segunda-feira, 4 de junho de 2007

Lady Melissa Quer Ser Imortal

Lapa, Rio de Janeiro, madrugada, samba, hip hop, batidas eletrônicas, pagode, choro, cerveja, abraços, beijos. Meia-noite de sexta para sábado, meia-noite de festas várias, meia-noite de todas as festas variáveis. Melissa Andrade Gama dos Anjos Reis escolheu uma mesa de bar na calçada para aguardar a chegada daquele que há onze anos esteve à procura. Bebendo cachaça pura, Melissa, de 47 anos de idade, nem parece ser uma filha da alta sociedade, está vestida como os demais em seu redor, sem maquiagem, apenas roupa preta total, sobretudo preto discreto e um pentagrama vermelho invertido ao pescoço. É frio, noite mui fria na Lapa, e Melissa aguarda a chegada dele. Ouvindo A Deusa Do Asfalto, de Adelino Moreira, tocada por músicos do bar, chorões, no qual está, batuca levemente na mesa, mexe a cabeça e deixa os cabelos negros espessos cobrirem metade de seu rosto. Enchendo novamente o copo, Melissa reflete sobre a demora dele, se ele realmente viria ao seu encontro. Melissa gastou milhões de dólares para encontrá-lo, percorrendo, literalmente, por conta própria, o mundo inteiro. Melissa sabe que valeu a pena, pois ele prometeu ir ao seu encontro ali mesmo, diante dos Arcos Da Lapa.

Acostumada a beber cachaça desde os dezesseis anos de idade, Melissa já está em seu quinto copo cheio e não se encontra embebedada. Eufórica, controladamente, Melissa está, acompanhando com exatidão cada batida de seu coração e cada pensamento bem ordenado de sua mente a planejar o que falará para ele. Fumante desde os onze anos, Melissa acende uma cigarilha artesanal e, com um pouco da classe herdada devido à sua condição social, começa a fumar segurando o cigarro com um tanto de pompa que perceptível seria apenas aos mais acostumados a verem indivíduos da alta sociedade em outros ambientes, mais sofisticados e exclusivos deles. O grupo a se apresentar no bar agora toca O Que Sempre Senti Por Ti, de Antenógenes Silva e De Moraes; Melissa, ouvindo a poderosa voz rouca do cantor, fecha os olhos e sorri, relembrando do seu antigo sonho, desejo inato, de sempre estar frente a frente com um deles. De olhos fechados, ela ouve a música, fumando o cigarro, balançando a cabeça levemente ao som da música, batucando levemente na mesa ao som da música... E, sem que perceba, ele chega, senta-se à sua frente e, silencioso como floresta obscura desconhecida, passa a observá-la.

A música tocando e Melissa, de olhos fechados, viajando, sentindo cada verso, adentrando existencialmente em cada verso... A melodia é Melissa... Melissa é a melodia... Os olhos fechados, a perfeita divina sintonia... Os olhos fechados, percepção maior da sinfonia... Cigarro... Dedos na mesa batucando... A música...

Ele, sorrindo, observa-a, nota-lhe a respiração suave, os feixes de ar formados pelo ar que a rodeia. Ele, sorrindo, vê-lhe a aura, totalmente negra, formando ondas de força sinistra e perturbadora que poucos, em redor, podem perceber. Ele, sorrindo, aguarda o término da música, aguarda Melissa abrir os olhos e assustar-se ao vê-lo sentado à frente dela.

Os músicos, após tocarem a décima segunda música seguida, descansam. Melissa ajeita-se na cadeira, dá uma tragada e inicia o diálogo.

- Cumprindo a palavra... Algo raro em vossa gente.

- Em Tel Aviv, aquele recado que tu recebestes para encontrar-me aqui foi real, o mensageiro pagou como se deve, depois, a mim, pelo serviço que eu prestei a ele.

- Aquele cara entregou-me aquele pergaminho por você e você quem prestou um serviço a ele?

- Ele, agora, trabalha para mim apenas à noite.

- Compreendo, agora... Por que escolheu a Lapa? Poderia ser Roma, Viena, Moscou, até a Transilvânia...

- Tu és debochada, Lady Melissa.

- Quer que eu te trate como um imperador, Marduk?

- Quero que me trate como quiser, Lady Melissa.

- Puta merda, eu estou bem longe de ser uma "Lady"... Fiz muita coisa por aí que envergonhariam até as prostitutas, mas tudo com a intenção de mais me aproximar de vocês.

- Conhecemos vossa trajetória, Lady Melissa. Nós catalogamos os indivíduos entre os seus que mais podem ser como nós somos.

- Entre os "meus"? Falando de quem, Marduk? Dessa gente em meu redor ou daquela gente que me criou? Não sou dessa gente toda, no geral, Marduk, mesmo que tenha nascido como uma deles. Olhe muito para eles, olhe muito bem para eles, olhe muito bem mais para a Consistência e a Constituição de todos eles... São todos humildes fracassados, cheirando apenas a álcool, fumo e sexo, dotados apenas do desejo de uma boa noite para foder com algo que se mexe ou não. Eu decidi caminhar entre eles para que soubesse mais acerca do mundo que os meus pais tentaram fazer com que eu me mantivesse afastada. Andei de ônibus, andei de metrô, fui a rodas de samba, bailes funk, pagodes, shows populares, churrascos; me enturmei com eles porque queria sentir o aroma, o odor, a energia que move toda essa gente que a classe alta tanto renega. Me envolvi com eles, subi favelas, subi morros, fumei maconha, cheirei cocaína, fui puta de traficantes, fui jupira de presidiários, experimentei de tudo e registrei em meu Livro Do Sangue. Vivi, Marduk, apenas experimentando esse lado da existência humana, o lado que dota de crueldade homens que estupram presidiárias no Iraque e homens que arrastam por quilômetros no asfalto uma criança pelas ruas de Madureira. Gastei milhões assim, pelo mundo, não apenas aqui no Rio de Janeiro, estudando esse tipo de existência, pela qual me encantei, pela qual estou completamente ansiosa por eternamente saborear...

- Tu achas que os da classe social na qual experimentastes tudo são apenas pouco menos do que puro lixo?

- Não são lixo, eles nem chegariam a ser lixo. Como os ricos, os pobres são, simplesmente, nada. Encontrei centenas de pessoas cruéis entre os pobres que muito me ensinaram e usei-as como laboratórios para as minhas experiências ocultas com o sangue, fazendo-os, através de minhas poções e fórmulas mágicas, adentrarem mais em suas ruínas interiores e se perderem infinitamente. Entre os ricos, trabalhando como especuladora financeira, golpista e amante de empresários e socialites, arruinei dezenas apenas pelo prazer de vê-los nas mesmas condições sociais dos pobres, os quais mais desprezavam. Durante esse tempo todo de caminhada pelo mundo, Marduk, como você sabe, fui me aprimorando na Arte Do Sangue e chego aqui, agora, diante de ti, como uma Maga Vermelha. A Paixão Violenta é o meu Signo Oculto e é Dela que eu me alimento e foi Ela que eu sempre procurei ao me envolver com todos que me envolvi.

- E fez cair.

- Sim, Marduk, em nome do meu objetivo de me aproximar de vocês, me tornei o máximo possível de tudo o que é contrário à civilização.

- E sem perder a sanidade, como vejo, Lady Melissa.

- Loucos não poderiam chegar onde cheguei, Marduk. Eu calculei tudo, experimentando de tudo. Tudo que é inimaginável aos covardes que ficam apenas sentados e esquentando os cus em mesas de bares como esta enquanto as Transformações ocorrem nas Altas e nas Baixas e nas Mais Baixas Esferas!

- Tudo isso para se aproximar de nós, Lady Melissa?

- Você agora está a debochar de mim, Marduk...

- Não, eu apenas estou a ouvi-la, interessado que sou na atuação de tipos como tu entre os de vossa estirpe biológica.

- Eu não sou um "tipo", Marduk, não me iguale a esses...

- Uma das principais qualidades dos de minha estirpe biológica é a educação, a paciência e a amabilidade.

- "Os Que Dominaram A Besta", sei disso, Marduk...

- Com paciência, tu me procurastes e me encontrastes. Admiro-te demais, Lady Melissa, pela persistência e pela confiança em cumprir o objetivo de encontrar-me.

- Estás emocionado, agora? Achas que és muito importante, Marduk, apenas porque reinou no país que viria a ser a Assíria e foi considerado um Deus pelos assírios?

- Poderias ser qualquer um de nós; porque eu, especificamente, Lady Melissa?

- Porque você, Marduk, é o mais próximo do Espírito Da Guerra entre os Filhos De Amalya! Porque você, Marduk, representa um Caminho De Sangue que eu amo! Porque você, Marduk, me trará a glória de ser coroada como uma Guerreira Eterna Sangrenta, uma oportunidade para que eu possa derramar cada vez mais sangue, mais sangue do que eu já derramei, direta e indiretamente!

- Estás atraindo a atenção dos demais em nosso redor, Lady...

- Fodam-se todos eles, Marduk! - Melissa põe-se por cima da mesa e com as duas mãos puxa Marduk pelo sobretudo prateado para bem próximo de si, encostando o seu rosto no dele e gritando: - Escuta aqui agora, seu filho da puta, seu viadinho! Você é um merda que se esconde nas sombras, mas quero ser uma Luz Sangrenta para as Sombras Sangrentas! Não me importo se você foi rei do caralho de qualquer império do passado ou se reinou no cu de uma mulher ou no próprio cu; o que me interessa é que a porra das suas mandíbulas perfurem o meu pescoço e me tornem uma Vampira! Está bem, Marduk? Preciso gritar mais alto? Preciso?

- Estamos encenando, nobres da Lapa. - Marduk, sorridente, justificando-se para os assustados presentes. - Minha companheira de cena é bastante criativa e tempestuosa quando interpreta.

- Sou mais criativa ainda, nobres da Lapa, quando eu utilizo certo feitiço para encantar um Vampiro e fazê-lo crer que a luz do sol nascente é a luz da lua crescente!

- Se queres ser como nós, Vampiros, Lady Melissa, porque assim ameaça a um?

- Se não me transformar em uma Vampira, Marduk, eu apenas recito as sílabas menores do encantamento e te transformo em uma merda de Vampiro hipnotizado que vai virar cinzas à primeira luz do sol a bater aqui na Lapa!

- Transformados são muito...

- Marduk, pela última vez...

- Solte-me e iremos a um local isolado desta cidade. Eu a Transformarei, Lady Melissa.

Melissa acalma-se, gargalha e solta Marduk, sob os olhares assustados dos que estão em redor na calçada do bar. O grupo de chorões volta para o palco e começa a tocar Fica Comigo Esta Noite, de Adelino Moreira e Nelson Gonçalves. Melissa e Marduk afastam-se e, silenciosamente, percorrem as ruas em direção à Avenida Presidente Vargas. Melissa, à medida que submete seus passos rápidos à caminhada ao lado de Marduk, sente todo o seu sangue explodir de energias ocultas, as quais tantas e tantas vezes manipulou em Rituais De Sangue, oferecendo o seu próprio sangue aos Deuses Do Sangue ou o sangue de animais, meninos de rua, prostitutas, michês, mendigos e amantes aos mesmos Deuses. Melissa, nas treze vezes nas quais ficou grávida, interrompeu por conta própria a gravidez sempre no sétimo mês, utilizando ervas específicas para abortar e sacrificando os natimortos aos seus Deuses Do Sangue. Amoral, nada amando além de sua busca pelo derramamento de sangue em Rituais e no estudo científico-ocultista da Arte Do Sangue, utilizando a sua riqueza apenas para a busca de vítimas e mais vítimas pelo mundo (com o auxílio de traficantes internacionais de seres humanos de todas as raças e etnias) a fim de serem utilizados em seus abomináveis experimentos: assim é Melissa.

Marduk a está guiando para o Campo De Santana, um lugar que à noite é povoado pelas Sombras e pelos Filhos Das Sombras, que espreitam a partir dali humanos específicos dos quais possam se alimentar. Todos os Filhos Das Sombras, de todas as Espécies, apresentam-se ocultos pelas sombras do Campo, dialogando, em harmonia, sentindo O Lado Trevoso Da Natureza que povoa o local nas horas noturnas.

É uma hora da madrugada de sexta para sábado. Melissa e Marduk saltam as grades que cercam o Campo, sem serem notados pelos guardas do Exército do outro lado da estrada a, dia e noite, montarem guarda em frente ao Palácio Duque De Caxias. Marduk conduz Melissa até a beira do lago do Campo, em um local que ela não sabe determinar. Ele a faz ajoelhar-se e a desnuda da cintura ao pescoço. Melissa, de olhos fechados e cabeça erguida, mostrando a jugular para ele, nem frio mais sente. O que Melissa sente é o sangue em suas veias tornar-se vulcão, explodindo em elevações inexplicavelmente parecidas com o expandir de Universos e com o Moldar De Novas Criações. Melissa sente O Todo em seu sangue, sangue, sangue, sangue! Melissa sente O Torpor Das Esferas em seu sangue, sangue, sangue! Melissa sente A Ira Das Formas Maiores Moldando Outras Formas Maiores em seu sangue, sangue, sangue! Melissa sente O Vento Oculto Da Grande Oculta Noite em seu sangue, sangue, sangue! Melissa sente A Estrela Das Perdições Da Criação em seu sangue, sangue, sangue!

Melissa Sente O Momento!

Melissa Sente O Momento Da Transfomação!

Melissa Sente O Momento!

Melissa Sente O Momento Da Transformação!

Melissa Sente O Momento!

Melissa Sente O Momento Da Transformação!

Melissa sente sendo já mordida...

Melissa ouve uma gargalhada feminina...

- Lady Melissa quer ser imortal!

- Que é... Quem... Que...

- Sir Marduk se foi, Lady Melissa, abra os olhos, vossos olhos mortais que continuarão sendo mortais por mais algum tempo neste planeta de mortais e imortais...

- Quem... Quem é você? Que desgraça tola é essa que Marduk aprontou comigo? Que brincadeira tola e desgraçada é essa de Marfuk? Ele pensa que eu sou uma criança? Ele pensa? Ele pensa? Ele pensa?

- Esqueças Sir Marduk, Lady Melissa, preocupe-se aqui, aqui diante deste lago onde dançam as Ondinas Das Trevas, comigo que pode te fazer uma crueldade qualquer...

- Nenhum Vampiro pode me derrotar, nem mesmo Amalya, a vossa Deusa! Eu a reduzo a cinzas, Vampira, se me atacar ou tentar me atacar!

- E, depois, parte para fazer o mesmo com Sir Marduk?

- E até com a vossa Deusa, se for preciso!

- Se ameaças até a minha Mãe, Lady Melissa, és porque não respeitas a Hierarquia Vampírica e nem és digna de partilhar da Alma Da Deusa Amalya...

- Vocês se escondem demais e é isso que eu rejeito em vocês! Vocês devem viver como eu vivo, saboreando as desgraças humanas e realizando mais desgraças, pois a Humanidade é um grande povoado de alimentações para que desgraças sejam realizadas! Quero ser uma Vampira para poder reinar entre os humanos, quero pisoteá-los mais do que já pisoteei, quero fodê-los, dos ricos aos pobres, dos pobres aos ricos, mais do que já fodi a ricos e pobres!

- O Equilíbrio conseguido pelas Forças Dos Deuses não pode ser rompido, Lady Melissa... Nem a Deusa Amalya poderia rompê-lo, tu sabes disso, és uma Maga cujo Poder equivale ao de muitos Deuses e...

- Quando eu me erguer daqui, Vampira, tuas cinzas farão parte do lago deste Campo!

Melissa não tem tempo de defender-se. Melissa não tem tempo de conjurar um feitiço. Melissa não tem tempo de evocar toda a sua Magia. A Vampira a dialogar com Melissa, à Velocidade Da Luz, arranca-lhe com as mãos os dois braços, os quais eram os Concentradores, os Instrumentos Materiais através dos quais ela podia efetivamente realizar seus Rituais, suas Conjurações, sua Magia...

O grito de Melissa faz com que toda a sua Magia se esvaia pelo ar.

O grito de Melissa faz com que se afastem dela os Deuses Do Sangue, os quais não precisam mais de uma Maga Caída, a qual ela sempre fora, sem nunca ter a isso notado.

O grito de Melissa, ajoelhada ainda, sem os braços, envolve-a nas Trevas Dos Terrores Noturnos...

Melissa, envolta pelos Terrores Noturnos...

Melissa, ajoelhada, sem os braços, envolta pelos Terrores Noturnos com os quais sempre lidou e manipulou para aterrorizar a muitos, inimigos ou não, em nome de suas Ciências Ocultas...

Melissa, vítima dos Terrores Noturnos...

Melissa, agora, sem os braços, sem Poder, sem Magia...

Melissa, agora, ajoelhada, vítima dos Terrores Noturnos...

Melissa não grita mais, cala-se, fica-se apenas a ranger os dentes, a rosnar como cadela feridíssima na relva...

Melissa não grita, rosna, geme, não consegue falar...

Melissa, não podendo abrir os olhos, a dor não deixa, apenas pode ouvir...

Melissa ouve Os Terrores Noturnos.

Melissa ouve os sons de sua Queda Definitiva.

Melissa ouve a voz de Anya, voz fria e metálica, voz indiferente e agressiva.

- Tu eras tão arrogante, Lady Melissa, e tão confiante em vosso Poder Oculto, que jamais pensaria que algo ou alguém poderia arrancar-lhe vossos Instrumentos De Poder, os próprios braços. Foi tolice e ingenuidade, Lady Melissa, Concentrar em vossos braços as Energias Do Sangue, muita tolice, muita ingenuidade... Tu me tornarias cinza se as Energias estivessem em vosso Espírito, mais dificil de ser derrotado em um Mago Verdadeiramente Mago, sua magazinha de araque. Tu querias ser Vampira somente porque há onze anos atrás descobriu-se portadora do vírus da AIDS por causa de vossa existência devassa, vulgar, de experiências sexuais bizarras com tudo o que está regido pelas Leis Do Sangue. A desculpa dada a mim e a Marduk para te tornares uma Vampira era pura mentira, assim como as ameças; nós já sabiamos de tudo, Vimos através das Barreiras Astrais que vós pusestes em redor de ti a Verdade de vossas intenções reais. Ser Vampiro, Lady Melissa, não é uma condição, não é uma escolha, e nem é uma salvação; Ser Vampiro É Saber Ser Toda Condição, Toda Escolha E Toda Salvação Diante De Todas As Mutabilidades Das Esferas Da Criação. Criança tu és, Lady Melissa, por querer ter acreditado que nos enganaria, infantilmente querendo dizer-se como Compreendedora Do Ser Vampiro, querendo ser, assim, uma de nós. Tu nunca serás uma dos Vampiros, Lady Melissa, nem nas vossas próximas Existências, todos os Vampiros Sabem disso. Deusa Amalya escolheu-me para dar-te esta lição porque Sir Marduk não gosta de brutalidades excessivas desde que Ela o tornou um Vampiro; já eu, adoro-as, e se pensas que és "cruel", digo-te apenas que exponencialmente elevado ao Infinito Desconhecido fiz muito mais do que você em matéria de crueldades. Tu tens apenas mais onze anos de Existência Material, Lady Melissa, até que a AIDS te consuma com cânceres vários. Teu Livro Do Sangue e a tua fortuna não te salvarão, mesmo que gastes milhões em tratamentos ou contrates Feiticeiros, Magos e Bruxos para tentarem curá-la. Te digo, Lady Melissa, que se tu seguisses outro caminho, analisando os Mistérios Do Sangue, descobririas a ansiada Cura Da AIDS; como escolheu A Besta, que eu domino e, às vezes, como hoje, Libero, sofrerás bastante com a doença da qual queria livrar-se, por mais onze anos... E sem os braços, que eu darei de comer aos meus amigos Bestiais que me aguardam no subsolo deste Campo... Antes de ir, digo-te que meu nome é Anya Bausch, Lady Anya entre os meus, Lady Melissa, e uma respeitada Vampira Nata por todos eles. Entre os seus, Lady Melissa, tu és apenas mais uma aidética moribunda digna da piedade dos que possuem n'alma os elementos da misericórdia que tanto eu quanto tu desconhecemos...

Anya, reproduzindo em sinistra voz de soprano Primavera, de Antonio Vivaldi, afasta-se, caminhando sobre as águas do lago, carregando os braços de Melissa. As gotas do sangue de Melissa caem no lago e são sorvidas pelas Ondinas Das Trevas. Anya é envolvida pelas Ondinas e desaparece, lentamente, sem olhar para trás, afundando no meio do lago...

Melissa, agora, sente frio...

Melissa, semi-nua, estremecendo, olhos fechados, sente frio...

Dois maços de cigarrilhas próximos ao seu sobretudo e Melissa sem as mãos para retirar uma e fumar...

Abafado pelos Seres Da Noite o grito de Melissa foi, os soldados em guarda do outro lado da avenida não ouviram-no, e ela se encontra solitariamente ajoelhada, esvaindo-se em sangue, em meio a uma poça de sangue, sangue que escorre até o lago e é sorvido pelas Ondinas Das Trevas...

Melissa, mortal, no frio.

Melissa, mortal, sem os braços.

Melissa, mortal, gritando ininterruptamente, no frio, sem os braços.

Melissa, mortal, gritando e não sendo ouvida.

Melissa, mortal, a gritar pelo resto da madrugada e não ser ouvida.

Melissa, mortal, no frio, sem os braços, agora apenas grita.

No bar onde estava a aguardar a chegada de Marduk, os chorões estão a tocar Uma Grande Dor Não Se Esquece!..., de Antenógenes Silva e Ernani Campos.


Mortalmente,

Inominável Ser.


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O Terror Inominável. O Horror Inominável. A Loucura Inominável. A Cova Aqui É A Do Puro Pesadelo Das Covas Mais Profundas E Elevadas. Vozes Estranhas Aqui. Sons Estranhos Aqui. Palavras Estranhas Aqui. Estranhas E Inomináveis. Sintam-Se Conduzidos Pelo Carro Inominável Do Terror Inominável. Sintam-Se Conduzidos Pelo Carro Inominável Do Horror Inominável. Sintam-Se Conduzidos Pelo Carro Inominável Da Loucura Inominável.

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