quinta-feira, 6 de setembro de 2007

Amabilíssimo Vizinho

Ferdinando é um homem de habilidades raras, ampliadas com anos de estudos, leituras e a convivência com as pessoas mais intelectualizadas. Dotado do que se pode chamar de genialidade, nos termos humanos que assim o consideram, é um escritor de sucesso na Internet, mas ainda não chegou a publicar nenhum livro. Como todos os escritores virtuais de sucesso, Ferdinando tira proveito de sua fama para fazer amizades e tentar alcançar a ambicionada chegada ao sucesso do livro, enfim, publicado. Ferdinando é bom rapaz, educado, elegante, belo, paquerador, conquistador, "pegador", como dizem popularmente nas praças e nos bares e nos estádios de futebol e nas escolas e faculdades. Ferdinando, O Rei Da Prosa, como o tratam entre os amigos, é um senhor de si mesmo, aos trinta e um anos morando sozinho, longe de sua família, que não é sua amiga, que abandonou para buscar aqui no Rio de Janeiro a oportunidade de ser um alguém importantíssimo na humana vida. Ferdinando esqueceu-se de onde veio, não lhe importa o passado, não lhe importa os de seu sangue, não lhe importa os de seu antigo ambiente. Ferdinando, exatamente, quer apenas alcançar a meta dos milhões de livros vendidos.

Ao Rio de Janeiro, então, ele chegou! Cidadezinha maravilhosíssima, ele pensou! Bundudas por todo lado! Putas por toda esquina! Cerveja a toda hora! Carnaval todo dia! Festiva cidade, Ferdinando nela permaneceu, cheio de intensas vontades, cheio de imensas imagens de seu futuro nesta beleza de tropical cidade!

Rio de Janeiro; onde Ferdinando foi residir? Esclareça-se aqui que Ferdinando não é um homem rico. Esclareça-se aqui que Ferdinando sequer tem dinheiro para pegar o metrô todo dia para o trabalho em um restaurante oito horas por dia. Esclareça-se aqui que Ferdinando foi residir em um dos bairros da Baixada Fluminense cujo nome para ele não importa. Esclareça-se aqui que Ferdinando foi viver entre pobres como ele, pobres que ele odeia. Para Ferdinando, em seus metafísicos pensamentos, em seu ideológico comportamento, as pessoas com as quais é obrigado a conviver são apenas vermes fodidos que procriam. Para Ferdinando, as mulheres pobres de seu bairro são vadias de cu doente e buceta fedorenta fadadas sempre a foderem para procriar, cadelas estúpidas, enfim. Para Ferdinando, os homens pobres de seu bairro são escrotos de cu grande e pau fedorento fadados a foderem suas mulheres simplesmente para procriar, cães estúpidos, enfim.

Essa gente toda ele tem como inimiga; seus amigos no Rio de Janeiro são os ricos freqüentadores do restaurante no qual trabalha no centro do Rio de Janeiro, os quais bajula com ridículo profundo esmero. Seus vizinhos, os moradores do bairro da Baixada Fluminense no qual reside, são-lhe objeto de asco, de desprezo amargo, de ódio que lhe é caro, pois apenas lhe torna o monstro que todos nós veremos que é a partir de agora.

Os vizinhos ao lado direito da casa de Ferdinando são os que ele mais odeia. As casa do bairro são próximas umas das outras dois metros e qualquer som que se faça dentro delas, até um pequeno peido ou um arroto bem alto, é ouvido de modo exato. Os vizinhos mais odiados por Ferdinando são uma família, família de boçais desgraçados com vocação para favelados, como ele mesmo os classifica. O homem da família, o grande marido, o grande pai, é viciado em maconha, é alcóolatra e mulherengo. A dona de casa, a grande esposa, a grande mãe, é uma débil mental descontrolada que apenas sabe gritar, xingar, uma típica favelada de berço, como Ferdinando diz a si mesmo. O filho, o machinho da casa, é um moleque tão estúpido como os pais, com tendências a marginal, como Ferdinando declara. A filha, a femeazinha da casa, que até atrai um pouquinho a atenção do nosso monstro e vilão, é escandalosa como a mãe, metida a cantora e muito retardada. O bebê de colo, criança recém-nascida por Ferdinando odiada, é um bostinha que apenas fica a chorar e a encher-lhe os ouvidos com os gritos todo dia, toda noite.

Ferdinando odeia essa gente... Ferdinando quer foder com essa gente... Ferdinando planeja foder com essa gente... Vai, Ferdinando, mostra ao mundo o monstro que tu és... Vai, Ferdinando, limpa o mundo de gente inútil, conforma o vosso olhar acredita de forma inútil...

Ele não fala com essa gente desde que se mudaram para a casa ao lado direito da sua há um ano. Ele não fala, mas para executar a eliminação da gente que odeia, precisa com eles falar! Um bom dia, um boa noite, uma palavrinha de carinho com o bebê, uma palavra carinhosa para a menina que acha bonitinha, uma cervejinha para ao bêbado drogado pai de família, pipas para o marginalzinho da família, conversinhas com a desbocada louca mãe de família... Pronto! Prontíssimo! Prontérrimo! Ferdinando amigo da gente estúpida e boçal que tanto odeia! Ferdinando indo a festas na casa dos boçais odiados! Ferdinando almoçando na casa dos boçais odiados! Ferdinando jantando na casa dos boçais odiados! Ferdinando comendo churrasco na casa dos boçais odiados!

Saltemos para o futuro...

Um ano passou-se assim.

Dois anos passaram-se assim.

Três anos passaram-se assim.

Quatro anos passaram-se assim.

Cinco anos passaram-se assim.

Seis anos passaram-se assim.

Sete anos passaram-se assim.

Ferdinando, hábil com as palavras, fez com que a gente que ele odiava confiasse nele plenamente, pondo-o como um da família. Ele os odiava, Ferdinando os odiava, odiava, eu digo, odiva porque já não odeia mais. Nenhum está vivo.

Manipulador, fez com que o bêbado drogado pai de família se drogasse e bebesse mais, chegando a pagar a maconha e a bebida até conduzi-lo a um câncer terminal fatal.

Hipócrita, fez-se amigo da escandalosa desbocada dona de casa, a fim de ter acesso à comida desta, na qual injetou grãos de substâncias alucinógenas que a levaram à loucura e ao suicídio.

Perverso, conduziu o machinho da casa junto com o pai para o vício da bebida e da maconha, indo mais longe conduzindo-o ao crack, que o matou com uma overdose feroz.

Sedutor, namorou e noivou com a femeazinha da casa, mas armou um acidente de moto no qual propositadamente deixou-a sem capacete para jogar-se contra um muro fazendo-a esfacelar o crânio na calçada, morte súbita da femeazinha.

Psicótico, acompanhou o crescimento do menino, do bebê, apenas para fazê-lo aos sete anos cair da escada do terraço de sua casa, fazendo-o quebrar o pescoço e caindo junto, para dizer a todos que foi um acidente.

Fomos ao futuro para vermos que Ferdinando é o monstro que todos nós podemos ter ao nosso lado onde moramos, seja na favela, seja na periferia ou no prédio luxuoso.

Ferdinandos estão pelo mundo todo, odiando os seus em redor, odiando e tencionando organizar uma maneira de executar a sua obra de ódio.

Ferdinando, no futuro, não ficará famoso com os seus livros e nem será descoberto pela polícia como o autor dos crimes descritos acima.

Ferdinando terá novos vizinhos ao lado direito de sua casa, novos vizinhos odiados.

Ferdinando planejará nova monstruosa empreitada...

Tu és um Ferdinando?

Tu és uma cadela estúpida?

Tu és um cão estúpido?

Onde vós vos enquadrais onde moras?

Ferdinandeanamente,

Inominável Ser

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O Terror Inominável. O Horror Inominável. A Loucura Inominável. A Cova Aqui É A Do Puro Pesadelo Das Covas Mais Profundas E Elevadas. Vozes Estranhas Aqui. Sons Estranhos Aqui. Palavras Estranhas Aqui. Estranhas E Inomináveis. Sintam-Se Conduzidos Pelo Carro Inominável Do Terror Inominável. Sintam-Se Conduzidos Pelo Carro Inominável Do Horror Inominável. Sintam-Se Conduzidos Pelo Carro Inominável Da Loucura Inominável.

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