quarta-feira, 3 de junho de 2009

Festa Realizada, Revista, Outros E 18


A baixinha sempre demora a chegar aqui na esquina. Não que eu reclame das demoras dela, mas chateia-me sempre ter que aguardá-la aqui, ainda mais que hoje A Festa promete ser, mais do que nunca, um evento dos mais... Ah, ali, ela está vindo ali! Como sempre ela veste-se qual uma rainha de negras vestes sedosas e brilhantes...



- E tu também, Augusto!

- Lendo de novo meus pensamentos, Marina?

- Sempre leio os seus pensamentos.

- Demorou mais do que nunca hoje...

- Algumas tarefas relacionadas a certos indivíduos que tive que fazer com que perdessem um pouquinho as cabeças...

- Arrancou a cabeça deles?

- Vamos para A Festa, Augusto.



Marina não gosta de dialogar acerca dos seus serviços para um certo Guardião Da Vila Do Quinto Caminho, que ela chama de Mestre Mago, mas que na verdade se chama...



- Não diga o nome Dele nem em pensamento, Augusto...

- Marina, isto me incomoda, sabia?

- Eu invadindo a sua mente?

- Sim, a toda hora...

- Querido, eu sou inofensiva... Você devia agradecer por seu eu a sua guia nestes lugares para os quais Eles te enviaram...

- É, você tem razão, melhor ser guiado por você do que por...



Eles estão sempre espreitando na esquina, são o que chamamos aqui de Estupradores Maiores, uma raça de viciados em drogas que nascem ao pé de algumas árvores daqui e que escravizam um bom número de Condenados como eu.



- Eles nem se aproximaram de você quando chegou aqui, Augusto, eles tem medo de uma Santa Espada.

- Santa Espada, sempre achei isso irônico logo aqui...

- Duvidas da Santidade das Santas Espadas?

- Marina, isto aqui não é...

- Sim, Augusto, É, mas se cale um pouco, estamos chegando perto do local da Festa e eu preciso me concentrar para que não sejamos barrados.



Melhor eu parar de falar agora, não, Marina, que tal pensar, já que estás a ler os meus pensamentos? Tudo isso aqui, desde que cheguei aqui, me faz pensar nas coisas que aqui me lançaram... Você nunca dialoga comigo em pensamentos, mas sabe que os meus pensamentos te dizem muito acerca do que eu penso daqui. Vi ontem mendigos comendo vivos uns dez bois, mastigando as tripas dos bichos com mandíbulas enormes e depois correndo atrás daquelas mulheres vermelhas de cinco seios... De onde vim, Marina, tinha muita loucura também, muita luxúria; mas, não abriamos as pernas de mulheres e arrancávamos suas vaginas a dentadas como esses mendigos daqui fazem... A cada momento, Marina, ocorre algo que faz o que eu fiz ser menor, ser bem pequeno, muito pequeno... Enforcaram dez crianças ontem, que retornaram do túmulo como adultas hoje para serem novamente enforcadas, vi isso na outra rua pela qual vim, já que nem morar em algum lugar por aqui eu posso... Aqui é o prédio da Festa? Aquele letreiro...



DESTINAMOS NOSSOS

APARTAMENTOS LUXUOSOS

PARA A AQUISIÇÃO

DA MÁXIMA APLICAÇÃO

DOS OUTROS

QUE REVISTAM OS 18

QUE SE ENCONTRAM

NAS FACES ARRANCADAS

DOS CRÂNIOS QUE

POUSAMOS

NAS MESAS

DAS FESTAS QUE

PROMOVEMOS



Aquele outro letreiro...



OUTROS DENOMINAM-SE

COMO OS ARAUTOS

DE UMA DOR

QUE ESCORRE ENTRE

FRONTES RASGADAS

POR ESPADAS QUE

FEITAS FORAM

COM O SANGUE

DAS ESTRELAS

ERRADAS



Mais um letreiro...



18 FORAM

OS SEMEADORES

DOS CAMPOS DO TRIGO

QUE CHORA PELOS

FILHOS DOS HOLOCAUSTOS

DE MUNDOS INFESTADOS

PELA DOENÇA MORTAL

QUE DETERIORA

AS ALMAS MORNAS

E ENFRAQUECIDAS



É aqui, Marina?



- Fique atrás de mim e não dê um passo além de nossa linha de contato, Augusto. Aqui não se deve caminhar sem a presença de uma Santa Espada e não se deve falar muito. E cuidado com os seus pensamentos.

- E...

- Ei, Augusto, fique quieto agora, por favor! Vamos entrar agora!



E, de repente, você fica nervosa, Marina... Não sei o que há aí dentro, nas outras Festas fui um tanto sabedor de onde adentraria, já que você me orientava sobre o que havia dentro daqueles prédios, prédios bem diferentes deste. Este aqui é bem mais aterrador, essas paredes gritam, gemem, se contorcem demais... Essas senhoras chinesas aqui, quem são, Marina? Estamos passando por elas, cumprimentando, parecem algum tipo de funcionárias daqui e, ao mesmo tempo, me olham com uma perversidade e uma frieza constantes... Elas sabem do que fiz, Marina... Você sabe do que eu fiz e...



- O elevador que leva até o apartamento da Festa está funcionando?

- Não, tente usar o do outro lado.

- Obrigada.



Funcionários daqui, de azul, mas não identifico os rostos... Por que, Marina, nem o seu rosto eu consigo identificar, apenas traços que lembram humanos rostos, traços como os daquelas senhoras na entrada? Elas sairam daqui e parece que estamos indo para onde aquele senhor nos mandou; que frio aqui para onde ele...



- Este elevador, ele funciona?

- Esse Condenado está indo para os 18?

- Sim, e para Os Outros.

- Eles recomendam que subam pelas escadas, esse aí merece rever algumas coisas que fez em várias carnes tomadas.

- Obedeceremos a essa orientação, senhor, muito obrigada.



Subir escadas? Quantos andares, Marina?



- Dezoito andares até chegarmos ao apartamento da festa. Augusto, em hipótese alguma se afaste de mim; seja o que for que ouvir ou ver, não saia das escadas e continue a subir atrás de mim. A Festa depende de nossa atenção para com as exigências dos Outros e dos 18. E, quando chegarmos ao décimo oitavo andar, quero que abaixes a cabeça e não olhe para Eles até que peçam. Calado sempre, sempre, Augusto, enquanto estivermos subindo, ao entrarmos no apartamento e diante Deles. Está me compreendendo, Augusto?



Compreendo, Marina. Compreendo bem, como sempre compreendi em todas as Festas. Pelo que eu soube, esses Outros e 18 são os Regentes deste lugar para o qual fui trazido, ouvi muito sobre Eles pelas ruas, com um imenso respeito até da parte dos mais brutalizados. Não somos amigos, Marina, mas gostei de você desde que... Não há importância nisso aqui, não é mesmo, Marina? Nunca consegui ver-lhe o rosto, nem o de ninguém... Desculpe estar falando de novo nisso, mas intriga-me demais não ver os rostos de ninguém... Este, o primeiro andar... Ruído de... de... de... machados...



ASSASSINO DE PAIS!!!



Este, o segundo andar... Ouço... Ouço... uma criança gritar...



PEDÓFILO IMUNDO!!!



Terceiro andar... Isso é... é... um barulho de socos...



ESPANCADOR DE ANIMAIS!!!



Quarto andar... Punhal brilhando?



ESFAQUEADOR DE CEGOS!!!



Quinto andar... Dentes... mastigando... orelhas...



CANIBAL MISERÁVEL!!!



Sexto andar... Mulheres... Homens...



ESTUPRADOR MALDITO!!!



Sétimo andar...



ASSASSINO!!!



Oitavo andar...


ASSASSINO!!!



Nono andar...



ASSASSINO!!!



Décimo andar...



ASSASSINO!!!



Décimo primeiro andar...



ASSASSINO!!!



Décimo segundo andar...



ASSASSINO!!!



Décimo terceiro andar...



ASSASSINO!!!



Décimo quarto andar...



ASSASSINO!!!



Décimo quinto andar...



ASSASSINO!!!



Décimo sexto andar...



ASSASSINO!!!



Décimo sétimo andar...



ASSASSINO!!!



Décimo oitavo andar...



ASSASSINO!!!



ASSASSINO!!!



ASSASSINO!!!



ASSASSINO!!!



ASSASSINO!!!



ASSASSINO!!!



ASSASSINO!!!



ASSASSINO!!!



ASSASSINO!!!



ASSASSINO!!!



ASSASSINO!!!



ASSASSINO!!!



ASSASSINO!!!



ASSASSINO!!!



ASSASSINO!!!



ASSASSINO!!!



ASSASSINO!!!



ASSASSINO!!!



Agora estou ciente do porquê de você nunca ter me dito nada sobre este prédio, Marina...



- Senhores, aqui eu trago o Condenado Artur Augusto Vasconcellos de Lima Aragão, assim denominado em sua última terrestre encarnação.

- Traga-O Ao Centro De Nossa Festa, Santa Espada Marina.

- Ajoelhe-se aqui, Condenado.

- Fiques atrás dele, Santa Espada Marina.

- Sim, Senhores.

- Condenado Artur Augusto Vasconcellos de Lima Aragão, Como Conhecido E Registrado No Livro Dos Condenados, Tu Fostes Recolhido De Teu Natural Mundo Após Dezoito Mil Existências Comentendo A Todos Os Tipos De Crimes, Dos Quais Ainda Não Se Arrependestes. Com O Consentimento Nosso, Através De Ordens Acima De Nós, Ordens Advindas Dos Senhores De Todas As Condenações, Nós Te Enviaremos Para Mundos Abaixo Deste Que Governamos, A Décima Oitava Festa De Vossa Via Condenatória Neste Mundo. Tu Infinitamente Passará De Mundo A Mundo Condenatório Sempre Guiado Por Um Guardião Especificamente Escolhido Pelos Senhores Superiores Dos Mesmos. Nós, Os Outros E Os 18, Assim Escrevemos No Livro Dos Condenados. Santa Espada Marina, Fiques À Frente Dele.

- Sim, Senhores.

- Assassino Em Dezoito Mil Existências, Olhes Para A Santa Espada Marina. Olhes Para A Vossa Primeira Encarnação Como Assassino, Marina Das Flores Sangrentas Atlantes. Olhes Para Ela E Te Lembres Que Nos Demais Mundos Tu Enconrarás As Festas De Vossos Assassinatos Giando-Te Rumo A Piores Condenações Como Esta E A Piores Torturas Como Marina Lhe Infligirá Neste Mundo Pela Última Vez. Santa Espada Marina, Dezoito Mil Vezes Esfoles Ao Condenado Artur Augusto Vasconcellos de Lima Aragão, Prática Que Tu Realizavas Com Povoados Distantes Das Terras Atlantes.

- Sim, Senhores.



Agora sei porque a última Festa é a mais dolorosa...




Inominável Ser

LONGE

DE FESTAS






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Prosa De Um Coveiro Inominável

O Terror Inominável. O Horror Inominável. A Loucura Inominável. A Cova Aqui É A Do Puro Pesadelo Das Covas Mais Profundas E Elevadas. Vozes Estranhas Aqui. Sons Estranhos Aqui. Palavras Estranhas Aqui. Estranhas E Inomináveis. Sintam-Se Conduzidos Pelo Carro Inominável Do Terror Inominável. Sintam-Se Conduzidos Pelo Carro Inominável Do Horror Inominável. Sintam-Se Conduzidos Pelo Carro Inominável Da Loucura Inominável.

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