segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Alvos Mares De Cadáveres



Era sempre uma vantagem caminhar durante os dias solares nesta praia tão erradamente cuidada agora. Cuidar de uma praia exige um ato reservado ao esplendor de determinado amor realizável dentro de determinados tipos de paragens. Uma paragem azulada denota uma calmaria n'alma que mais se parece com as diretrizes de uma paragem alva. Alvuras são as insistentes semelhanças minhas, desde criança, com a existencialidade, eu sempre vi todas as pessoas como alvas, não na pele, mas n'alma. Alvas no sentido não de serem puras, mas de possuirem uma luz que poderia ser melhor exposta se a alvura se revelasse de um modo apropriado. Berrei muito nesta praia quando de minha infância, brincando com os meus amigos, todos eles alvos, demonstrando que suas alvuras são definitivas margens de mares melhores do que os mares que não estão perto deste. Deste mar que já bem mais bonito... Criança, eu costumava nadar aqui com os meus alvos amigos... Como é da mais engraçada vestimenta agora tecer uma memória de eventos que ocorreram em uma época dourada de meu existir em uma negra época de negros existires... Já nadei muito aqui, neste mar, como já brinquei nas areias desta praia com meus alvos amigos... Alvas meninas, alvos meninos, todos os meus amigos... Eu queria compreender... Queria... Compreender, mesmo... Isso me aterroriza... Isso me choca... Isso me retira da sanidade pouca que em mim se encontrava, os mares da loucura cercam-me nas areias das mentais praias! Meus alvos amigos, alvas mulheres, alvos homens... Por algum Deus... Por algum Demônio... Pelo Nada, enfim... Eles, todos eles, formam agora alvos mares de cadáveres...


As ondas dos corpos inertes deles batem em meus pés agora, mas eu preciso continuar caminhando, tenho que sair daqui desta praia, não posso... Aquele corpo é o da... O nome dela... O nome dela?



- Você, seu nome é...?

- Alvo cadáver.

- Não, seu nome era...

- Alvo cadáver.

- Não...

- Alvo cadáver.

- Espere, seu nome é...

- Alvo cadáver.

- Que houve aqui na praia?

- Alvo cadáver.

- O mar de antes, o que houve com ele?

- Alvo cadáver.

- Pare de me responder apenas isso, o que houve com o mar daqui de antes, O QUE HOUVE COM O ANTIGO MAR DAQUI DE ANTES???

- Alvo cadáver.

- Você, você...

- Alvo cadáver.

- Você é... era...

- Alvo cadáver.



Não há sucesso nenhum em dialogar com uma cadáver, aqui tem que haver uma explicação para o que houve! Era sol sempre aqui, sempre! Nós tinhamos sorrisos aqui, gargalhadas aqui, sonhávamos aqui! Os nados das minhas alvas amigas eram da sublime fonte dos nados maiores, os nados maiores que existem neste mundo! Os nados dos meus amigos eram tão sublimes quanto os delas, éramos nadadores experientes, não poder... Não choveu aqui ontem, eu estava aqui ontem... Eu estava aqui! Eu estava aqui! Todos eles me... Eu estava com todos eles, sorrindo, brincando, nadando... Hoje, é isso, cadáveres enroscados uns nos outros, passando diante de mar em um mar, um alvo mar de cadáveres... É mais de um mar, mais de um mar, estou pisando em cadáveres... Não conheço estes... Não reconheço estes... Talvez um deles saiba me dizer o que houve aqui e em todos os mares!



- Senhor, o que aconteceu nos mares?

- Alvos cadáveres.

- Senhor, por favor, eu quero saber o que houve nos mares!

- Alvos cadáveres.

- Senhor, quero saber, senhor, QUERO SABER!!!

- Alvos cadáveres.

- Aqui, senhor, o senhor esteve ontem aqui?

- Alvos cadáveres.

- De onde o senhor é, por favor, ME DIGA!!!

- Alvos cadáveres.

- Não o vi aqui ontem...

- Alvos cadáveres.

- Senhor, como esses cadáveres surgiram aqui, COMO???

- Alvos cadáveres.

- Como, senhor...

- Alvos cadáveres.

- Como...

- Alvos cadáveres.



Cadáveres, alvos cadáveres, estou conversando novamente com cadáveres... Por que eles me respondem? Eu estou em algum pesadelo? Eu estou em qualquer mundo longe do meu mundo? Por que eles me respondem? Não abrem os olhos, não abrem os lábios, mas todos estão murmurando a mesma coisa agora... Alvos cadáveres... Alvos cadáveres... Alvos cadáveres...



- Não procure a última resposta e nem a primeira da terceira proposta.

- Ma...

- Shhh... Eu estou morta, não adianta mais me nomear enquanto muita areia anda a encobrir-me neste mar.

- Que houve aqui nesta praia, neste mar?

- Não sabes ainda, meu alvo amigo?

- Não sei do que...

- Não sabes mesmo, meu alvo amigo?

- Ma...

- Shhh, alvo amigo... Shhh... Já lhe disse que a importância do meu nome agora se perde nas areias deste mar que me encobrem...

- Você está entre cadáveres, e eu te...

- Shhh, alvo amigo... Shhh, não relembre... Shhh, não me toque... Shhh, escute...

- Eu escuto o balanço dos corpos, essas ondas de cadáveres a chocarem-se, parece-me que são...

- Todos daqui, todos de lá, todos de acolá... Alvos, todos alvos do Alvo Mundo... Escute ecoar... Escute...

- Os ecos dos cadáveres é o que eu escuto, alva amiga...

- Shhh, escute... Feche seus olhos... Feche...

- Se eu fechar os meus olhos, a vocês eu vou me juntar...

- Shhh, feche e escute... Shhh, feche os seus olhos e escute...

- Não quero fechar os meus olhos...

- Shhh, escute...



A jangada saiu
Com Chico Ferreira e Bento
A jangada voltou só

Com certeza foi lá fora, algum pé de vento
A jangada voltou só...

Chico era o boi do rancho
Nas festa de Natar
Chico era o boi do rancho
Nas festa de Natá

Não se ensaiava o rancho
Sem com Chico se contá
E agora que não tem Chico
Que graça é que pode ter

Se Chico foi na jangada...
E a jangada voltou só... a jangada saiu
Com Chico Ferreira e Bento
A jangada voltou só
Com certeza foi lá fora, algum pé de vento

A jangada voltou só...
Bento cantando modas
Muita figura fez
Bento tinha bom peito
E pra cantar não tinha vez

As moça de Jaguaripe
Choraram de fazê dó
Seu Bento foi na jangada
E a jangada voltou só



- Quem está cantando isso?

- Alvos cadáveres.

- Quem está cantando isso?

- Alvos cadáveres.

- Quem está cantando?

- Alvos cadáveres.

- Ma...

- Alvos cadáveres.

- Alva amiga, eu sempre te...

- Alvos cadáveres.

- Você sempre era a que mais conversava comigo, eu te...

- Alvos cadáveres.

- Ma...

- Alvos cadáveres.

- Ma...

- Alvos cadáveres.



O pescador tem dois amor
Um bem na terra, um bem no mar

O bem de terra é aquela que fica

Na beira da praia quando a gente sai
O bem de terra é aquela que chora
Mas faz que não chora quando a gente sai
O bem do mar é o mar, é o mar
Que carrega com a gente

Pra gente pescar



- Por que estão cantando isso?

- Alvos cadáveres.

- Por que isso de cantar?

- Alvos cadáveres.

- Ma...

- Alvos cadáveres.

- Isso não está certa, me explique O QUE ESTÁ ACONTECENDO, POR FAVOR!!!

- Alvos cadáveres.



Minha jangada vai sair pro mar
Vou trabalhar, meu bem querer
Se Deus quiser quando eu voltar do mar
Um peixe bom eu vou trazer

Meus companheiros também vão voltar
E a Deus do céu vamos agradecer

Adeus, adeus
Pescador não se esqueça de mim
Vou rezar pra ter bom tempo, meu bem
Pra não ter tempo ruim
Vou fazer sua caminha macia
Perfumada com alecrim



- Eu, eu...

- Alvos cadáveres.

- Eu...

- Alvos cadáveres.

- Alva amiga, ontem, ontem...

- Alvos cadáveres.

- Ontem ou naquele dia, nós todos...

- Alvos cadáveres.

- Me ouça, fale comigo novamente, Ma...

- Alvos cadáveres.

- Ma...

- Alvos cadáveres.

- Fale comigo, por favor...

- Alvos cadáveres.



Quando se for esse fim de som
Doida canção
Que não fui eu que fiz
Verde luz verde cor de arrebentação
Sargaço mar, sargaço ar
Deusa do amor, deusa do mar
Vou me atirar, beber o mar
Alucinar, desesperar
Querer morrer para viver com Iemanjá
Iemanjá, odoiá...



- Eu...

- Alvos cadáveres.

- Eu...

- Alvos cadáveres.

- Eu...

- Alvos cadáveres.

- Ma...

- Alvos cadáveres.

- Ma...

- Alvos cadáveres.

- Ma...

- Alvos cadáveres.



É doce morrer no mar
Nas ondas verdes do mar
É doce morrer no mar
Nas ondas verdes do mar


A noite que ele não veio foi
Foi de tristeza prá mim
Saveiro voltou sozinho
Triste noite foi prá mim


É doce morrer no mar
Nas ondas verdes do mar
É doce morrer no mar
Nas ondas verdes do mar


Saveiro partiu de noite foi
Madrugada não voltou
O marinheiro bonito
Sereia do mar levou


É doce morrer no mar
Nas ondas verdes do mar
É doce morrer no mar
Nas ondas verdes do mar


Nas ondas verdes do mar meu bem
Ele se foi afogar
Fez sua cama de noivo
No colo de Iemanjá


É doce morrer no mar
Nas ondas verdes do mar
É doce morrer no mar
Nas ondas verdes do mar



- NÃO, EU NÃO VOU FAZER PARTE DESTE MAR, EU NÃO VOU, EU VOU SAIR DAQUI, EU VOU SAIR DAQUI, EU VOU SAIR DAQUI!!!



NÓS TE CHAMAMOS

NÓS TE CONQUISTAMOS

NÓS TE ENVOLVEMOS

ABRAS TEUS BRAÇOS

E NOS RECEBAS

NADES CONOSCO

COMO PARTE

DA MARÍTIMA ALVA

CADAVÉRICA REALEZA



- EU NÃO ESTOU MORTO, EU NÃO ESTOU, NÃO ESTOU!!! EU VOU CORRER, EU VOU SAIR DAQUI, EU VOU SAIR DAQUI, EU VOU SAIR DAQUI!!!



ENTREGUE-SE

NÓS TE AMAMOS

ALVO IRMÃO

ENTREGUE-SE

NÓS TE QUEREMOS

ALVO IRMÃO

ENTREGUE-SE

NÓS TE DESEJAMOS

ALVO IRMÃO



- VOCÊ NÃO SÃO MEUS ALVOS AMIGOS!!! EU NÃO CONHEÇO VOCÊS, EU NÃO SEI QUEM SÃO VOCÊS, EU NÃO SEI!!! EU VOU SAIR DAQUI, EU VOU SAIR, EU VOU SAIR!!!



NÓS TE AMAMOS

ALVO IRMÃO

NÓS TE AMAMOS MUITO

ALVO IRMÃO

NÓS TE AMAMOS

ALVO IRMÃO

TE AMAMOS

TE AMAMOS

TE AMAMOS



- NÃO, NÃO, NÃO!!! NÃO ESTOU MORTO, NÃO POSSO ESTAR MORTO, EU NÃO QUERO ISSO, NÃO QUERO ISSO, NÃO QUERO ISSO!!! EU VOU SAIR DAQUI, EU VOU SAIR!!!



A SAÍDA É UNIR-SE

A NÓS

A SAÍDA É FICAR

CONOSCO

A SAÍDA É FAZER PARTE

DESTES ALVOS MARES

DE CADÁVERES

QUE TE COMPREENDEM

E QUE TE AMAM



- NÃO, NÃO, NÃO, NÃO!!! EU VOU SAIR DAQUI!!! EU VOU SAIR DAQUI!!!



ANULE-SE

PARA PODER NAVEGAR

CONOSCO

NÓS TE COMPREENDEMOS

NÓS TE AMAMOS

NÓS NOS ANULAMOS

UNS PELOS OUTROS

E NAVEGAMOS GOZANDO

DA EXISTÊNCIA RESISTENTE

DAS ONDAS QUE FORMAMOS



- VOU SAIR DAQUI, VOU SAIR!!! VOCÊS NÃO PODEM ME PRENDER AQUI, ESTÃO MORTOS, TODOS VOCÊS, TODOS VOCÊS!!! EU VOU SAIR, SIM, EU VOU SAIR, EU VOU SAIR!!!



NÃO HÁ SAÍDA

ALVO IRMÃO

NÃO HÁ UMA SAÍDA

ALVO IRMÃO

NÃO HÁ UMA SEGUNDA

SAÍDA

ALVO IRMÃO

NÃO UMA TERCEIRA

SAÍDA

ALVO IRMÃO

ACEITES NOSSA

MÃO

ACEITES NOSSO

CORAÇÃO



- HÁ, SIM, UMA SAÍDA!!! HÁ...

- Deite-se.

- SOLTE-ME!!! SOLTE-ME!!!

- É um prodigioso privilégio estar aqui conosco.

- SOLTEM-ME!!!

- Asseguramos que tuas dores e alegrias serão esquecidos em nome do que somos.

- VOCÊS NÃO TEM O DIREITO DE ME ATAR AO QUE SÃO, EU NÃO QUERO, EU NÃO QUERO, EU NÃO QUERO!!!

- Cante conosco todas as canções do mar.

- VOCÊS NÃO PODEM ME PRENDER AO QUE SÃO, EU NÃO ESTOU MORTO, EU NÃO ESTOU MORTO!!!

- Renda-se, nós estamos bem assim como aqui estamos.

- SOLTEM-ME!!! SOLTEM-ME!!! Soltem-me... Soltem-me...

- Abrace-nos.

- Soltem-me...

- Venha, nos ame.

- Soltem-me...

- Corrija-se, venha para o caminho correto.

- Soltem-me...

- Nos ame.

- Soltem-me...

- Sejas amor conosco.

- Soltem-me...

- Navegue conosco com amor.

- Soltem-me...

- Colhas em nossas ondas mais amor.

- Soltem-me...

- Morras conosco nadante em nosso amor.

- Soltem-me...

- Alvos cadáveres.

- Soltem-me...

- Alvos cadáveres.

- Por favor, soltem-me...

- Alvos cadáveres.

- Estou vivo, soltem-me...

- Alvos cadáveres.

- Vivo...

- Alvos cadáveres.

- Vivo, estou vivo...

- Alvos cadáveres.

- Vivo, eu estou...

- Alvos cadáveres.

- Vivo...

- Alvos cadáveres.

- Vivo, vivo, VIVO!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

- Alvos cadáveres.

- VIVO!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

- Alvos cadáveres.

- VIVO!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

- Alvos cadáveres.

- VIVO!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

- Alvos cadáveres.

- VIVO!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

- Alvos cadáveres.

- Eu vivo, deixem-me ir...

- Alvos cadáveres.

- EU VIVO!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

- Alvos cadáveres.

- DEIXEM-ME IR EMBORA DAQUI!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

- Alvos cadáveres.

- Estou vivo...

- Alvos cadáveres.

- ESTOU VIVO!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

- Alvos cadáveres.

- Estou vivo...

- Alvos cadáveres.

- Estou vivo...

- Alvos cadáveres.

- Estou vivo...

- Alvos cadáveres.

- Estou vivo...

- Alvos cadáveres.

- Estou vivo...

- Alvos cadáveres.

- Eu sei que estou vivo...

- Alvos cadáveres.

- Eu sei que estou vivo...

- Alvos cadáveres.



ALVOS CADÁVERES

ALVOS CADÁVERES

ALVOS CADÁVERES

ALVOS CADÁVERES

ALVOS CADÁVERES

ALVOS CADÁVERES

ALVOS CADÁVERES

ALVOS CADÁVERES

ALVOS CADÁVERES

ALVOS CADÁVERES

ALVOS CADÁVERES

ALVOS CADÁVERES

ALVOS CADÁVERES

ALVOS CADÁVERES

ALVOS CADÁVERES

ALVOS CADÁVERES

ALVOS CADÁVERES

ALVOS CADÁVERES

ALVOS CADÁVERES

ALVOS CADÁVERES

ALVOS CADÁVERES

ALVOS CADÁVERES



- Por favor, deixem-me continuar vivo...



ALVOS CADÁVERES



Inominável Ser

ALVO CADÁVER










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O Terror Inominável. O Horror Inominável. A Loucura Inominável. A Cova Aqui É A Do Puro Pesadelo Das Covas Mais Profundas E Elevadas. Vozes Estranhas Aqui. Sons Estranhos Aqui. Palavras Estranhas Aqui. Estranhas E Inomináveis. Sintam-Se Conduzidos Pelo Carro Inominável Do Terror Inominável. Sintam-Se Conduzidos Pelo Carro Inominável Do Horror Inominável. Sintam-Se Conduzidos Pelo Carro Inominável Da Loucura Inominável.

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