segunda-feira, 14 de maio de 2007

Viagem Pelo Torpor Da Destruição


Pensamentos monótonos todo dia. Ônibus monótono todo dia. Viagens monótonas todo dia. Os mesmos motoristas monótonos todo dia. Os mesmos passageiros monótonos todo dia. Rita Cardoso Maia de Alencar e Silva, secretária executiva da Milton Bush Inc., multinacional instalada na Cidade Dos Encantados Sorrisos, a 1,4 km do centro da cidade do Rio de Janeiro, é a monótona pensadora dessas monótonas viagens de ônibus efetuadas todo dia com os mesmos monótonos motoristas, os mesmos monótonos passageiros. A linha 2718-BC percorre monótonos 213 km todo dia, da Barra Das Alegrias, cidade na qual Rita reside, até o trabalho. Rita acorda às 03:00 h todo dia e a sua monótona rotina monótoma toda manhã é esta: banho, café-da-manhã, arrumar-se para o trabalho e sair. Rita, muitas vezes, adormece. Rita, muitas vezes, fica a ler uma revista. Rita, muitas vezes, fica a ler o jornal do dia. Rita, muitas vezes, fica a apenas admirar a monótona paisagem dos lugares que o monótono ônibus percorre. Hoje, Rita não faz nada disso, está inquieta, está incômoda, pois a viagem não está acabando.

Os demais passageiros, conversando muito, não notem o não-acabar da viagem. Ônibus lotado, sessenta e seis passageiros sentados e trinta e quatro passageiros em pé. Sentada na janela, ela vê diferente todas as ruas do Rio de Janeiro. O que parece ser a Avenida Rio Branco, o que parece ser, densamente está modificado. As pessoas nas ruas são diferentes. As pessoas mesmas, no ônibus, são diferentes. São ainda monótonas, aos olhos de Rita, que jamais trocara uma palavra com qualquer uma delas. O ônibus pára em um ponto estranho e um senhor de idade, aparentando ter setenta anos, entra. A monótona passageira ao lado de Rita ergues-e para dar lugar ao senhor. Rita assusta-se, pois em pleno calor de 42º à sombra, verão assustador, o senhor que sentou-se ao seu lado está com um grosíssimo sobretudo de lã negra, chapéu negro e óculos escuros gigantesco a ocultar-lhe os olhos em seu todo.

Rita acha-o um tremendo louco. E repara que ninguém mais no ônibus está a espantar-se com o senhor ao seu lado. Ela fita-o, não consegue parar de fitá-lo. Ele sequer olha para ela. Rita não consegue parar de fitá-lo. Ele continua a olhar para a frente, impassível, silencioso, sinistro, misterioso. Rita gera uma compulsão em seu Ser, que a leva a não parar de fitar o senhor que sentou-se ao seu lado! Ele, sem olhar para ela, olhando apenas para a frente, diz-lhe:

- Viagem inacabada, deprimida Rita?

A voz do senhor que sentou-se ao seu lado aniquila tudo no interior de Rita. Voz abismal. Voz tenebrosa. Voz que ela conhece.

- Viagem inacabada, deprimida Rita?

- Nunca acaba a minha viagem, senhor...

- Parece que esta é interminável, deprimida Rita.

- É apenas o trânsito, senhor...

- O trânsito, aqui, não é engarrafado, deprimida Rita.

- Aqui é o Rio de Janeiro, senhor, em uma segunda-feira, e o engarrafamento é normal...

- Nervosa por causa desta viagem interminável, deprimida Rita?

- É a viagem que faço todo dia, senhor... Todo dia...

- Nervosa por causa desta viagem interminável, deprimida Rita?

- Esta viagem não quer terminar, senhor... Não quer terminar, senhor... Não quer terminar, senhor...

- Estás a repetir vossas palavras, deprimida Rita. Estás nervosa, deprimida Rita.

- Não estou nervosa, senhor.

- Por que tremes, então, deprimida Rita?

- Esta viagem não termina, senhor...

- Por que tremes, então, deprimida Rita?

- Não estou a tremer, senhor... É a estrada, senhor... Estamos percorrendo uma estrada, senhor...

- Tu percorres esta estrada todo dia, deprimida Rita. Tu suportas as monotonia desta estrada todo dia, deprimida Rita. Quando descansas de toda monotonia vossa, deprimida Rita?

- Tenho que trabalhar, senhor... A monotonia é uma conseqüência do meu trabalho, senhor... Meu trabalho é mais importante, senhor... Muito mais importante, senhor, do que a monotonia que me atormenta...

- Seria a monotonia uma sensação de culpa transformada em algo que te sufoca todo dia, deprimida Rita?

- Saltarei no próximo ponto, senhor, dê-me li...

- Deprimida Rita, saibas que aqui tu és apenas mais uma criatura na estrada. Não se levantes daqui deste banco, neste ônibus, deprimida Rita. Tu não sabes que aqui é mais seguro do que lá fora, deprimida Rita?

- Essa viagem interminável... Senhor, quero chegar ao meu trabalho! Quero chegar ao meu trabalho, senhor!

- Vosso trabalho faz parte do destino deste ônibus nesta estrada, deprimida Rita?

- Toda estrada encaminha-se para um trabalho definido, senhor... E eu tenho que trabalhar, senhor! E eu quero trabalhar, senhor! Quero chegar ao meu trabalho, senhor! Quero falar com o meu patrão, senhor! Quero falar com os meus colegas, senhor! Quero o meu trabalho, senhor! Quero o meu trabalho, senhor! Quero o meus trabalho, senhor!

- Deprimida Rita, tu não tens colegas em vosso trabalho, não falas com ninguém nele, vives pelos cantos, vives em ti mesmo, em vosso autismo existencial.

- Preciso, unicamente, trabalhar, senhor...

- Deprimida Rita, tu não és nem amiga de vosso patrão, tu o detestas, tu o desprezas, tu o humilhas com os teus pensamentos.

- Preciso, unicamente, trabalhar, senhor...

- Deprimida Rita, tu não tens o amor de um homem, tu não te casastes, tu não tivestes filhos, és uma solitária, és uma infeliz.

- Preciso, unicamente, trabalhar, senhor...

- Era o que a tua mãe dizia todo dia, deprimida Rita.

- Preciso, unicamente, trabalhar, senhor...

- Era o que eu dizia todo dia, deprimida Rita.

- Preciso, unicamente, trabalhar, senhor...

- Lembras daquele dia, deprimida Rita? Daquele dia, deprimida Rita?

- Preciso, unicamente, trabalhar, senhor...

- Tu, deprimida Rita, arrancastes-me os olhos com uma colher de pedreiro, enquanto eu estava entorpecido por uma droga que pusestes em meu vinho.

- Preciso, unicamente, trabalhar, senhor...

- Tu, deprimida Rita, com a frieza dos mais vis assassinos impiedosos, me fez engolir, picados, os meus olhos, quando recuperei totalmente a consciência e fui por ti amarrado em uma cadeira, nu e indefeso.

- Preciso, unicamente, trabalhar, senhor...

- Tu, deprimida Rita, mataste a tua mãe à minha frente com cinco mil facada por todo o corpo.

- Preciso, unicamente, trabalhar, senhor...

- Tu, deprimida Rita, me mataste, o vosso pai, esfolando-me primeiro, lançando dois litros de gasolina em mim, e acendendo trinta velas em meu redor, que ao alcançarem o chão e tocarem na gasolina com os pavios, causaram minha morte mais terrível.

- Foi, unicamente, o meu trabalho, senhor...

- Tu nos matastes, deprimida Rita, porque tinha vergonha de nós. Tu nos matastes, deprimida Rita, porque eu era um fazendeiro com nenhuma instrução e a vossa mãe uma parteira humilde. Tu nos matastes, deprimida Rita, para sozinha arriscar-se pelo mundo. Tu mudastes de sobrenome, mas continuas a ser a mesma Rita, a filha assassina minha, a filha assassina da vossa mãe.

- Foi, unicamente, o meu trabalho, senhor...

- Findado está o vosso trabalho, filha que assassinou-me. Aqui eu abri meus Olhos. Abra, aqui, os vossos Olhos.

Rita sente diante de si assim como se infinitos Véus se abrissem e ondas de um nefasto mar se aproximassem. Ela se vê entre os escombros de um ônibus, se vê entre cadáveres, se vê como uma dos cadáveres. Rita, então, compreende, que o seu trabalho no mundo que conhecia findara-se. Rita, então, atormentada, grita. Rita, estremecendo mais, se cala. Rita, olhando para o seu pai, estremece mais. Rita olhando para quem está ao lado de seu pai, em pé, reconhece a mãe que assassinou por ter vergonha dela e a odiar, assim como fizera com o pai. Rita, olhando para todos os passageiros, finalmente reconhece-os e compreende o porquê de achá-los monótonos todo dia no qual esteve no mundo que conhecia.

- Para onde vai esta viagem nesta estrada, senhor?

- Todos aqui te queremos, minha filha que me assassinastes. Durante quinze anos terrestres vós viajastes em ônibus com todos os que maltratastes em vossas inumeráveis existências anteriores. Os Senhores Da Reencarnação deram-te chances de redimir-se, mas tu lançastes todas estas chances no limbo cometendo existência após existência incontáveis atrocidades. Tu nos matastes, a mim e à tua mãe, e a todos os demais sempre, escapando por causa das Leis que regem A Lei Da Regeneração Dos Espíritos. Mas, continuando a ser como sempre fostes desde que no mundo material pela primeira vez te encarnastes, O Porteiro Dos Vales deu-nos tu para compensar-nos das dores eternas ocasionadas pela vossa malignidade eterna.

- Para onde... para onde... senhor... Para onde vais esta viagem nesta estrada?

- Esta viagem destina-se à vossa Destruição Eterna. Este ônibus pertence à Linha Da Estrada Da Deusa Destruição. Todas as inumeráveis mortes horrendas que vós nos causastes, vossos pais em todas as existências, e aos demais neste ônibus, lhe serão devolvidas. Devolvidas eternamente.

- Tudo foi, unicamente, o meu trabalho, senhor... O meu trabalho, senhora... O meu trabalho, senhores...

- Vosso Patrão a despediu e estás sem o vosso trabalho, filha que me assassinastes. - Ele tira os óculos escuros; Rita fecha os olhos. - O nosso Trabalho Eterno, em ti, unicamente será o nosso Consolo Eterno.

Rita, agora, não achará mais as suas viagens de ônibus monótonas.

Rita, agora, terá apenas uma viagem.

Rita, agora, seguirá eternamente em uma viagem agitada...


Inominavelmente viajante de ônibus,

Inominável Ser.



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Prosa De Um Coveiro Inominável

O Terror Inominável. O Horror Inominável. A Loucura Inominável. A Cova Aqui É A Do Puro Pesadelo Das Covas Mais Profundas E Elevadas. Vozes Estranhas Aqui. Sons Estranhos Aqui. Palavras Estranhas Aqui. Estranhas E Inomináveis. Sintam-Se Conduzidos Pelo Carro Inominável Do Terror Inominável. Sintam-Se Conduzidos Pelo Carro Inominável Do Horror Inominável. Sintam-Se Conduzidos Pelo Carro Inominável Da Loucura Inominável.

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