terça-feira, 19 de janeiro de 2010

A Entidade Em Meu Quarto


Eu entrei no quarto onde tenho meu computador, meus trabalhos literários e poéticos, alguns dos meus livros e as sombras de meus bons e maus pensamentos, encontrando aquela Entidade, grave e nitidamente materializada, perto de algumas caixas que guardam coisas muito antigas. Não me assustei com aquele Ser, não o afugentei e nem sorri; apenas o fitei ali parado, parado como uma forma atuante que quisesse apenas me ouvir. Com ar sério e grave, igualmente como aquela Entidade, puxei a cadeira na qual sento em frente ao meu computador, fiquei por alguns minutos fitando a figura hermética, encapuzada e trajando um manto marrom, que aguardou silenciosa o meu falar. As palavras estavam já pelo ar, faltava apenas a articulação de cada uma delas. A Entidade ficou lá, a me aguardar falar e não demorei a tumularmente enriquecer o ambiente com a angústia toda do meu falar.



- Ano a ano aqui estou tendo as provas mais básicas que um doutor em dores pode receber. Estou afastado do mundo e dos mundos dos outros, mundos fecundantes para os ratinhos que se chamam seres humanos. Olho para cima, olho para baixo, viro uma esquina de pensamentos gerando fundamentos e me encontro volatilizado por remendos de frutas amargas apodrecendo junto ao meu barco furado. Fixei muitas idéias em mim, mandei para o cemitério minhas dúvidas e me veja aqui, Entidade, agora... O que ganhei? O que arrotei? O que arrombei? De todas as mais vastas filosofias tomei ciência e nem tenho a mínima capacidade de me livrar da pobreza material! De todas as mais vastas sexuais verdades tomei conta e nem consigo me relacionar com a porra de uma mulher! De todas as leis que são as mantenedoras do Plano Universal tomei para mim algumas e nenhuma me fez sair do cadafalso existencial! Que mistério há neste meu reino de fracassos? Sou do tipo renegado de filho de Deus ou do Diabo nascendo e morrendo e transcendo as próprias mortes e renascimentos diante da esperada folha que cairá da árvore do meu salvamento? Brutalidade, insanidade, pesos demais em meus ombros... Decisões, aflições, negações, afirmações... Mãe doente... Pai distante... Familiares decididos a ficarem também mais distantes... As amadas se foram, as amadas carnais... Uma quis demais, ela me abandonou porque sou um todo incapaz... A fuga vem da forma de escrever como um terrorista decidido a tudo detonar, um formador de opiniões que escapam ao cúmulo das razões sociais... O que é isso, Entidade? O que há nisso, Entidade? Qual o meu papel na Terra? Qual o meu sentido na fera que demite seus trabalhadores perto do fim da vital festa? Sei que Deus me vê e sei que Deus está aqui dentro de mim, Ele me abriu os Portões Do Abismo aqui bem dentro de mim, bem dentro de mim... Entidade, não sei o Vosso nome, não quero saber o Vosso nome, não me importo com o Vosso nome... Já fui enganado por outras Entidades, já fui muito enganado... Como saber que tu não és mais um enganador? Qual Ser Etéreo como Vós pode ter a confiança de alguém como eu que já abraçou Falsos Anjos e beijou Falsas Diabas nos Círculos Negros Do Torpor? Gigante, vigilante, gritante, girante, meu solo racha, meus dedos se esgotam, a gota d'água mais impura molha meus lábios, minha língua ferve, estou com fome, estou com sede, e nada de bom e de bonito me aparece... Aquela mulher ainda está aqui em mim, ela me despertou algo aqui, algo muito bom aqui no Abismo que há em mim... Repito, compreendo, arrisco... Pensar em um mulher... Pensar em uma mulher agora: qual a razão de tal pensar? Não tenho mulheres, não quero mulheres, quero apenas descansar... Sem filhos, sem família, apenas descansar... Ouço gemidos... Ouço gritos... Ouço sussurros... O que é isso, Entidade? A maldição da mediunidade, a desgraça da mediunidade, minha maldita mediunidade! Eu avanço? Eu corro? Eu louvo? Nada, estou aqui doente, um doente em tratamento de choque pelo resto dos meus dias sem sorte, Entidade, pelo resto destes meus dias sem ver a minha definitiva morte... Enfrento o caos, vomito o laudo, sou um policial de meu caso de nunca morrer, afinal... Perdi muitas chances, errei demais, caminhei adiante, o odor de felicidade, nunca e nunca e nunca e nunca e nunca e nunca mais... E o que Tu tem a ver com isso, Entidade? Quem pode ter Te enviado aqui? Deus? Satan? Miguel? Ahriman? Maria? Nahemah? Louvar... Louvar qualquer coisa... louvar qualquer merda, uma merda divina, uma merda demoníaca... Por que tenho que algo louvar? Por que hei de louvar algo em meu abismal lar de recados a mim dados por predadores que roem meu bem-estar? Guiado por um movimento de semi-vida, Entidade, me sinto assim, gelado, decadente, arruinado, impotente diante da faca que pode me cortar... Queria me matar com uma faca, jogar fora, Entidade, todos os lances deste jogo macabro no qual meu Ser está... Levanto o véu, levando o mel até para fora da colméia de meu sofrimento e lá fora, Entidade, sempre lá fora, continuo ainda em meu parco momento... De onde veio meu sepultamento infindo, Entidade? De onde vem meu não morrer definitivo, Entidade? Todo ano é o mesmo... Ano a ano, Entidade... Maldito ano a maldito ano, Entidade... Levito, levanto, lamento... Luto, sustento, remendo... Livre, aprisionado, sereno... Não sei porque agora tenho tanta calma diante de ti, Entidade... Não sei o porquê desta calma nos últimos meses, Entidade... Tu és meu Mentor, Entidade? Tu és meu Obsessor, Entidade? Tu és amigo ou amiga minha, Entidade? Tu és inimigo ou inimiga minha, Entidade? Tu és o homem que me envia cartas tenebrosas do mundo das loucuras deformantes, Entidades? Ou tu és aquela mulher rasgante que me segue gritando aos prantos que eu fui o responsável pela morte dela queimada viva naquele tribunal inquisitório da Idade Média, Entidade? Aí parado... Ai, tão parado... Aí, tão, tão, tão a mim simpático... Mereço vossa simpatia? Mereço que tu ouças as minhas lamúrias ridículas? Tu, Entidade, deves ser um eremita de inumeráveis idades, um ancestral de todos os humanos, um Ser que talvez tenha sobrevivido às Criações Anteriores e se organizado nesta atual como Filho de Deus... Ou Filho... Ah, Satan é uma alegoria, alegoria para justificar a existência de uma multidão de espíritos que formam uma Egrégora que visa ao materialismo mais embrutecedor! E o que eu sou, o que eu tenho de diferente, deles, mesmo tendo todo conhecimento que tenho garantindo-me o mínimo de sanidade e de densidade? Assassino... Sou um assassino, Entidade... Profeta e assassino... Poeta e assassino... Escritor e assassino... Coveiro e assassino... Meu nome pode ser João, Marcos, Alexandre, André, Sandro, Michel, Alessandro, Mateus, Lucas, Edson, Reinaldo, Emerson... Tive esses nomes e fui poeta e assassino, escritor e assassino, coveiro e assassino... Resisto, Entidade, a tais lembranças, mas elas me cercam mais do que as paredes deste meu quarto... Resisto, Entidade, parece agora um anjinho, mas fui, sou e ainda serei um assassino... Matei mães... Matei pais... Matei filhos... Matei esposas... Matei maridos... Matei minhas mães... Matei meus pais... Matei meus filhos... Matei minhas esposas... Matei meus maridos... Homem, mulher e assassino... Homem, mulher e sempre e sempre e sempre e sempre assassino! Parei de tomar os remédios, minha esquizofrenia cresce e rende mais alguns dias de tonturas e torturas... E Tu aí, Entidade, paralelamente me observando... Lembro agora que já te sentia aqui há anos... Sim, há anos o Vosso manto, Entidade, eu via... Entrego assim alguns dos meus segredinhos, Entidade... Ah, mas Tu já sabia, já sabia, sinto que já sabia... Conviver com o assassino que eu sou todos os dias não é uma tarefa agradável... Tento, ao máximo, não retornar ao assassinato... Estou modificado, graças a Deus ou graças ao Diabo, o que importa? Importa saber que... A quem engano, Entidade? A quem enganar, Entidade? Sou fraco, sou humano, sou uma inverdade, uma mentira envolta em ultrajes! Chacino-me, Entidade, mas Tu apenas me ouve... O único Ser que me ouve... O único Ser que olha para mim... O único Ser que não me julga... O único Ser que não me critica... O único Ser que não me prejudica... Afio a cortina, a janela desta alma que sou quebrada... Queria que tudo fosse diferente... Queria ter nascido diferente... Queria ter sido, antes, antes desta contemporânea loucura de um mundo cheio de assassinos como eu, ter renascido mais decente... Ingrato o meu porvir e regrado a sabores cáusticos o meu ir... Aguardo todo ano ansioso por ser o meu último ano... Ano a ano, ano a ano, ano a ano... E cá ainda estou, Entidade... Aqui, fixo... Aqui firme... Aqui, doente... Aqui, repelente... Aqui, repelido... Estou me cansando... Estou cansado... Estou castigado por uma vertigem rude que me sacode nas formas animais... Já estive lá... Já estive quase lá... Estou lá... Perto do hospício, Entidade... Bem mais perto do hospício, Entidade... Meu hospício anual bem particular...



Terminei de falar, fiquei a olhar para os tacos de madeira de meu quarto. Eu e Ele ficamos ali naquele lamurioso silêncio de monumental estrutura sepulcral. Minutos ou horas passaram sem passar e me senti amigo daquela Entidade que aqui ainda está. Olhando para os tacos no chão, nem senti a Entidade se aproximar. Eu olhei para o o manto da Entidade e a voz Dela entoou um cântico mui milenar de infinita idade...




Once upon a midnight dreary, while I pondered, weak and weary,
Over many a quaint and curious volume of forgotten lore,
While I nodded, nearly napping, suddenly there came a tapping,
As of some one gently rapping, rapping at my chamber door.
"'Tis some visitor," I muttered, "tapping at my chamber door —
Only this, and nothing more."

Ah, distinctly I remember it was in the bleak December,
And each separate dying ember wrought its ghost upon the floor.
Eagerly I wished the morrow; — vainly I had sought to borrow
From my books
surcease of sorrow — sorrow for the lost Lenore —
For the rare and radiant maiden whom the angels name Lenore —
Nameless here for evermore.

And the silken sad uncertain rustling of each purple curtain
Thrilled me — filled me with fantastic terrors never felt before;
So that now, to still the beating of my heart, I stood repeating,
"'Tis some visitor entreating entrance at my chamber door —
Some late visitor entreating entrance at my chamber door; —
This it is, and nothing more."

Presently my soul grew stronger; hesitating then no longer,
"Sir," said I, "or Madam, truly your forgiveness I implore;
But the fact is I was napping, and so gently you came rapping,
And so faintly you came tapping, tapping at my chamber door,
That I scarce was sure I heard you"— here I opened wide the door; —
Darkness there, and nothing more.

Deep into that darkness peering, long I stood there wondering, fearing,
Doubting, dreaming dreams no mortal ever dared to dream before;
But the silence was unbroken, and the stillness gave no token,
And the only word there spoken was the whispered word, "Lenore?"
This I whispered, and an echo murmured back the word, "Lenore!" —
Merely this, and nothing more.

Back into the chamber turning, all my soul within me burning,
Soon again I heard a tapping somewhat louder than before.
"Surely," said I, "surely that is something at my window lattice:
Let me see, then, what thereat is, and this mystery explore —
Let my heart be still a moment and this mystery explore; —
'Tis the wind and nothing more."

Open here I flung the shutter, when, with many a flirt and flutter,
In there stepped a stately raven of the saintly days of yore;
Not the least
obeisance made he; not a minute stopped or stayed he;
But, with
mien of lord or lady, perched above my chamber door —
Perched upon a bust of Pallas just above my chamber door —
Perched, and sat, and nothing more.

Then this ebony bird beguiling my sad fancy into smiling,
By the grave and stern decorum of the countenance it wore.
"Though thy crest be shorn and shaven, thou," I said, "art sure no
craven,
Ghastly grim and ancient raven wandering from the Nightly shore —
Tell me what thy lordly name is on the Night's Plutonian shore!"
Quoth the Raven, "Nevermore."

Much I marveled this ungainly fowl to hear discourse so plainly,
Though its answer little meaning— little relevancy bore;
For we cannot help agreeing that no living human being
Ever yet was blest with seeing bird above his chamber door —
Bird or beast upon the sculptured bust above his chamber door,
With such name as "Nevermore."

But the raven, sitting lonely on the placid bust, spoke only
That one word, as if his soul in that one word he did outpour.
Nothing further then he uttered— not a feather then he fluttered —
Till I scarcely more than muttered, "other friends have flown before —
On the morrow he will leave me, as my hopes have flown before."
Then the bird said, "Nevermore."

Startled at the stillness broken by reply so aptly spoken,
"Doubtless," said I, "what it utters is its only stock and store,
Caught from some unhappy master whom unmerciful Disaster
Followed fast and followed faster till his songs one burden bore —
Till the
dirges of his Hope that melancholy burden bore
Of 'Never — nevermore'."

But the Raven still beguiling all my sad soul into smiling,
Straight I wheeled a cushioned seat in front of bird, and bust and door;
Then upon the velvet sinking, I betook myself to linking
Fancy unto fancy, thinking what this ominous bird of yore —
What this grim, ungainly, ghastly, gaunt and ominous bird of yore
Meant in croaking "Nevermore."

This I sat engaged in guessing, but no syllable expressing
To the fowl whose fiery eyes now burned into my bosom's core;
This and more I sat divining, with my head at ease reclining
On the cushion's velvet lining that the lamplight gloated o'er,
But whose velvet violet lining with the lamplight gloating o'er,
She shall press, ah, nevermore!

Then methought the air grew denser, perfumed from an unseen
censer
Swung by
Seraphim whose footfalls tinkled on the tufted floor.
"Wretch," I cried, "thy God hath lent thee — by these angels he hath sent thee
Respite —
respite and nepenthe, from thy memories of Lenore
Quaff, oh quaff this kind nepenthe and forget this lost Lenore!"
Quoth the Raven, "Nevermore."

"Prophet!" said I, "thing of evil! — prophet still, if bird or devil! —
Whether Tempter sent, or whether tempest tossed thee here ashore,
Desolate yet all undaunted, on this desert land enchanted —
On this home by horror haunted— tell me truly, I implore —
Is there — is there
balm in Gilead? — tell me — tell me, I implore!"
Quoth the Raven, "Nevermore."

"Prophet!" said I, "thing of evil — prophet still, if bird or devil!
By that Heaven that bends above us — by that God we both adore -
Tell this soul with sorrow laden if, within the distant Aidenn,
It shall clasp a sainted maiden whom the angels name Lenore -
Clasp a rare and radiant maiden whom the angels name Lenore."
Quoth the Raven, "Nevermore."

"Be that word our sign in parting, bird or fiend," I shrieked, upstarting —
"Get thee back into the tempest and the Night's Plutonian shore!
Leave no black plume as a token of that lie thy soul hath spoken!
Leave my loneliness unbroken!— quit the bust above my door!
Take thy beak from out my heart, and take thy form from off my door!"
Quoth the Raven, "Nevermore."

And the Raven, never flitting, still is sitting, still is sitting
On the pallid bust of Pallas just above my chamber door;
And his eyes have all the seeming of a demon's that is dreaming,
And the lamplight o'er him streaming throws his shadow on the floor;
And my soul from out that shadow that lies floating on the floor
Shall be lifted — nevermore!



A Entidade era Poe, que ergue-me e abraçou-me, dizendo bem baixo ao meu ouvido direito que nunca mais me deixaria. Um corvo cantou e eu agora tenho uma verdadeira vida. E nunca mais assassino fui na aurora que cai por todas as minhas vidas.



Inominável Ser

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