domingo, 5 de julho de 2009

O Último Carnaval De Uma Bacante Contemporânea


17 de fevereiro de 1996


Rio de Janeiro


Sábado de Carnaval



Aquele era o 32º Carnaval dela, uma data esfuziante que começou a ser comemorada logo no primeiro bloco pelo qual saiu de manhã, em Copacabana, A Horda Da Puta. Cinco mil pessoas reuniram-se naquele bloco e ela, fantasiada sensualmente de bacante, quase com os dois seios para fora do traje, gozou do aperto, gozou da confusão, gozou do samba, gozou da folia toda que vibrava nas elementares estradas de sua sede de prazer, prazer sempre, prazer e prazer e prazer! A bacante da qual falamos era Alessandra d'Anjou Braga de Deus, uma mulher abastada, de família das mais importantes no mundo do comércio de diamantes, promotora de eventos fetichistas famosos por todo mundo e, declaradamente, uma libertina, amante de homens e mulheres, de todas cores, de todas as raças, de quase todos os países do mundo, que pôde comprar com a parcela de 42% da fortuna herdada de seus falecidos pais e dividida com sua irmã. Famosa por seus escândalos e pelas orgias promovidas durante os Carnavais cariocas, Alessandra se despia de suas caras roupas ano a ano e se juntava ao povão na beleza dos suores e cheiros que se elevavam abaixo de sóis banhando os corpos de cariocas, paulistas, mineiros, foliões de todo o Brasil e foliões estrangeiros. Naquela manhã, nossa bacante esfregou-se em homens e mulheres, beijou dezenas, apertou bundas masculinas, apertou bundas femininas, apertou pênis, apertou bucetas... Sua atuação ao sambar era fenomenal, um talento inato se manifestava na ponta de seus pés, o que a fazia, ano a ano, ser considerada a mais animada e famosa foliã de rua. À tarde, Alessandra levou um grupo de sete homens e doze mulheres, todos de diferentes partes do Brasil, para a sua mansão, localizada no Leme, de aspecto barroco e cobrindo uma área de dois quarteirões. Naquela tarde, o primeiro bacanal daquele Carnaval, o 32º Carnaval dela; e, naquela tarde, mais dezenove vítimas da ânsia dela por carne humana...


Não é uma fantasia de Carnaval, foliões e não-foliões, não é. Alessandra, uma das primorosas membras dos D'Anjou, da D'Anjou Diamantes S/A, empresa que tinha filiais em 38 países e que, atualmente, nem existe mais, faliu devido à atual crise financeira mundial, exercia a prática do canibalismo durante a festa e fora da festa. Como sabemos, muitos que se disfarçam durante o ano inteiro de "boas pessoas que podem socialmente conviver com todas as boas pessoas" são os maiores depravados, estupradores e criminosos de todos os tipos durante os quatro dias de Carnaval; porém, alguns não disfarçam suas tendências, agem o ano inteiro como agem no Carnaval, e Alessandra é um destes, protegida pela sua astronômica fortuna e contando com a cumplicidade de seus vinte seguranças e vinte e dois empregados. Comer carne humana é um hábito de família, revelado aqui está um dos segredos maiores de uma das maiores famílias do mundo ou que já foi uma das maiores; a tradição canibalesca dos d'Anjou Braga de Deus iniciou-se a partir do bisavô de Alessandra e perpetuou-se em seus descendentes durante os séculos dezenove e vinte no Brasil. Tradição familiar, desconhecida do mundo inteiro, o canibalismo dessa família constituia rituais elaborados e fixos, em determinadas épocas do ano, as mais movimentadas, principalmente feriados. A caçada de vítimas entre as pessoas que se reuniam em grandes aglomerações contava, ainda, com altos recursos de sedução naturais, juntamente com a hipnose e a utilização correta das palavras, um tipo de Magia ensinada ao bisavô de Alessandra por um homem que se denominou Baco de Irasthoum e já parte do sangue e do espírito da família dela. A irmã de Alessandra, Valeska, participou do banquete, após os convidados para a orgia terem bebido vinho misturado com soníferos bastante poderosos, cuja fórmula também constitui uma tradição familiar. Os seguranças de Alessandra foram os responsáveis pelo desmembramento cirúrgico dos corpos, com bisturis, utilizando uma técnica ensinada por aquela, antes que os corpos esfriem, no porão da mansão, em um frio laboratório no qual ela e a irmã executavam estranhos experimentos com o que não comiam de suas vítimas. As três cozinheiras delas, separadas as partes que as duas comeriam, assaram tudo em doze caldeirões e serviram-nas na mesa de refeições às 16:40 h. De faca e garfo, aos olhos dos seguranças e empregados, que mais pareciam zumbis do que propriamente seres humanos, com calma, prazer e alegria, as duas temperavam cada pedaço de carne humana com azeite, óleo, sal, farinha e demais produtos culinários, dando um gosto que seus paladares sempre aprovaram.


Alessandra, mastigando o coração de uma baiana, lembrou-se de sua primeira vítima, um primo, quando tinha sete anos; parou de gargalhar, de repente, pôs a faca e o garfo no prato, e ficou pensativa, olhando para Valeska.



- Eu me lembrei do Gaio agora, Valeska...

- Do Gaio?

- Sim, o Gaio...

- Ah, porra, esquece esse merdinha que tu cagou todo depois que comeu cada pedaço da cara dele!

- Não é isso, Valeska, eu nunca relembro de minhas vítimas...

- Eu relembro!

- Para que?

- Para que eu possa aprimorar meus dentes a fim de mastigar melhor as minhas futuras vítimas...

- Isso não é equilbrado...

- E nós somos desequilibradas, Alessandra? O que está de errado com você hoje, melhor dizendo, agora? Estamos no Carnaval, uma época que você adora, a melhor época para as nossas caçadas e refeições, se alegra, porra! Olha só, está chegando a noite de sábado de Carnaval e você sabe o que vamos fazer...

- Eu vou sozinha hoje, Valeska.

- E eu?

- Olha só, você já tem dezenove anos e está na hora de começar a caçar sozinha.

- Alessandra, me deixa ir com você...

- Lembre-se do que nossos pais nos disseram, Valeska...

- Antes de nós comermos os dois?

- Bem antes, sobre caçar sozinha...

- Não me lembro...

- Você se lembra, sim, Valeska... Lembre que a duração de nossa família nessa Arte que hoje, neste Carnaval, completa duzentos e seis anos, depende das caçadas solitárias...

- E essa tradição vamos também respeitar?

- Claro, Valeska, ou você acha que eu vou permitir que você continue a me seguir nas caçadas? Eu te vi de manhã bem perto de mim e fingi que não havia te visto.

- E você se esfregava em um índio...

- Ah, o pau dele está ali! - Voltando a gargalhar, Alessandra pega com a mão direita o pênis de uma das suas vítimas masculinas e corta-o em vários pedaços, qual uma linguiça, dividindo-o com sua irmã e comendo-o devagar. - Delícia comer um pau... Nossa, esse aqui é muito gostoso...

- Uma carne macia, bem assada, muito bem preparada... Obrigada, Maria! - Dirige-se a uma das cozinheiras, que não responde. - Obrigada, Maria!

- Pare com isso, porra! - Alessandra solta uma estridente gargalhada. - Você bem sabe que esses aí estão dominados, perderam a vontade e até a alma...

- Mais uma herança de Baco... Será que ele vai aparecer para uma de nós duas neste Carnaval, finalmente?

- Apenas nosso bisavô, que viveu cento e trinta anos e não envelheceu como os outros homens, teve um contato direto com ele, diariamente. Creio que nós duas nunca o veremos, Valeska, mas sabemos que ele nos acompanha agora...

- A nossa família vive muitos anos... Nossos pais pediram para ser comidos por nós, já estavam quase com cento e cinquenta anos e não quiseram apodrecer em um túmulo...

- Você quer viver tanto assim, Valeska?

- O que nos mantém, nós, desta família, vivos por tão longos anos, é a absorção da carne de nossas vítimas, somos Licantropos Reais, Alessandra; se pararmos de nos alimentar de carne humana, desapareceremos da face da Terra...

- É, Valeska, você andou estudando...

- De vez em quando, Alessandra, gosto de estar a par dos detalhes da nossa natureza.

- O que mais descobriu lendo os livros escritos pelo Baco?

- Sobre garras, que temos sempre que mostrar as garras quando as nossas naturezas souberem domá-las, algo assim...

- O Domínio Da Besta, que vale tanto para Licantropos como nós quanto para os Vampiros e demais Predadores Naturais da Terra.

- Você se vê como uma predadora, Alessandra?

- Como assim?

- Eu me vejo como um tipo de equilibradora, tirando do mundo pessoas inúteis que apenas tem de bom a carne que eu devoro.

- É um pensamento original, nunca tinha ouvido isso dos lábios de um dos nossos...

- Não deboche de mim, Alessandra...

- Não estou debochando, Valeska, mas prefiro pensar em mim como uma predadora mesma, um animal selvagem abaixo da pele de uma cordeirinha que escandaliza aos puritanos com os seus amantes pelo mundo.

- Ser do jeito que você é, Alessandra, te torna um animal selvagem da mesma maneira...

- Olha só quem fala... Que eu saiba, Valeska, você também é a maior putinha, já dava o cu aos sete anos para os seus coleguinhas de primeira série...

- E era muito bom aquilo...

- Tão bom que um dia a sua natureza licantrópica despertou e seus dentes arrancaram o pintinho e os ovinhos de um dos seus amiguinhos...

- Brutal e delicioso, não?

- Devia ter arrancado mais dele e deixado um pedacinho para mim...

- Não deu, nossos pais tiveram que abafar tudo e sumiram com o corpo do garotinho... Eles o comeram?

- Eles me contaram que jogaram o cadáver dele em um clube de licantropos.

- De onde?

- Esses clubes vivem trocando de lugar, Valeska, nem sei te dizer onde foi que eles encontraram um para poderem se livrar da merda que tu tinha feito. Aquele menino era filho de um juiz federal...

- Que mandou fechar aquela escolinha depois e puniu os donos dela pelo sumiço do filhinho...

- Quase que fomos descobertos, Valeska, daquela vez; matar um de nós, quando Despertamos, na infância, é algo que fica entre nós; matar um que seja, principalmente, de uma família importante como a nossa, mas que não tenha nenhum dos nossos hábitos, representa um enorme perigo para nós. Os pobretões, os mendigos, os miseráveis ou qualquer fracassado que não tenha importância para alguém ou alguma coisa representam as nossas vítimas preferenciais.

- Engraçado, a carne dos pobres e dos fracassados é bem deliciosa...

- Como você pode comparar se não provou mais nenhuma outra carne de gente rica e de família importante como nós?

- Eu posso comparar, Alessandra, eu posso...

- Valeska, não me diga que...

- Esta refeição está me parecendo denunciante do que eu fiz...

- Valeska, o QUE você fez?

- Lembra dos casos de famílias ricas encontradas mortas e sem pedaços da pele que ocorreram em 94 na Tijuca, durante a Copa Do Mundo?

- Ah, Valeska...

- Alessandra, eu precisava provar...

- Sua mentirosa, e me dizendo sempre que não queria nunca deixar de caçar junto comigo...

- Eu fiz aquilo escondido, gostei e, de vez em quando, eu como um riquinho por aí...

- Putinha safada! - Alessandra gargalha. - Caralho, menina, você me enganou esse tempo todo! Não costumo caçar riquinhos por causa mesmo do gosto amargo da carne deles, uma carne sem vigor, uma carne sem a fartura que encontramos na dos pobres. Estudando o que não comemos destes, nós duas pudemos descobrir que é da própria natureza carnal deles terem tanto gosto na carne, eles batalham muito pelo que chamam de um "lugar ao sol", enquanto que os privilegiados do mundo, como nós duas, recebem tudo de berço.

- Um pobre, também, é muito mais gostoso na cama...

- Ainda mais quando é um negão bem dotado...

- Já fodi com milhares deles...

- Eu já perdi a conta, Valeska...

- Somos duas putonas, isso, sim, Alessandra!

- É, duas putonas arrombadas!

- Sabe o que eu mais aprecio quando engano esses otários que estamos comendo?

- O que, Valeska?

- Aprecio o desconhecimento deles do que ocorreu com seus corpos quando chegam lá do outro lado...

- Ah, eu já Vi...

- Viu?

- Vou te ensinar, ainda, a sair voluntariamente do corpo. Eu domino algumas técnicas e já encontrei todas as minhas e as nossas vítimas lá do outro lado, eles se ajoelham diante de mim, me reconhecendo como senhora deles.

- Senhora deles?

- Valeska, você pensa que canibalismo é apenas comer carne humana?

- Alessandra, eu não gosto de ler tanto quanto você, nunca gostei! Li pouco os livros do Baco e soube de muita coisa, mas disso aí...

- Valeska, nós possuimos um tipo de natureza rara que nossos Ancestrais, bem antes do nosso bisavô, possuiam. Em um dos livros de Baco, li que muitos desses Ancestrais foram Senhores Da Terra bem antes da Atlântida e da Lemúria, devorando outros povos para poderem dominar-lhes espiritualmente, pois ao comer-se a carne come-se, também, a alma, e isto não é uma superstição barata. Aqueles que fundaram o Reino de Atlântida caçaram os nossos Ancestrais pelo mundo e pensaram tê-los extinto após um período bem longo de uma guerra contra eles; no entanto, muitos deles se esconderam e se refugiaram nas terras do norte da Europa, vivendo isolados e, pouco a pouco, com o passar das gerações, perdendo as habilidades naturais canibalescas. Nosso bisavô, por Atavismo, Despertou para tal natureza após milhões de anos ou mais, recebendo de Baco, que desconfio ser um dos nossos Ancestrais, que adquiriu a Imortalidade por um esforço de sua vontade de materialmente viver, alimentando-se com furor e vigor claramente voltados para esse fim, os Ensinamentos Secretos de nossa tradição licantrópica familiar. Nós duas somos algumas dos últimos Licantropos Reais, Valeska, deste mundo; e, por isso, te recomendo não ir muito além nas caçadas aos que possuem o poder do dinheiro, da fama e do sucesso, já que, se souberem de nossa existência, estaremos completamente fodidas e seremos, então, a caça, as presas, dos que adoram exterminar tudo o que é natural.

- Interessante isso aí, Alessandra...

- Está na hora de tomar banho e me preparar para sair...

- Eu também...

- Sozinha...

- Sim, claro, Alessandra, você vai caçar de um lado e eu caçarei de outro.

- Posso sentir o seu cheiro...

- Caralho, Alessandra, QUE NOVIDADE!

- Eu estou te dizendo, Valeska, apenas, que se eu sentir o seu cheiro perto de mim nesta noite de sábado de Carnaval...

- Alessandra, porque após certa idade os de nossa família não podem caçar juntos?

- Nem queira descobrir, Valeska... Vamos, vamos acabar de comer e, depois, tomar os nossos respectivos banhos.

- Sozinhas?

- Sim, Valeska, TAMBÉM, sozinhas.



Alessandra e Valeska terminaram a sua refeição às 17:53 h, partindo para seus respectivos quartos a fim de se prepararem para a noite de sábado de Carnaval. Um dos empregados silenciosos e cadavéricos delas preparou-lhes as banheiras, preenchidas com o sangue de todos os que vitimaram e devoraram. Alessandra acrescentou ao sangue algumas ervas colhidas na noite anterior, com efeitos psicotrópicos e de encantamentos apenas conhecidos pelos feiticeiros e magos mais perversos, controvertidos , degenerados e corrompidos da História. Cânticos de devoção a Baco, o Senhor da família dela, foram entoadas em hebraico, aramaico e grego, idiomas que ela aprendeu sozinha e que já falava aos três anos de idade, além do inglês, do alemão, do espanhol, do francês, do japonês, do chinês, do árabe e milhares de línguas mortas. Gênio com um QI que nenhum cientista do mundo conseguiu calcular, abastada, libertina e canibal... Alessandra, bacante contemporânea, como sua irmã, que possuia menos recursos intelectivos como ela, mas em sedução se equiparava, retirou-se da banheira e, banhada toda em sangue, direcionou-se a uma pequena sala de paredes pintadas de vermelho, que possuia um altar a Baco dedicado, empunhou adagas de ouro em cada uma das mãos, abriu os braços e, em português, elevou um cântico ao seu Senhor:



Baco Da Esfera

De Sangue,

Baco Senhor

Do Sangue,

Baco Violentador

Da Fruta Perene

Na Serena Senda,

Vomitai Em Mim

A Carnificina

Que Exala

De Vossa Carne!


Grande Baco,

Senhor Da Carnificina,

Respirai Em Minha Pele,

A Loba Que Sou

Lhe Pede O Licor

Das Uvas Ensanguentadas

Caídas Nos Ritos

Em Honra Do Assassinato

E Todos Os Trabalhos

Sanguinários!


Violentai-Me,

Baco,

Em Minha Carne,

Para Que Violenta

Eu Possa Ser

Nesta Noite

De Mais Uma

Festa Da Carne

Que Tu Degustas

Através De Meus

Carniceiros Lábios!


Que Eu Mate,

Baco,

Quantos Forem Necessários

Para Poder Aplacar

A Vossa Sede

De Sangue

E De Carne!


Que Eu Mate,

Baco,

Todos Aqueles Que

Tocarem Nesta Pele

Que Eu Torno

A Vossa Pele

E Beijarem Estes Lábios

Que Eu Torno

Os Vossos Lábios!


Que Eu Mate,

Baco,

Quero Matar

Em Vosso Nome,

Quero Matar

Em Nome

Dos Pais Dos Assassinatos,

Quero Matar

Em Nome

Da Encarnada Morte

Em Cada Um Dos Poros

De Minha Carne!


Que Eu Mate,

Baco,

Muitos!


Que Eu Mate,

Baco,

Muitos!


Que Eu Mate,

Baco,

Muitos!


E Cada Holocausto

De Sangue

Entre Meus Dentes

E Nas Lâminas

Destas Adagas

A Ti Será

Ofertado

Com A Alegria Tenaz

Da Loba Sanguinária

Que Eu Sou

Uivando Para

Honrar-Te!


MATAR,

BACO!!!


QUERO MATAR,

BACO!!!


EU SAIREI

PARA MATAR,

BACO!!!


VIDA LONGA

AOS MEUS

ASSASSINATOS,

BACO!!!


ETERNIDADE

AOS MEUS

ASSASSINATOS,

BACO!!!


MATAR

É O MEU

AMOR MAIOR!!!


MATAR

É A MINHA

PAIXÃO MAIOR!!!


MATAR

É A MINHA

CAÇADA MAIOR!!!



Dando nove passos para trás, Alessandra saiu da sala ritual, o corpo sem nenhuma mancha de sangue, os cabelos secos, a pele brilhante como os diamantes que garantiam-lhe a vasta fortuna, incalculável para a época, e dirigiu-se para sua cama, onde estava a sua fantasia luxuosa de bacante que, desde que completou dezoito anos, utilizava nas noites de sábado dos Carnavais. Uma veste ritual riquíssima, branca reluzente, de seda mais pura, lembrando a de uma romana da mais alta estirpe, com detalhes dourados apresentando signos e sigilos quliphóticos ritualisticamente posicionados. As adagas são posicionadas na cintura, dos dois lados, reluzindo com um brilho que mais atrai olhares de admiração afastando as intenções de ladrões, que, em todos os Carnavais, quando percebem que é ouro mas notam algo bem estranho nela, afastam-se com arrepios de medo. É o que uma loba como ela provoca nos que procuram atrapalhar-lhe a caçada na noite de sábado de Carnaval efetuada pelas ruas do Rio, protegida pelas Energias de Baco, cuja origem correta ela nunca soube identificar. Alessandra tornou-se uma lenda urbana de Carnaval; os poucos que viram-na e sobreviveram a tal visão em quatorze anos dos assassinatos rituais dela pelas ruas cariocas, falam com medo e respeito do que presenciaram. Não dos assassinatos, já que ela se torna invisível aos olhos de todos aqueles que não foram escolhidos para serem assassinados e devorados no meio das ruas, em meio a pulos de alegria e abraços de casais que se conhecem ocasionalmente ou que se relacionam há tempos; apenas os que possuem certa sensibilidade mediúnica puderam visualizá-la no meio das ruas matando e devorando suas vítimas, homens, mulheres, crianças, idosos e bêbes, quando a oportunidade aparece. Não há cadáveres, ela envolve as vítimas em um manto impenetrável de sombras, névoas e sangue, enquanto come até os ossos em uma velocidade além do tempo/espaço, uma técnica mágica aprendida por conta própria e que nunca falhou. Tudo das vítimas é absorvido e, desencarnados, a cada Carnaval, eles surgem em redor dela, como soldados a protegê-la dos ataques de outros Licantropos e demais Predadores, encarnados e desencarnados, que desfilam pelas ruas cariocas durante A Festa Da Carne. Há muitos que desaparecem durante esta festa, anualmente; como não pensar que, talvez, tenham encontrado uma predadora como Alessandra ou outro tipo de predador durante o pula-pula, o roça-roça, a bagunça e a devassidão enlouquecedoras proporcionadas pelas vibrações emitidas, em uníssono, por todos os envolvidos com o Espírito que rasteja por todas as ruas na citada época?


18:30 h. Os portões da mansão estão abertos e Alessandra, cercada pelos seus seguranças astrais, incontáveis, já que além dos que matara nos Carnavais anteriores, estava com os que matara sem ser no Carnaval, sai, portentosa, esplendorosa, com sandálias douradas ao estilo romano, cabelos presos em um coque feito com uma armação de ouro. Ela não tinha o costume de gravar ou citar em sua mente, durante as caçadas de sábado de Carnaval, o nome das ruas que percorria, mas, para nosso conhecimento, digamos que ela, de posse de um domínio completo do Astral, percorria todo o Rio de Janeiro, a capital e os demais municípios do mesmo, em segundos, até a meia-noite do domingo de Carnaval, hora na qual, tradicionalmente, se despia e, nua, surgia em um camarote do Scala para exibir-se, atrair as atenções dos homens e foder com vários deles até o dia amanhecer. E, quando amanhecia, utilizando de seus talentos mágicos, caminhava tranquilamente pelas ruas até chegar em casa, sem ser vista, e se masturbando em frente a cada igreja, evangélica e católica, que no caminho encontrava, uma debochada tradição que religiosamente a todo Carnaval praticava. Naquele, especificamente, aguardava matar e comer muitos, adquirindo mais escravos e servidores astrais, além de Poder e o desejo mais secreto de sua canibalesca alma: adquirir a Imortalidade, física, como Baco adquiriu, que ela considerava um Mestre dela mesmo sem tê-Lo pessoalmente visto. O bisavô dela deixara escrito que Baco não era um espírito desencarnado, mas um homem, de carne e osso, como ele, jovem, trigueiro como todos da família, e fisicamente belo e majestoso no porte, no olhar e no caminhar. Assim era, também, Alessandra, a nossa bacante, cheia de fome naquela noite de sábado de Carnaval, uma fome que se ampliava mais devido aos vários odores que sentia, como o odor do sexo mais sujo que povoa o ar durante a folia, o odor da fantasia mais proibida pronta para ser realizada, o odor do crime mais desejado pronto para ser praticado... Alessandra sentia esses odores das suas vítimas e daqueles que não seriam suas vítimas, algo pulsante, algo extasiante, algo inebriante, algo excitante e, naquele sábado, naquela noite de sábado de Carnaval de 17 de fevereiro de 1996, a fome não estava sendo aplacada, não estava sendo diminuida, não estava sendo nada extasiante, inebriante ou excitante...


Acompanhada pelos seus servidores astrais escraizados, Alessandra percorria o Rio de Janeiro, percorria cada rua, percorria cada rua da capital, percorria cada rua dos demais municípios, percorria, percorria, percorria... Ela se perguntava o que estava acontecendo! Ela se perguntava o porquê de não conseguir farejar as suas vítimas! Ela se perguntava! E rodava, rodava qual uma barata enlouquecida pelo odor de um veneno que prontamente a matará, pelas ruas! Rodava! Rodava! Rodava! A fome gritava! A fome rosnava! A grande fome de uma predadora gritava alto! A grande fome de uma predadora rosnava alto! Alessandra se desesperou! Alessandra se desesperava mais a cada rua, não identificava suas vítimas, os odores se mesclavam, se neutralizavam, desapareciam, rumavam para um espaço vazio de cadências mais vazias ainda! Alessandra, sua fome, enlouqueciam! Alessandra retirou as adagas da cintura e partia para cima de todos pelas ruas! Alessandra, invisível, caia nas calçadas, caia no asfalto e, pouco a pouco, vendo-a enfraquecer, seus escravos astrais abandonavam-na, abrindo espaço para que tipos piores do Astral dela se aproximassem sem que a mesma percebesse! Alessandra continuava tentando matar alguém! Alessandra tentava matar um bebê ao colo da irmã, que também tentou matar! Alessandra tentava matar um casal gay que se beijava em frente a uma boate! Alessandra tentava matar vinte crianças vestidas de Clóvis brincando em uma rua do subúrbio carioca! Alessandra tentava matar cinquenta pessoas de um mini-bloco que se preparava para rumar para as ruas perto do centro da cidade do Rio de Janeiro! Alessandra tentava, ao mesmo tempo, em todo o Rio de Janeiro, matar alguém, devorar a carne e os ossos de alguém, mas não conseguia, não estava conseguindo, não iria conseguir! TENTAVA, TENTAVA, TENTAVA, TENTAVA, TENTAVA, TENTAVA, TENTAVA, TENTAVA, TENTAVA, TENTAVA, TENTAVA, TENTAVA, TENTAVA, TENTAVA, TENTAVA, TENTAVA, TENTAVA, TENTAVA, TENTAVA, TENTAVA, TENTAVA, TENTAVA, TENTAVA, TENTAVA, TENTAVA, TENTAVA, TENTAVA, TENTAVA, TENTAVA, TENTAVA, TENTAVA, TENTAVA TENTAVA, TENTAVA, TENTAVA!!! E NÃO CONSEGUIA MATAR ALGUÉM!!! E NÃO CONSEGUIA MATAR ALGUÉM!!! E NÃO CONSEGUIA MATAR ALGUÉM!!! E NÃO CONSEGUIA MATAR ALGUÉM!!! E NÃO CONSEGUIA MATAR ALGUÉM!!! E NÃO CONSEGUIA MATAR ALGUÉM!!! E NÃO CONSEGUIA MATAR ALGUÉM!!! E NÃO CONSEGUIA MATAR ALGUÉM!!! E NÃO CONSEGUIA MATAR ALGUÉM!!! E NÃO CONSEGUIA MATAR ALGUÉM!!! E NÃO CONSEGUIA MATAR ALGUÉM!!!


Em uma rua, com as duas adagas, salta por cima de várias pessoas em um trenzinho e cai no asfalto, cravando, na parte astral deste na dita rua, as lâminas das armas ritualísticas. Ela não consegue retirá-las e, então, percebo o estado em que se encontra: as vestes, antes riquíssimas, naquele momento apenas trapos; os escravos astrais, antes inumeráveis, todos abandonaram-na; em seu redor, patifes, canalhas e marginais desencarnados de todos os tipos, além de Demônios, Exus e Pombagiras os mais brutalizados; à sua frente, Aquele que sempre quis ver frente a frente, olhando-a fixamente enquanto estrangula, em cada mão, uma criança encarnada por Ele raptada em alguma rua não do Rio, mas de qualquer outro lugar do mundo; e, atrás, alguém que ela jamais imaginaria...



- VALESKAAAAAAAAAA!!!!!!!!!

- Maninha, porque grita assim tão alto?

- VAGABUNDA DESGRAÇADA, QUE TRAIÇÃO FOI ESSA???

- Não se vire, vai ser pior para você...

- DIGA-ME QUE ISSO NÃO FOI OBRA SUA!!!

- De quem seria, Alessandrinha? Da virgenzinha Maria?

- POR QUE, SUA DESGRAÇADA???

- Porque eu fui Escolhida por Ele.

- O QUE???

- Baco de Irashtoum me Escolheu como a Sucessora Dele.

- SUCESSORA???

- Ih, eu nem te conto quantos anos Ele tem, nem Ele vi te contar, não gosta de falar e apenas se comunica telepaticamente comigo, como fazia com o nosso bisavô.

- BACO, ISSO NÃO É VERDADE!!! BACO, SENHOR, ISSO NÃO É VERDADE!!!

- Ele não vai falar, Alessandra...

- SUA PIRANHA DESGRAÇADA, MALDITA PIRANHA DESGRAÇADA!!!

- Não adianta me xingar, eu já tomei o seu lugar; te segui sem que notasse, assumi a aparência astral de um dos seus ex-escravos e te deixei assim, esfomeada, maluca, decadente, vencida... Tudo para te impressionar e demonstrar aos seus olhos que eu cresci, mesmo não sendo tão genial quanto você e nem tão bonita. Te invejei muito até hoje, mas te vendo assim... Tadinha dela, pessoal, não? - Se dirige às hordas macabras em redor delas e de Baco. - Vai ficar tudo bem, ela vai ser de todos vocês...

- VALESKA, VOCÊ VAI SE ATREVER...

- Sabe porque Baco me Escolheu, Alessandra? Porque Ele se irritava com os seus rituais antes de sair para caçar nos sábados de Carnavais.

- QUÊ???

- Isso mesmo, Alessandra, sua burra, porque acha que Ele nunca apareceu para você e apenas para mim? Você, sua burra, estava fazendo tudo errado, mesmo sendo tão gênio como é! Você, sua burra, irritava ao Baco com seus chamamentos, com a porra do seu corpo cheio de sangue, com a merda da sua voz cheia de sangue, mais parecendo um retardada mental do que uma Iniciada Licantrópica Real! Você, sua burra, nunca soube decifrar de verdade o Baco, que se aproximou de mim, simplesmente, porque eu nunca quis, sinceramente, encontrá-Lo, assim como nosso bisavô nunca quis! Você, sua burra, gênio de merda, canibal de merda, se fodeu sozinha, se fodeu pensando que um Ser tão elevado quanto Ele nos Planos que Ele percorre poderia atender aos seus latidos de cadela desesperada pelo pau de um cahorro, o que Baco não é!

- BACO!!! SENHOR BACO!!! SENHOR BACO!!!

- Ah, sua cadela burra maluca, vê se morre com dignidade, caralho!



Valeska saltou sobre Alessandra com suas adagas de ouro e cravou as lâminas das duas nas partes posteriores dos pulmões da irmã. Alessandra gritou... E Alessandra gritou mais... Alessandra gritou... Alessandra gritou a cada golpe das lâminas em suas costas, desferidos com uma selvageria que nem mesmo ela demonstrara em nenhuma de suas caçadas! Valeska desferiu cegamente os golpes por toda a parte posterior do tórax da irmã, despejando nela todos os anos de frustração e inveja e ódio que viveu por ter convivido ao lado de uma mais inteligente, bonita e bem sucedida do que ela! Muitos golpes, mais de dez mil, e Alessandra ainda continuava viva... Valeska cansou de golpeá-la, olhou para Baco, sorriu e manifestou mandíbulas lupinas em um crânio que se tornou o de uma loba selvagem, mordendo, primeiramente, a nuca da irmã; esta, gemendo, agonizante, ainda tem forças para sussurrar o que a brutalmente animalesca Valeska jamais soube decifrar, em um tom de voz inaudível apenas captado por Baco, o qual jamais àquela dirá o que foi dito:



- Eu... te... amo... Valeska...



Valeska devora a carne da irmã em segundos; os ossos, em outros segundos; e, retomando as suas feições humanas, assiste, às gargalhadas, já à meia-noite do domingo de Carnaval, 18 de fevereiro de 1996, Alessandra, nua, gritando desesperada, sendo carregada pelos membros da turba sombria que assistiu, gargalhando, a morte dela, para o meio de uma rua, na qual teve as pernas abertas, foi por dois Demônios segura e foi estuprada não apenas por todos Eles, mas por todos os Espíritos Baixos que se apresentam nos quatro dias de Carnaval pelo mundo... Fora dos Carnavais, Alessandra vai sendo escrava sexual até mesmo daqueles que vitimou... E, nos Carnavais, ela é obrigada a ser A Prostituta De Todos, suportando ser penetrada até pelos horrendos monstros que adormecidos ficam nos esgotos da Terra.


Atualmente, Valeska é a acompanhante de Alessandra nessa função de Prostituta De Todos. Ela foi também burra, cometeu o mesmo erro de venerar Baco de Irashtoum como um Deus qualquer, como um Demônio qualquer, como um Espírito qualquer que siga A Trilha De Sangue. Valeska foi assassinada pela filha de onze anos no sábado de Carnaval deste ano de 2009, uma que continua a tradição canibalesca da família dela e de Alessandra, agora pobre; mas que, para Baco, vai ser mais uma Prostituta De Todos daqui há alguns anos, pois comete os mesmos erros da mãe e da tia, é uma outra burrinha...


Ninguém, nem eu, nem você, nem um canibal, encarnado ou desencarnado, jamais saberá o que significa este Baco de Irashtoum cujo silêncio carrega em si mesmo o odor de antigo sangue violentamente derramado.



Inominável Ser

DEVORADO PELO

ATEMPORAL MISTÉRIO

DE BACO DE IRASHTOUM







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O Terror Inominável. O Horror Inominável. A Loucura Inominável. A Cova Aqui É A Do Puro Pesadelo Das Covas Mais Profundas E Elevadas. Vozes Estranhas Aqui. Sons Estranhos Aqui. Palavras Estranhas Aqui. Estranhas E Inomináveis. Sintam-Se Conduzidos Pelo Carro Inominável Do Terror Inominável. Sintam-Se Conduzidos Pelo Carro Inominável Do Horror Inominável. Sintam-Se Conduzidos Pelo Carro Inominável Da Loucura Inominável.

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