? Com nenhum verdadeiramente sincero, apenas com interersseiros e interessados no seu dinheiro ou no seu corpo. Verdadeiro Amor é sonho poético. Amor Divino é quimera cabalística. Você pensa que ama algo, mas, na verdade, é a sua possessividade e egoísmo que te faz apegar-se ao objeto que diz ser o da sua adoração completa. Eu exerço a minha autoridade em sua consciência e em seu coração te dando grandes paixões e grandes decepções de variadas formas. E continuo existindo por sua causa, seu merda, sua merda.

Muito prazer, me chamo Enganação! Mas, pode me chamar de Vida. Eu respiro por você. Eu caminho por você. Eu durmo por você. Eu desperto por você. Eu cago por você. Eu mijo por você. Eu vomito por você. Eu sangro por você. Eu fodo por você. Eu falo por você. Eu sussurro por você. Eu grito por você. Você, amorfa entidade, não me possui, sou eu que te possuo. Você, arrogante criatura, não me direciona, sou eu que te direciono. Você, pretensioso ser, não me constrói, sou eu que te construo. Você, consumado aborto, não me leva, sou eu que te levo. Não se engane, não mesmo, não há nenhum controle de sua parte sobre mim. Eu te dou várias cartas, você vai jogando e os lances o submetem cada vez mais, sob os meus pés a uma ridícula posição de escarro. Meu escarro. Você, ser humano, é um escarro, o meu escarro. Eu posso me desvencilhar de você, mas você jamais poderá se desvencilhar de mim. Eu te xingo e humilho todo dia, sou a Roda do Infortúnio e uma falsa Roda da Fortuna. Eu sei a hora do seu último sopro e me divirto com os medos e temores que você possui ao pensar que um dia deixarei de mover os seus malditos ossos, músculos e ógãos. Você pode morrer agora, agora mesmo. Você pode morrer dormindo, sem notar. Você pode morrer amanhã, assassinado ou acidentado. Você pode morrer em qualquer dia futuro, esclerosado, abandonado e solitário. Na verdade, o meu Verdadeiro Nome é Morte, mas, para mantermos as aparências, continue me chamando de Vida, é mais agradável para infraseres como você. Você se apega a mim como um bêbe faminto e desesperado. Eu sou indiferente aos seus prazeres e dores, sonhos e pesadelos, posses e misérias, status e riquezas, cor de pele e raça, sexo e idade. E continuo existindo por sua causa, seu cavalo, sua égua.

Muito prazer, me chamo Enganação! Mas, pode me chamar de Você. Você, A Absoluta Enganação. Você, a Suprema Enganação. Você, A Infinita Enganação. Você, A Eterna Enganação. Você, Enganoso Ser. Você, Enganado Ser. Você, Enganador Ser. Você, que engana a si mesmo gerando seres superiores para carregá-lo nos braços. Você, que engana a si mesmo crendo em um Deus Maior para limpar a bosta do meio do seu rabo. Você, que se apega ao que é material e que não vai contigo parao fundo da sua cova ou para o fundo do forno crematório. Você, que cria mundinhos particulares que exaltam apenas a sua vaidade e a efemeridade de sua existencialidade. Você, tão vazio, tão chulo, tão medíocre, tão tolo, tão simplório, tão mundano, tão humano. Você, humano, partícula, mísera partícula, dentro da Eternidade. Você, humano, pó, mísero pó, dentro da Essencialidade. Voce, humano, lama, mísera lama, dentro do Esquema Universal. Você, humano, esgoto, mísero esgoto, dentro do Nada. Você, humano, extinto, mísero extinto, fora do Todo. Você, humano, é um engano. Quem fala aqui é o que você é, O Engano. Você, humano, é uma enganação. Você humano, é um enganado. Quem fala aqui é o que você não é, O  Enganador. Eu não sou o seu Deus Único. Eu não sou nenhum Deus. Eu não sou o seu Diabo Tentador. Eu não sou nenhum Demônio. Você me criou. Você me amamentou. Você me educou. Você me amadureceu. Você me eternizou. Eu te agradeço por tudo que me destes. E continuo existindo por sua causa, meu pai, minha mãe.

Muito prazer, Eu Sou O Enganador! Mas, você pode me chamar do que quiser, enganoso, enganado e enganador humano leitor...

EU SOU!!!

Inominável Ser
QUE
É
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A Grande Noite Em Uma Dama

sexta-feira, 4 de março de 2016.

 A fumaça vinha de longe naquela madrugada e eu caminhava em direção a ela. Poderia ser uma armadilha, uma trama de um dos ocultos inimigos que tenho nas Ruas Amargas. Poderia, mas desde que adentrei na Encruzilhada Viva após a última daquelas Ruas, Senti que o cigarro cuja fumaça me atraía tinha um propósito muito determinado a guiar-me em segurança até sua origem. Foi então que eu vi a fumante dona dele, vestida de negro, recostada a uma parede entre as Dimensões Sombrias, no meio da Encruzilhada. Me aproximei devagar dela e fui notando que a própria Escuridão eram os olhos da mesma e o rosto dizia todos os Ocultos Antigos Textos que as Eras esqueceram… E o cigarro na mão direita dela emitia sem parar a fumaça que a rodeava, expandia-se por toda a Encruzilhada e me encobria… Enfim, cheguei perto dela, que me olhou fixamente por alguns instantes… E soltou uma estridente e calorosa gargalhada aumentando ainda mais a densidade da fumaça…



— Boa noite, seu moço!
— Boa noite.
— Com medo de mim?
— Eu não te conheço…
— Mas, eu te conheço, moço, fica calmo… Quer fumar meu cigarro?
— Não.
— Assustado comigo, moço? Quer saber como e porquê te chamei aqui?
— É isso que me perturba…
— Perturbado, moço? Ora, não fica assim não, sou da paz para os da paz e da guerra para os da guerra!
— A senhora me chamou por qual motivo?
— Sempre tem que haver um motivo, não é, seu moço?
— Me desculpe, mas é que…
— Você se desculpa demais, moço, devia deixar naturalmente rolar toda a naturalidade dos movimentos visíveis e invisíveis que te cercam… Já notou como faço esta fumaça toda aqui em redor ser tão profunda em um espaço sem definição conhecida?
— Estamos no meio da Encruzilhada.
— Correto, moço. Sabe o que isso significa?
— Você é uma das Guardiãs Superiores de todas as Encruzilhadas Menores.
— Esperto você é, moço, mas ainda não sabe porque eu te chamei aqui…
— Não sou Sábio, senhora.
— Não ainda, mas um dia será, moço. Basta ter paciência e esse dia virá, assim como veio para muitos que antes me encontraram aqui.
— Este Ponto é magnífico…
— Apenas um Ponto da Estrada, moço, além daquelas Portas acima de nós há outros superiores e inacessíveis para você. Mas, não para mim, como já deve Saber, moço.
— Por que sou tão importante a ponto de ser chamado pela senhora?
— Porque a sua importância está escrita nas Sombras, moço. Basta olhar para o seu rosto para ver-se a marca da Caveira Eterna e o empenho de tua alma no Caminho Da Cova. É um Dom, moço, concedido pela Natureza, uma Cósmica Centelha de um Poder bem acima de você. Um Poder, moco, que você vai aprender a usar.
— A senhora vai me ensinar?
— Moço, você vai ter seu Mestre correto, não posso Descer lá para onde você mora. Já tem um Compadre e uma Comadre que há muito te conhecem, Eles te doutrinário, basta sintonizá-los.
— E se eu falhar?
— Não acredita em você, moço?
— Sou muito humano, ainda…
— Um passo você vai dar acima do humano algum dia, moço, fique tranquilo. Embarque em muitos Barcos e nade em muitos Oceanos em cada percurso da tua Estrada. Seja um Andarilho na Busca e uma Roda girando na direção da Hora Eterna. Corra como Dragão Negro e retire do Selo Gritante as suas mais pesadas lições. Dilacere sua Vontade e a reconstrua dentro de si como uma selvagem chama, proporcionando o Advento do Verdadeiro Conhecimento. Escorregue para dentro de si mesmo e exploda para fora de si as Máximas, traduza cada Equação, reduza cada Etapa conforme a passagem dos dias. E coma, moço.
— Comer?
— Das Trevas Interiores e Exteriores, moço.
— Isso é…
— Impossível? Me diga, moço, então, onde que é O Impossível? O Impossível pode ser mesmo próximo de Existir? O Impossível dentro das Possibilidades Totais de tudo que existe realmente deve ser considerado? Achava Impossível estar aqui, neste exato momento, aqui onde tudo se encontra, moço?
— Busquei há muito um encontro com um de vocês.
— Satisfeito ou decepcionado comigo, moço?
— Muito grato, senhora.
— Preferia outra ou outro, seu moço?
— Não há preferências, todos que aqui estão como Participantes do Esquema são detentores dos Mistérios que eu anseio tocar.
— Arrisca-se a Tocar nos Noturnos Mistérios, moço? Compreender a Razão das Trevas? Saborear o gosto da Verdade do Abismo? Fazer uma viagem de conhecimento pelos Infernos lá embaixo de todas as Estradas que para cá conduzem?
— Arrisco tudo, senhora.
— Fume meu cigarro, moço, não me faça essa desfeita…


Pela segunda vez, ela me ofereceu o cigarro e aceitei. No começo, a fumaça me fez ver apenas sua densidade, mas pouco a pouco… pouco a pouco… pouco a pouco…

As Serpentes Sibilaram…

Os Dragões Respiraram…

Os Leões Rugiram…

Os Lobos Uivaram…

Os Sedentos Dançaram…

Os Famintos Gargalharam…

As Corujas Piaram…

O Primeiro Cantou…

O Segundo Ouviu…

O Terceiro Caminhou…

Sete Trevas…

Nove Encruzilhadas…

Nove Trevas…

Sete Encruzilhadas…

Catacumbas abertas…

Esqueletos saindo do Grande Cemitério…

Asas batidas no Baixo…

Asas batidas no Mais Baixo…

Asas batidas nos Intermediários…

As asas dos Guardiães…

Asas do Conhecimento…

Asas da Razão…

Asas da União…

As asas dela…

As asas da senhora cujo cigarro fumava…

A Grande Noite…

Dela Senti…

Com ela Senti…

Senti O Noturno…

Senti O Mistério Dos Mistérios…

Nela, A Escuridão…

Nela, O Caos…

Nela, A Morte…

Nela…

A Grande Noite…

Nela…

A Grande Noite…

Nela…

A Grande Noite…

Escorpiões…

Panteras…

Salamandras…

Peixes…

Escaravelhos…

Os Noturnos Filhos…

Caminhos…

O Noturno…

Labirintos…

O Noturno…

Encruzilhadas…

O Noturno…

O Noturno…

O Noturno…

Uma Noite…

A Noite…

A Grande Noite…

Na fumaça… na fumaça… na fumaça…

fumaça…

fumaça…

fumaça…

fumaça…

fumaça…

fumaça…

fumaça…

fumaça…

fumaça…

Tragadas…

Tragadas….

Tragadas…







Braços…

Abraços…

Abraço…

Quando voltei a mim, estava ajoelhado e ela ao meu lado, também ajoelhada, fumando o cigarro. A gargalhada que ela deu me fez gargalhar junto e erguer meus olhos… Em redor de nós, outros Guardiães… Muitos não conheço, outros já conhece e alguns nem se deram ao trabalho de serem conhecidos no Mundo Visível… E todos fumavam… E todos gargalhavam… E ela sussurrou em meu sorriso:

— Bem-vindo, seu moço, aproveite o início da tua Gira aqui…


Inominável Ser
NA GIRA
DE UMA DAMA
DA GRANDE
NOITE









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A Herdeira De Tsyrl

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016.



Abundante chuva dourada em Nova Keauriothen, banhando uma guerreira a segurar dois machados e a chorar diante de uma Coluna Sagrada. Gotas douradas e lágrimas. Gotas douradas e dor. Gotas douradas e um lamento a escorrer por toda a alma da solitária guerreira. Guerreira de possantes músculos que cedem lugar ao relaxamento e à entrega dela à meditação diante da Coluna. Esta é uma das muitas em homenagem aos que tombaram no Segundo Ato Devorador da Guerra Da Criação, construídas nas Montanhas Admon do agora silencioso Mundo. Sendo uma dos pouquíssimos sobreviventes do massacre promovido por Thornadoriusis Shodolon e seus comandados, ela se encontra diante da Coluna de Jezer Can I, A Maior Dos Can; à esquerda, a de Opharin Can, A Segunda Maior Dos Can; à direita, a de Iugani Oalduthen, A Maior Dos Oalduthen; e por todas as Montanhas, os Maiores Evoluídos de diversas Raças encontram-se representados. A guerreira molhada pelas gotas douradas, em lágrimas, nua, é assomada pelas lembranças de um Mundo que se tornou apenas um sombrio reduto das mesmas.


Jezer I é considerada pela guerreira a chorar, sofrer e ser banhada pelas gotas douradas como acima de si. Sua saudade dela, que foi uma dos Maiores Heróis do Exército Evoluído De Nova Keauriothen, é a que mais lhe impacta pelo fato da mesma ter sido a parenta com a qual mais se identificava. Uma parenta que foi sempre amante mais da luta e da guerra do que da harmonia e da paz; que foi por indetermináveis Eras A Morte; renunciou a esta Condição Evolutiva Semi-Automanifestada por amor; se tornou uma Grande Heroína; e foi Extinta pelo Primeiro Ser quando este liderou a invasão deste Mundo. Ela foi uma guerreira muito além disso, que ultrapassou seu próprio histórico na Criação realizando muito mais do que isso. Uma guerreira que lutava com dois machados, com os quais derramou mais sangue do que a quantidade de derramamento de sangue em todas as guerras já travadas. Mais fúria do que razão; mais violência do que paixão; uma Existência devotada à Arte Assassina até sua Extinção: esta foi Jezer Can I. E os machados seguros por sua descendente a chorar, sofrer e ser banhadas pelas gotas douradas pulsam transmitindo as vozes de cada sangue pelas lâminas derramado.


Os Machados Tsyrl brilham, banhados pelas gotas douradas, adaptando-se ao Existir de sua nova Portadora. Esta, empunhando-os dilacerada pelas lembranças da grande amiga que foi a Portadora anterior, entoa um belo e angustiante canto lírico, O Lamento De Valkyran, uma das Primeiras Deusas Da Morte…


Em um mundo melhor,
Um mundo onde existe o maior,
Encontro calor
E respiro entre todo ardor.


Me torno parte do Todo,
Me assemelhou ao Todo,
Nunca mais choro,
Nunca mais sofro.


Mesmo assim,
Ainda choro,
Ainda sofro,
Ainda lamento.


Desisto do Todo?
Nunca desistirei.
Abandono o Todo?
Nunca abandonarei?


Esqueço o Todo?
Nunca esquecerei.
Separo-me do Todo?
Nunca me separarei.


Neste Mar ficarei,
Neste Lar residirei,
Nesta Onda nadarei,
Neste recinto dormirei…


Chorando como todos,
Sofrendo como todos,
Vivendo como todos,
Morrendo como todos…


A chuva de gotas douradas cai mais forte.


As lágrimas da guerreira caem mais fortes.


A dor da guerreira torna-se mais profunda.


O sofrimento da guerreira é um infinito abismo.


Tendo atrás de si as Colunas de Beria Serah, Amanorap Ocitilop e Alihto Bronan, três dos Maiores Evoluidos Perfeitos de toda a História, a guerreira a empunhar os queridos e amados Tsyrl da Maior Dos Can é a bisneta desta, Jezer Can IV, uma das Quatro Extinguidoras De Thornadoriusis Shodolon. A Última Dos Can. A Maior Lutadora Eterna Da Criação. A Nova Imperatriz De Nova Keauriothen. Sofredora Eterna, também.


Continuando a cantar, suas lágrimas incessantemente, junto com a chuva, criam vida própria. Outras lembranças chegam, lembranças de seus falecidos Esposo Eterno, filhos, amigos… Neste momento, ela se sente estranhamente abençoada por ser coroada como a nova manejadora de Tsyrl. Terminando abruptamente de cantar e chorar, a chuva dourada continuando a se derramar sobre ela e todo o Mundo, seus olhos voltam-se para as lâminas…


As lâminas sangram nos machados duplos.


Selvagemente, ela urra e bebe o sangue.


E, agora, novamente volta a chorar.


Nua.


Banhada por gotas douradas.


Sofrendo.


Solitária.

Inominável Ser
BÉLICO
CRONISTA
INOMINÁVEL

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Kata Ton Daimona Eaytoy

domingo, 21 de fevereiro de 2016.


A tempestade remete a um desencontro com as multiplicações de realidades em meus sentidos. Há algo fugindo ao controle e, ao mesmo tempo, se definindo nas Correntes Temporais. O que Karen encontrou daquela vez que tentou moldar o meu tempo ao modo dela foi a corrente de desenganos que a levou ao suicídio. Eu nunca matei ninguém diretamente, mas me delicia provocar tempestades nas quais sucumbem os menos dotados. Ontem fiz com um pacto com o Diabo, hoje estou fazendo outro com Belial e amanhã será com Behemoth, apenas para não deixar de me acostumar com a atmosfera demoníaca do meu principal jeito de trabalhar o psicológico dos demais. Ah, antes de lhes mostrar como atuo na execução indireta dos afetados pelas tempestades, deixe que eu me apresente: sou Lourival Henrique Macedo de Carvalho, Psicanalista com quatro Pós-Doutorados e adepto de uma virtude de crueldade que você aí julga como “psicopatia” do seu ponto de vista. No meu, apenas ajudo pessoas como Marcela, que estou agora atendendo, a aceitarem o poder da tempestade avassaladora que as leva ao suicídio. Torno o mundo melhor induzindo sutilmente meus pacientes a se matarem, chamo isso de limpeza evolutiva. Ah, sim, já ia me esquecendo… Tenho que induzir a Marcela agora, me acompanhe nesta sessão e talvez eu até possa te convencer do suicídio como um caminho viável para tudo ser resolvido em sua vida miserável.

— Estive pensando ontem na Roberta, minha namorada, Dr. Lourival… Quer dizer, minha décima namorada virtual, que conheci semana passada no Facebook… Ela me convidou para ir até a cidade dela, Curitiba, mas estou com medo…
— Me fale mais do medo.
— Mais um dos meus medos…
— Quero detalhes.
— É o medo de ser estuprada de novo, Dr. Lourival… Quando eu tinha seis anos, aquelas garotas me violentaram… Depois disso, como o senhor sabe, me fechei em mim mesma, não me envolvendo com ninguém por dez anos, nos quais me mantive calada… Há nove meses, o senhor tem me ajudado a superar isso…
— Como é essa superação?
— Ruim…
— Ruim?
— Dr. Lourival… Não me entenda mal, mas seu tratamento…
— A tem ferido ainda mais.
— Sim, absolutamente…
— Em absoluto, é cada ferida que te prende ao que já passou. Já tentou removê-las?
— Machuca…
— O seu melhor está em suas feridas, Marcela, trabalhe a partir delas.
— Como?
— Transporte-se para dentro de si mesma cada vez mais, tendo a certeza de encontrar-se do outro lado do rio de sua vida. Trabalhar cada ferida dentro da sua consciência dependerá do quanto você terá a audácia de fazer certos sacrifícios a mais.
— Fala das minhas namoradas?
— O que elas são para você, Marcela?
— Distrações… Apenas distrações…
— Maravilhosas ou pegasojas?
— Tremendamente tenebrosas…
— Trabalhe também o que é o tenebroso, entregue-se verdadeiramente a cada terror de sua consciência. Não deixe nada escapar, isole-se ainda mais para saborear o próprio eco de sua dolorida essência.
— Me isolar mais do que o senhor já me recomendou fazer?
— Muito mais, a solidão é um reduto de maravilhamentos para os que como você passam pelo mesmo processo de desvinculamento para com o passado.
— As vozes se tornaram mais pesadas depois que o senhor me recomendou isolamento total…
— É um processo de busca interior, não ignore nenhuma voz que você ouvir. Elas estão te orientando na direção de um caminho melhor.
— Sinto-me cada vez mais arrasada, perdida, desamparada, desesperada…
— É o início da cura, Marcela, um processo que apenas depende da sua capacidade em se entregar ao isolamento total.
— E o Facebook?
— Quebre seu celular, seu computador, até mesmo a sua televisão e o seu rádio. Estas distrações além das suas namoradas te desorganizam cada vez mais, fuja de tudo isso. O Ser Humano deve aprender a se desligar do que a tecnologia contemporânea moldou para a sua escravidão. Você, como uma membra da Humanidade que hoje está mais hiperconectada ao exterior do que ao interior, está dando um passo decisivo no caminho de retorno ao ponto de partida da reentrada da atenção da consciência no hoje tão esquecido inconsciente. Mate o exterior, devote-se ao interior e reequilibre toda a sua existência, como sempre deveria ter sido. Não é o Grupo no Facebook ou o reality show da moda que vai te fazer equilibrada como sempre deveria ter sido. Repense, analise e decida seu futuro como fora dessas ilusões a partir de hoje.
— Será mais doloroso ainda…
— A dor é um inescapável processo para a retomada da consciência de si mesmo. Os hiperconectados de hoje dispensam toda experiência dolorosa em prol de momentâneos arrombamentos das portas dos recintos externos dos outros. E os recintos internos ficam cada vez mais desabitados…
— O senhor diz para visitar a minha casa interior, aquela que o senhor me falou semana passada?
— Exatamente, Marcela, exatamente… Abra cada porta fechada, cada janela, cada parte do teto, com maior velocidade… Encontre suas estupradoras, seu pai violento, sua mãe igualmente agressiva, seu silêncio por dez anos, sua solidão há nove anos desde que seus pais morreram naquele acidente de avião… Encontre cada Demônio da sua realidade interna, encontre e ame cada um deles, entregue-se a eles. Os psicanalistas do oba-oba dizem que devemos enfrentar os nossos Demônios Interiores, mas eu lhe digo para abraça-los como se fossem os seus verdadeiras amores realizáveis e possíveis. Abraçando cada um deles, você compreenderá, enfim, a essência deste tratamento…
— Tenho mais medo ainda deste tratamento…
— É um dos melhores do mundo, já curei novecentos e doze pacientes em dezesseis anos de aplicação do mesmo aqui no Brasil.
— O senhor é o melhor psicanalista que já tive, os outros trinta que tentaram me curar apenas pioraram ainda mais a minha situação… Gastei quase a metade de toda a minha fortuna com um bando de charlatães!
— Mesmo que te agrida ferozmente, meu tratamento tem a sua simpatia?
— Tem, Dr. Lourival, toda a minha simpatia.
— Exercite-se, então, no que lhe prescrevi hoje. E atente-se sempre ao que lhe digo: Kata Ton Daimona Eaytoy.
— “Seja Verdadeiro Ao Seu Próprio Espírito”.
— Esta é a verdade inerente ao meu método de cura, Marcela… Bem, nosso tempo acabou, passamos até dez minutos além do mesmo. Foi excelente esta nossa sessão de hoje, você é uma das pacientes que mais evoluem em vista do meu tratamento.
— Estou mesmo melhorando, Dr. Lourival?
— Está, Marcela, mas deixemos para a semana que vem a continuidade desta nossa evolução. Até as dez horas deste sábado tenho mais quatro pacientes para atender. Ao sair, deixe o cheque do pagamento desta sessão com a Senhora Safira, por favor.
— Obrigada, Dr. Lourival, até semana que vem.
— Até, Marcela, tenha uma excelente semana.

O Tratamento da Tempestade sempre funcionou, mesmo que meus colegas de profissão neguem a minha genialidade por causa dos novecentos e treze pacientes meus que se suicidaram. Um a mais, não é, além daqueles que citei em minha última sessão com a Marcela? Sim, esta aqui não durou mais do que os outros e em cinco dias, orientada por mim, se jogou nos trilhos do metrô da Estação Tijuca aqui do Rio de Janeiro. Os esquizofrênicos como ela são os pacientes mais afeitos aos efeitos do meu tratamento, eles realmente acreditam ouvir vozes externas… Eles ouvem, sim, os que não são meus pacientes ouvem essas vozes… Os meus ouvem as vozes dos escravos que domino através da Ars Goetia, Demônios Menores, mas muito eficazes no que fazem. Tenho centenas de Pós-Doutorados no Abismo Infernal, conhecimentos que você aí pensa que não existem e nem podem ser trazidos para nosso Campo Existencial. No entanto, como domino os mecanismos da mente humana, fica mais fácil abrir abismos nas mentes fracas como as de Marcela para a ação dos meus encantamentos. Me acha asqueroso? Repugnante? Desprezível? Obrigado, pelo menos tenho seu reconhecimento, algo que a sociedade psicanalítica mundial jamais me dará! E nunca fui denunciado por nenhum dos meus colegas brasileiros, pobres coitados imbecis… Você vai me denunciar? Oh, estou chocado, muito chocado! Se importa com inúteis como Marcela? Se importa mesmo? Pois bem, quero que saiba que tanto eu quanto ela ou você apenas seguimos isto:


Kata Ton Daimona Eaytoy


Ela foi verdadeira pela primeira vez na ridícula existência dela ao se suicidar. Eu fui verdadeiro novecentas e treze vezes na minha psicanalítica existência; sou verdadeiro no meu empenho em limpar este mundo jogando no lixo abaixo da terra gente como Marcela; e serei ainda mais verdadeiro no futuro acumulando mais pacientes que levei à definitiva cura. Você é verdadeiro ao seu próprio espírito ou é apenas um seguidor cego das massas? Se for a segundo opção, querida testemunha da minha psicanalítica ação suicidante que seguirá com o decorrer da passagem dos anos, nem o suicídio é digno de curá-lo.

Inominável Ser
PSICANALISTA
DO ABISMO
INFERNAL




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