quarta-feira, 3 de outubro de 2007

Poetizando Para A Aparição Do Diabo

Grande Concurso De Poesias Do Brasil.

Evento organizado pela Academia Brasileira De Poéticas Livres.

1.267 inscritos.

Seleções em todos os Estados brasileiros.

Para as finais do concurso, 104 disputam agora, no Palácio Das Musas, em Brasília, o prêmio, equivalente ao grande sonho de todo poeta: a publicação de seu primeiro livro.

José Fernando dos Reis Neto é um jovem poeta de 24 anos, criado no bairro do Flamengo, no Rio de Janeiro. José Fernando sempre fora uma criança diferente, muito diferente das demais. José Fernando sempre poetizou, desde a mais tenra idade, com galante prazer e força formidável na entonação dos versos. José Fernando, em seus primeiros anos poetizando, era considerado um gênio, um verdadeiro gênio poético. Mas, após começar a ver O Diabo, José Fernando começou a ser desconsiderado.

O Diabo inspirava José Fernando.

O Diabo aspirava José Fernando.

O Diabo assistia José Fernando em todas as angústias e desavenças proporcionadas pelo seu modo diabólico de poetizar por Ele guiado.

O Diabo estava sempre às costas de José Fernando.

O Diabo era o único amigo de José Fernando.

Namoradas não surgiram na existência do Poeta Do Diabo, como jocosamente chamavam-no nos círculos poéticos dos quais participava. Amigos não surgiram, José Fernando possuia a aparência mais demoníaca que já havia surgido neste planeta onde todos pensam que são santos e maravilhosos quando desprovidos dos denominados arroubos pelos quais ele passava em sua caminhada de Poeta Do Diabo.

Desprezado pelos humanos, desprezado até pela família, José Fernando vivia sozinho em um apartamento humilde do centro do Rio de Janeiro. Vivia a escrever sobre O Diabo, seu amigo que não o abandonava. Vivia a poetizar sobre O Diabo, Este que lhe conduzia a uma Existência não muito agradável conforme os desagradáveis padrões da sociedade humana.

O lançamento de um livro, distante demais. Dificuldades financeiras surgindo a mais, o trabalho como taxista não lhe garantia a sobrevivência neste nosso Brasil capitalista cujo custo de vido é altíssimo demais. A situação de José Fernando piorava, dinheiro escasso, trabalho quase escravo, nada de publicar o seu primeiro livro tãpo desejado. Ele não publicaria nunca um livro através de vias normais, as editoras não se importam com poetas como ele e escolhem os tipos que geram best-sellers rentáveis com estórias e poesias pelo grande público desejáveis. José Fernando disso sabia. O Diabo sabia mais disso ainda.

Veio o concurso e a chance de poder publicar seu primeiro livro.

Inscrição feita.

Aprovação nas eliminatórias.

As finais.

Dia 03 de outubro de 2007: o dia das últimas apresentações poéticas.

José Fernando é o último a apresentar-se. Ao subir no palanque do Palácio Das Musas, murmurinhos e risadinhas de deboche. José Fernando não as escuta e se concentra. Sete minutos fica calado. Microfone na mão esquerda abaixado. Microfone na mão direita erguido.

- Boa noite a todos vós, meus inimigos. Boa noite. Não sou querido, nem busco ser querido por vós; os que buscam isso são os idiotas que se acham acima do atroz da existência terrestre. Não sou amado por nenhum humano, mas isso também não me importa pois todo ser humano é um algoz de si mesmo e dos demais. O Diabo. Meu querido amigo, O Diabo. Ele me tem como querido. Ele me tem como amado. E vou, hoje, recitar um poema que fiz na primeira vez que O Diabo, meu amigo, surgiu diante de mim. Ele vai vir hoje aqui. Ele já está vindo para cá. Ele está já aqui. E vai aparecer para todos, que não acreditam que ele seja Aquele Que Me Inspira.

Risadas de deboche ecoam.

Xingamentos de não-poetas, espectadores do concurso, ecoam.

Os organizadores do evento riem, debochando igualmente de José Fernando.

José Fernando anda ouve.

José Fernando ajoelha-se de costs para o público.

José Fernando segura o microfone com as duas mãos.

José Fernando sorri para O Diabo, á sua frente, também sorrindo.

José Fernando recitará o seu primeiro poema ao Diabo dedicado.



Um barco todo meu me aguardava

Quando pedi ao barqueiro

De uma faculdade própria

De ver até as entranhas

De minha alma

A parada em uma beira de rio

De cidade que aqui na Terra

Não se encontrava.


Pisei no solo arenoso

Da beira do rio,

Pedi ao barqueiro para

Ir embora,

Sentei-me bem lento

Em cima de uma grande pedra

Manchada de vermelho

E com sangue de abutres manchada.


Não sei porque pedi

Para o barqueiro ir embora,

Apenas me disseram

Para mandálo dali embora,

Me disseram isso

Como se estivessem em mil

Outros Eus de mim,

Eus de maior coragem,

Eus de outros fins.


Um amigo que eu desconhecia

Tocou-me no ombro direito

E sorveu minhas cores brandas

Para nelas pôr cores guerreiras

Da Natureza Do Vermelho,

Da Natureza Do Cinza,

Da Natureza Do Branco,

Da Natureza Do Negro.


Um amigo que eu desconhecia

Pemitiu que eu olhasse para

Ele,

Olhasse para

Ele

Como quem olha

O Novo Sol Das Eras

Surgindo nos horizontes

Que um dia serão

Os horizontes da Terra.


Um amigo que eu desconhecia

Sorriu quando eu

O contemplei no rosto,

Um rosto inesquecível

Que É Todos Rosto Esquecido

Pela Humanidade Sem Ricos

Rostos,

Ricos Rostos que possam brilhar,

Como o rosto

Dele,

Nas noites desprovidas

Do prateado lunar.


O amigo que eu desconhecia

Era O Diabo,

O Diabo fora da Bíblia,

O Diabo que não é o da Bíblia,

O Diabo Que É O Verdadeiro Pai

Da Deusa Poesia,

Pois Demônios,

Verdadeiros Demônios,

São todos os poetas.


O amigo agora conhecido,

O Diabo,

Permite que eu O visualize

Sem morrer,

Sem enlouquecer,

Sem esmorecer como um fraco

Moribundo embaixo

De sujos lençóis.


Você pode ver

O Diabo

Sem morrer,

Sem enlouquecer,

Sem esmorecer como um fraco

Moribiundo embaixo

De sujos lençóis?


O Diabo surge.

O Diabo surge.

O Diabo surge.

O Diabo, galante.

O Diabo, galante.

O Diabo, galante.

O Diabo, charmoso.

O Diabo, charmoso.

O Diabo, charmoso.

O Diabo, bonito.

O Diabo, bonito.

O Diabo, bonito.

O Diabo.

O Diabo.

O Diabo.

Amanhã, os jornais do Brasil e do mundo todo não poderão explicar o que ocorreu no Palácio Das Musas em Brasília.

E o que aconteceu, José Fernando viu?

Não, José Fernando permaneceu de costas para o público, o público que agora se engalfinha, o público de 1280 pessoas se engalfinhando como uma trupe de vermes loucos homicidas.

Dentes arrancam pênis.

Chutes arrebentam vaginas.

Estupros de homens por mulheres.

Estupros de mulheres por mulheres.

Estupros de homens por homens.

Estupros de mulheres por homens.

E todos se matando.

Se matando no espancamento.

Se matando no estrangulamento.

Se matando a cadeiradas.

Se matando após terem visualizado o rosto do amigo de José Fernando.

O rosto do Diabo.

O Diabo que surgiu como que para ser amigo de todos.

Mas, infelizmente, todos, afora José Fernando, não estavam preparados para terem um amigo tão sofisticado.


Poetizando Para O Diabo,

Inominável Ser.





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