quarta-feira, 30 de julho de 2008

O Martírio Do Pequeno Dragão


“Sou A Semente Das Uniões De Todas As Rebeliões E Derramamentos De Soluções Cáusticas Por Sobre O Solo Todo De Sangue De Antigas E Novas Guerras. Sou O Espelho D'Alma Da Tua Face Desconhecida E Impero Nos Países Ainda A Serem Descobertos Em Teu Ser Determinado A Coroar-Me Maior Do Que Todo Já Erguido Império. Sou Aquele Que Respira Rutilando As Aniquilações Do Passado, As Ampliações Do Presente, As Chegadas Ao Futuro, Futuro Brilhante Ou Futuro Obscurecido Ou Futuro Inerte. Sou Aquele Gigante Antigo De Quem Os Filhos Do Carvalho Falavam Nas Iniciações Vermelhas Do Sangue Que Corre Nas Veias Da Terra. Sou Aquele Deus Oferecido Aos Antigos Campos De Batalha Das Civilizações Douradas. Sou Aquele Deus Obliterado Pela Chegada Das Civilizações Desta Decadente Humana Idade. Sou Aquele E Sou Teu, Antigo Menino, Antigo Filho Meu, Antigo Ser Que Me Compreende E Que Me Carrega Consigo. Sou Aquele E Sou Teu, Aquele Dragão Antigo Respirando Pela Esfera Terrestre, Teu Dragão Pai Respirando Em Tua Esfera De Carne. Deixem Romper A Vossa Carne, Eu Te Abraçarei Como O Mais Amado Filho Meu Que Tu És...”



Ratziel, abaixo do viaduto mais lacrimosamente embebido em urina e fezes da cidade do Rio de Janeiro, acorda abaixo de caixas de papelão apodrecidas, seu colchão nas noites quentes, seu colchão nas noites frias. Sete anos de idade, pai estuprador que hoje é mulherzinha em Bangu I, mãe prostituta que faz ponto em uma das esquinas da Uruguaiana à noite, ele sorri após sonhar uma vez mais com o seu Pai, Dragão Pai. Seu nome significa Arauto ou Enviado De Deus; nas ruas, dormindo abaixo de um viaduto sujo, roupas sujas, corpo sujo, Ratziel prova ser Arauto De Um Deus Sujo, Enviado De Um Deus Sujo. Mesmo não sabendo o significado de seu nome, ele odeia, odeia com força que equivale ao tempestuoso revoar das mil e infinitas Coisas Odiáveis Da Criação, ao que chamam de Deus. Odeia não por causa de ser filho de um estuprador e de uma prostituta; odeia não por causa de ser um menino de rua que dorme ao lado de urina e fezes; odeia não por causa de ter de pedir esmola e comida durante todo o dia; odeia não por causa de estar sujo, tanto no corpo, quanto na alma e na mente; ele odeia ao que chamam de Deus por, em sua inteligência fora do comum para uma criança em suas condições existenciais, afirmar silenciosamente que Deus É Sujo. E, alimentando esse ódio, logo ao acordar, ele vai mais uma vez pela cidade do Rio de Janeiro caminhar. O ódio, hoje, está determinado ao encontro de um draconiano objetivo maior, objetivo revelado pelo sonho tido com O Dragão. Sem fome hoje, sem sede hoje, sem sujeira n'alma hoje, sem sujeira na mente hoje, apenas a sujeira do corpo hoje, no dia de hoje que Ratziel esqueceu qual é, os passos são determinados ao alcance definidor e conclusivo do que O Dragão, em sonho quis lhe dizer. Esquecido, neste hoje de Ratziel, o Deus Sujo. Lembrado, neste hoje de Ratziel, seu Antigo Caminhar nas Draconianas Trevas.

O Dragão Respira ao lado dele, como um Antigo Arauto, como um Antigo Enviado, como um Ser que está Acima Dos Deuses Terrestres. Ratziel sente-se protegido pelo seu Dragão Pai, Dragão Amigo, Dragão E Guardião, ciente de que langorosamente as eternidades dos passos dos transeuntes em seu redor conduzem apenas a um descaminho maior: um viaduto mais sujo, cheio de mijo e de fezes, que todos chamam de vida. Ratziel, entre os apressados trabalhadores que pelas manhãs da cidade rumam para os seus respectivos trabalhos, vê Aqueles que transitam em redor dos mesmos, acompanhando-os. Vê Reptilianos, Serpentinos, mas nenhum Draconiano; Vê Luciferinos, Vampiros, mas nenhum Draconiano; Vê qualidades de Espíritos vários e qualidades de Larvas várias, envolvendo os caminhantes, “as pessoinhas filhas do Deus Sujo”, como ele as denomina em sua privilegiada mente, mente desconhecida para todos os que para ele olham e vêem apenas um simples menino de rua. E o olhar, o olhar, como é o olhar das pessoinhas sujas para o menino, O Pequeno Draconiano? O brasileiro é um tipinho de Ser estranho, nega pelos lábios os variados e diversos preconceitos que carrega n'alma, preconceitos de cor bem claros no olhar, preconceitos de raça bem caros ao olhar, preconceitos de gênero bem classificadores do olhar, preconceitos sociais bem explícitos no olhar. Olham para Ratziel como quem olha para um pequeno monstrinho sujo, nojento, asqueroso, que merecia estar no fundo do esgoto, que merecia ter sido morto pelo médico ao nascer, de tão feio que é, de tão perturbadoramente assombroso que é. As carteiras e as bolsas ficam bem seguras quando vêem o menino passar, um menino que nem para eles olha, um menino que apenas fica a olhar para Aqueles que os acompanham. Ratziel, Arauto Do Dragão, Enviado Do Dragão, caminha entre Aqueles, apenas entre Aqueles; mas, O Dragão não é o Deus cristão, não é o Diabo, também cristão, e não é um Deus, pagão ou tornado Demônio pelos cristãos. O Dragão É Aquele Que Fica Entre A Semente Do Prato Quebrado E A Sentença Do Juiz Correto No Julgamento Alto Do Alado Sentenciar Das Coisas Em Verdadeira Sintonia Com O Coroamento Das Esferas.

Pelas recantos do Centro do Rio de Janeiro, O Pequeno Draconiano e seu Dragão, seu Guardião. Abolição, Assembléia, Rio Branco, Tiradentes, Graça Aranha, São Francisco, Conde de Bonfim, Tiradentes, 13 de Maio, Nilo Peçanha, Rosário, Antônio Carlos, 7 de Setembro, Afândega, Presidente Vargas, Venezuela, Candelária, Teatro, Imprensa, Lavradio, Álvaro Alvim, Pio X, Marechal Floriano, Infante Dom Henrique, Primeiro de Março, Chile, Visconde de Itaboraí, Gonçalves Ledo, General Justo, República... Ruas, avenidas, praças, do Centro do Rio de Janeiro... Manhã de buscas por um Draconiano como ele; tarde de buscas por um Draconiano como ele; anoitecer de buscas por um Draconiano como ele... Ratziel passou, às duas horas, trinta e seis minutos, quatorze segundos e nove milionésimos de segundos, pela sua mãe prostituta, Lúcia, Lux, Luz, Lúcida, uma mulher já com os anos próximos aos vinte e dois, mas com a aparência de sessenta e seis ou mais anos. Lúcia, Lux, Luz, Lúcida, olhou para seu filho, seus olhos envolveram-se em um manto de pequenas nuvens enegrecidas e cinzentas; sua minissaia, fazendo com que suas torneadas coxas fossem às ruas apresentadas, cobertas foram por suas mãos ao verem o filho perto de si; os seios, volumosos, cento e nove centímetros de carne voluptuosa, escondidos foram com uma toalha de rosto que sempre carregava. Lúcia, Lux, Luz, Lúcida, envergonhada por ser a vadia mais gostosa e a cadela oferecida paga mais requisitada do Centro do Rio de Janeiro, apesar de ter o rosto em estado avançado de envelhecimento, se aproximou do menino, de onde estava, à frente de um dos vários bordéis da cidade, em um bordel de três andares da Rua do Rosário.

- Ratziel, está com fome? Quer beber um refrigerante? Eu te pago qualquer coisa... Ah, olha, já arrumei até um lugar onde você pode tomar um banho e te comprei roupas novas!
- Quero empregar meus esforços no Encontro, mãe.
- Você nunca me chamou de mãe, Ratziel... Por que isso hoje? Hoje, você...
- A senhora é a mãe, eu sou o pai, tudo neste menino confere que apenas exercendo um passo a mais ele pode ser quem é.
- Ratziel, você...
- Mãe, aqui nos despedimos e nos separamos, vou ao Encontro, ao Encontro...
- Eu tenho seis reais aqui, filho, eu posso te pagar um lanchinho... Arrumei, também, uma casinha ali no Morro Da Providência, a gente tem que morar junto, eu quero cuidar de você melhor...
- Empregue seu dinheiro na subsistência que te cabe ter, mãe. E residas com a tua purificada alma no lar que ainda vais conhecer.
- Ratziel, eu trabalho por você... Tudo assim, tudo que estou fazendo, é por você... Não posso te pagar uma escola, mas você sabe que, mesmo sem estudo, mesmo sem saber ler, sem saber escrever, fala de um maneira, se dirige a mim e aos outros de uma maneira que nunca vou entender... Você é mais inteligente do que eu, seu pai, o resto da nossa família... Aquele rapaz do instituto lá de nome em estrangeiro que não lembro, me disse que pode nos ajudar... Vai prá casa comigo hoje, filho... Se não quiser ir hoje, te pago, então, o banho naquele lugar que me deixaram que eu te levasse... Me escuta, eu quero te ajudar, Ratziel, eu te amo...
- Dragões são a minha Família, mãe. E nenhuma instituição humana é capaz de compreender a Draconiana Instituição. E O Draconiano Amor é maior do que qualquer humano amor.
- Você não é o Ratziel, ele não me olha assim, a voz dele não é assim! Meu filho, o Ratziel, cadê? Cadê o meu filho? Cadê? Cadê?
- Teu filho e eu, Lúcida Caída, estamos indo ao Encontro. Pegues nas mãos deste teu filho pela última vez, partiremos para O Unir. Deixe que teu filho te beije pela primeira e única vez, caminharemos para O Retorno. Viemos aqui, passando por ti, para uma despedida, teu útero portou uma Semente minha, teu útero merece um beijo desta Semente minha, um último beijo, O Draconiano Beijo, que pode te reerguer a partir de tua Queda, que pode te afundar mais no Abismo de tua própria Queda, tu escolherás a via correta ou a via incorreta após Meu Beijo inserir-se onde nosso filho adormeceu nas Segundas Trevas.

Ratziel segura nas mãos de sua mãe, aproxima-se e dá-lhe um beijo na barriga, um beijo que arde na derme, arde na epiderme, alcança o útero imediatamente, tonteando a mulher, que cai desmaiada ouvindo A Voz Do Dragão:



Tome Um Pouco Do Meu Respirar, Sugue Meu Ar, Explore Meu Território, Deixe Tudo Te Encaminhar Ao Meus Abraços Em Longo Mar. Sou O Dragão, Você É Minha Consorte, Estamos Unidos Pelos Laços Mais Profundos Acima De Todos Os Sons Da Verdadeira Morte.



E O Pequeno Draconiano continuou a caminhar, encontrando ainda, nas demais horas seguintes até o anoitecer, os seus amiguinhos tão miseráveis e sujos quanto ele, outros residentes nas ruas do Centro do Rio de Janeiro, adultos, crianças, mulheres. Uma onda de draconiana piedade toma conta de sua draconiana alma, ele vê A Grande Sujeira pairar não apenas nos que lhe são amigos, mas em todos os os que passam perto de si; até em sua mãe, tal Grande Sujeira está a pairar. Os Répteis, As Serpentes, Os Luciferinos, Os Vampiros, Outros Espíritos, As Larvas, todas as demais qualidades de Seres que habitam as ruas e acompanham a todos os de carne e osso e veias e tripas e músculos, também marcados estão pela Grande Sujeira, Grande Sujeira que apenas ele Vê, Grande Sujeira que apenas a ele, nas Draconianas Trevas, pode Ver. A Grande Sujeira ergue nos semblantes dos seres visíveis e dos seres invisíveis, incluindo os animais, uma esquelética forma, uma espontânea chama de detritos que se advogam Senhores Do Ar. A Grande Sujeira, Tão Grande Sujeira, ele Vê nas portas dos prédios de executivos, nos bares, nos restaurantes, nas faculdades, nos bórdeis. A Grande Sujeira, A Máxima Grande Sujeira, ele Vê no tailleur da executiva, na gravata do executivo, nos óculos escuros da popozuda rebolativa creujinn que passa, nos chinelos estragados de um mendigo que todos conhecem como Bernardo Jesus. A Grande Sujeira, A Eterna Grande Sujeira, ele Vê nas telas das televisões das lojas, nas faces dos brothers, nas faces dos fathers, nas faces das mothers, nas faces dos stars, nas faces dos envidrados todos na pequena tela de vidro ou de plasma, “as pessoinhas mascaradas e inúteis que vejo todo dia a vomitarem uma aparência falsa de felicidade e de paz nas carinhas sujas”, como ele afirma silenciosamente sempre. A Grande Sujeira, A Rica Grande Sujeira, ele Vê durante toda a sua caminhada neste hoje, neste dia de hoje, que se tornou uma tarde mais Suja, que se tornou uma noite mais Suja, que é uma Noite Suja...
Porém, às seis horas, quarenta e seis minutos, sete segundos e cinco milionésimos de segundos, O Dragão lhe diz Algo que o faz sorrir e encaminhar para o seu viaduto sujo, cheio de mijo, cheio de fezes. No viaduto embebido em mijo e fezes, ele é aconselhado pelo seu Dragão, seu Guardião, a adormecer em suas Trevas Amamentadoras, abaixo das caixas de papelão apodrecidas. E o sonho retorna, O Dragão Fala...



“Chegamos Ao Tempo Determinado Pelos Extensos Momentos De Trevas Que Semeiam Todo Nosso Navegar No Antigo Fogo. Aqui, O Sacrifício No Encontro. Aqui, O Sacrifício Da União Do Pai Com O Filho. Aqui, O Martírio Que Se Compraz Da Cega Rota Dos Selváticos Draconianos Que Também Me São Amados Filhos, Que Esperam Igualmente O Seu Sacrifício. O Martírio Nosso, O Draconiano Sangue Derramado Alimenta Novos Dragões Fortalecedores Da Chama Da Criação. O Martírio Nosso, Peças Do Jogo Das Formas, Regras Da Guerra Dos Formatos, Riquezas Da Glória Das Fôrmas...”



A madrugada: uma hora, sete minutos, onze segundos e onze milionésimos de segundos. Passos ouvidos, Ratziel se ergue sorrindo, apaziguando seu ódio contra o Deus Sujo, ouvindo A Respiração Do Dragão em seus Outros Ouvidos. Quatro Dragões aproximam-se, acompanhando quatro policiais, os mais corruptos, violentos e sanguinários da cidade do Rio de Janeiro. O sargento Gabriel, Ser Forte Em Deus, Mensageiro De Deus; o cabo Miguel, Perfeito Em Deus; o soldado João, Cheio De Graça Divina; e o soldado Lázaro, Deus Ampara. Fardados, eles fazem parte do Esquadrão Dos Lixeiros, um grupinho secreto de fartos homens que se julgam juízes e executores pagos por proprietários de lojas do Centro do Rio de Janeiro para “limparem” as ruas de mendigos e outros tipos que socialmente fazem parte da lixeira social que ninguém quer afirmar que já se formou, não apenas no Rio, como em todas as cidades grandes do Brasil e do mundo. Eles formam um quadro de elite, a tropa de elite dos policiais mais sujos e assassinos, não somente da cidade do Rio de Janeiro, mas, do Estado Do Rio De Janeiro e, quiça, do Brasil e do mundo (pois somos um mundo globalizado, não é mesmo?), uma tropa herdeira dos Cavalos Corredores e amiga das milícias que quase estão, atualmente, a dominarem todas as favelas, morros e demais áreas carentes cariocas, expulsando traficantes, matando adversários, impondo uma lei própria e “salvando” a população de tais áreas na cobrança de sua “proteção”. Filhos das leis da irracionalidade e do Capitão Nascimento, os quatro arrogantemente se aproximam de Ratziel balançando e girando os cassetetes, armas que utilizadas já foram para matar prostitutas, mendigos, outros meninos de rua e até bebês que nascem desses excluídos sociais. Assobiam o funk que fez sucesso no filme Tropa De Elite, um som que a Noite Suja acolhe com demasiado carinho, pois Seus violentíssimos filhos lhe são mui queridos. Não há com eles um spray de pimenta sequer, mas os antigos cassetetes, como já dito, nobres armas de homens que apenas são valentes quando em grupo, armados e cientes de que nada e nem ninguém poderá lhes deter enquanto assim for. Ratziel, que nunca temeu um policial, mesmo quando de muitos já foi vítima e até viu muitos outros baterem em sua mãe, fica sorrindo, apenas, enquanto os draconianos assassinos se aproximam. Cegos para O Dragão, cegos para os seus Dragões, “a corja da farda suja”, como ele os chama, cerca-o; o primeiro golpe que recebe é um chute nas costelas do cabo Miguel.

- Seu filho-da-puta escroto, levanta daí senão te mato assim mesmo!
- Mate-me assim mesmo, eu aguardo a sua violência tão cega e inútil há muito, meu Irmão.
- Não sou seu irmão, seu escroto! - Chuta-o três vezes nas costas. - Aquela cachorra vagabunda da tua mãe, agora, não vai te proteger; e mesmo se estivesse aqui, a gente ia foder com ela também!
- Ajam como estão comprometidos a agirem nesta madrugada, Irmãos.
- Moleque desgraçado! - O sargento Gabriel utiliza o cassetete para quebrar o frágil braço esquerdo de Ratziel, com apenas um golpe. - Ainda debocha, ainda? Tá pensando que nós aqui vamos te dar apenas uma coça, malandrinho? Tu tá pensando isso, caralho? A gente vai te passar o rodo legal, nosso serviço de limpeza pega um, pega geral!
- Então, me peguem, o serviço deve ser bem feito, sejam breves ou sejam lentos.
- Viadinho! - O soldado Lázaro, utilizando a virilidade de seu cassetete, sete vezes bate na cabeça de Ratziel. - Merda, essa porra desse moleque não desmaia e nem grita!
- Não é para nenhum deles gritar, seu babaca! - O cabo Miguel bate uma vez na cabeça do menino.
- Bate nele que nem macho, porra! - O soldado Lázaro perde a consciência da já baixa e mínima civilidade que possui, instigando, então, os demais a impiedosamente partirem para o massacre de Ratziel.

Cada osso vai sendo esmagadoramente estraçalhado. A duração do linchamento do menino dura uma hora, doze minutos, quatro segundos e vinte e dois milionésimos de segundos, pois, Sorrindo, O Dragão faz com que seus filhos assassinos, cruéis e cegos se cansem demasiadamente, mantendo seu pequeno filho, sendo morto, com sinais vitais em movimento. Os cassetetes embebidos em sangue, sangue que se mistura ao papelão apodrecido, ao mijo, às fezes, gerando um odor que agrada ao Dragão Das Trevas, ao Dragão Em Sua Face De Trevas. Ratziel não geme, não sente dor, não grita, não pede “pelo amor de Deus” para que não o matem como muitos meninos de rua pedem quando espancados até a morte por sujos policiais, a corja da farda suja, a suja farda de uma suja corja. Os quatro sujam-se de sangue, draconiano sangue, em sua draconiana pele, que não sabem que é beijada pelo Dragão desde que reencarnaram neste mundo de raros Dragões. Bebendo da Violência do momento, eles batem, batem, batem, até, até, até, até, enfim, enfim, enfim, enfim, enfim, Ratziel morrer, O Dragão deixa Ratziel morrer. Os policiais assassinos, os sujos da farda, a suja corja policial, apoiada em seus cassetetes, ajoelha-se em redor do cadáver, rosnando, suando, cansada, bem mais suja do que sempre foi, o espancamento até a morte foi o maior do qual já tomaram parte, o espancamento lhes exauriu, o espancamento lhes enfraqueceu, o espancamento serviu ao Encontro, O Encontro Do Pequeno Dragão Com O Grande Dragão.

- Que porra é essa? - O sargento Gabriel.
- Merda! - O cabo Miguel.
- Corre, corre, corre! - O soldado João.
- Ai, meu Deus, Jesus, Virgem Maria, São Jorge, SOCORRO, SOCORRO, SOCORRO!!! - O soldado Lázaro.

O Dragão, Em Trevas, diante deles, paira acima do corpo de Ratziel. Nobre Nas Trevas. Forte Nas Trevas. Bebendo o sangue de Ratziel. Erguendo o sangue de Ratziel. Fazendo do sangue de Ratziel uma Draconiana Fonte De Revelações. Desta Fonte, então, Gabriel, Miguel, João e Lázaro ficam face a face com os seus respectivos Dragões, que os encobre de Trevas, pois também são Dragões Das Trevas. E O Grande Dragão, O Pai De Todos Os Dragões, O Antigo Dragão Ainda A Respirar Nos Subterrâneos Terrestres, Se Faz Ouvir...



Negaram-Me Em Vossas Atuais Existências E Negaram-Se A Reconhecer-Me Sob, Diante, Acima E Além De Vossas Carnes. Vós Quatro Fostes Filhos Das Minhas Trevas, Hoje Não São Mais, Eu Vos Renego Como Carne Da Minha Carne. Deixo De Respirar Em Vós, Sobre Vós E À Frente De Vós. O Pequeno Dragão Foi Martirizado. O Pequeno Dragão Ressurgirá Do Martírio Dos Dragões Renegados.



Aterrorizados, mijando e cagando nas calças, os quatro ex-draconianos partem para cima dos monstros que vêem à frente uns dos outros com os seus cassetetes. Fora das Trevas nas quais estão, os cinco Dragões Sorriem, O Grande Dragão Sorri, os ex-draconianos estão a mutuamente espancarem-se até a morte. Quatro horas, dois minutos, seis segundos e nove milionésimos de segundos é a duração da luta travada entre eles nas Trevas, que, dissipadas, revelam seus cadáveres ao solo, em redor de Ratziel, sentado, respirando, sem ferimentos, sem o sangue deles em seu corpo, sem o seu sangue em seu corpo, tendo às suas costas seu Dragão, seu Guardião. O Encontro Deu-Se No Martírio, O Pequeno Dragão E O Grande Dragão Agora São Uma Pele De Ricas Escamas Envoltas Nas Trevas Da Criação. Os demais Dragões, que abandonaram seus antigos Protegidos, agora estão com Ratziel, Formando A Quintúpla Chama Una De Uma Ordem Draconiana Das Trevas. Eles são Cinco Em Um, agora. E apenas dois Dragões faltam para que Ratziel, enfim, possa retornar aos Subterrâneos. O Arauto Do Dragão, O Enviado Do Dragão, ergue-se, esquecido da suposta Existência de um Deus Único ao qual chamava de Deus Sujo, sem ódio, ainda trajando roupas sujas, ainda com o corpo sujo, draconianamente ciente de que O Segundo E O Terceiro Encontros podem se dar em duas das áreas do mundo afogadas na Grande Sujeira, como o próprio mundo, em seu todo, também está essencialmente afogado.
O seu Dragão, o seu Guardião, lhe mostra a Baixada Fluminense.
O seu Dragão, o seu Guardião, lhe mostra Capão Redondo.
Segue Ratziel para mais dois Martírios.
Segue Ratziel para as duas últimas etapas de seu Retorno Aos Subterrâneos.
Seis horas, quinze minutos, sete segundos e nove milionésimos de segundos: O Dragão Caminha...



Inominável Ser
DRACONIANO


Publicado originalmente em: A Cova Da Prosa Inominável - Projeto C.O.V.A.








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