terça-feira, 23 de novembro de 2010

Nile - Sarcophagus





Who Dares Disturb
My Blissful Sleep
Again in Anger
Must I Rise
How Long Unknown
I Lay Emtombed

My World
So Long Forgotten
Did Disown Me
Usurper
I was Scorned

Ah
The Suffering They did Inflict

Stained With Cosmic Black Sins
The Sun No Longer Sets Me Free






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segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Corte-Se, Suzana...


As baratas consomem os ralos restos de comida barata pelo chão da casa. Os ratos fazem a festa na geladeira aberta e com toda a comida há meses estragada. Os cupins se divertem degustando os livros na estante de mogno, também parte da degustativa festa. Pequenos outros insetos, animais rastejantes diversos e todo tipo de imundície encontra-se dispersa pela casa de Suzana, em casa trancada há meses, em seu quarto todo sujo de sangue, sentada nua no chão cheio de sangue, a olhar para a parede à esquerda de sua cama cheia de mofo, a ouvir A Voz Na Parede...



Eu adoro vê-la assim, Suzana, praticante de algo que me alegra, tornando minha passagem por aqui muito boa. Estou sentindo mais dedicação da sua parte nesta nossa brincadeira. Parece que estamos muito bem necessitados de mais velocidade nela, não parece, Suzana? Então, Suzana, corte-se... Corte-se, Suzana, corte-se... Faz bem para você... Faz bem para mim... Faz bem para o mundo... Corte-se, Suzana...


A navalha dialoga com o bíceps esquerdo de Suzana, um corte bem profundo no que ainda resta da pele do mesmo, um corte lento primeiramente e rápido ao chegar no tríceps. Suzana não esboça reação, sua face cortada é apenas uma grotesca moldura ensanguentada de um quadro pintado por um macabro artista. Este artista, A Voz Na Parede, fala e fala e fala com ela...



Adoro seus cortes, Suzana, costumam ser um deleitoso prato de comida para os meus olhos e sentidos. Desde que se acostumou a me obedecer, menina, eu tenho sido muito seu amigo e compartilhamos de uma intimidade bem profunda. Inteligência temos para continuar com essa amizade e não quero que ela acabe; por isso, Suzana, corte-se... Corte-se, Suzana, corte-se... Corte-se, Suzana, corte-se... Sou seu amigo mais fiel, o único amigo que teve em toda a sua vida, quero te ajudar, quero que saiba que eu amo te ajudar... Então, para que eu possa te ajudar, corte-se, Suzana, corte-se...



A navalha dialoga com uma parte do lado esquerdo do rosto dela que ainda não foi cortado. Um corte em w profundo, perto do olho esquerdo, olho petrificado, sem sinal de vida, sem sinal de que alguma vez houve nele uma vida. Como sempre, ao acabar de cortar-se, Suzana faz a mão que empunha a navalha, ora a esquerda, ora a direita, mecanicamente cair em suas mutiladíssimas pernas. Nada mecânica é, no entanto, a voz que ela ouve, a única voz que ela ouve agora, A Voz Na Parede, voz de aniquilante caótica natureza...



Ouvimos um ao outro sempre, não, Suzana? Mesmo sendo muda, você falava comigo, deixava tudo para trás, esquecia tudo, até seus pais e os outros mudos que se diziam seus amigos. Apenas minhas palavras eram ouvidas, mesmo sendo comigo um tanto quanto desobediente. Eu te fiz o que você hoje é com o tempo, Suzana, eu te moldei à minha profunda imagem e semelhança em algo que sempre quis que você fosse. A navalha fica bem em suas mãos, os cortes ficam bem em seu corpo e a sua falta de sentidos, menos o da audição, me deixa deliciado... Faz o que eu mando, faz, Suzana, faz... Corte-se, Suzana... Corte-se, corte-se... Corte-se, Suzana, corte-se...



A navalha dialoga com o lado esquerdo do pescoço dela, um corte de baixo para cima bem rápido e outro perpassando-o, formando uma deformada cruz. Não há luz no quarto e no mesmo a luz do sol não adentra há meses. Meses! Meses! Meses! Quantos meses se passaram desde que Suzana se cortou pela primeira vez? Apenas A Voz Na Parede sabe, apenas Ela, uma consciência que sempre foi para Suzana a sua verdadeira essência, sabe... Não há luz, há apenas, para ela, a autoretalhar-se, A Voz Na Parede...



A nossa brincadeira, Suzana, tão boa e tão eficiente... Estamos nos divertindo como nunca nos divertimos e todo o tempo do mundo temos para continuar com ela até que todo seu sangue acabe. Tenho que te controlar, você sempre foi afoita, desde pequena, querendo sempre, avidamente, terminar tudo o que começava. Vá com calma, fique calma, sempre calma, Suzana... Nós temos que experimentar muita coisa ainda, fique calmíssima e corte-se... Corte-se, Suzana, corte-se... Corte-se, corte-se, corte-se, Suzana...



Bem acima da vulva, Suzana efetua mais um corte, o décimo quinto na mesma região. Levantando os lábios vaginais, efetua o primeiro dentro da vagina, fazendo com que abundamente brote muito mais sangue do que antes, sangue que, no entanto, ainda não é o último que lhe resta. Estranhamente, parece que sua perda de sangue está sendo ordenada, orientada, organizada, controlada com excelente eficácia. Abundância de sangue e abundância de palavras na parede... A Voz Na Parede, obssessiva, obcecada e obssessora...



Bom, Suzana, muito bom esse seu último corte... Nós nos entendemos bem, Suzana, muito bem... Saiba que te adoro muito mais por causa dessa sua obediência de agora, estamos tão unidos... Somos tão amigos... Nessas ocasiões, desejo que isto aqui nunca termine e sem noção de tempo e de espaço continuemos sem fim neste jogo nosso, nesta brincadeira nossa. Vai, Suzana, corte-se... Quero ver isso... Desejo ver isso... Me alegra ver isso... Me excita ver isso... Corte-se... Corte-se... Corte-se... Corte-se... Corte-se, Suzana... Corte-se...



A navalha dialoga com os seios dela, rápidos cortes laterais, profundos, ajuntando-se a antigos cortes anteriormente feitos. Os seios, que já nem seios são mais, são como pedaços dependurados de carne apresentando sinais de deterioração. O corpo todo de Suzana está se deteriorando, ao vermelho do sangue une-se o negro da deterioração. Uma gargalhada na parede ela ouve enquanto seus braços novamente pendem roboticamente acima de suas pernas. É uma gargalhada na parede, uma gargalhada que ela ouve vir da parede, parede para a qual seus olhos estão sumamente voltados. Gargalhadas na parede, gargalhadas da Voz Na Parede...



Belos, belos, muito belos estão os seus seios agora! Nunca gostei deles como eram antes, estavam bonitinhos demais! Agora, sim, Suzana, eu gosto deles, assim como de todo o seu corpo! É um corpo que apenas cadáveres desejariam, disto eu tenho absoluta certeza! Você nunca foi vaidosa, lembra-se? Lembra-se, também, que eu sempre te impedia de ser um pouquinho vaidosa, mesmo que os seus pais quisessem que você se arrumasse um pouco melhor? Eu impedi tudo, assim como impedi a aproximação de homens, sempre desejei você apenas para mim, minha mudinha mutilada... Vai, bonitona, corte-se... Vai, lindinha, corte-se... Corte-se, minha gatinha... Corte-se, gatinha... Corte-se... Corte-se... Corte-se, Suzana, minha linda mutilada gatinha... Corte-se, Suzana, minha linda retalhada gatinha...



A navalha dialoga com as nádegas, cortada várias vezes acima de antigos cortes; com o rosto todo, cortado onde já nem há mais espaço para cortes; e o abdômen, já tão castigado, quase aberto, volumoso e grande... Abdômen volumoso? Abdômen grande? Qual o motivo desse volume? Qual o motivo desse tamanho? Qual o motivo se Suzana há meses não se alimenta? Qual o motivo se Suzana é um perfeito esqueleto agora, que há meses não se alimenta? O motivo está todo com a voz que ela ouve na parede... A Voz Na Parede sabe o motivo... A Voz Na Parede, mantendo Suzana todos esses meses no mesmo estado, sabe o motivo... Ouçamos, todos juntos, A Voz Na Parede... Olhe para a parede em vosso quarto, mutilado retalhado leitor... Ouça A Voz Na Parede... Ouça A Voz Na Parede... Ouça A Voz Na Parede... Ouçamos juntos A Voz Na Parede... Ouçamos juntos A Voz Na Parede... Ouçamos juntos A Voz Na Parede... Como Suzana ouve...



A sua barriga cresceu muito após esses nove meses, Suzana, faltam apenas sete dias para nascer a sua filhinha, a da qual cuidarei com muito esmero e carinho. Você era muito rebelde, não me ouvia antes e veja o que eu tive que fazer para você me obedecer após, claro, te engravidarem. Eu te falei para matar os seus pais, Suzana, eu te falei, mas você teimava em não matá-los, em me dizer que os “amava muito”, que tolice, que asneira, que burrice... E veja no que deu a sua teimosia, Suzana, seu pai, que te violentava, abaixo das vistas grossas de sua mãe, te engravidou; e aí, então, com ódio deles, você tomou coragem e usou a navalha! Mas, já era tarde, muito tarde, eu não queria que você engravidasse de nenhum homem, você era apenas minha, unicamente minha... E te castiguei durante estes nove meses, para que soubesse que eu sou seu dono, o dono da sua vida, o dono do que falta da sua estúpida vida. Apenas sete dias faltam para que você morra e a sua filha nasça... Vou chamá-la de Suzana Segunda, e nesta casa abandonada, vou ensiná-la desde cedo a mexer com a navalha... Até lá, Suzana, até o dia da sua morte, corte-se... Corte-se, desgraçada... Corte-se, maldita... Corte-se, miserável... Corte-se, piranha... Corte-se, vagabunda... Corte-se, cadela... Corte-se, rameira... Corte-se, vadia... Corte-se, mutilada... Corte-se, retalhada... Corte-se, Suzana Mutilada E Retalhada... Corte-se, Suzana... Corte-se, Suzana... Corte-se, Suzana... Corte-se, Suzana... Corte-se, Suzana... Corte-se, Suzana... Corte-se, Suzana... Corte-se Suzana... Corte-se, Suzana... Corte-se, Suzana... Corte-se, Suzana...



A navalha dialoga com o bíceps esquerdo...


A navalha dialoga com a panturilha direita...


A navalha dialoga com o pé esquerdo...


A navalha dialoga com o pulso direito...


A navalha dialoga com o alto da cabeça...


A navalha dialoga com a orelha direita...


A navalha dialoga com as costas...


A navalha dialoga com a palma da mão direita...


A navalha dialoga com os lábios...


A navalha dialoga com o ânus...


A navalha dialoga com os lábios vaginais...


A navalha dialoga com todo o corpo dela...


A navalha possui uma linguagem amiga...


A navalha possui uma linguagem sagrada...


A navalha possui uma linguagem: a da Voz Na Parede...


A Voz Na Parede...


Suzana ouve...


A Voz Na Parede...


Suzana ouve...


A Voz Na Parede...


Suzana ouve...


A Voz Na Parede:


Corte-Se, Suzana...


Corte-se, Suzana...


Corte-se, Suzana...


Corte-se, Suzana...


Corte-se, Suzana...


Corte-se, Suzana...


Corte-se, Suzana...


Corte-se, Suzana...


Corte-se, Suzana...


Corte-se, Suzana...


Corte-se, Suzana...


Corte-se, Suzana...


Corte-se, Suzana...


Corte-se, Suzana...


Corte-se, Suzana...


Corte-se, Suzana...


Corte-se, Suzana...


Corte-se, Suzana...


Corte-se, Suzana...


Corte-se, Suzana...


Corte-se, Suzana...


Corte-se, Suzana...



Inominável Ser

OUVINDO A VOZ

NA PAREDE

DO QUARTO DELE






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Nile - Papyrus Containing the Spell to Preserve Its...




Amun
Lord of the Gods
Thou who art of the Four Rams Heads upon thy Neck
Thou standest upon the spine of the crocodile fiends
To thine sides are the Dog Headed apes
The Transformed spirits of the Dawn

Drive away from me the Lions of The Wastes
the Crocodiles which come forth from the River
the Bite Of Poisonous reptiles
which crawl forth from their holes

Be driven back crocodile thou spawn of set
Move not by means of thy tail
Work not thy feet and legs
Open not thy mouth
Let the water which is before thee
Turn into a consuming fire

I possess the spell to
Preserve me from He Who is in the water

Thou whom the thirty seven Gods didst make
And whom the Serpent of Ra didst put in chains
Thou who wast fettered with links of iron
in the presence of Ra
Be driven back thou Spawn of Set

Drive away from me the Lions of the Wastes
the Crocodiles which come forth from the River
the bite of Poisonous reptiles
which crawl forth from their holes
The Command to release the Seals to bind his tomb






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domingo, 3 de outubro de 2010

O Assassino, A Vítima E O Gato Rosa


Crime: qual sedutor maior nome envolve a alma do perverso? Crime: qual a métrica aperfeiçoante maior da alma do perverso? Crime: qual a consistência máxima do mais perfeito bolo que compete ao degustar da alma do perverso? Crime: qual a inclemente rota de colisões com as morais geradas pelas civilizações que maior possa acrescentar valor à alma do perverso? Crime: quanto de retórica se enquadra nesta qualidade maior da alma do perverso? Crime: qual nota musical mais abordante da mística sinfonia enegrecida maior da alma do perverso? Crime: qual rumo maior de ondulações em um plano de abordagens lógicas dentro da alma do perverso? Crime: qual espetáculo maior incessantemente vigoroso tremula possantemente dentro da alma do perverso? Crime: qual patamar permanentemente visceral dedica-se ao imanente e transcendente sabor da perversa prática criminosa na alma do perverso? Crime: qual inspirador senso maior anima em alturas elevadíssimas a alma do perverso? Crime: qual senso de disciplina tática cruel maior é o máximo lance dentro da alma do perverso? Crime: qual valoração especificamente maior aloja-se ruminantemente dentro dos recônditos inefáveis mais desconhecidos nos gemidos e ruídos e urros da alma do perverso? Crime: qual infinitude intelectivamente básica maior aplica-se à escolástica sã e insana da alma do perverso? Crime: qual batida de tambor maior ultraviolentamente vigora nos salões de tenebrosas musicalidades na alma do perverso? Crime: qual estranha volição maior imperiosamente qualifica a danosidade, a destrutibilidade e as categorias todas de perversidade dentro das maquinações da alma do perverso? Crime: qual transe maior qualificativo da hipnótica dança proporcionada por todos os ferozes bem calculados movimentos da alma do perverso? Crime: qual orientador maior nas direções funcionais das vias de sangrentos caminhos percorridos pelos ardentes criminosos desejos da alma do perverso? Crime: qual incentivador maior na campanha de danificação de todo constitutivamente benéfico panorama social dentro da desordem e da ordem nos instintos da alma do perverso? Crime: qual o motor maior do veículo mais possante para as nauseantes corridas em busca de sangue a ser derramado motivando cada milímetro dos passos em uma estrada da alma do perverso? Crime: qual filosofia maior da alma do perverso? Crime: qual matemática maior da alma do perverso? Crime: qual contabilidade maior da alma do perverso? Crime: qual medicina maior da alma do perverso? Crime: qual ciência anti-social maior da alma do perverso? Crime: qual gene maior da alma do perverso? Crime: qual engenharia existencial maior da alma do perverso? Crime: qual arquitetura vital maior da alma do perverso? Crime: qual literatura maior da alma do perverso? Crime: qual poética maior da alma do perverso? Crime: qual pintura maior da alma do perverso? Crime: qual teatro maior da alma do perverso? Crime: qual cinema maior da alma do perverso? Crime: qual faculdade maior da alma do perverso? Crime: qual diversão maior da alma do perverso? Crime: qual dimensão maior da alma do perverso? Crime: qual estrela maior da alma do perverso? Crime: qual universo maior da alma do perverso? Crime: qual criação maior da alma do perverso? Crime: qual guia espiritual maior da alma do perverso? Crime: qual anjo e demônio maior da alma do perverso? Crime: qual Verdadeiro Deus Creador maior da alma do perverso?


O Assassino é um filósofo. A Vítima é uma filosofia. O Assassino é um músico. A Vítima é uma melodia. O Assassino é um pintor. A Vítima é uma pintura. O Assassino é um ilustrador. A Vítima é uma ilustração. O Assassino é um desenhista. A Vítima é um desenho. O Assassino é um arquiteto. A Vítima é uma arquitetura. O Assassino é um vendedor. A Vítima é um produto. O Assassino é um médico. A Vítima é um paciente. O Assassino é um engenheiro. A Vítima é uma engenharia. O Assassino é um condutor. A Vítima é um veículo. O Assassino é um contador. A Vítima é um valor monetário. O Assassino é um operador. A Vítima é uma ação de valor. O Assassino é um industrial. A Vítima é uma indústria. O Assassino é um padeiro. A Vítima é um pão. O Assassino é um açougueiro. A Vítima é uma carne. O Assassino é um pescador. A Vítima é um peixe. O Assassino é um traficante. A Vítima é um entorpecente. O Assassino é uma chave. A Vítima é uma porta. O Assassino é um pedreiro. A Vítima é um tijolo. O Assassino é um atleta. A Vítima é uma competição. O Assassino é um presidente. A Vítima é uma nação. O Assassino é um carcereiro. A Vítima é um presidiário. O Assassino é um juiz. A Vítima é um réu. O Assassino é um violeiro. A Vítima é uma corda de violão. O Assassino é um atirador. A Vítima é um alvo. O Assassino é um carpinteiro. A Vítima é uma madeira. O Assassino é um professor. A Vítima é um aluno. O Assassino é um pai. A Vítima é um filho. O Assassino é um digitador. A Vítima é um teclado. O Assassino é um guia. A Vítima é um itinerário. O Assassino é um ladrão. A Vítima é um objeto a ser roubado. O Assassino é um leitor. A Vítima é um livro a ser lido. O Assassino é um escritor. A Vítima é um livro a ser escrito. O Assassino é um poeta. A Vítima é um poema a ser escrito. O Assassino é um sacerdote. A Vítima é um crente a ser ludibriado. O Assassino é um mago. A Vítima é uma obra mágica a ser concluída. O Assassino é um orador. A Vítima é uma oração a ser efetuada. O Assassino é um Demônio. A Vítima é possuída por este Demônio. O Assassino é um Deus. A Vítima é obra deste Deus.


O Assassino se pergunta, diante da Vítima, acerca das meditações que assolam-no no momento de agora no qual se encontra prestes a fazer escorrer mais um pouco de sangue neste mundo de vítimas e assassinos, de assassinatos e vitimados, de vitimizações e assassinados. Uma fábrica abandonada a quilômetros de qualquer cidade conhecida, povoada de gatos selvagens, ratos, baratas e serpentes, rico habitat que copia o habitat do humano mundo, o qual serve de palco de execuções para o Assassino desde sempre, é o cenário panorâmico da ação que se julga aqui nascente e presente. A Vítima está amarrada a uma cadeira com correntes de aço, é um homem grande e forte, mas não vem ao caso descobrir-lhe o nome, o nome da esposa, o nome dos filhos, o nome da mãe, o nome do pai, o nome do cachorro, o nome do papagaio ou o valor de sua conta bancária ou a marca do último carro do ano que adquirira ou a cor de sua pele. Ele é apenas A Vítima, mais uma neste imenso maquinário de lógica eliminatória que chamamos de mundo contemporâneo, organizado em prol de uma hipocrisia social latente moldada pela atmosfera pop que gera as Brytneys e os Justins, o videogame e o MP4, as guerras e a falsa sensação de paz, os crimes e os assassinatos, as vítimas e os assassinos. Apenas A Vítima, como nós mesmos que também somos vítimas, permanecendo neste jogo e guerra que chamamos de vida em sociedade, na qual a lâmina do punhal de um assassino é bem mais honesta do que a ponta da caneta de uma autoridade, um tão vitimado quanto nós que permanecemos entre a espada e a espada. O Assassino parado em frente à vítima é um homem de estatura mediana, magro, mas, como no caso da Vítima, não vamos nos atrelar ao comodismo pueril e medíocre de detalhes de nomeações como se tudo fosse possível nomear. Sintamos apenas as respirações dos dois, a da Vítima e a do Assassino, como sendo as nossas respirações, entrando na pele de um, entrando na pele de outro ou deixando com que cada um deles nos conquiste e nos coma em uma mesa lotada de mclanches felizes e televisões de tela plana, sonhos de consumo para todas as vazias almas contemporâneas. Ser O Assassino, ser A Vítima: quem nunca quis estar de um lado incômodo neste aborto torrencial que especulamos ser um tipo de existência que tenha uma finalidade especificamente natural? É a isto que se atenta O Assassino em suas meditações, deixando A Vítima, que tem punhais cravados nas pernas, nos ombros e nos braços, estupefata ao ver o vai-e-vem daquele, agora, a surgir como uma miríade de alucinados relâmpagos.


O Assassino caminha de um lado para o outro brincando com o punhal na mão direita e a adaga na mão esquerda, clássicos instrumentos de morte que fascinam as almas que amam matar à maneira antiga, a mais febrilmente charmosa e elegante maneira de matar. Há um perverso sorriso no rosto esquelético do Assassino e seus perversos olhos mastigam o castigado corpo da Vítima, a olhá-lo como que a pedir que receba logo o golpe final que todos nós sabemos ser hipocritamente chamado de “golpe de misericórdia”. Misericórdia é um estúpido termo para designar a estocada definitiva no corpo de uma vítima, mas não vamos, agora, destruir uma tradição secular (ou, quase secular) determinada por um pensamento coletivo decadente e tão perverso quanto o de qualquer assassino. O Assassino está inquieto, em seu íntimo percorremos vielas obtusas e estreitas cheias de corpos retalhados e flores de cor rosa espalhadas entre dentes e ossos. A Vítima, castigada, está fazendo um hercúleo esforço para desmaiar e morrer mais depressa, mas os ferimentos cirurgicamente causados pelo Assassino foram meticulosamente planejados para deixá-la acordada, a sofrer com a paulatina dor pelas lâminas dos punhais proporcionada. O Assassino pára de caminhar de um lado para o outro e do bolso esquerdo da calça da Vítima retira uma bala Halls extra-forte, a qual saboreia agachado. Após terminar o saborear da forte bala, sempre olhando perversamente para os olhos da Vítima, ele senta-se em frente a esta e finca a adaga em uma ratazana e o punhal em uma serpente, os quais passavam perto dele no chão, com uma rapidez sobre-humana. Não se espantem com esta velocidade, O Assassino é um ser humano tão comum quanto nós que estamos nas duas faces da mesma suja moeda jogada no esgoto por algum cafetão ou cafetina que nos observa a partir do ponto de vista da Eternidade, gozando muito da nossa diária crônica prostituição vivenciada de inúmeros modos e posições, da sarjeta ao restaurante de luxo, do barraco à mansão, do deserto à cidade grande. O Assassino, demasiado humaníssimo como nós, é um leitor da revista Criativa, telespectador assíduo do Jornal Nacional, fã da TV Cultura, fanático por novelas mexicanas, apaixonado pela Xena, viciado em maconha, estudante de Filosofia da UFRJ, maligno carioca da gema que ama a praia de Ipanema e um brasileiro que não desiste nunca da arte de matar com extrema perversidade sangrenta.



Exercito um tipo de fé, de religiosidade, mesmo, nisto que faço. Um exemplo bem claro está no tipo de abordagem que faço diretamente em todos que aqui trago para matar. Com você não foi diferente, passando por aquela rua, falando ao celular, com uma maleta na mão direita, óculos escuros e entrando na H. Stern para comprar uma aliança de ouro para a sua futura noiva... Melhor dizendo, ex-futura noiva, já que o casamento de vocês dois somente se dará quando os ossos de cada um encontrar-se no cemitério... Vejo uma lógica nisso... Não é em vosso futuro verdadeiro reencontro, mas neste meu papel de assassino e no seu papel de vítima. Todo assassino, assim como eu, deveria fazer, de vez em quando, uma crítica da razão de matar que consista na contundência de assimilar uma compreensão sobre sua arte. Minha arte é uma raridade, hoje em dia os assassinos utilizam, em sua maioria, de armas de fogo; detesto as armas de fogo, prefiro lâminas, o brilho delas, os cortes precisos delas, as feridas que abrem... Não posso negar que isto é uma arte para poucos privilegiados que nasceram com o dom de matar. Muitos não nascem para orar? Muitos não nascem para roubar? Muitos não nascem para estuprar? Muitos não nascem para enganar? Muitos não nascem para fotografar? Muitos não nascem para pintar? Muitos não nascem para nadar? Por que não haveria de nascer muitos para a arte de matar? Reflito sobre esse esquema diante de todas as minhas vítimas, atual vítima, me comprazo em observar o sofrimento de vocês enquanto expando-me em felizes monólogos...

Mate-me logo, seu doente mental...

Doente mental, não, minha mente é bem mais saudável do que a de muita gente.

Por que eu... fui o escolhido... agora?

Escolho as minhas vítimas observando paulatinamente o ato de caminhar. Existe um código específico em cada passo e no barulho dos calçados que atraem-me, um padrão que agita-me e faz com que surja em minha mente a presença confirmadora de que aquele ou aquela que observo será minha vítima. É uma lógica, como já disse, uma conquista minha após anos de prática.

Um dia, um dia...

Um dia...?

Você será... preso...

E, também, assassinado?

Verme...

Quando criança, eu tinha vermes em meu estômago... Nada como um tratamento médico de verdade para curar qualquer tipo de inconveniente como este, não? Você quer um médico? Parece-me que há muitos buracos em seu corpo...

Por Deus, mate-me...

A Substância nem se dá conta de nós dois aqui, minha nobre vítima. Para A Substância somos minúsculas peças insensivelmente postas neste mundo, somos formiguinhas esmagáveis dentre todas as humanas formiguinhas esmagáveis. Mais do que tudo, pertencemos a um esquema cósmico de assassinos e vítimas que é coordenado por Inteligências que os espiritualistas supõem como “Superiores”, mas, que na verdade, são apenas os Assassinos Maiores de tudo que seja formiguinha pelos mundos. Esta é uma teoria filosófica minha, contemporânea de um mundo no qual as formiguinhas sentem-se grande coisa, apesar da furiosa investida da Morte em todos os sentidos, moradias e caminhos. Muitos assassinos, hoje em dia, perdem-se no meio de tanto caos, são logo aprisionados no meio de suas viagens de morte, violentados e detonados nos presídios. Principalmente aqui no Brasil, onde a maioria dos assassinos são passionais, amadores por natureza, o índice de aprisionamentos e mortes deles é bem maior; mais do que nos Estados Unidos, onde vigora a tal “pena de morte” que apenas dá mais incentivo para um psicopata arrancar as glândulas mamárias de uma puta ou a piroca de um gay. O Grande Assassino, O Mundo, trouxe-o até mim, eu não te busquei; nas perspectivas e nas probabilidades possíveis, um outro assassino poderia matá-lo ali mesmo na rua; um ladrão poderia assaltá-lo; uma prostituta poderia dar-lhe o “boa noite, cinderela”; ou um travesti poderia enganar-lhe se passando por uma mulher, te levar para um motel e te aplicar este mesmo golpe, quando não, armar um escândalo que te poria nos maiores veículos de comunicação... Você é um homem famoso, rico e, arrogantemente, caminhava todos os dias perfazendo aquele mesmo caminho, o mesmo método, a mesma maneira esnobe de se portar a cada passo, o celular sempre a funcionar na mesma hora. Homens monótonos como você já matei quinze, da mesma forma que agora estou a utilizar para matá-lo. Monotonia, uma peça curiosa de um fenomênico mundo a atualizar-se cada vez mais na vulgaridade... Você é um homem vulgar, apesar de suas roupas caras, e algo que me incomoda é essa discrepância, esse paradoxo, mais um motivo para matar os de seu tipo. Sua família é um pouco melhor... Eu o observei durante sete dias e segui-o até sua casa, sua mulher e seus quatro filhos são maravilhosos... Vai ser a primeira família que vou...

Não, meus filhos, não os...

A menina de seis meses de idade...

Não... não faça... isso...

A outra menina de cinco anos de idade...

Eles, não, apenas eu...

Os gêmeos de doze anos...

Pelo amor...

O seu amor, sua esposa loira de olhos verdes, cabelos ondulados até a cintura, corpo esbelto moldado em academia, trinta e oito anos de idade...

Eles não tem nada a ver... com o seu esquema... o seu método... a sua...

Amiga vítima, quero apenas que você tenha esta única certeza antes que eu desfira em seu corpo a estocada derradeira: eu vou me deliciar escapando um pouco da minha metodologia, vou matar a sua filha de seis meses de idade, a sua outra filha de cinco anos de idade, os seus filhos gêmeos de doze anos de idade e a sua esposa maravilhosa de trinta e oito anos de idade. Vou matar cada um deles aqui, os sequestro de cada um já planejei, a maneira de trazê-los aqui é tranquila e a morte que eles terão será parte também da sua tortura pós-morte. Cada vítima anterior minha me persegue, sabia? Cento e nove mortes aqui, trinta e nove pelo Brasil, cento e quarenta e oito assassinatos cometi... Homens, mulheres; ricos, pobres; brancos, negros; tudo já passou pelas minhas lâminas, menos crianças... Vai ser divertido matá-las... Ver o sofrimento delas... Ouvir o choro delas... Sentir as lâminas penetrando nas carnes macias delas... Delícia, minha vítima, delícia...

Você não pode fazer isso...

Por que eu não posso fazer isso? Por que são crianças? Por que escaparei das escolhas que faço das minhas vítimas? Por que tenho que seguir algum “moral” de assassinos que não matam crianças? Quem disse que assassinos seriais tem que seguir graus de crimes como se matar fosse apenas uma ortodoxia esportiva? Bem, matar não é um esporte, nem chega perto de ser um esporte; matar é Arte, é Filosofia. Arte de exímios experimentadores da poesisa de um verbo denominado matar e Filosofia de excelentíssimos artífices de teorias que protegem o ato de matar. Minha temática é bem clara, tão clara quanto o sangue que eu aqui fiz escorrer neste chão no qual estamos a pisar. Eu vou mesmo matar toda a sua família, aquele arquétipo de coisas belíssimas que você construiu para si mesmo e que manteve, até hoje, como inderrubável. Ousarei sair de meu esquema de assassinatos e assassinarei mãe e filhos, todos juntos, aqui... Sofra mesmo, sofra muito, minha vítima, querida vítima, eu quero que você sofra muito, pensando não em sua morte, mas na dos seus amados entes queridos... Não estou a fazer um jogo psicológico ou a torturá-lo psicologicamente, verdadeiros assassinos cumprem as suas metas e realizam os seus mais ortodoxos objetivos quando não-limitados por esquemas fixos que matematizam a sensorial capacidade de matar. Muitos, do senso comum, diriam que eu sou satanista ou um mero psicopata, um mero assassino serial... Estou além disso, querida vítima, digo-lhe ainda que toda esta minha fala empostada, este meu monólogo, obedece a uma lógica que nem todo assassino como eu possui. É a lógica da fundamentação de um prazer além do imaginado a cada vez que perfuro o corpo de uma vítima minha. Lógica de minha vida, claro, misturada a um heavy metal insanamente inspirador que toca em minha mente durante as execuções de minhas obras de arte... Você é mais uma obra de arte minha, uma poesia, uma escultura, um filme, uma composição arquitetônica primorosa... Sua mulher vai ser outra obra e seus filhos, também... Vejo em seus olhos uma preocupação... Ah, amiga vítima, não se preocupe, eu vou ser bem mais talentoso na capacidade de causar dor e sofrimento a eles do que a você! Posso garantir essa minha marca registrada tanto quanto garanto que a sua morte vai ser deliciosamente lenta e saborosa para mim! Aumento assim o meu prazer...

Eles não merecem...

Não acredito em merecimento, acredito em encontros frutíferos que desencadeiam fatos mais frutíferos ainda.

O que ganhará, assassino, matando a minha família?

Não acredito em ganhos, acredito apenas em perdas, pois a vontade do mundo inteiro é perder, sempre perder, como eu me perco matando cada vítima como você.

Por Deus, eu te peço que não... mate... a minha... família...

Deus permite que tudo morra e eu cumpro apenas um desígnio materialmente moldado Nele.

Deus não protege assassinos... Eu...

Você pensa que Deus vai Descer Em Verdade até aqui para te salvar? Você pensa que Ele Desceria para salvar Sharon Tate das mãos de Charles Manson? Você pensa que Ele Desceria para salvar todas as mulheres assassinadas pelo Maníaco do Parque? Você pensa que Ele Desceria para salvar Daniela Perez das mãos de Guilherme de Pádua e Paula Thomaz? Você pensa que Ele Desceria para salvar cada vítima das mãos de um assassino como eu, sendo amador ou profissional e amante de sua Arte, Filosofia e Poesia Assassinas? Você pensa que Ele é pessoal e viria até aqui salvar um verme dotado de ossos, pele e órgãos que pulsam ao modo de britadeiras quando qualquer objeto perfurante transpassa a linha do horizonte dos limites corpóreos? Tolo sonho, tola esperança, minha vítima! Ah, como sou privilegiado por sempre encontrar uma vítima como você, católicos e protestantes ortodoxos que pensam que Ele se dignaria a Descer para salvá-los das minhas mãos! Você pensa que Deus é pessoal, querida vítima? Oh, deve pensar, pelo que vejo em seus olhos e pelo que verei nos olhos da sua mulher quando ela fizer o mesmo pedido aqui, na mesma cadeira na qual você está sentado! Neste meu mundo, vítima, não há apelos para forças sobrenaturais ou naturais advindas lá de cima ou lá de baixo, aqui eu sou supremo, absoluto, onisciente, onipotente e onipresente! Aqui, em meu mundo de lâminas lentamente incorporadas ao seu corpo, eu concedo a graça da dor e a vitória na morte... Delícia de profissão secreta é esta minha, não, vítima? Vejo pelo seu rosto que está a fraquejar mais, já não aguenta mais esta forma de morrer... Digo a você que vai demorar bastante até que você morra, querida vítima, vai demorar bastante...

Por favor, mais uma vez... peço que tenha... piedade... deles...

A piedade é um conceito desconhecido em todos os dicionários de assassinos como eu.

Monstro... monstro... desgraçado...

Sou tão humano quanto qualquer assassino atual ou do passado, querida vítima: como da mesma comida que eles; sorvo da mesma bebida que eles; trepo com o mesmo tipo de mulher que eles; durmo no mesmo tipo de cama que eles; e me divirto, matando, como eles se divertem matando. É um mal ser tão sanguinariamente humano, querida vítima? Penso que não, claro, pois da minha ótica eu exercito toda a minha experiência em matar com estilo cada vez mais...

Deus terá muita piedade... de sua alma...

Minha alma não pertence a Ele e nem ao Adversário, querida vítima, estou transbordante em outra cadeia evolutiva...

Você também é... um filho.. de Deus...

E se eu te disser que nasci antes Dele mesmo nascer?

Louco... doente...

Acredito nisso e sempre que acreditamos em algo podemos revolucionar mundos, querida vítima! Sou um revolucionário do sangue, produto de um mundo devotado ao sangue, você lia nas páginas dos jornais toda a literatura de sangue que me consagra como um devoto do sangue! Quero que acredite no que eu acredito, será mais fácil assim morrer com suave certeza de que estou falando a verdade mesmo que esteja sonhando devido ao momento feliz que estou a viver com você agora... Um momento, como eu já disse, que vai se prolongar muito... Muito mesmo, querida vítima... Muito mesmo...

Louco... doente... assassino...

Agora, querida vítima, você me chamou pelo nome que mais prefiro: assassino! Já falamos demais um com o outro, vamos continuar... Imagine um sofrimento eterno contra alguém praticado como este que estou a praticar com você... Imagine e sinta, o empalamento é uma morte eficazmente a mais dolorosa e possante de todas...



O Assassino ergue-se e aproxima-se da Vítima, segurando-a pelo queixo. Abrindo-lhe a boca, utiliza a mais longa adaga disponível em sua mão direita para, com precisão cirurgicamente impressionante, arrancar a língua da Vítima. A Vítima debate-se e O Assassino, esboçando um olhar crítico e cínico para a língua que permanece a segurar diante dos atormentados olhos daquela, lança-a à esquerda de si. Pondo as mãos no queixo, O Assassino analisa o que até agora fez ao corpo da Vítima e medita sobre a próxima parte de seu trabalho a ser concluída. Gélido vento irrompe em direção a eles e uma macabra paisagem pontuada pelo negro das vestes do Assassino e o rubro sangue a escorrer pelo chão da Vítima forma-se definindo uma visão que se equilibra entre o grotesco e o onírico, se sonhos ou pesadelos podemos chamar a uma assassina rotina. Instalas-e no Assassino o silêncio e na Vítima gemidos ensandecidos de dor, revolta, medo, ódio e angústia, misturados a toda uma sensação de derrota, fracasso e, até certo ponto, entrega-se ao que, desde que acordara já tendo lâminas cravadas em seu corpo, sua debilitada capacidade de pensar trata como extremamente inevitável. Dedicado à sua meditação, O Assassino, entrando em um estranho estado de êxtase, põe-se a recitar um medieval poema de beleza mui milenar...



Frères humains, qui après nous vivez,
N'ayez les coeurs contre nous endurcis,
Car, si pitié de nous pauvres avez,
Dieu en aura plus tôt de vous mercis.
Vous nous voyez ci attachés, cinq, six :
Quant à la chair, que trop avons nourrie,
Elle est piéça dévorée et pourrie,
Et nous, les os, devenons cendre et poudre.
De notre mal personne ne s'en rie ;
Mais priez Dieu que tous nous veuille absoudre!

Se frères vous clamons, pas n'en devez
Avoir dédain, quoique fûmes occis
Par justice. Toutefois, vous savez
Que tous hommes n'ont pas bon sens rassis.
Excusez-nous, puisque sommes transis,
Envers le fils de la Vierge Marie,
Que sa grâce ne soit pour nous tarie,
Nous préservant de l'infernale foudre.
Nous sommes morts, âme ne nous harie,
Mais priez Dieu que tous nous veuille absoudre!

La pluie nous a débués et lavés,
Et le soleil desséchés et noircis.
Pies, corbeaux nous ont les yeux cavés,
Et arraché la barbe et les sourcils.
Jamais nul temps nous ne sommes assis
Puis çà, puis là, comme le vent varie,
A son plaisir sans cesser nous charrie,
Plus becquetés d'oiseaux que dés à coudre.
Ne soyez donc de notre confrérie ;
Mais priez Dieu que tous nous veuille absoudre!

Prince Jésus, qui sur tous a maistrie,
Garde qu'Enfer n'ait de nous seigneurie :
A lui n'ayons que faire ne que soudre.
Hommes, ici n'a point de moquerie ;
Mais priez Dieu que tous nous veuille absoudre!



A Vítima reconhece o seu poema preferido, proferido pelos lábios do Assassino, L'Épitaphe de Villon ou Ballade des Pendus, de François Villon. O Assassino sorri com um ar de superior total exercício de seu atuante poder e, antes que A Vítima, em seu quase extinto ato de pensar, possa conduzir uma linha de pensamentos acerca do porquê da específica recitação do específico poema, seus olhos voltassem para a sua língua arrancada ao chão, língua a ser mastigada e engolida com sutileza e elegância por um gato rosa...


O gato rosa é a última visão da Vítima, O Assassino perfura-lhe os dois olhos com adagas que reluzem à luz de vaga-lumes a passearem em redor deles.


O Assassino olha para o gato rosa, uma excêntrica e exótica visão que o impressiona.


A Vítima geme mais estridentemente, deixando a cabeça cair para trás e assim permanecer.


E o gato rosa continua a fazer a sua refeição, sem nem prestar atenção ao Assassino e à Vítima.


O ronronar do gato rosa serve de fundo musical para o continuar do trabalho do Assassino.


O ronronar do gato rosa é a última música pela Vítima ouvida.



Inominável Ser

UM ASSASSINO

UMA VÍTIMA

UM INOMINÁVEL GATO INCOLOR





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sábado, 2 de outubro de 2010

Morbid Angel - Where the Slime Lives


Where the slime live

(They are the lowest forms of life)
Where the slime breed
(They make a new one too corrupted)
When the wind blows
(The winds of truth are blowing now)
And the cradle falls....down

Their poison fingers that wrote the poison lines
Their poison lingers
What a tragedy when their fingers are removed

Where the slime live

Their burning dogma
Introducing to our mind - lies
They plot for the total control of the morals
And what a tragedy when the "god-heads" are removed.

They crawl, they breed, they hide but we see
They burn
I see the smoke of the funerals rising
God lives in thier heads now laid to rest

What a sight
As their kingdom comes tumbling down
We burn - the ones with contrite souls be gone!

Long gone are the filthy liars
Long gone are their filthy lies
I know they'll come again some day
Where the slime live and how the slime gets washed away











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segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Byron E Satan Em Uma Mesa De Um Bordel De Lisboa


Já não tive mais sonhos,

em meio a um canto de

pássaros mortos

enterrei o último deles.

Estou vendo agora

uma multidão de mortos

e em pé eu sangro

diante do cadáver meu.

Estranho,

o mais estranho,

o bem aprofundado estranho

torpor d'alma degenerada

minha toda,

é que eu ainda estou

a remexer meu corpo

no túmulo.

Lembranças surgem como

as névoas de lagos

em invernos rigorosos,

nado em cada uma

e arrisco afogar-me

em todas.

O vinho ainda estou

bebendo...

As mulheres ainda estou

tocando...

Os homens ainda estou

beijando...

Os amigos ainda estou

abraçando...

Lento mendigo pelas

migalhas de um ainda sonho

e torno meu passado

um presente de assombros.

Deus,

qual Universo possui

a chave que dá

a primazia do

Nunca Sonhar?

Deus,

qual Mestre

em qualquer arte dá

o ensinamento que não

gere o sonhar?

Deus,

respondei-me,

respondei a este

pecador Vosso filho,

de quantos medos

são feitos todos

os sonhos dos humanos?

Deus se cala

e os medos arrebatam

as estâncias de minha

alma...

Deus,

um sonho distante

e silencioso...

Agora,

outra coisa

dentro de outras coisas

ouço...

Ouço um violino,

um piano

e um assobio...

Vem um arrepio,

um estremecimento

e um desafio...

Fica um zumbido,

um encanto

e um caminho...

O verdadeiro senhor

dos sonhos humanos

próximo me dá

todas as respostas.

Satan,

o verdadeiro senhor

dos sonhos humanos

e o maior dos sonhos

humanos,

me dá a sua resposta.

Diante do príncipe

deste mundo

me torno um verso

com coroa,

trono

e cetro.



E Byron goza dentro do ânus de António, mancebo de dezesseis anos à disposição dos clientes do bordel de Maria das Cruzes, no mais sujo recanto de Lisboa. Ao lado deles está adormecida Helena de Castro, de quinze anos, deflorada pelo insaciável poeta pela primeira vez na mesma noite; e no chão, à direita, adormece, bêbada, outra prostituta, Ana das Neves, de trinta e seis anos, que divertiu ao mesmo sátiro com desenfreada sensualidade. Byron tem vinte e um anos, acabara de assumir o seu título de Lord na Câmara dos Lordes da Inglaterra, e embarcou para uma aventura no continente porque, em seus dizeres, encontrava-se “cansado do mundo”, ou seja, do mundo aristocrático no qual vivia. A aventura percorreu Espanha, Malta, Grécia,Albânia e Portugal, onde esta presente narrativa se deu.


Noite de 23 de março de 1809, noite, mais uma noite, para os loucos e padres, caminhantes e navegantes, pobres e aristocratas, devassos e poetas, na qual todos se encontram com sombras de variadas formas. Há calor e vários chamados para o carnal torpor e este, como sabemos, era o chamado maior que motivava o Lord Byron em sua plena vida de vasta devassidão, blasfêmia, poesia e violação. Com uma fome insana, ele vagou pelas ruas lisboenses e escolheu o bordel mais sujo para satisfazer os seus instintos de noturno caçador, um vampiro cheirando a melhor carne para morder contendo o melhor sangue para sorver. Três carnes ele apreciou e devorou, em um frenesi movido pelo vinho e apaixonados beijos e atos de penetração furiosamente causadores da mais imensa combustão. Byron gozou em Helena, em Ana e em António com a mesma veracidade e felicidade, o vinho apenas lhe aumentava a monstruosa virilidade. Por cima de António ele permanece um pouco, até que o superficial amante adormeça; quando isto ocorre, retira o pênis, lava-o, lava-se e traja as negras vestes que lhe são a monumental marca registrada. Antes de sair do aposento,caminhando com ousada graça e autoridade, põe Ana na cama e beija as nádegas dos três divertimentos que lhe garantiram bons momentos de frenética carnavalizada marcha. E, apesar de ter bebido vinte e sete copos de vinho, sem cambalear retira-se do quarto, se direciona à escadaria do bordel e desce ao salão.


Os tipos presentes no salão fazem os olhos do aristocrata inglês assumirem um brilho de admiração e identificação plenos. Não é um ambiente para ele desagradável, e, sim, uma das muitas moradas nas quais se sente livre em todos os mais corretos sentidos da palavra liberdade. Apesar da precariedade da instalação toda do bordel, o salão mantém uma certa dignidade, sendo bastante espaçoso, o que não o faz ser menos fervente. Cheio, ainda assim há uma mesa vazia e é nesta que o bardo aloja-se pedindo a uma prostituta outra garrafa de vinho. Em taça de prata, ele despeja o rubro incandescente líquido e recebe ao colo uma prostituta de enormes seios que põe a mão esquerda em seu pênis. Byron reage lambendo-lhe os seios, gargalhando e cantando libertinas músicas em desconhecidos idiomas, saindo inspiradamente de seus libertinos lábios. A euforia por todo o salão é geral, todos bebem, todos cantam, todos gargalham e muitos sobem e descem as escadas insaciáveis, querendo sempre mais dos delirantes recônditos da filosofia da carne! É no furacão de toda essa euforia que ultrapassa a porta de entrada do bordel um senhor, alto, todo de negro que caminha como um bailarino, de intensos e brilhantes olhos verdes, cabelos negros até os pés e de uma angelical beleza, beleza que apresenta um tanto de profana natureza. Em meio aos tipos presentes, ele se destaca e, instintivamente, ainda bebendo, gargalhando, cantando e acariando a prostituta ao seu colo, Byron reconhece o homem que se aproxima de sua mesa dançando ao caminhar. O homem senta-se e logo uma prostituta cai em seu colo; um beijo e a prostituta delira, querendo mais; ele pede uma garrafa de vinho a ela e em uma taça de prata, qual Byron, despeja-o e sorve com seus profanos lábios. As prostitutas continuam ao colo dos dois à mesa, sendo acariciadas; o olhar do príncipe deste mundo está recheado de malícia, pecado e sabedoria; o de Byron apresenta sarcasmo, deboche e ironia.



- Boa noite, Satan!

- Boa noite, Lord Byron.

- Tanta festa, tantas sonoridades, tantas liberdades, e tu chegas assim para aqui ficar bem à vontade! O Inferno é mais animado do que aqui? Ou lá no Céu é bem melhor?

- Digamos que tanto um quanto o outro possuem as suas parcelas de satisfações garantidas e reais.

- Em algum dos dois há putas como estas?

- Muitas putas, principalmente as que se trajam como santas e sugam o pau de São Pedro aos olhos de Jesus.

- Ah, não sabia que tu eras tão espirituoso, Rei do Inferno! Conte-me mais piadas!

- Não vim ao vosso encontro para contar-te piadas, Lord Byron. Não sou uma criatura de perder o meu tempo com conjecturas vãs e vazias.

- No entanto, pelo que estou vendo, uma prostituta te diverte muito bem...

- Sacos de carne e ossos, apenas. - Com um olhar para a que está ao seu colo e para a que está na de Byron, ele as faz abandonar a mesa. - Falemos apenas entre nós dois, essa gente não precisa saber do que iremos falar.

- Já sei o que viestes falar comigo, Satan. - Um gole de vinho desce. - Com toda a certeza, tu viestes fazer com que eu aceite de ti alguma forma de pacto, o qual terei mais riquezas, mais mulheres e mais poder. Certo disso, para que meus poemas alcançassem todo o mundo, eu me renderia aos seus desejos e assinaria o contrato que fariamos, mediante a eterna condenação de minha alma! Este é o assunto, Satan? Tu não me pareces tão original quanto eu pensava...

- Humano, eu não vim aqui para contigo brincar e nem para oferecer-te um pacto.

- Então, qual é o seu objetivo ao fazer com que aquela puta se retirasse de meu colo e me obrigasse a ficar conversando contigo? Quer ir para a cama comigo, Satan?

- Tentadora proposta, Byron, eu a aceitarei em uma noite que tu não esquecerás jamais.

- Qual é o assunto que quer comigo ter nesta embriagante noite portuguesa?

- A filosofia de tua vida.

- Pela primeira vez, chamam-me de filósofo... - Com ar de deboche, bate palmas. - Qual será o método a ser usado em nossa conversação? Falaremos ao modo dos escolásticos ou socráticos? Ou nos ateremos ao platonismo, divagando acerca das idéias presentes em minha poesia?

- Tua língua afiada ainda poderá matar-lhe, Byron.

- Não matará, Satan, tu sabes como morrerei, tanto quanto Ele. - Aponta para cima. - Mas, alguém como eu, sem crenças e descrenças, amante das boas coisas da vida, nem se importa com o destino de seus ossos! Isto para ti representa uma filosofia de vida? Tu estás em um bordel para conversar sobre a minha “filosofia de vida” enquanto putas de pernas abertas aguardam pela entrada de nossos órgãos viris dentro delas?

- A tua vida é um perigo constante, um emaranhado de aventuras e desventuras aliadas a um furacão de desvarias e arremedos de genialidade. Sei o que tu deixarás para a Humanidade, o teu legado chegará bem longe e teu nome ficará escrito nos Anais Da Eternidade. Tua paixão pela vida é grandiosa e admirável, em questões de muitas proporções o alcance de tua poética visão vai bem longe, um alcance capaz de sacudir todas as estrelas, sóis e planetas de todos os firmamentos. Te acompanho há muito e observo-te em tuas carnais viagens, desde aquela tua serva em tua infância até aquele mancebo que há uma hora atrás sodomizastes. Há uma determinação heróica em ti, uma sede de justiça e de honra que te levarão a defender ideais pelos quais tua consciência concederá imenso valor. Muitos homens e muitas mulheres tu possuirás em teus braços; até mesmo o teu mais oculto carnal desejo será completamente realizado. Tua poesia revelará aos que te conhecerem posteriormente o completo relato de uma criatura humana que soube viver como literalmente defendia no que escrevia. És uma raridade conhecer um ser humano tão completo como tu, amante da noite, da bebida e dos prazeres carnais de um modo tão inspirado, natural e, apesar de caótico, detentor de um sentido muito maior do que se pode esperar de uma trajetória como a tua. Até a consumação dos séculos estarei presente neste mundo, caminhando aprisionado entre os mortais e desejando ser-lhes O Adversário até o dia do que é chamado de “Juízo Final”. Sou um príncipe, bem rico,assemelho-me ao rubro fogo da floresta incandescente repleta de túmulos e tumultos. Sou o príncipe deste mundo e, pela primeira vez, me deparo com alguém à minha altura, alguém que é, ao mesmo tempo, Anjo e Demônio. Eu sou como um Anjo para os que me adoram e um Demônio para os que resistem ao meu Poder. Tu também és assim para com os teus amigos e inimigos. A tua poesia apresenta requintes de uma celeste inspiração e os ideais dela as de uma profanadora perdição. Teus desejos sinto a cada dia mais exaltantes e são tão maiores quanto os meus. Tua carne lateja bem mais rápida do que qualquer carne que eu já tenha queimado com o poder da minha voz, o Poder que aqui me foi concedido para desafiar a todos os seres humanos. Já tentei desafiá-lo, mas as tuas atitudes, vendo a vida como um mar de delícias a não serem nunca negadas, de todas as formas, sem peso de consciência depois de provadas, anulam qualquer tipo de influência que eu possa ter sobre ti. Eu te invejo, Byron, tu consegues possuir a liberdade de encantar até mesmo as circunstâncias mais severas e inspira a admiração e o amor até mesmo dos Espíritos Das Trevas. Minha coroa é muito pequena diante da vossa e venho propor-te uma troca: fiques em meu lugar como O Adversário Da Humanidade e eu tomo o vosso como aristocrata, libertino e poeta. Venha Ver o que Vejo, Byron, teus sentidos serão infinitamente elevados e teus passos serão como o sibilar de uma serpente venenosa nos corações humanos dentro do silêncio de todas as madrugadas.

- Uma magnífica proposta, Satan... Viver a tua vida enquanto tu usufrui da minha... Eu ficaria com a Eternidade, seria imortal e poderia possuir até mesmo as delícias de outros mundos aos meus pés... Entendo-te, tu quer ser um humano e não um eterno inimigo dos seres humanos, sempre disposto a “matar, roubar e destruir”, como dizem os padres em seus sermões. A recompensa que eu teria seria muito maior do que a sua; quanto a isto, qual a tua recompensa ao apoderar-se de minha vida?

- Tua esperteza é tão grande quanto a minha, Byron...

- Descobri-te o truque rapidamente, Satan, pois tu não dissestes que somos iguais, comparáveis em astúcia e tenacidade? Por que tu largarias a Eternidade, sendo que Esta te dá toda sorte de chances para desviar do caminho divino um filho de Deus? Tu me iludirias com a falsa Eternidade apenas para tomar-me a alma, apoderando-se de minha vida e dos prazeres que tanto amo. Não sou vosso joguete, Satan, e nem de Deus; igualmente, nenhum homem ou mulher me tem nos dedos das mãos ou nas solas dos pés.- Toma três goles de vinho, ironicamente sorrindo para o seu estranhíssimo interlocutor. - Tu me adquires, eu perco a alma e sou lançado ao Inferno antes que me desse conta do erro que teria cometido. Muito boa a tua proposta, quase me fez acreditar nela em uma questão de alguns segundos nos quais quase com as diversa smaravilhas do mundo que tocarias com as mãos. Os besouros voam juntos em direção ao ninho de pásaros desprotegido; enquanto a mãe dos filhotes encontra-se buscando cmida, eles atacam e matam aos filhotes. Não sou um filhote, Satan, feito à imagem e semelhança do Deus Uno ou de qualquer outro Deus; e nem tu mesmo ou a tua corte de Demônios poderá me dobrar. Se uma chance pela Providência me fosse dada, eu te roubaria o cetro, o trono e a coroa, te mataria e tomaria no Inferno e na Terra o teu lugar. Tu reconheces o meu valor e eu reconheço a tua fraqueza, Tentador.

- Sou uma das mais antigas Forças Universais, Byron, não um fraco mortal fadado ao pó como tu.

- Oh, sim, “Satan é grande”, “Satan é maior”, “Satan é 'O Tentador'!”!!! - Quatro goles de vinho, a garrafa está acabando e outra é pedida por ele. - Os prazeres mais comuns, como beber vinho, são bem mais agradáveis do que uma meta de dedicar-me pela Eternidade a atormentar as vidas humanas. Sou um perdido ao Inferno condenado, eu sei, Satan, mas não vou adentrar em teu antro com obedência e silêncio. Não procuro seguir o caminho dos crentes do Poder Divino, eu mesmo tenho e faço de mim mesmo um ser divino através da força da minha poesia. Terei motivos para arrepender de minha antecipada ida para o Inferno? Não, Satan, tu queres apressar-me, mas o tempo devido para a minha condenação ao fogo de teus domínios ainda não é chegado. Tenho medo de ti, Satan, e do que poderás contra mim fazer a partir de hoje? Não,Satan, tu podes jogar todo o Universo contra mim e eu não me abalarei de minha posição para temer-te o Poder, sendo que nem mesmo a Deus eu temo. Contrario todas as leis, desrespeito a todos os juízos, denuncio a todo tipo de servidão ou escravidão e ainda saio sorrindo em meio à multidão de temerosos e covardes constituintes da massa maior da Humanidade. Noites de amor pelo mundo que posso conhecer e que ainda vou conhecer, um bom vinho, uma boa briga, uma boa poesia... Qual mortal não quereria estar em meu lugar, Satan, e não no vosso, que é todo condenatório e vexatório? - Um gole de vinho da garrafa nova à mesa posta. - Um vinho sorvido com alma, com alma, com prazer e com a satisfação deste momento repleto de eterna glória! Vês esta mulher, Satan? - Puxa ao colo uma prostituta de quentes deliciosas curvas. - Este corpo, para mim, é Inferno e Céu! No corpo de uma mulher e no de um homem encontro a minha Redenção, a minha Salvação! Nestes seios, aqui, tenho um momento de encontro com a Eternidade! Nestes lábios, aqui, tenho um momento de felicidade eterna! Entre as pernas de uma mulher, tenho um tremendo encontro com a Eternidade! Atrás de uma mulher, eu vejo a face da Eternidade! - Beija com lascívia voraz ao colo da prostituta. - Quereis a minha alma, Satan? Quereis agora a minha alma, Satan? Se tu me levares à força, prometo-te tornar-te o Inferno um lugar no qual todos me adorarão e servirão, desde os mais altos Demônios até os mais baixos condenados à danação eterna! E tu te ajoelharias aos meus pés, rendendo-me homenagens e honrarias dignas do príncipe que eu sou conforme a minha forma de vida! Vais querer levar-me agora mesmo, Satan, sem que o meu tempo tenha chegado? Eu te desafio a levar-me, a levar-me, agora mesmo! Como é ser desafiado e não desafiar, ó, nobre príncipe deste mundo?

- Tu sabes que meu Poder não pode ser contra as Leis Naturais, Lord Byron.

- Então, nobre príncipe deste mundo, não me perturbes mais nesta noite e durante a madrugada que já se aproxima, ou, então, serei obrigado a daqui expulsar-te com pontapés no rabo até a direção da rua!

- Por ora, eu o deixarei em tua pecadora paz, Lord Byron. Contudo, saibas que estarei sempre contigo e até mesmo na hora em que estiveres penetrando um rabo.

- Fiques de quatro e eu te mostrarei a Eternidade que carrego entre as minhas pernas, Satan! - Lambe os lábios e os seios desnudos da prostituta.

- Outro dia, Byron, outro dia. - Ergue-se da mesa. - Tenho mais visitas a realizar durante as próximas noturnas horas e não posso aqui demorar-me.

- Tu darás a volta ao mundo em busca de almas atormentadas e condenadas sedentas de alívio, um alívio que Deus não mais pode dar-lhes... - Um debochado grande sorriso toma-lhe conta dos lábios. - Pobre coitado tu és, Satan, condenado a viver assim pela Eternidade, atentando contra toda vida humana e satisfazendo o seu ódio contra os fracos que a ti se entregam de corpo, mente e alma! Mas, em mim, tu não tens mais um a ser tentado, pois eu mesmo penetrei o próprio Pecado e me fiz uma Força Da Natureza tanto quanto tu és uma Força Da Natureza! Estou livre da tua influência, Anjo Caído, Antiga E Eterna Serpente Tentadora! - Cospe no rosto de Satan. - E cuspo em tua falsa autoridade de príncipe deste mundo! - Beija o pescoço da prostituta.

- O próprio Deus, acima de nós, a mim te dará totalmente um dia, Lord Byron. - Ergue-se, sem, no entanto, limpar o rosto; é como se o cuspe não tivesse sido lançado contra o mesmo, não há nenhuma reação ou sensível possibilidade de alguma reação contra aquele que sujou-lhe o rosto. - Um tridente será eternamente investido contra o teu rabo.

- Vá com Deus, Satan, sejas feliz em tuas caminhadas!


O humilhado príncipe deste mundo dá-lhe as costas e ruma em direção à porta do bordel, desaparecendo à medida que caminha. Byron prossegue bebendo, cantando e acariciando a prostituta que, pondo-se embaixo da mesa, pratica um sofisticado sexo oral, sexo este que apenas profissionais do ramo dela é capaz de praticar. O libertino poeta fecha os olhos e delira de prazer, nem mais se lembrando daquele com o qual esteve a conversar e a humilhar, desafiadoramente; seus sentidos se tornam, unicamente, senhores da sensação que é pulsar no mesmo ritmo dos lábios da mulher que engole-lhe o pênis. A sensação dura alguns instantes, alguns delirantes minutos pululantes, até que o mover dos lábios dela, o calor do corpo dela, o barulho todo em redor, o barulho no teto das camas no andar superior repletas de orgias sexuais várias, pára... Pára tudo... Byron abre os olhos... Pára tudo... Byron olha para baixo... Pára tudo... Byron olha para os lados... Pára tudo... A cena poderia horrorizar outro tipo de homem,mas ao Lord Byron? O que Byron presenciou naquele quase iniciar de madrugada, em meio à meia-noite? O que faria todo o ambiente silenciar qual um cemitério ameaçador e trevosamente respeitoso? Ossos. A prostituta: um esqueleto. As outras prostitutas: esqueletos. Os outros clientes além dele: esqueletos. A bebida: pó. A comida, a qual Byron sequer tocara: pó. Ele quebra o crânio que retem-lhe o pênis, recolhendo a este e visualiza um papel negro acima da mesa, contendo o seguinte poema, lido por ele em voz alta:



Quem Pode Saber

Mais Do Que Eu

Da Medida Correta

Do Veneno Que Mais Rápido

Leva Ao Apodrecimento?

Quem Pode Ter

O Pesadelo Mais Realizável

Que Não Seja Por Mim

Despertado?

Quem Move Os Monstros

Do Mar?

Quem Move Os Monstros

Do Ar?

Quem Move Os Monstros

Do Fogo?

Quem Move Os Monstros

Da Terra?

Quem Move Os Monstros

Das Trevas?

Quem Move Os Monstros

Das Serras?

Quem Move Os Monstros

Das Montanhas?

Por Acaso,

Tu Sabes Quem Primeiro

Atira?

Por Acaso,

Tu Sabes Quem Primeiro

Rouba?

Por Acaso,

Tu Sabes Quem Primeiro

Aniquila?

Por Acaso,

Tu Sabes Quem Primeiro

Zomba?

Por Acaso,

Tu Sabes Quem Primeiro

Desgraça?

Por Acaso,

Tu Sabes Quem Primeiro Ri

E Se Felicita

Por Toda Desgraça?

Por Acaso,

Tu Sabes Quem Primeiro

Puxa A Corda Das Mãos

Do Carrasco?

Por Acaso,

Tu Sabes Quem Primeiro

Usa O Punhal Nas Mãos

Do Assassino?

Por Acaso,

Tu Sabes Quem Primeiro

Usa As Mãos Para

Um Estrangulamento?

Se Não Sabes,

Posso Agora Mesmo

Estrangular-Te.

Se Sabes,

Posso Agora Mesmo

Estrangular-Te

A Alma.

Sou Teu Eterno Inimigo,

Encontrado Nas

Ruínas,

Exaltado Nas

Sombras,

Perdido Dentro

De Tuas Lágrimas

De Dor E De Sofrimento.

Destilo Veneno

E Assombro A Tua Vigília

Quando Teu Olho

Apenas Vê O Pequeno

E O Minúsculo

Do Universo.

Peques Bastante,

Perca-Se Bastante,

Tu És Meu

Amante,

Tu És Meu

Esposo,

Tu És Meu

Companheiro Eterno.

Tu És Meu

E Nem Deus

Pode Modificar

Dentro Das Determinações

De Sua Lei

A Verdade Desta

Eterna Máxima.


Escrito Por Satan

E Dedicado

Ao Lord Byron



- Antes de cair em teus braços, tenho ainda muitas almas para tentar neste mundo, Satan, eu também sou incansável na busca da perdição dos filhos da Humanidade! Bebamos juntos do mesmo sangue, meu irmão, amigo e poeta!

Inominável Ser

BYRONEANAMENTE

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Prosa De Um Coveiro Inominável

O Terror Inominável. O Horror Inominável. A Loucura Inominável. A Cova Aqui É A Do Puro Pesadelo Das Covas Mais Profundas E Elevadas. Vozes Estranhas Aqui. Sons Estranhos Aqui. Palavras Estranhas Aqui. Estranhas E Inomináveis. Sintam-Se Conduzidos Pelo Carro Inominável Do Terror Inominável. Sintam-Se Conduzidos Pelo Carro Inominável Do Horror Inominável. Sintam-Se Conduzidos Pelo Carro Inominável Da Loucura Inominável.

O Coveiro Inominável

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