domingo, 31 de maio de 2009

My Dying Bride - Heroin Chic (Ao Vivo)




Falling flat, falling on my face
Up yours you fucking basket case
Come on, come on, take a shot
Kick me, kicking you, kick the lot

Talk to you with a frightening blade
Hear me stalk through the 6th fucking grade
Bar wax clogging up your head
Maybe you're dumb, maybe you wanna be dead

Take a ride through a city tonight
Or we can stay here smoking shite

Fear grabs like a falling man
Unforgiving is its choking hand
Come on, come on if you've got the guts
Kill me now cause I don't give a fuck
in, out, baby I don't mind. Nice cunt. Nice behind
Groping around like a stupid kid

Bastards fucking everywhere
It's all I see, I can't help but stare
Talking crap and looking like a twat
See the blade. Feel the blade in your back

This night. This night is hot
Hope it rains. Hope it rains a lot
Everywhere suckers stop and stare

Fucking city's just a fucking mess
Up to its neck in fucking piss
Children playing with broken glass
Kill themselves for a laugh

Tired of being sold as meat
Whores give up beating on my meat
Actually, you know, I don't really mind
Too many scabs. Flesh is hard to find

Crime is here. Here to stay
Under pressure to admit you're gay
No money. No love. No luck
Tough shit, stupid, worthless fuck
Say you will. Say you won't. Say wou will

Shit and scum. Fucking pigs everywhere
Harassing me but I don't fucking care
I'm not free. They're always tying me down
Taking me. Taking me down town

Bitches. Yeah, I fucked my share
And their mothers cause I don't care
Say you will. Say you won't. Say you will
Talking shit. You want it up the hilt
Always feeling sick and always drunk
Raining at last, thank Christ you cunt
Do me now with your heroin chic
Say nothing more. Do not fucking speak

Calmly walk from slut to slut
Up everyone. You know I don't mind a fuck
No protection baby, who fucking cares
Take a look. Come on. Everyone stare

Life for life is just the way its at
I don't remember last time I laughed
Call my woman but she's never home
Killed everyone to use this fucking phone
Eye for an eye and all that shit
Rip you off cause I need a hit
Sit-down-now-I've-had-enough













Share:

domingo, 24 de maio de 2009

Aprisionado No Pesadelo Do Meu Quente Escuro Quarto



Me acalmo neste momento, se isto no qual estou pode acalmar-me em algum momento... Eu existia como uma fruta de uma árvore bem erguida, frutificando nas estações frias, morrendo nas estações amargas... Mas, agora... Não sei se faço uma oração ou amaldiçoadamente meto uma porrada no olho do cu dos que eu acreditava que me ajudariam a evoluir... Toda a minha raiva contra Eles... Todo o meu ódio contra Eles... E os olhos dos cus Deles amaldiçoados sejam... O olho do cu de Deus... O olho do cu dos Anjos... O olho do cu dos Santos... O olho do cu dos Órixas... O olho do cu de todas essas mentiras religiosas... Deus, Anjos, Santos, Órixas, toda a merda das "Falanges Da Luz" são Egrégoras, Vampiros, desgraças inúteis seguidas por pessoas tão inúteis quanto eu era antes disto... Antes de ficar aqui aprisionado... Tudo empenhei... Tanto lutei... Muito ganhei... Tudo perdi... Travas em meu redor... Correntes arrasto... Um gemido... Meu gemido... Este meu gemido... Aprisionado aqui agora neste meu quarto...


Aqui, tão quente...


Aqui, muito quente...


Aqui, bastante, demais, quente...


Escuro...


Muito escuro...


Algumas sombras dançam...


Algumas sombras sorriem...


Algumas sombras riem...


Riem de mim...


Zombam de mim...


Algumas sombras zombam de mim...


Posso ouvir o zombar delas...


Posso ouvir cada zombaria delas...


Posso ouvir a zombaria Dela...


Minha prisão aqui começou durante aquela madrugada, naquele pesadelo, no qual eu estava com os meus olhos abertos fora do corpo. Eu descansava de mais um dia de trabalho e algumas horas de lazer na escrita e na poesia minhas, minha mãe dormia no quarto ao lado. Era uma segunda-feira, um dia no qual eu sempre chegava mais cansado em casa do que normalmente chegava nos demais dias da semana. Acendi uma vela para "Santo Antônio" e firmei perto do portão da minha casa um ponto riscado para meu "protetor", o "pai" da minha "coroa", Exu; rezei para meu "Anjo-Da-Guarda" e fui dormir. Aquele pesadelo... Não, este pesadelo! Este pesadelo! Este pesadelo... Ele surgiu não sei de qual lugar, conhecido ou desconhecido, mas me vi em meu quarto e ouvindo a voz de minha mãe...



- Wallace...



Ela me chamava e eu ouvia, mas...



- Wallace...



Ela sussurava, me chamando, mas...



- Wallace...



Aqueles chamados dela, me preocupavam...



- Wallace...



Eu tentava acordar, mas...



- Wallace...



Eu queria acordar, mas...



- Wallace...



Sufocado...



- Wallace...



Eu estava ficando sufocado...



- Wallace...



Muito sufocado, eu não acordava!



- Wallace...



Por favor, isso se repete, não!



- Wallace...



Não acordava, ela me chamava, eu me preocupava, eu me sufocava!



- Wallace...



Sentia meu corpo balançar na cama!



- Wallace...



Sentia um peso em minha garganta!



- Wallace...



Sentia meu corpo congelar!



- Wallace...



Sentia mãos congelando-me o peito!



- Wallace...



Mãe, mãe, eu te ouvia, mas não acordava, não acordava!



- Wallace...



As mãos me congelavam, as mãos Dela!



- Wallace...



Não conseguia acordar, ouvia, ouvia, ouvia, apenas ouvia, a minha mãe me chamar!



- Wallace...



Queria acordar, eu queria acordar!



- Wallace...



Não conseguia, não conseguia, acordar!



- Wallace...



Eu estava sendo aprisionado!



- Wallace...



Ela estava me aprisionando!



- Wallace...



Ela me puxava para Seus braços!



- Wallace...



Ela...



- Wallace, meu filho...



Ela...



- Wallace, meu queridinho...



Ela...



- Wallace, vem cá com a mamãezinha querida, vem...



Você imitou a voz da minha mãe e me aprisionou aqui!



- Wallace, o que está acontecendo? Eu sou a sua mamãe!



Não, me liberte daqui, me liberte!



- Wallace, não quer ficar com a sua mamãe mais?



Você não é a minha mãe!



- Wallace, que feio, logo na frente dos outros está fazendo malcriação? O que vão pensar de ti, meu filhinho amado e querido?



Me liberte, Senhora, me liberte, eu clamo por liberdade, minha liberdade, por favor!



- Sou a sua mãe, Wallace, e eu te quero aqui mesmo.



Isso aqui não...



- Ah, Wallace, aqui vai ser para sempre a sua casa! Gostas dela, não gostas?



Quero...



- Não, Wallace, a mamãe não gosta de sol, aqui para sempre vai ser escuro, tu gostas de escuro, não gostas?



Quero a minha verdadeira mãe...



- Sou a sua verdadeira mãe, Wallace, não me reconheceu ainda?



Por que estou preso aqui?



- Por que estás preso aqui?



Por que não me liberta?



- Por que não te liberto?



Eu te fiz algo?



- Tu me fizestes algo?



O que eu te fiz?



- O que tu me fizestes?



Meu corpo está naquela cama de hospital, eu quero...



- Hospitais humanos fazem mal, Wallace, os da minha Ciência curam melhor.



Quero meu corpo!



- Não, tu não vais, Wallace, sair daqui, eu te amo muito, tu ficarás para sempre comigo aqui, já vos disse isso tantas vezes...



Amor?



- Nem todos são escolhidos para ficarem assim aprisionados, Wallace, nem todos...



Quem ordenou isto?



- Não foi nada que tu conheces bem, Wallace...



Quem ordenou isto?



- Nada E Alguém, Wallace...



Quem...



- Quem, Wallace, quem?



Meu...



- Seu Deus, Wallace? Que Deus, Wallace?



Preciso sair daqui...



- Não lutes de novo, Wallace, a mamãe aqui não vai te libertar.



Piranha, vá tomar no cu!



- Olha a língua, Wallace, a mamãe não gosta disso! O que os outros vão pensar de ti te ouvindo dizer isso para a sua mamãe?



Eu vou...



- Não, não, não, Wallace, tu nunca poderás me bater, eu sou a dona deste quarto quente, escuro e delicioso...



Meu quarto!



- Não, meu quarto, Wallace, eu nasci aqui.



Não vou...



- Vai, sim, Wallace, vai ter que se conformar com isto aqui, bem quente, bem escuro, delicioso, como a vossa morada para sempre! E eu nunca vou sair daqui, meu filho, nunca vou te abandonar!



Quero sair daqui...



- Não vais sair, Wallace, temos muito o que conversar, estivemos tanto tempo longe um do outro...



Quero meu corpo...



- Não, Wallace, há vinte e dois anos o seu corpo já nem mais te pertence.



Quero...



- Não, Wallace, há vinte e dois anos sou eu que quero tudo para ti e por ti.



Quero...



- Cale a boca, Wallace, ninguém vai te ouvir aqui. Seus pais não moram mais nesta casa. A sua casa foi até derrubada. Construiram um prédio no terreno. Isso tudo não te contei até hoje. O seu corpo não resistiu, hoje apenas forma um monte de ossos, os vermes já há muito saborearam-te a carne. Eis nas minhas mãos os vossos ossos.



Não...



- Aqui, Wallace, o vosso crânio.



Não...



- Contente-se, Wallace, com este vosso quente, escuro e delicioso quarto mantido por mim aqui para abrigá-lo. Ninguém nos atrapalha aqui. Ninguém nos percebe aqui. Este prédio está cheio de cegos que sequer sabem que nós estamos aqui.



Não, mãe...



- Isso, Wallace, meu bom menino, deita na cama, descansa, vou te fazer um cafuné...



Sim, mãe...



- Peço que perdoem ao meu filho, ele sempre se rebela de vez em quando. Mas, nunca vai sair de sua morada agora, podem contar com isso. Um filho de Carcereira jamais foge de sua Mãe. Jamais, amigos, gozem bem de vossa liberdade e orem aos vossos Deuses ou aos vossos Demônios a fim de não terem uma Carcereira como Mãe.



Perdão, mãe...



- Perdoado tu estás, Wallace, pela milionésima quinta vez. Fica quietinho agora, meu cafuné vai te aquecer mais e escurecer muito mais a nossa amável morada quentinha, escurinha, deliciosinha...




Inominável Ser

NÂO-FILHO

DE UMA

CARCEREIRA










Share:

sábado, 16 de maio de 2009

My Dying Bride - She Is The Dark (Ao Vivo)




A cruel sleep 'cross our land
All withered and dying
As the fall, the victims
They're dying a sad death
In our land, we lay down
And suffer again

A dark girl'cross our land
Is pacing. Is preying
And with her, a fever
A marching black fever
No eyes see. No features
Just black form, suffering

You have her sympathy
You have her tears
She tries only to take
All your fears
The pain she feels
When she drinks your soul
Is hers to suffer
It is her toll
Believe me, she's helpless
When she curses our land
When she swallows light
It's not her hand

Poison awaits when you kiss her
Her heart cries out for you, for me
Untold misery is hers to serve
out for eternity
Out cold. Mankind will stay
forevermore if she gets her way
She can't help it. It's her curse
To sing your pain in her own verse

She is the dark
The nightmares you hide
The pain you feel
The suffering inside
Though she was like you
Through her dark past
But now, the conqueror
Her choirs vast
Oh, please forgive her
As mankind dies
As angels weep
And heaven cries










Share:

terça-feira, 12 de maio de 2009

Meus Pratos Caiam Das Mãos Dos Fantasmas...


- Eu ouvia... Ouvia, sim... Muito, muito, muito... Sabe, era sempre à noite, zumbia muito... Era sempre um zumbido lento, primeiro... Lento... Lento... Muito lento, sabia? Mais lento do que um dia de inverno... Brinquei muito na neve, sabia? Mais lento do que uma tartaruguinha... Já criei um monte de bichinhos, sabia? Um zumbido baixinho... Eu ouvia aquilo... Toda noite... Toda noite... Toda noite... Não era mosquito... Não era mosca... Não era barata... Não era formiga... O zumbido tinha muita força... Me machucava... Me amedrontava... Me fazia encolher em um cantinho da cozinha, entre os pratos que ficavam estocados em um pequeno armário azul... Não, era branco... Não, era cinza... Não sei, o armário na cozinha com os pratos era de qualquer uma destas cores... E cada prato... Cada um... Eu gosto de pratos desde criança, sabia? Muito... Gosto muito... Muito mesmo... Mamãe me dava pratos todo mês, eu tinha uma coleção, de quase todo o país, de quase todo o mundo... Papai trazia lá de fora uns pratos junto com talheres de altíssima qualidade, a gente era muito rico... Minha esposa gostava de pratos... Minhas filhas gostavam de pratos... Ana Maria era o nome da minha esposa... Aninha... Renata... Renatinha... Tatiane... Tatinha... Ticiane... Tiquinha... Gláucia... Glaucinha... Sílvia... Silvinha... Minhas cinco filhas... Nossas cinco filhas... Menininhas bonitas, pequenas, crianças que gostavam dos pratos de nossa casa... Mas, Eles não gostavam... Eles não gostavam... Eles não gostavam! Não gostavam, não! Não gostavam, não! Não gostavam, não! Não mesmo... Não gostavam da Sílvia... Silvinha... Não gostavam da Renata... Renatinha... Não gostavam da Ticiane... Tiquinha... Não gostavam da Tatiane... Tatinha... Não gostavam da Gláucia... Glaucinha... Não gostavam da Ana Maria... Aninha... Eles queriam as minhas filhas... Eles queriam a minha esposa... Queriam? Será que queriam? Posso dizer que queriam? Não sei, minhas certezas fugiram todas... Não sei o que queriam, mas Eles quebravam meus pratos... Eles quebravam os nossos pratos... Toda noite... Toda noite... Toda noite! Toda noite! Toda noite! Meu cantinho na cozinha ninguém sabia, todo mundo dormia lá em casa e eu ficava lá perto dos meus pratos... Perto do pratos da minha família, eu ficava lá, gostava de ficar lá perto, guardando tudo, toda noite, bem de noite, nem dormia mais, ficava sempre ali toda noite, ali pertinho dos pratos... Tomava conta deles... Tomava conta, mas... Aqueles homens não me temiam... Aquelas mulheres não me temiam... Eu não os amedrontava... Aqueles fantasmas todos... Não contava... Eu não contava... Não contava quantos eram, todos se moviam pela cozinha, a cada noite eram rostos diferentes... Muitos rostos... Muitos rostos... Não sabia que rostos eram aqueles... Eu não sabia... Eu estava sonhando, viveciando um pesadelo, não dormia... Ou será que eu dormia? Ou será que eu conseguia, alguma vez, dormir? Eu transava com a Aninha todo dia... A gente gostava muito de sexo, sabia? A gente gostava de transar todo dia, sabia? Ela dormia depois, mas não sei se eu dormia junto com ela... Não lembro da nossa cama... Não lembro de sentir a nossa cama... A gente quebrou vinte camas, sabia? A gente se amava muito, sabia? A gente nunca brigou, sabia? A gente era feliz junto com as nossas filhas, sabia? Felicidade lá em casa até a chegada deles, os fantasmas... Meus pratos caiam das mãos dos fantasmas... O barulho dos pratos caindo não me fazia dormir, mas a Aninha e as minhas filhas dormiam... E eu não dormia... Não estava conseguindo mais dormir... E aqueles fantasmas quebravam os pratos... Eles, todos eles, quebravam meus pratos... Toda noite, os fantasmas faziam os pratos cairem das mãos deles, me machucavam... O barulho dos pratos me machucava... Aquele barulho... Tudo iam quebrando, toda noite! Tudo! Tudo! Tudo! Eu sofria com isso... Eles eram vários, quebrando os meus pratos... Vários deles, toda noite... Toda noite, iam quebrando os pratos... A tortura noturna, como em filmes de Terror que eu gostava de assistir quando criança... Eu gostava de filmes de Terror, sabia? Eu tinha uma coleção de filmes de Terror, sabia? Os filmes de fantasmas eram os meus preferidos, sabia? Sim, eu gostava muito! Sim, sim, sim, eu assistia quase todas as noites com a Aninha, antes dela ir dormir após a gente transar, a gente transava muito! Fantasmas eram meus personagens preferidos, sabia? Não me assustavam nos filmes, mas aqueles que quebravam meus pratos... Aqueles me assustavam... Aqueles me assustavam muito... Aqueles que me assustavam toda noite, quebrando os meus pratos, os pratos da minha casa, os pratos da minha família... Toda noite era aquilo, eles quebravam meus pratos... Quebrando tudo... Tudo, eu ouvia tudo sendo quebrado, tudo... Toda noite, toda noite, toda noite... Quebrando, quebrando, quebrando... Me torturando, me torturando, me torturando... A minha cabeça explodia... A minha profissão se tornava esquecida... Eu era um médico... Ou um enfermeiro... Ou um soldado... Ou um professor de faculdade... Ou um escritor famoso... Ou um poeta famoso... Ah, poeta famoso, não, atualmente há apenas imbecis pelo mundo que sequer podem compreender a Poesia! Eu não sei mais o que eu era... Mas, nós sabemos quem nós somos mesmos? Nós não sabemos quem nós somos na realidade de nossos pratos quebráveis, pratos carregando tudo o que nos alimenta de mentiras e de verdades, sabia? Talvez eu fosse um filósofo... Filósofo de botequim enfiando os dedos no rabo de uma prostituta em um beco sujo do centro do Rio... Mas, eu amava a Aninha e não procurava prostitutas! Eu amava a Aninha, não fazia isso... E os fantasmas a ameaçavam... Os fantasmas ameaçavam a Tatinha... Os fantasmas ameaçavam a Tiquinha... Os fantasmas ameaçavam a Silvinha... Os fantasmas ameaçavam a Glaucinha... Os fantasmas ameaçavam a Renatinha... Quebravam os pratos... Toda noite, quebravam os pratos... E faziam as ameaças... Eu ouvia cada ameaça... Todos ao mesmo tempo ameaçavam-nas... Todos aqueles fantasmas... Todos os fantasmas... A cada prato que eles quebravam, vinha uma ameaça, sabia? A cada prato, uma ameaça, quebrando minhas forças, quebrando a minha sanidade... Sanidade era um nome complexo para mim naquelas noites... Sanidade, já nem sabia o que significava sanidade... Minha mente morria! Eles matavam a minha sanidade! Eles quebravam a minha sanidade! Sanidade! Sanidade! Sanidade... Eu li isso em um livro... Li sobre o que era a sanidade... Ou foi em um filme que eu soube o que era sanidade? Por que agora venho falar de sanidade, eu não compreendo o que significa a sanidade? Por que essa palavra, sanidade, agora veio aos meus lábios? Não sei! Não sei! Não sei! Está tudo rasteiro, eu estou rasdtejando há muito tempo... Eu me encolhia naquele canto da cozinha, tapava os meus ouvidos todas as noites, mas os pratos continuavam sendo por eles quebrados e eu ouvia, ouvia, ouvia, casda um ser quebrado! Nos cacos, eu catava a minha sanidade... Droga, porque agora essa palavra, sanidade, se infiltra em mim? Por que, agora, sanidade torna-se um nome que os cacos de meus pensamentos tentam buscar? Li Psicologia demais... Li Psiquiatria demais... Estudei essas loucuras demais, não me levaram para longe deles aquelas leituras... Aqueles fantasmas quebrando meus pratos, quebrando a minha sanidade... De novo, esta palavra, sanidade, sanidade, sanidade! Não me lembro do significado dela! Somente me lembro de ouvir os pratos serem quebrados pelos fantasmas! Somente me lembro do quebrar dos pratos pelos fantasmas! Somente me lembro do quebrar dos pratos! Toda noite! Toda noite! Toda noite! Toda noite! Eu ouvia tudo sozinho! Sozinho! Sozinho! Sozinho! Só... Só... Só... Aquele cantinho da cozinha era para ser ocupado igualmente pela Aninha, pela Renatinha, pela Glaucinha, pela Tiquinha, pela Tatinha, pela Silvinha... Os fantasmas pediam as presenças delas... Os fantasmas queriam as presenças delas... Os pratos quebrados todas as noites e elas não ouviam nada! Não ouviam nada, sanidade! Não ouviam, sanidade! Sanidade... Sanidade... Sanidade... De novo, de novo, de novo! Quem pôs em meus lábios pela primeira vez essa palavra, a palavra sanidade? Não me lembro mais... Os pratos que os fantasmas quebravam me faziam esquecer de tudo que eu havia aprendido, sabia? E eles queriam ali comigo a Aninha, a Renatinha, a Glaucinha, a Tiquinha, a Tatinha, a Silvinha... Por anos... Ou dias? Por meses... Ou apenas um dia... Eles andaram quebrando os pratos em minha cozinha... E exigiam as presenças delas... Exigiam, mas elas não ouviam... Então, um deles me lembrou do que fazer para elas poderem ouvir... Um deles... Dois deles... Três deles... Quatro deles... Cinco deles... Seis deles... Todos... Todos eles... Todos os fantasmas... Todos os fantasmas me lembraram o que eu devia fazer para que elas ouvissem os pratos serem quebrados! Fui obrigado a fazer o que fiz, sabia? Fui obrigado, sabia? Fui obrigado, sabia? A faca maior da cozinha, eles me obrigaram a pegar, me deram seis pratos... Fui obrigado, sabia? Fui ao quarto de cada uma... Fui obrigado, sabia? Eu... Eu... Eu... Fui obrigado, sabia? Elas não ouviam, então levei os ouvidos delas comigo para a cozinha! Fui obrigado, sabia? Não, elas iam gritar, eu peguei a cabeça de cada uma em um prato para levar à cozinha, me lembrei que tinha um machado em casa! Fui obrigado, sabia? Não tive nenhuma culpa, eles queriam que elas ouvissem os pratos serem quebrados e me disseram que parariam de ameaçá-las caso eu as fizesse ouvir os pratos serem quebrados! Não tive nenhuma culpa, eles me prometeram tudo, prometeram parar de quebrar os pratos, prometeram parar de ameaçá-las! E elas ficaram tão bonitinhas com as cabeças naqueles pratos que os fantasmas não quebraram... Aninha estava linda... Tatinha estava linda... Silvinha estava linda... Tiquinha estava linda... Glaucinha estava linda... Renatinha estava linda... Lindas naqueles pratos, ouvindo os fantasmas quebrarem os outros pratos... Eles quebravam mais rápido os pratos agora... Elas agora estavam ouvindo tudo, ouvindo cada prato ser quebrado... Eu fiz uma festa com os fantasmas, comecei a quebrar os pratos também... E acabou todos eles em minha casa, tive que convidar meus vizinhos... Todo mundo em meu condomínio ouviu os pratos caindo das mãos dos fantasmas em minha cozinha, a festa teve muita gente, sabia? O senhor foi convidado, doutor?



Vamos, responda, Dr. Arnaldo Vasconcellos Carvalho Moraes de Brito, Nós estamos aguardando!



- O senhor ainda ouve os pratos serem quebrados pelos fantasmas?



Ah, Dr. Arnaldo, esta não foi uma resposta, Nós aguardávamos uma grande resposta de vossa parte...



- Sim, sim, sim, doutor, os fantasmas ainda quebram os meus pratos, sabia?



Vamos, Dr. Arnalsdo, Phd em Harvard, Phd em Sorbonne, faça perguntas mais incisivas, Nós estamos aguardando...



- Senhor Aureliano, por hoje a nossa consulta está terminada. Voltarei aqui amanhã no mesmo horário.



Ah, Dr. Arnaldo, vã capitalista da Psiquiatria Brasileira particular a serviço do Estado, Nós estamos decepcionados!



- Dr. Arnaldo, após esta primeira consulta, qual o diagnóstico mais aproximado?

- Bem, Cap. Jorge...



A mesma ladainha quase religiosa, ou já religiosa, Dr. Arnaldo, novamente... O mesmo quadro, a mesma condição, as mesmas considerações forenses repetidas há quarenta e seis anos... E esse policial, que Nós conhecemos familiarmente, sempre ouve o senhor com atenção, sempre, há trinta e sete anos... Alás, este hospital penitenciário que o senhor dirige está bem aprimorado, as novas práticas no tratamento dos psicopatas que aqui estão são revolucionárias. Parabéns, Dr. Arnaldo, sua fama alcança todo o mundo...



- ... um homem inteligente como o Dr. Aureliano Santana de Castro Luxemburgo Neto, pego nesta situação, fora da sanidade e fora da loucura, torna-se um caso raro, Cap. Jorge.

- Ele não está louco?

- Não.

- Então...

- Não há diagnóstico preciso agora, Cap. Jorge, pela primeira vez estou avaliando um caso como este...

- Se um cara que decapita a esposa e as cinco filhas, ainda crianças, e vinte e nove vizinhos, não for louco...

- Há vários tipos de loucura, mas o caso dele...

- Bem, Dr. Arnaldo, tenho que ir agora. Os advogados dele já estiveram aqui?

- Ontem, pela manhã.

- Ele era seu amigo, não?

- Não, foi meu aluno...

- Este caso...

- Não, cuido dele, Cap. Jorge, pode deixar...



Despeça-se do seu quase amigo policial, Dr. Arnaldo, e vá para a sua sala, isso, caminhando devagar pelos corredores, com a sua prancheta de anotações... Olhe, à frente vem aquela enfermeira que sempre usa uma calça branca apertada transparente, uma blusa fina transparente, calcinha e sutiã nada escondendo das apetitosas curvas e carnes... Nós sabemos que o senhor a deseja, mas a sua esposa, a Anita, com quem convive há dezenove anos, é um impedimento para um homem moralista cristão fervoroso como o senhor... Ah, não precisa nem flertar com a enfermeira, estupra a vagabunda em uma sala vazia aqui da clínica...



- Não!

- Dr. Arnaldo, falou comigo?

- Não, senhorita...

- Karla Andréia.

- Não, estava apenas pensando comigo mesmo em voz alta, muitos pacientes deixam-me assim...

- Tudo bem, Dr. Arnaldo. Quer que eu leve ao senhor um café?



Estupra ela na sua sala, é melhor, Nós garantimos vosso sucesso!



- Não!

- Dr. Arnaldo?

- Olha, Karla Andréia, avise à minha secretária que tenho que sair mais cedo hoje, por favor!

- Sim, mas o senhor...

- Senhorita, tenho que ir agora, por favor, avise à minha secretária!



Olha só o olharzinho dela de carinho e preocupação, Dr. Arnaldo, parece que a enfermeira sente algo pelo senhor... Mais devagar, Dr. Arnaldo, não corra pelos corredores! Mais devagar, Dr. Arnaldo, senão os enfermeiros o porão em uma camisa-de-força!



- Não!



O carro está próximo, mas o senhor chegou aqui apressadamente, correndo, derrubando enfermeiros, derrubando pacientes, agredindo os seguranças da clínica que tentaram controlá-lo! Quer matar alguém aqui que o impediu de chegar ao vosso carro, Dr. Arnaldo? Nós te ajudamos, Dr. Arnaldo...



- Não!



Vamos, liga o carro, Dr. Arnaldo! Ah, o senhor atravessou o portão fechado... O trânsito está fechado... Ei, sobe na calçada e atropela aquelas sete crianças com as mães voltando da escola, Dr. Arnaldo! Sobe, atropela, passa por cima depois, Nós gostamos de uma bela tragédia!



- Não!



Sinal fechado, quinze pedestres de um lado, vinte e dois do outro, atropela todos eles, Dr. Arnaldo, vai, atropela, Nós estamos contigo para todo tipo de sangrenta sesta!



- Não!



Joga esse carro à sua esquerda na frente do caminhão que vem na pista inversa, Dr. Arnaldo, tem seis adultos e cinco crianças nele, vai, joga, Nós apreciamos sangue esparramado na pista!




- Não!



A sua rua, entra com tudo, está cheio de crianças brincando nela, pais soltando pipas, atropela todo mundo, atropela, Nós sorrimos para uma chance de banharmos uma rua inteira com o sangue de merdas como essas!



- Não!



Vosso prédio, Dr. Arnaldo, isso, guarda o carro, corre para o elevador, mas mata primeiro o porteiro, esse porco do interior que tu tens que cumprimentar todo dia, bate a cabeça dele no chão até que o crânio se abra, Nós gostamos de assassinatos bem cruéis!



- Não!



Isso, Dr. Arnaldo, grita aqui dentro do elevador, grita, grita, grita, até que tu chegues ao vosso andar, Nós gostamos muito de te ouvir gritar!



- Não!



Entra, entra com tudo no vosso apartamento, que ocupa o quadragésimo andar inteiro deste vosso luxuoso prédio, Nós admiramos a vossa riqueza, Nós admiramos o vosso império financeiro erguido com os milionários tratamentos de assassinos e estupradores de alta classe, a mesma classe à qual tu pertences!



- Eu não estou louco, não estou louco, não estou!



Não existe loucura em ti, Dr. Arnaldo, Nós garantimos que não existe! Isso, vá para a sua cozinha, aquele cantinho da cozinha, Nós gostamos de cozinhas! Isso, sentadinho aí no cantinho, sentadinho!



- Por que eu?



Por que não o senhor, Dr. Arnaldo?



- Não quebrem os meus pratos, não!



Começamos a quebrar os vossos pratos, Dr. Arnaldo, Nós começamos a quebrar!



- Eu já fiz a Anita ouvir os pratos sendo quebrados, já fiz, porque não me deixam em paz agora?



Anita foi assassinada ontem, olhe para a cabeça dela acima daquele prato na pia... Olhe, Dr. Arnaldo, a sua obra-prima... Nós não vamos nos decepcionar novamente como nos decepcionamos com o Dr. Aureliano, vosso aluno; nem com a Dra. Cíntia, vossa aluna; nem com a Dra. Ruth, vossa aluna... Aliás, todos os vossos alunos, Dr. Arnaldo, nos decepcionaram!



- Por que me perseguem? Por que, há tantos anos, me perseguem?



Dr. Arnaldo, o senhor não tem muito tempo...



- Tempo?



Antes de chegar aqui, o senhor deixou uma trilha de sangue que Nós sorvemos...



- Não...



Sim, Dr. Arnaldo, o senhor estuprou e estrangulou aquela enfermeira, a Karla Andréia, em sua sala...



- Não...



Sim, Dr. Arnaldo, o senhor trancou todos os duzentos e onze funcionários da clínica e os quinhentos pacientes, pondo fogo no prédio e carbonizando todo mundo...



- Não...



Sim, Dr. Arnaldo, o senhor atropelou e passou com as rodas do seu carro por cima daquelas crianças e de suas mães...



- Não...



Sim, Dr. Arnaldo, o senhor atropelou e matou vinte pessoas que atravessavam a rua com o sinal fechado...



- Não...



Sim, Dr. Arnaldo, o senhor jogou aquele carro à frente daquele caminhão, matando os ocupantes dele, o motorista do caminhão e mais dezesseis pessoas em quatro outros carros, um acidente memorável provocado às gargalhadas, as suas e as Nossas...



- Não...



Sim, Dr. Arnaldo, o senhor atropelou e matou quarenta crianças e seus respectivos pais aqui na sua rua, correndo a 235 Km/h...



- Não...



Sim, Dr. Arnaldo, o senhor matou o porteiro, aquele porco do interior, esfacelando o crânio dele no chão...



- Não...



Agora, Dr. Arnaldo, o senhor tem que ir lá no quarto do seu filho, o Rômulo, leva o conjunto de facas inteiro, o conjunto mais luxuoso de facas aqui da cozinha, e termina o que começou ontem...



- Não...



Rápido, Dr. Arnaldo, o senhor tem que matar o seu filho antes que os vermes da Polícia e aquele seu quase amigo, o Cap. Jorge, chegue e te prenda, arranca as tripas dele, arranca os olhos dele, arranca as orelhas dele, arranca a língua dele, arranca a pica dele, arranca o coração dele e pega o machado com o qual o senhor decapitou a família do Dr. Aureliano, a família da Dra. Cíntia, a família da Dra. Ruth, as famílias de todos os seus alunos, outras famílias, e decapita ele...



- Não...



Rápido, Dr. Arnaldo, o senhor é o único que até hoje não nos decepcionou...



- Não...



Enquanto isso, Dr. Arnaldo, a gente continua deixando cair de Nossas mãos os vossos pratos...



Inominável Ser

DEIXANDO PRATOS

CAIR DE SUAS

MÃOS








Share:

Covas Recomendáveis

Prosa De Um Coveiro Inominável

O Terror Inominável. O Horror Inominável. A Loucura Inominável. A Cova Aqui É A Do Puro Pesadelo Das Covas Mais Profundas E Elevadas. Vozes Estranhas Aqui. Sons Estranhos Aqui. Palavras Estranhas Aqui. Estranhas E Inomináveis. Sintam-Se Conduzidos Pelo Carro Inominável Do Terror Inominável. Sintam-Se Conduzidos Pelo Carro Inominável Do Horror Inominável. Sintam-Se Conduzidos Pelo Carro Inominável Da Loucura Inominável.

O Coveiro Inominável

Minha foto
Nos Infernos, O Abismo
Visualizar meu perfil completo

Cavam Aqui Suas Covas:

Arquivo do blog

Marcadores


Firefox

Firefox

Meu Perfil No Facebook

Obtenha visualizações gratuitas no Snap.com
Add to Technorati Favorites

Arquivo do blog

Recent Posts

Unordered List

Theme Support