sexta-feira, 18 de abril de 2008

O Entregador De Presentes Amigáveis

06:00h

Uma cidade brasileira amigável

Um dia brasileiro amigável

Juliano se aproxima da igreja que escolheu para mais uma de suas entregas. Na mão esquerda, uma caixa negra de papelão envolvida em plástico também negro. Seus passos em direção à igreja são como os de um antigo andarilho de estradas amargas e lutas fadadas ao fracasso em seus todos a mais. A cidade, o nome da cidade, qual é o nome da cidade? É uma vila, será uma vila? O que achar que for deixará Juliano inerte, ele não se importa com o que lhe cerca e apenas é designado para entregas de presentes amigáveis aos mais amigáveis padres.

Padre Sebastião está a abrir a igreja, a Igreja De Santo Antônio, a única da cidade, que não é vila como pudemos saber, cantarolando o Magnificat. Todas as manhãs, o Padre Sebastião entoa o seu querido Magnificat, para inspirar-se a fim de realizar a missa das sete horas para fiéis que llotam sua igreja. Já ao abrir nesta manhã a porta de sua igreja, depara-se com Juliano, de terno e calça e sapatos e gravata e camisa brancos, sorrindo de simpática maneira, parado à frente daquela.

- Bom dia, padre!

- Bom dia, filho de Deus!

- Seu nome é...

- Sebastião.

- Padre Sebastião...

- És novo nesta cidade, filho de Deus?

- Sou um passante de muitas cidades, padre Sebastião, não me fixo em nenhuma porque sou um entregador de presentes.

- Um trabalho agradável, suponho.

- Sim, o agradável em meu trabalho é não ter que receber por ele.

- Trabalha de graça, senhor...

- Juliano.

- Não recebe um salário, senhor Juliano?

- O dinheiro não me é suficiente, Padre Sebastião.

- Deus disse que...

- Deus não caminha aqui neste humano solo.

- Um pensamento com o qual não concordo.

- Eu não concordo em ter que pensar em um Deus. Não há tempo, para mim, a fim de que eu o gaste pensando em Deus.

- Não devias falar assim na frente de um padre, filho de Deus.

- Outros padres se enfureceram e me excomungaram. Mas, eu nunca comunguei com um Deus que me impede de ser um presenteador.

- Deus é...

- "Bom para com todos"! Mas, será mesmo que bondade há em obrigar-se um Ser a Nele crer? E os ateus, os ateus, não seriam, neste caso, os grandes sábios da Humanidade?

- O que o senhor quer e o que senhor veio fazer aqui a esta hora?

- Eu lhe disse, Padre Sebastião, que lhe trazia um presente.

- Não tenho nem amigos e nem família para deles receber presentes.

- Teus amigos, tua família, não foram eles a causa da fuga vossa para a batina?

- Eu amo a Deus, senhor Juliano, e me acheguei a Ele por vontade do meu Espírito, apenas isso.

- Todos me disseram isso.

- Todos os padres com quem conversou?

-E aos quais entreguei os presentes agradáveis que vou entregar-lhe.

- Não aceito que me dê algo que nem sei de onde foi retirado e de onde está vindo.

- Por que tudo tem que ser retirado de algum lugar e tem que vir deste mesmo lugar para os nossos braços, Padre Sebastião? Vocês, cristãos, negam a velocidade das coisas que não se podem dizer de onde estão chegando.

- Senhor Juliano, não tenho tempo para conversar mais e estou para arrumar a minha igreja, daqui a pouco rezarei a primeira missa do dia.

- Não iria atrapalhá-lo, Padre Sebastião, apenas vou deixar aos seus pés o presente amigável da companhia que me encarrega de distribui-los.

Juliano ajoelha-se e põe, com um tanto de respeito, a caixa que carrega, dando as costas ao Padre Sebastião e indo embora. O padre fica a olhar o sorridente e simpático homem, estranho em sua cidade, caminhar como ágil gato pela rua, distanciando-se do seu olhar. Ao desaparecer de seu olhar, este se direciona à caixa deixada aos seus pés, com curiosidade e com receio de abrir ao mesmo tempo.

"Devo chamar a Polícia? Devo abrir a caixa? Meu Deus, dai-me forças para escolher o correto caminho!"

Pensa o Padre Sebastião.

"Aquele homem estranho... O olhar dele como o da salamandra e a voz como o ronronar de gatos manhosos... O que tem nesta caixa? O que tem?"

Pensa o Padre Sebastião.

"Minha missa, faltam vinte minutos, os moradores estão vindo... Essa caixa, tenho que guardar..."

Pensa o Padre Sebastião, que se abaixa e pega a caixa, já vendo ao longe se aproximarem os primeiros moradores. Com pressa, ele tropeça enquanto se dirigia aos seus aposentos, à esquerda do altar, para guardar a caixa. Ao tropeçar deixa a caixa cair; o plástico rasga; a caixa abre; e algo rola no piso da igreja até os pés de Dona Emiliana, a carola mais fanática da igreja, sempre a primeira a nesta adentrar. Quando se recupera da queda, o Padre Sebastião ouve apenas o grito dela.

- Dona Emiliana?

Dona Emiliana não responde.

Dona Emiliana apenas grita.

- Dona...

O Padre Sebastião aproxima-se e choca-se com o que vê aos pés de Dona Emiliana. Ele dá vários passos de costas, até tropeçar na escadaria que leva ao altar. Seus olhos não saem do que vê aos pés de Dona Emiliaana. Seus olhos não se fazem de pequenos toldos de desinteresse e desatenção ao que se encontra aos pés de Dona Emiliana. Os olhos deles, como seus lábios, como todo o seu corpo, paralisados.

O que olhos paralisados assim, em tal estado de choque, podem estar a ver?

O que olhos paralisados assim, em tal estado de choque, podem estar aterrorizadamente a ver?

Dona Emiliana grita.

Os outros fiéis da igreja chegam assustados com os gritos que ouvem.

Dona Emiliana gritando, gritando, gritando...

Outras mulheres, jovens e idosas, também começam a gritar...

Os homens da cidade começam a chegar.

Alguns homens da cidade gritam.

Outros querem saber o que significava aquilo.

Dona Emiliana, a única que poderia explicar algo, continuava a gritar.

Dona Emiliana, de tanto gritar, desmaia.

Dona Emiliana, de tanto gritar, tem um enfarto fulminante.

Dona Emiliana morre.

O Padre Sebastião é cercado por fiéis assustados, que lhe perguntam o que seria aquilo, que lhe incitam a responder, que tentam reitirar-lhe da paralisia na qual está! Dona Samira, chorando, sacode-o; os olhos dele estão vazios, ele apenas fixa-os o que está aos pés de Dona Emiliana, agora um cadáver. Seu Aldair, pai do delegado da cidade, corre para chamar o filho, o Delegado Jorge. Karen, a jovem Karen, de nove anos, que quer ser freira e possui vocação, desmaia e é amparada pelos pais, Dona Ruth e Seu Baltazar. Bárbara, Ana e Júlia, grávidas, jovens, de vinte, vinte e dois, vinte e seis anos, respectivamente, passam mal e tem que ser retiradas da igreja por outros moradores da cidade. Choro por todos os cantos da igreja. Gritos desesperados por todos os cantos da igreja. O Delegado Jorge chega, acompanhado pelos Soldados Henrique, Tadeu, Ademar, Lúcio e Roberto; e as Cabos Sandra, Regina, Débora, Flávia, Emília (sobrinha de Dona Emiliana) e Jaciara. A Cabo Emília se desespera ao ver a tia morta e o que está aos pés desta. O Delegado Jorge e seu pai, o Seu Aldair, se aproximam do Padre Sebastião, o qual continua ainda a paralisado estar. Sem saber o que fazer e para não tumultuar mais a igreja, pois outros moradores da cidade poderiam estar a chegar, o Delegado Jorge ordena a seus Soldados e Cabos (excetuando Emília, que teve uma crise histérica e foi carregada pelo Seu Alberto para o posto médico da cidade) que isolem a igreja. Com dificuldade, eles retiram todos; o Padre Sebastião é carregado para fora dela pelos Senhores Rafael, Guilherme e Sandro, pois caminhar não lhe cabe mais, paralisado, inerte, catatônico, está. Apenas ficam no interior da igreja o cadáver da Dona Emiliana e o que está aos pés desta.

Por que tantos gritos?

Por que tanto desespero?

O que levou Dona Emiliana a ter um enfarto fulminante?

O que levou Karen, a jovem Karen, a desmaiar?

O que levou Bárbara, Ana e Júlia, as jovens grávidas, a passarem mal?

O que levou o Padre Sebastião ao estado catatônico?

Os policiais fecham a igreja e providenciam um cordão de isolamento, até que a perícia, na cidade mais próxima, possa chegar. No interior da igreja, o cadáver de Dona Emiliana e aquilo que provocou toda a tenebrosa situação que abalou toda a cidade.

Uma cabeça.

Uma cabeça embalsamada.

Uma cabeça de um bebê.

Cabeça de um bebê de, pelo que se pôde notar pelo desespero dos moradores da cidade, era um recém-nascido.

Foi a tenebrosa visão daquela cabeça, aos pés do cadáver de Dona Emiliana, que provocou a tenebrosa manhã daquela cidade, uma manhã que as gerações seguintes de moradores sempre saberão que houve.

Enquanto a cidade toda estremece em um misto de horror, ódio e sentimentos de vingança contra quem fez aquilo, Juliano está no berçário da cidade mais próxima, é um pediatra visitante de bem longe, acariciando a cabeça de um recém-nascido.

Doutor Juliano já escolheu um novo presente amigável para em outra cidade, e a outro padre, entregar.

Inominável Ser

ENTREGADOR


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