quinta-feira, 19 de junho de 2008

A Noite Na Qual O Diabo Visitou-Me Para Falarmos Do Humano Terror, Do Humano Horror

Reclinado por sobre todas as colchas de variados retalhos de minha consciência, em uma bruta chuva de noites em uma noite abarrotada de espaços obscurecidos pelos meus devaneios poéticos-literários, me ausentei por instantes decisivos para mim das inutilidades desde vazio mundo. Fiz um café, cafeína a abrir-me mais a consciência, eu me satisfiz com uma garrafa inteira, mas o infantil bichinho que não dorme que é a minha consciência me perturbava como os vários trovões de várias tempestades a cairem nos campos abarrotados de crianças a gritarem por socorro, crianças presas abaixo de carros e ônibus envolvidos pelas águas de uma enchente. Há quanto tempo fui criança e ao mesmo tempo infantilizo-me nas vezes em que eu tenho que me fazer de homem que seriamente não se acorrenta ao vagar da estupidez diária da clássica humana realidade. Tentei pegar alguns papéis, soltar nas vazias páginas dos mesmos as minhas indignações e revoltas contra o estado do pior e o pior dos estados do galho da árvore no qual todos nós estamos pendurados. Segurei por meia hora a pena e nada saiu, a pena, qual uma cantora que perdeu a voz após tanto cantar e não ser ouvida além do lugar no qual sabia melhor cantar, jazia entre meus dedos qual uma legítima filha de decadentes amantes que pegaram AIDS na sexta-feira e foram no sábado pescar, conscientes do risco de assim se comportar. Olhem o que estou a falar, como se aidéticos transmitissem a sua doença ao n'água, em praias ou rios, cachoeiras ou lagos, a sua doença a lhes massacrar. Revestido de preconceitos imbecis eu me encontrei e logo sabia que tudo se tornaria em frangalhos ao mais horroroso sopro do ar. E o tédio muito me assolava, o tédio muitome assombrava, espantos coroando meus fermentos de bolos conscientemente envenenados pelos meus pensamentos de valas e vagas, peguei poemas para ler em voz alta, a Álvares de Azevedo recorri para socorrer-me daquela noite desgraçada!



MORENA

Ó Teresa, um outro beijo! e abandona-me
a meus sonhos e a meus suaves delírios.
JACOPO ORTIS

É loucura, meu anjo, é loucura
Os amores por anjos... bem sei!
Foram sonhos, foi louca ternura
Esse amor que a teus pés derramei!

Quando a fronte requeima e delira,
Quando o lábio desbota de amor,
Quando as cordas rebentam na lira
Que palpita no seio ao cantor...

Quando a vida nas dores é morta,
Ter amores nos sonhos é crime?
E loucura: eu o sei! mas que importa?
Ai! morena! és tão bela!... perdi-me!

Quando tudo, na insônia do leito,
No delírio de amor devaneia
E no fundo do trêmulo peito
Fogo lento no sangue se ateia...

Quando a vida nos prantos se escoa
Não merece o amante perdão?
Ai! morena! és tão bela! perdoa!
Foi um sonho do meu coração!

Foi um sonho... não cores de pejo!
Foi um sonho tão puro!... ai de mim!
Mal gozei-lhe as frescuras de um beijo!
Ai! não cores, não cores assim!

Não suspires! por que suspirar?
Quando o vento num lírio soluça,
E desmaia no longo beijar,
E ofegante de amor se debruça...

Quando a vida lhe foge, lhe treme,
Pobre vida do seu coração,
Essa flor que o ouvira, que geme,
Não lhe dera no seio o perdão?

Mas não cores! se queres, afogo
No meu seio o fogoso anelar!
Calarei meus suspiros de fogo
E esse amor que me há de matar!

Morrerei, ó morena, em segredo!
Um perdido na terra sou eu!
Ai! teu sonho não morra tão cedo
Como a vida em meu peito morreu!



Morena, queria uma morena nos braços naquela noite, apenas uma determinada morena... Minha morena... Aquela morena que casada com outro está, nos braços de outro... está... Álvares de Azevedo, amigo Álvares de Azevedo, tu não me concedestes alívio! Castro Alves! Castro Alves! Recorri ao meu amigo Castro Alves!



A Uma Estrangeira
LEMBRANÇA DE UMA NOITE NO MAR

Sens‑tu mon coeur, comme U palpite?
Le tien comme il battait gaiement!
Je m'en vais pourtant, ma petite,
Bien loin, bien vite, Toujours t'aimant.

(Chanson )

Inês! nas terras distantes,
Aonde vives talvez,
Inda lembram‑te os instantes
Daquela noite divina?...
Estrangeira, peregrina,
Quem sabes?—Lembras‑te, Inês?

Branda noite! A noite imensa
Não era um ninho?—Talvez!. ..
Do Atlântico a vaga extensa
Não era um berço? — Oh! Se o era...
Berço e ninho... ai, primavera!
O ninho, o berço de Inês.

Às vezes estremecias...
Era de febre? Talvez...
Eu pegava‑te as mãos frias

P'ra aquentá‑las em meus beijos...
Oh! palidez! Oh! desejos!
Oh! longos cílios de Inês.

Na proa os nautas cantavam;
Eram saudades?... Talvez!
Nossos beijos estalavam
Como estala a castanhola.:.
Lembras‑te acaso, espanhola?
Acaso lembras‑te, Inês?

Meus olhos nos teus morriam...
Seria vida?—Talvez!
E meus prantos te diziam:
"Tu levas minh'alma, ó filha,
Nas rendas desta mantilha...
Na tua mantilha, Inês!"

De Cadiz o aroma ainda
Tinhas no seio... —Talvez!
De Buenos Aires a linda,
Volvendo aos lares, trazia
As rosas de Andaluzia
Nas lisas faces de Inês!

E volvia a Americana
Do Plata às vagas... Talvez?
E a brisa amorosa, insana
Misturava os meus cabelos
Aos cachos escuros, belos,
Aos negros cachos de Inês!

As estrelas acordavam
Do fundo do mar... Talvez!
Na proa as ondas cantavam,
E a serenata divina
Tu, com a ponta da botina,
Marcavas no chão... Inês!

Não era cumplicidade
Do céu, dos mares? Talvez!
Dir‑se‑ia que a imensidade
—Conspiradora mimosa—
Dizia à vaga amorosa:
"Segreda amores a Inês!"

E como um véu transparente,
Um véu de noiva... talvez,
Da lua o raio tremente
Te enchia de casto brilho...
E a rastos no tombadilho
Cala a teus pés... Inês!

E essa noite delirante
Pudeste esquecer?—Talvez...
Ou talvez que neste instante,
Lembrando‑te inda saudosa
Suspires, moça formosa!...
Talvez te lembres... Inês!



De novo uma lembrança da distância a me remoer... Morena... Não, o nome dela não é Inês, naquela noite os poemas que em voz alta eu lia não estavam me sintonizando com o meu Ser! Amigo Castro Alves, tu não me aparastes! Machado de Assis! Machado de Assis! Amigo Machado de Assis, recorri a ti! Recorri a ti! A noite desgraçada, a desgraçada noite, aquela desgraçada noite desgraçada me fazia um consciente assassino do racional em mim!



MUSA DOS OLHOS VERDES

Musa dos olhos verdes, musa alada,
Ó divina esperança,
Consolo do ancião no extremo alento,
E sonho da criança;

Tu que junto do berço o infante cinges
C’os fúlgidos cabelos;
Tu que transformas em dourados sonhos
Sombrios pesadelos;

Tu que fazes pulsar o seio às virgens;
Tu que às mães carinhosas
Enches o brando, tépido regaço
Com delicadas rosas;

Casta filha do céu, virgem formosa
Do eterno devaneio,
Sê minha amante, os beijos meus recebe,
Acolhe-me em teu seio!

Já cansada de encher lânguidas flores
Com as lágrimas frias,
A noite vê surgir do oriente a aurora
Dourando as serranias.

Asas batendo à luz que as trevas rompe,
Piam noturnas aves,
E a floresta interrompe alegremente
Os seus silêncios graves.

Dentro de mim, a noite escura e fria
Melancólica chora;
Rompe estas sombras que o meu ser povoam;
Musa, sê tu a aurora!



Machado de Assis, ele, também, não... Não, eu não me consolei com a leitura do poema dele, senti-me... O ar... O quente ar... Ele chegou... Não, não era Machado de Assis, era outro Ser... Um Poeta Mais Antigo... Um Escritor Mais Antigo...

- Neste poema, meu amigo tão antigo e dolorido, Machado de Assis exaltou a presença maciça da dama dos olhos verdes, a moça bela de sonhos altos, a moça das esferas jovens que representa virginalmente o Alto Amor, a moça das cálidas solicitudes das ansiedades da carne dos homens solitários como ti... Olhos verdes, verdes olhos, como os meus...

- Tu estavas aqui o tempo todo, o ar cáustico me avisou.

- Ah, meu amigo tão antigo e dolorido, não sou da causticidade, apenas não depende das pequenas coisas da Humanidade para esfriar-me e resfriar-me, não procuro adoecer diante da passagem pelas doenças da Humanidade. Teu mundo caindo e tu pensando em mulheres, poeta, aqui, neste quarto, a esta hora...

- Tu tens algo a ver com isso?

- Não, claro, apenas teci um comentário, comentário de um que conhece as estranhas entranhas das mulheres.

- Tu já teves todas as mulheres que quis.

- Todas, sim.

- Eu...

- Não fale de ti, sei tudo de ti, não vim para nos perdermos flando de ti.

- Minha importância é pouca, eu sei...

- Não, não é, tu és importante, Tu Sabes Olhar Para O Abismo, Tu Sabes Reconhecer O Abismo, Tu Sabes Beijar A Face Do Abismo, Tu Saber Ser O Abismo, Tu Sabes Quem Eu Sou.

- Chamam-Te de Diabo, mas Sei que tu assim não és denominado.

- E quem disse que posso ser denominado se teus olhos, Olhos Do Abismo, me dizem que Eu augustamente estou entre cinzas de carvalhos e flores de campos estrelados?



- Mundo, falemos do meu mundo.

- A Terra, O Inferno, a Criação Do Maior De Todos Os Egrégoras?

- Diabo, de qual mundo estaremos a falar?

- Do Mesmo Mundo, Este no qual me faço de Eremita Inominável e me apresento ao vosso lado como amigo todo confiável. Meu Cajado É Uma Parte Do Termo Solitário, Solidão É O Meu Calvário. Há, por um acaso, alguém mais solitário do que o denominado Diabo?

- Eu poderia dizer que sim, há alguém.

- Tu?

- Como saberei se vivo neste quarto a ler, escrever, divagar, a ser um perseguidor, à minha maneira reclusa, do Natural? Não vejo mais nada além dessa Busca, Diabo, meus diálogos são com papéis antigos, Amigos Espirituais, Inimigos Espirituais e Contigo.

- Tu Sabes o que é a Solidão, A Solidão, e te confio um dos segredos, Os Mistérios Dos Eremitas Inomináveis. Flui por aí, pelo seu mundo, A Terra, O Inferno, A Criação, O Reduto Do Maior Dos Egrégoras, uma chance de sobrevivência para O Porvir Da Guerra. Hoje, vemos mutilações de bebês, amanhã veremos mutilações em praças públicas de milhões; hoje, vemos estupros de crianças, amanhã veremos estupros em praças públicas de milhões; hoje, vemos guerras santas localizadas, amanhã veremos guerras santas generalizadas na própria Guerra. A Solidão lhe fez buscar, Buscar, antigo amigo bardo de pena solitária, cada Frase, cada Face, cada Grito, advindo da Guerra, O Tumor Cancerígeno Da Anti-Naturalidade Precisa Cair E A Verdadeira Paz, Assim, Irá Reinar. Somente tu, meu amigo antigo dos Reinos Inferiores, Irmão Abismal, somente tu e mais alguns outros, Poucos Despertados Diante Do Umbral Do Sangue Natural, estão preparados para o que virá, e o que virá é tudo dos furações de sangue e dor, assimilando angústias e torturas, e muitos sofrimentos todos já vividos e que serão vividos.

- Dizem, Diabo, que A Guerra já aqui está, é o que se vê nos jornais acima de minha cama.

- E tu, ainda, ficas a pensar em morena distante diante desse panorama do Terrível Guerrear?



- Egoismo é o meu singelo tributo diante dos meus Despertares, Diabo...

- Te ensino a doutrinar-te no Ego e no Não-Ego.

- Disciplina é uma distante roupagem para mim, Diabo...

- Te ensino a disciplinar-te Revestido e Nu.

- Meus olhos afogados ficam quando sinto, quando Sinto, a agonia de torturados até a morte, Diabo...

- Te ensino a aprender com A Tortura.

- Meus pés querem chutar fardas e fardados assassinos covardes, Diabo!

- Te ensino a empunhar A Antiga Farda.

- Minhas mãos querem enforcar os que roubam da gente humilde, Diabo!

- Te ensino a Ser O Roubo.

- Aprendendo tudo, assim, serei inútil...

- Te ensino a ser do Tudo.

- Diabo, Tu me conduzirias assim até as chamas, ensinando-me a ser um tranquilo guerreiro em meio a corpos enlameados, esqueletos nas ruas andantes, cadáveres caindo nas ruas ao meu lado?

- Te Ensino A Ser A Chama, a Lama, A Rua E O Cadáver. Guerreiro, amigo bardo de longa poética guerreira caminhada, tu já és.



- Quente, muito quente, estou a suar...

- Até ti, amigo bardo de barba antiga a crescer mais antiga, chegam as dores de todos que abandonam violentamente a carne. A dor da criança, a dor da mulher, a dor do homem, a dor do idoso, a dor dos que foram assassinados antes de conhecer ao Humano Lar. Terror é o nome desconhecido do Planeta Terra, que também é O Inferno, sim, O Verdadeiro Inferno No Interior Do Inferno. Os Guardiães Dos Umbrais estão permitindo que meus seguidores em outras Dimensões aqui se encarnem para epsalharem O Terror, O Ódio, O Vício, A Morte, A Depravação, A Insatisfação, A Revolta, A Guerra, enfim. Tudo que é da violência, dos preconceitos e dos danos ao Humano Ser é permitido pelos Guardiães Dos Umbrais, Eu Sou Um Deles, O Guardião Do Terrestre Umbral. Até O Alto A Guerra Chegará, Anjos E Arcanjos Chorarão Ao Lado De Demônios E Deuses Infernais, A Concepção De Todas As Coisas E De Todas As Não-Coisas Se Inverterá, Tudo Se Afogará Novamente No Caos E A Deusa Escuridão Novamente No Todo Imperará.

- Não se pode impedir A Marcha Sangrenta Do Grande Mar...

- Não se pode fugir de tal Marcha, Tudo Tem Que Sangrar. Abandones agora,definitivamente, a morena, sejas Um com a morena e a morena até ti chegará.

- Posso confiar nisso de Um com a morena minha ser?

- O Verdadeiro Diabo, Eremita Inominável, Nunca Iria Mentir, Meu Amigo Antigo De Bronze E Dourado.



O Diabo, O Eremita, ou qual Nome, ou Nenhum Nome, que Ele tenha, despareceu de meu quarto. Compreendi que a minha morena comigo irá guerrear, ao meu lado ela vai marchar... Sim, irá, eu a vejo... Naquela noite a vi, mas o calor me incomodava mais... O calor... Bruto calor... E algo me chegava mais... Uma outra visão...

Esqueci a morena minha...

Esqueci Álvares de Azevedo...

Esqueci Castro Alves...

Esqueci Machado de Assis...

Lembrei-me do Diabo, sempre O Diabo...

O Diabo, sim, estou dando nome a Ele, nome a um Inominável...

Uma outra visão...

Uma outra visão...

Uma outra visão...

Uma outra visão...

Uma outra visão...

Uma outra visão...

Uma outra visão...

Uma outra visão...

Uma outra visão...

Humano Terror!

Humano Horror!

Vi uma menina ser jogada da janela do sexto andar de um prédio!

Eu me encolhi...

Eu me incinerei...

Eu estremeci...

Eu chorei...

E eu vi quem a jogou...

E eu irei decapitar nos campos de batalha da Guerra Declarada Finalmente Aberta aquele que lá do sexto andar daquele prédio a jogou!


Inominável Ser

APRENDENDO




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Prosa De Um Coveiro Inominável

O Terror Inominável. O Horror Inominável. A Loucura Inominável. A Cova Aqui É A Do Puro Pesadelo Das Covas Mais Profundas E Elevadas. Vozes Estranhas Aqui. Sons Estranhos Aqui. Palavras Estranhas Aqui. Estranhas E Inomináveis. Sintam-Se Conduzidos Pelo Carro Inominável Do Terror Inominável. Sintam-Se Conduzidos Pelo Carro Inominável Do Horror Inominável. Sintam-Se Conduzidos Pelo Carro Inominável Da Loucura Inominável.

O Coveiro Inominável

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