quinta-feira, 8 de novembro de 2007

A Criança Lupina Desejando Descanso

Estamos em um mundo interiormente decente, um mundo de bons uivos, um mundo de respeitosos e diletos uivos. Não é um mundo que se faça equivaler aos demais que o cercam, tão fadados a oferecerem um amontoado de coisas para as alimentações de muitos insetos. No vagar repentino do repetitivo vácuo de toda coisa em meio ao mundo que aqui é considerado, podemos encontrar uma turbulência, uma insanidade, uma angustiosa experiência de terrível propriedade. Vaguemos neste mundo exteriormente clemente, clemente para com os doentes das calçadas que lavam os sapatos e as sandálias que utilizam com o suor explosivo de seus corpos. Vaguemos, assim como que andantes de um caminho onde os liames e as travas podem ser rompidos, no mundo que se especializa no vasto esperançoso recanto das formas mudas e surdas que se valorizam mais quando reformas cegas e tetraplégicas. Parece que o nosso mundo interiormente decente, exteriormente clemente, é um mundo causticamente exemplar nos ramos dos mundos de segurança e sobriedade impares. Seria boníssimo se assim fosse a nossa Terra, mas eu não falo do Planeta Terra e nem estou a pisar em qualquer terra onde os mundos expostos ao solo sejam compreensíveis e visíveis aos mais lesos e apequenantes olhares. Nosso mundo pelo, qual vagamos agora, é o mundo de uma criança.

Tenhamos nove anos como ele tem e nos chamemos Aleksandro como ele se chama. Detalhemos tudo diante da nossa criança que aqui considerada em seu mundo está. Detalhemos assim, pois estamos no mundo de uma criança, uma criança de nove anos de pureza em idade que lhe dá a clareza típica das crianças diante das coisas do Planeta Terra. Aleksandro, um nome de príncipe e , de certa maneira, ele é um príncipe. Falemos como ele fala em seu mundo, melhor, muito melhor do que nos situarmos longe de tal mundo. Mamãe Angelina, a de doces olhos verdes-claros, com uma voz que tece um recado de angelicais patamares de visões alegres quando a ele direcionada, uma mamãe dedicada, uma mamãe amada, grande, bonita, viçosa, maravilhosa. Papai Lauro, um homem amável, um homem carinhoso, um homem de caráter que põe o nosso Aleksandro ao colo todos os dias, beijando-o, acarinhando-o, oferecendo-lhe o amor do melhor de todos os pais que ele pode ser. A mamãe de Aleksandro. O papai de Aleksandro. Aleksandro, o primeiro filho, um filho que veio para alimentar de mais amores altos e de mais esperanças ainda muito mais altas aos dois felicíssimos pais. Pais dedicados aos cuidados do corpo do filho, gastando com os pais de branco, como Aleksandro chama médicos que cuidam dele, muito dinheiro. Mas, por que tanto dinheiro gasto com Aleksandro? O papai e a mamão dele são ricos, mas isso... Falemos a nossa língua, falemos como falamos em nosso mundo. Aleksandro é autista e possuidor de um câncer terminal no pâncreas que lhe oferece apenas mais dois meses de existência.

Os cuidados com ele são muitos e preciosos, Angelina e Lauro tudo fazem, desesperados e desesperançosos, para darem mais tempo de vitalidade ao seu filho. Aleksandro, devido ao tratamento, perdeu todo o cabelo e em seu autismo, aos olhos deles, sofre. Vamos ao mundo de Aleksandro, vamos ver se ele sofre... Subamos no caminhão que percorre a estrada do mundo de Aleksandro... Subamos na bicicleta quebrada... A bicicleta quebrada nos quartos da consciência mais desperta de Aleksandro... Aleksandro sente que estamos nele... Aleksandro pressente que estamos nele... Aleksandro olha para nós... Olhem, é o Aleksandro! Olhem, Aleksandro! Olhem, eis Aleksandro! Em seu mundo, Aleksandro é lobo, um pequeno lobo correndo pelos espaços mais espinhosos de uma floresta cheia de sangue nas folhas das árvores e cheiro de lodo perto de todo lago pelo qual nada. Aleksandro, em seu mundo, sendo um lobo, come das folhas ensangüentadas com a voracidade de um espantoso ser demasiado faminto. Aleksandro, em seu mundo, sendo lobo, nada irrequieto, nada irrepreensível, nada irreconhecível, no lodo, uivando quando emerge, rosnando quando submerge, nos lagos que correm incólumes e espaçosos em seu Ser. Os lagos correm, correm, estamos em um mundo, no mundo de Aleksandro, onde tudo corre, onde não há autismo, onde não há câncer, onde há um monte de corpos, onde há um Outro Ser, O Lobo Rosnando. O Lobo Rosnando, uma Essência, uma Excrescência, uma Nulidade, uma Afirmação, ah, como Aleksandro sente-se bem com Ele, seu amigo que não é imaginário, seu amigo que não é como que uma outra criança, seu amigo que é o seu Verdadeiro Eu!

No mundo de Aleksandro, o lodo dos lagos traz amontoados de cadáveres que ele, lobo, come ao lado do Lobo Rosnando. Grunhidos são as comunicações entre Aleksandro e o Lobo Rosnando, grunhidos de satisfação pela alimentação com a carne de cadáveres, carne fresca, carne de sabor impecavelmente deliciosa e temperada com o sangue das folhas das árvores. Em especial, há dois cadáveres que sempre estão sendo devorados e nunca, por completo, são devorados. Elementariamente anacrônicos, infalivelmente crônicos, os cadáveres, em trabalho de fazerem Aleksandro e o Lobo Rosnando um apenas Ser de muito ódio por nunca conseguir fazê-los desparecer, ainda falam de amor... Falam, os cadáveres no mundo da criança autista e cancerosa, no mundo de Aleksandro, falam de amor... Cadáveres falando de amor... Aleksandro compreende toda vez que eles falam de amor, compreende e se enfurece... O Lobo Rosnando compreende toda a fúria de Aleksandro e perfura os seus tímpanos, refazendo-os depois, toda vez que os cadáveres falam de amor... Amor, falas de amor... Amor, exacerbadas disssertações sobre o amor... Amor, discursos dedicados sobre o amor... Amor no mundo de um lobo... Um lobo que na superfície é filhote que não cuida de si mesmo... Um lobo, o mais selvagem e desconhecido dos ferozes lobos, irracional e racional em infinita zona de conflitos geradores de um desejo de descanso sem mais nenhum torpor! O lobo deseja descansar! Aleksandro, o lobo, deseja descansar! Aleksandro quer ser O Lobo Descansando! Aleksandro! Lobo! Descansando! O Lobo Rosnando não permite que Aleksandro desenterre Aquele que assassinou, o Lobo Descansando... E, no inconsciente de Aleksandro, vai mantendo aqueles doisindesejáveis cadáveres irritando-o ao falarem sempre de amor... Lobo Rosnando, exímio predador, sabe que pode correr por outros mundos. Lobo Rosnando, extremo predador, sabe que pode saborear outros cadáveres em outros mundos.

Nosso mundo, agora, a Terra, o Planeta Terra. Estamos no dia do aniversário de Aleksandro, aniversário de dez anos, o seu último aniversário. Angelina e Lauro a ninguém mais convidou, decidiram que eles e o filho passariam, sozinhos, essa data juntos, unidos em nome do... Bem, Angelina está com Aleksandro eme seu colo, no sofá, onde Lauro também está.

- Todo dinheiro que gastamos...

- Lauro, não falemos em dinheiro, pelo menos, hoje...

- Não, eu não me lamentaria por... Meu Deus, Angelina, nosso filho vai... vai...

- Não existe o que se denomina morte entre os espíritas, eu não creio que o nosso filho se separará de nos definitivamente.

- Angelina, fui criado em uma família protestante e...

- Aceitou muito bem a doutrina que sigo, Lauro, apesar da sua família ter tentado nos separar.

- Amo você, amo Aleksandro e a minha família...

Amor, falando de amor.

Um lobo rosna...

- ... não tem direitos sobre meus sentinentos direcionados a vocês dois!

- Lauro, não se...

- Eles, meus pais, meus irmãos, meus tios, meus primos , meus sobrinhos, não compareceram ao noso casamento. Até que isso eu superei, mas não o fato deles não terem vindo aqui em nossa casa uma vez sequer... Isso, Angelina, eu não vou superar...

- Eu te amo, Lauro, e...

Amor, falando de amor.

Segundo rosnado de um lobo...

- ... o mesmo amor, inexplicável...

Amor, falando de amor.

O lobo rosnando...

- ... eu sinto pelo Aleksandro! - Angelina a este beija no lado direito do rosto. - Eu te amo, Aleksandro!

Amor, falando de amor...

Lobo, lobo rosnando...

- E te amo, Lauro, te amo! - Beija os lábios de seu marido.

Amor, falando de amor...

Lobo, rosnado...

- Angelina, te amo, te amo, te amo! - Lauro beija-a desesperadamente no rosto todo.

Amor, falando de amor...

Lobo a rosnar...

- Aleksandro, venha! - Lauro o põe ao colo, beijando-o. - Seu pai, aqui te ama, te ama, te ama!

Amor, falando de amor...

Falando e transmitindo... transmitindo... transmitindo... amor...

O lobo já ouviu muito de amor antes dos lábios de Angelina e Lauro. Ouviu e não gostou nem um pouco, pois ele não se sente amado, pois é tratado como um objeto quebrável. O lobo já ouviu muito disso deles e se achegou mais ainda ao Lobo Rosnando. O lobo rosna fora de seu mundo...

O lobo rosna...

Angelina a ouvir o rosnado!

Lauro a ouvir o rosnado!

Pais surpresos!

Pais mais desepserados!

- Ele está passando mal! Lauro, o carro! Lauro, prepare o carro!

- Angelina, eu já vou, calma, calma, calma! - Ele põe Aleksandro ao colo dela e corre em direção à saída do luxuoso apartamento onde residem.

- Filho, mamãe vai te levar para o Doutor Barcellos! Fica calminho, mamãe vai te levar! Mamãe vai te levar! - Chora, beija-o, grita, chamando a atenção dos vizinhos pelo corredor do andar do luxuoso prédio no qual reside.

- Vamos, elevador, vamos, vamos , vamos! - Lauro, desesperado, em frente ao elevador.

- Pelas escadas, Lauro, pelas escadas!

- Angelina!

- Vou descer por aqui! Nosso filho não vai morrer assim! Nosso filho não vai, Lauro, não vai!

Ela corre, com o filho nos braços, para a escadaria, seguida por Lauro. Descerão doze andares de escadaria até o estacionamento. O desespero deles, o choro deles, se eleva porque Aleksandro rosna cada vez mais alto. Apenas rosna, não está a debater-se, não está a gritar, não está a demonstrar nenhuma dor. Eles descem, como relâmpagos, os degraus, sem temor de cairem, quebrarem os pescoços, quebrarem os braços, quebrarem as pernas!

Angelina, a mãe, correndo, chorando, gritando:

- Te amo, te amo, te amo, Aleksandro!

Lobo em rosnados...

Lauro, o pai, correndo, chorando, gritando:

- Deus, Deus, Deus, salva o meu filho, salva o meu filho! Te amo, Aleksandro! Te amo!

Lobo e seus rosnados...

- O carro, o carro! - Quase que de imediato, após terem saido de seu apartamento, chegam ao estacionamento. - O carro, Lauro! O carro!

- Ali, Angelina, ali! - Corre em direção à possante Ferrarri, recém-adquirida, de cor branca. - Entra, Angelina! - Abre a porta do banco de trás.

- Rápido, Lauro! Rápido!

Lauro dá a ignição no carro e parte em disparada. O portão do estacionamento automaticamente abre-se e outra disparada. É um domingo, uma noite de domingo, de trânsito quase inexistente, em uma pequena cidade litorânea onde a maioria da população possui boas condições finaceiras. Lauro submete toda a potência do carro em sua desesperada corrida em direção ao hospital, vinte e sete quilômetros distante de onde reside. Angelina abraçada ao filho, chorando, falando enloquecida e ininterruptamente te amo, te amo, te amo, te amo, te amo, te amo, te amo, te amo, te amo...

O lobo rosna com mais força!

Com mais força!

O lobo rosna!

Mais força!

Angelina nem se dá conta quando Aleksandro crava em sua garganta os dentes, enfurecido, mordendo com uma ferrenha vontade de dilacerá-la! Ela grita!

- Angelina!

Lauro, pelo retrovisor dentro do carro, vê o que ocorre e nem acredita!

- Aleksandro, o que...

Aleksandro salta para a frente e morde o pai no rosto, tencionando arrancar-lhe a face com a mesma ferocidade utilizada para matar a mãe! Lauro larga o volante e tenta tirar o filho de sua frente, mas não adiante, o lobo, rosnando, possui a força de cem mil homens e a potência de seus dentes e dez mil vezes superior a qualquer que seja conhecida! Sem o controle do carro, este desgoverna-se e sai da estrada, entrando em um campo que leva ao mar! Antes de cair ao mar, a Ferrari branca capota! Capota sete vezes! E explode ao bater nos rochedos onde cai!

A explosão cessa os rosnados!

Rosnados cessam!

Cessar de rosnados!

Grande cessar de rosnados!

Grande cessar!

Grande!

Cessados rosnados!

Pelo menos, aqui em nosso mundo, eles cessam...

Não estamos mais no mundo de Aleksandro. Não estamos mais em nosso mundo, o mesmo mundo de Angelina, o mesmo mundo de Lauro. O mundo no qual estamso agora é muito amplo, é muito denso, é muito confuso para muitos, menos para Aleksandro. Deitado e adormecido perto de um lago apodrecido, o lobo consegue descansar. O Lobo Rosnando não precisa mais rosnar. O Lobo Descansando, o lobo que é uma criança adormecida em um mundo sem autismos e cânceres, quer, unicamente, silenciosamente uivar e descansar...

E sem saber de um amor que se trata apenas de uma profunda piedade muitíssimo bem disfarçada.

Neste mundo onde estamos, também, os rosnados cessam, cessados os rosnados.

Inominavelmente descansando,

Inominável Ser.

Share:

0 Cadáveres Aqui Escavaram Suas Covas:

Meu Perfil No Facebook

Esta Cova No Facebook

Prosa De Um Coveiro Inominável

O Terror Inominável. O Horror Inominável. A Loucura Inominável. A Cova Aqui É A Do Puro Pesadelo Das Covas Mais Profundas E Elevadas. Vozes Estranhas Aqui. Sons Estranhos Aqui. Palavras Estranhas Aqui. Estranhas E Inomináveis. Sintam-Se Conduzidos Pelo Carro Inominável Do Terror Inominável. Sintam-Se Conduzidos Pelo Carro Inominável Do Horror Inominável. Sintam-Se Conduzidos Pelo Carro Inominável Da Loucura Inominável.

O Coveiro Inominável

Minha foto
Nos Infernos, O Abismo
Visualizar meu perfil completo

Cavam Aqui Suas Covas:

Marcadores


Firefox

Firefox
Obtenha visualizações gratuitas no Snap.com
Add to Technorati Favorites

Recent Posts

Unordered List

Theme Support