domingo, 25 de janeiro de 2009

A Amável Dança De Um Carinhoso Mestre


- Vou lhes falar da lenda dançarina que toma conta de nossos corpos quando estamos em união além do que a Humanidade conta de amores e ódios. Vou lhes falar do que se submete aos nossos olhares e passa despercebido, o que está diante das ações e reações dos zumbidos dos variados e variáveis horizontes de regiões desconhecidas de nosso humano olhar. Houve um homem, Pietrus Augustus van Borhmann, que em 1566 ousou contatar Aqueles Que Dançam Nas Lâminas Das Esferas Da Música Do Ar. Sua sede de poder, pelo poder que se esconde de nós porque somos covardes existencialmente quando vemos que podemos crescer mais do que já crescemos em termos de experiência e conhecimentos, o fez abordar as Forças Musicais Ativas Da Criação. Não faço deste relato a narração de uma loucura, de um sonho, de uma fantasia, de um autor de histórias ou um ocultista, Pietrus era mais do que isso, era um gênio inclassificável, um Ser dotado da mais pura essência realizadora dos ermos instantes de luzidias paragens iluminantes de mentes. Pietrus, O Dançarino, famoso fora pelas ruas do que hoje conhecemos como Deutsch, ou seja, a Alemanha; vinha de uma desconhecida família, que diziam ser de origem cigana, que estabeleceu-se em Paris no ano de 1608, tendo sua descendência se espalhado pela Europa através da riqueza que obtiveram. Pietrus era conhecedor de todas as ciências de então, sem nunca ter lido um livro, sem nunca ter ido a uma escola, sem nunca ter trocado idéias com os mestres de então; nascera já com o dom de saber das coisas que no mundo estavam à sua espera e ele desenvolveu sua genialidade ainda mais, em uma crescente onda de criações em Literatura, Pintura, Música, Arquitetura e todas as artes que a Europa conhecia àquela época. Os reis e rainhas o solicitavam para trabalhos em seus castelos; os nobres e homens da igreja também tinham-no em consideração como um mestre raro; Pietrus, assim, tornou-se um cigano, circundando toda a Europa com a sua fama e fortuna, com a sua fascinante carga de inspirações e criatividade absurdamente elevada. A Dança era para ele uma forma de expressão mágica, um conjunto arquetípico de contatos do corpo humano com as auroras ocultas e desconhecidas que se apresentam no Ar que respiramos e não tragamos como o Ar que deve ser tragado. Criador de danças várias, desconhecidas neste nosso tempo, contam os livros mais raros a citarem-no que foi, talvez, o maior dançarino de todos os tempos deste mundo. Por que hoje suas obras não estão vivas? Por que hoje os livros que temos à nossa disposição não falam nele? Por que a Internet não o cita em sites de Arte, de Música, de Arquitetura e até na Wikipedia? Por que desapareceu do mundo toda a obra deste grande gênio da Humanidade? Naquele ano de 1566, Pietrus tornou-se Arahamafraadhataraermagun; não me perguntem o que significa Arahamafraadhataraermagun, pois todos aqui devem compreender Arahamafraadhataraermagun fora do que a estranheza de uma denominação como Arahamafraadhataraermagun passa ao nosso conhecimentos tão distante do conhecimento de Arahamafraadhataraermagun. Arahamafraadhataraermagun, Pietrus, um dançarino e uma dança que banida foi da Europa e do folclore, uma dança que naquele ano de 1766 fez o sangue de várias aldeias correr dançante na lâmina de uma cimitarra manejada por um dançarino de rubro traje, rubra capa, olhos cobertos por um rubro tecido, cabelos ruivos soltos, volumosos e grandes, dançantes pelo ar. Arahamafraadhataraermagun, Arahamafraadhataraermagun, Arahamafraadhataraermagun, os raros livros que citei e que falam de Pietrus contam que Arahamafraadhataraermagun, o dançarino que ele se tornou, hipnotizava multidões com sua dança e utilizava a cimitarra para fazer dançar na lâmina desta o sangue de homens, mulheres, idosos e, até, crianças, recém-nascidas dentre muitas delas. Nada tocava, mas seus movimentos faziam ecoar uma música que os poucos que conseguiram afastar-se de sua influência e sobreviveram à sua cimitarra relataram com terror e estremecimento às autoridades. E estas, dos países nos quais Arahamafraadhataraermagun andou a fazer o sangue humano dançar na lâmina de sua cimitarra, organizaram uma cruzada em perseguição a ele, que percorria o continente europeu dançando e fazendo sangue humano dançar em na lâmina de sua cimitarra com a rapidez do cair de bilhões de raios na Terra de uma vez. Aos 25 de janeiro de 1567, após Arahamafraadhataraermagun ter feito dançar na lâmina de sua espada o sangue de 143.525 habitantes do continente europeu, de norte a sul de toda a extensão deste, foi morto pela tropa de Benedictus de la Fiore nas ruas de Roma, após ser estocado pelo corpo todo pelos duzentos homens da tropa deste várias vezes, continuando a dançar e a tentar matar os que estavam em seu redor, sem sucesso, já que um mago desconhecido descobrira o mistério da Dança Sangrenta De Arahamafraadhataraermagun e aniquilara o poder hipnótico da mesma com os seus arcanos instrumentos de poder mágico. Morto após sete horas sendo estocado pelo corpo, o cadáver de Pietrus Arahamafraadhataraermagun foi desmembrado e cada parte de seu corpo foi lançada em diferentes locais da Europa, a céu aberto, a mando do mago que auxiliara os cruzados que, abençoados pela Igreja e sustentados pelos nobres, perseguiram-no com afinco e vigor. A Igreja ordenou que todas as obras de Pietrus Arahamafraadhataraermagunfossem queimadas, assim como qualquer referência a ele em livros fosse apagada; isso explica o porquê de tal gênio desconhecido de todos vocês e da maioria da Humanidade hoje não ser conhecido. Alguns poucos, no entanto, conservaram pequenos trechos da obra de Pietrus Arahamafraadhataraermagun nas sombras, trechos estes encontráveis nos raros livros que citei antes como os únicos que citam-no como existente e caminhante na Terra. Vou declamar um poema escrito em latim aos 12 de dezembro de 1766, há um mês da última dança dele ocorrer, que eu encontrei em um desses raros livros que adquiri em uma viagem que fiz à Bonn no ano de 1986. O poema chama-se A Dança De Ouro Do Ar, que adaptei aos termos que hoje conhecemos para que vocês possam compreender o que ele diz de um modo fluente e claro.


A Dança De Ouro Do Ar


trago meu coração

arrancado da pulsão

do meu medo de então


Arahamafraadhataraermagun

dança arrancando

meu coração


Arahamafraadhataraermagun

dança arrancando

meu medo


Arahamafraadhataraermagun

dança arrancando-me

do sonho do agora


meu coração encontrou

o ouro da rosa

e roubou sua seiva


meu coração encontrou

a busca da rota

e rasgou sua seda


meu coração encontrou

a totalidade do sangue

e sugou suas redes


meu sangue cala

e o sangue deles

grita n'alma minha


meu sangue se tornou

o ouro do ar

e eu danço nesse ouro


meu sangue se tornou

o sangue deles

e eu danço nesse sangue


meu sangue se tornou

o sangue de

Arahamafraadhataraermagun


meu sangue se tornou

o sangue deles

e eu quero dançar


dançar com eles

no sangue de

Arahamafraadhataraermagun


dançar com

Arahamafraadhataraermagun

no sangue deles


o Ar conta

cada gota de sangue

minha e deles


o Ar dança

com seu ouro em

Arahamafraadhataraermagun



- Professor, esse Araha... Araha...

- Arahamafraadhataraermagun, Lúcia Helena.

- É, isso aí! Ele era um Demônio?

- Impossível, Lúcia Helena, Demônios são fantasias.

- Mas, professor, se a própria Igreja crê nos Demônios e na Internet há sites que falam de Demônios e do que eles são capazes, porque o senhor diz que Demônios não são reais?

- Eu não disse que não sejam reais, Lúcia Helena, disse que são fantasias. As fantasias dançarinas de Pietrus geraram Arahamafraadhataraermagu, que não é um Demônio típico, fora de um ser humano, que o possua, mas, sim, uma fantasia que a própria magia da fantasia interior dele fez com que se manifestasse daquela forma sanguinária. Pietrus Arahamafraadhataraermagun sonhou que era Arahamafraadhataraermagun e Arahamafraadhataraermagun sonhou que era Pietrus, ação e reação, movimento e contra-movimento, atitude e alcance, altitude e latitude, horizonte e verticalidade.

- Isso é complicado, fessor...

- Não depois de vocês estudarem as vinte e duas páginas do resumo da história de Pietrus Augustus van Borhmann que lhes dei hoje. Quero uma avaliação pessoal do que lerem para semana que vem, sem falta. Agora, o recreio já está chegando, podem sair, mas com calma e sem correria.



- Isso é Antropologia ou aula de História?

- Ah, cala a boca, Valéria, vê se lê o texto do professor Kayo e faz a análise!

- Analisar a vida de um psicopata, Lúcia Helena? Ah, foda-se, eu tenho mais o que fazer no Orkut!

- O Orkut não vai te dar nada de sábio, Valéria...

- E você, que nem direito sabe interpretar o que o "professor querido Kayo" diz, está alcançando a sabedoria?

- A Lúcia está apaixonada pelo professor Kayo, Valéria.

- Cala a boca, Eduardo! Quem te chamou aqui?

- Ei, Lúcia, dá um tempo aí! Aqui no colégio todo mundo já sabe!

- Já sabe DE QUÊ, Jaime?

- Da sua paixão pelo professor Kayo!

- Vá tomar no cu, Jaime!

- Lúcia, quem não se apaixonaria por aquele gato? Até eu...

- Viviane, não força, tá bem?

- Forçar o quê, Lúcia, todas as meninas deste colégio estão apaixonadas por aquele gostoso, que voz, que olhos, que pernas, que coxas...

- Como se ele fosse olhar para nós...

- Ele não tem namorada e nem é casado, a Fernanda, que trabalha na contabilidade aqui do colégio me disse isso ontem.

- Ele mora onde?

- Se interessa onde ele mora, Lúcia? Não deu a entender que não está apaixonada por ele?

- É que...

- Bem, a Fernanda pediu para o Juliano, aquele gatinho de ombros largos e bundinha empinada que é secretário da diretora, para ver a ficha dos professores em uma hora de pouco movimento na semana passada. Ele vasculhou os arquivos e descobriu muita coisa dele.

- Fala logo, Valéria!

- Calma aí, Ohara, eu vou falar!

- Ih, porra, tu faz um mistério...

- Alanis, fica quietinha aí, tá? Já te meti a porrada semana passada por ter paquerado o Joaquim do segundo ano que eu estava de olho!

- E você que paquerou o Robert do terceiro ano que eu estava de olho?

- Eu te deixei toda roxa, sua piranha...

- E eu mordi a sua...

- Porra, Valéria e Ohara, parem com isso! Caralho, Valéria, conta logo o que a Fernanda te falou!

- Que nervosinha tu tá, Lúcia...

- Valéria...

- Agora não vou contar nada!

- Quê?

- É isso mesmo, não vou contar, nem aqui, nem no MSN, nem no Orkut!

- Sua vaca!

- Vaca é a sua mãe, Lúcia!

- Quê?

- Vai brigar comigo também, Lúcia?

- Não tenho medo de você, Valéria, apenas porque faz Jiu Jitsu! Eu faço Capoeira desde os quatro anos de idade, quer ver quem bate ou apanha mais?

- Ai, que meda! Me segura agora, Tadeu, senão ela pode me fazer desmaiar!

- Meninas, parem com isso, essas brigas de vocês, quase toda semana já estão sendo coisas que incomodam a escola toda.

- Foi ela que começou, Tadeu, xingando a minha mãe!

- Foi você, Lúcia, que me chamou de vaca!

- Mesmo assim, parem, eu já separei você, Valéria, e a Ohara, semana passada, e quase que levo uma dentada das duas lá...

- Isso foi engraçado de ver!

- Foi, sim...

- E, então, Lúcia, mais calma?

- É que essa idiota...

- Idiota é a mãe, sua...

- Olha ela de novo, Tadeu!

- Vocês não tem mais jeito... Conversam todo dia, brigam toda semana, reatam na semana seguinte... Valéria, vai falar do professor Kayo agora?

- Até tu, Tadeu, apaixonado por ele?

- Ele é um gato mesmo... E tem muito carinho conosco dando aula, é o único dos professores daqui que eu considero como excelente; dizem que ele é considerado academicamente como um dos melhores do mundo. E, ainda por cima, a calça mostra que ele é bem-dotado...

- E o seu namorado, o Ângelo?

- Ex-namorado, Valéria, ex-namorado...

- Brigaram?

- Brigamos, Lúcia, ele me traiu com um tenente da Polícia lá do Méier...

- Viado filho... Desculpa, Tadeu, desculpa...

- Nada, Valéria, eu também o xinguei assim...

- Vou montar uma comunidade no Orkut dedicada a foder com aquele idiota!

- Não, deixa prá lá... Nos conte do que descobriu dele, conte!

- O que cada um aqui vai me dar?

- Quê?

- Claro, Lúcia, eu tenho que ganhar algo!

- Tá brincando, não tá, Valéria?

- Estou falando sério, Lúcia! Acha que eu vou contar de graça detalhes da vida do professor mais gostoso do Brasil e um dos homens mais deliciosos do mundo?

- Tu é doida mesmo, Valéria, DOIDA!

- Ohara, lembra do peso da minha mão...

- Valéria, lembra do chute que te dei na xaninha...

- Valéria, que história de querer algo em troca do que descobriu do professor Kayo é essa?

- Lúcia, PELO AMOR DE DEUS, entenda que eu NUNCA faço nada de graça, tenho que ganhar algo sempre, tendeu, miguinha? Tenderam, miguinhos?

- E é Emo ainda por cima...

- Emo é o caralho, Ohara!

- Valéria, eu não vou te dar NADA!

- Tá bem, Lúcia, então eu não conto NADA!

- Eu não queria mesmo saber NADA, Valéria! Você pensa que eu sou igual a você em relação aos meninos e aos homens? Fico mais na minha, garota, e nem sei porque ando e saio contigo!

- Tá me chamando de piranha, Lúcia?

- Se entendeu o que eu disse...

- Você deve ser virgem...

- Antes ser virgem do que uma vagaba como você!

- Vagaba é a puta velha da tua mãe!

- Valéria, Lúcia...

- Deixa, Tadeu, deixa!

- Jaime, me larga!

- E deixar que estrague a primeira briga de verdade da escola? Ah, isso não, vem prá cá!

- E tu também, Ohara, vem!

- Me solta, Viviane!

- Vai querer apanhar também das duas, vai?

- Te dou uma porrada no meio da cara se não largar o meu peito, sapatona! Eu gosto é de homem!

- Que pena, você é uma gatinha bem gostosinha... Deixa eu dá uma apertadinha neles...

- SAI PRÁ LÁ, PORRA!!!

- Minha mãe é o quê, Valéria?

- Uma vagaba!

- A tua é uma santinha, cheia de amantes pelo Leblon...

- Seu pai é um corno!

- O seu pai se matou por causa da vagabunda da sua mãe!

- O meu pai se matou porque...

- Por causa dos chifres que a sua mãe punha nele, até com o jornaleiro da esquina da sua rua!

- Sua desgraçada!

- Desgraçada é você, sua burra! Não sabe nem fazer uma conta simples de Matemática direito!

- E você se acha um gênio apenas porque é todo ano o primeiro lugar no quadro de honra da escola?

- Isso é para quem pode, sua burra, eu estudo, eu me esforço, e não fico me esfregando nos homens em discotecas, clubes, praias e piscinas!

- Você tem inveja de mim, queria ter a minha bunda, os meus cabelos, os meus peitos, as minhas pernas!

- Você, Valéria, seria uma excelente aquisição na Vila Mimosa, vá prá lá, piranha, vá!

- Eu vou te detonar, te estrangular, cachorra!

- Você é que é a cachorra, a eterna cachorra no cio!

- Vou te arrebentar, sua filha-da-puta!

- Tenta, cachorra, TENTA!

- Já arrebentei metade das meninas da minha rua e daqui da escola, eu vou te triturar, filha-da-puta!

- Nunca brigamos prá valer, mas eu te garanto que eu é que vou te triturar, sua cachorra!

- Com Capoeira? Eu também sei lutar Capoeira!

- Sabe? Então, vai apanhar bastante, mais do que eu ia te bater, sua cachorra! Vi as suas brigas, sua cachorra, e a sua técnica é uma merda, apenas bateu naquelas meninas porque estas não sabiam lutar, mas comigo vai ser diferente!

- Tão diferente quanto foi você menstruar no meio da sala no ano passado, sua vaca ressentida!

- Sua nojenta, eu estou para te devolver aquela cabeçada que me deu no mês passado há muito tempo!

- Aquilo foi um aviso para você parar de tentar me dar "conselhos", Lúcia! Não preciso de outra mãe, ainda mais uma fracassada ressentida que quer dar o cu para um professor daqui e se finge de santinha com a buceta toda molhadinha quando ouve o "belo professor Kayo" falar!

- VADIA!!!


O chute giratório de Lúcia, de esquerda, arremessa a três metros de distância o corpo de Valéria, que rasga todo o uniforme, arranha-se toda, perde quatro dentes da arcada superior e quebra o nariz ao bater com o rosto ao solo. Lúcia ginga e os alunos todos no pátio começam a gritar "PORRADA!!! PORRADA!!! PORRADA!!!" Valéria levanta e começa a gingar também, entre suas aulas de Jiu Jitsu, no qual é faixa preta, 2º nível, ela teve algumas aulas de Capoeira desde os nove anos de idade. As duas se aproximam gingando e, antes que os inspetores e a diretora do Centro De Educação Federal São Sebastião, localizado no Centro do Rio de Janeiro, 1.659 alunos apenas na parte da manhã, 3.086 alunos no total dos três turnos, cheguem ao pátio, as duas já iniciaram uma briga que incendeia o pátio da escola e aumenta os gritos dos demais alunos! Em três minutos, apenas, as duas já estão caídas; Valéria perdeu mais cinco dentes; Lúcia quebrou o braço esquerdo e teve o supercílio esquerdo cortado, sangrando abundantemente. Antes que a diretora, Marcela Tavares Velasquez, diga uma palavra, acompanhada dos sete inspetores da manhã da escola, que tem que passar pelos alunos com dificuldade, que formaram um círculo para assistirem à briga, um dançarino de rubras vestes, rubra capa, rubro leço cobrindo os olhos, cabelos ruivos até a cintura e cimitarra na mão esquerda começa a dançar perto das duas briguentas, atraindo a todos, hipnotizando a todos...


Lúcia, com o sangue encobrindo seu olho esquerda, para de ofegar e até de respirar, como todos os demais. A dança segue um ritmo que faz o ar dançar em correntes de hipnóticas ondas cativantes até dos mais insensíveis presentes no pátio... Não se perguntam: "QUEM É O DANÇARINO?". Não dizem uns aos outros: "ELE DANÇA MUITO BEM". Não perguntam uns aos outros: "É MAIS UMA APRESENTAÇÃO FOLCLÓRICA NA ESCOLA?". Cessados os pensamentos, a dança do rubro dançarino os hipnotiza roubando-lhes os pensamentos. Cessadas as palavras, a dança do rubro dançarino hipnotiza-lhes roubando-lhes as vozes. A rubra dança seguindo a todos pelo ar... Os olhos de todos seguindo o rubro dançarino pelo ar... Não se mexem. Não conseguem se mexer. Lúcia ergueu-se, está em pé, à frente de Valéria. As duas não sentem mais raiva uma da outra, não querem continuar a brigar. A diretora e os inspetores da escola não chegaram a falar com elas, hipnotizados estão a fitar a dança, a rubra dança, do rubro dançarino. Jaime, Viviane, Tadeu, Ohara, hipnotizados, estáticos, assistindo, como os demais 1.653 alunos do Centro De Educação Federal São Sebastião, na parte da manhã, ao rubro dançarino dançar pelo pátio de 455 m2... O rubro dançarino se aproxima de Lúcia. O rubro dançarino parece ter o ar guiando-o até Lúcia. O rubro dançarino pula, rodopia, bate os braços no cabo da cimitarra, atirando-se qual um aríete bem governado em direção à Lúcia. O rubro dançarino chegando perto de Lúcia... O rubro dançarino, seguindo o ar, chegando perto de Lúcia... O rubro dançarino, girando a cimitarra no ar, chegando perto de Lúcia... O rubro dançarino, dominando o ar, chegando perto de Lúcia... O rubro dançarino, dominando a sua rubra dança, chegando perto de Lúcia... A rubra dança... O rubro ar... O rubro dançarino chega perto de Lúcia... A rubra dança perto de Lúcia... A rubra dança... A cimitarra...


Lúcia volta a si.


Lúcia sente a dor do supercílio cortado.


Lúcia sente a dor do braço quebrado.


Lúcia sente um frio desconhecido em seu abdômen.


Lúcia olha para baixo e vê apenas uma mão esquerda segurando o cabo de alguma espada que ela não identifica o tipo.


Lúcia olha para cima e vê o rubro tecido encobrindo os olhos do rubro dançarino.


Lúcia sorri.


Lúcia, com 1, 34 m. da lâmina de uma cimitarra tendo seu estômago atravessado sorri.


Lúcia sorrindo, aproxima-se dos lábios do rubro dançarino.


Lúcia, sorrindo, beija delicadamente os impassíveis lábios do rubro dançarino.


Lúcia continua a sorrir quando o rubro dançarino retira de seu abdômen a lâmina da cimitarra.


Lúcia, sorrindo, é decapitada pelo rubro dançarino...


E ele continua a dançar!


E ele continua a rubramente dançar!


E ele continua, rubro, a dançar!



Ele continua, rubro, a dançar, pelo pátio do Centro De Educação Federal São Sebastião!


E se aproxima de Valéria...


Lúcia, que sorrindo foi decapitada, finalmente realizara seu mais íntimo sonho de adolescente mui solitária: beijara o seu amado e carinhoso mestre, o professor Kayo, o mais querido professor da escola, o mais belo dos professores de que se tem notícia em uma escola brasileira e do mundo.


A Rubra Dança continua!


A Rubra Dança a hipnotizar, continua!


A Rubra Dança, do rubro dançarino, continua!


E Kayo Arahamafraadhataraermagun, O Rubro Dançarino, se aproxima de Valéria...



Inominável Ser

RUBRO DANÇARINO








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