domingo, 3 de outubro de 2010

O Assassino, A Vítima E O Gato Rosa


Crime: qual sedutor maior nome envolve a alma do perverso? Crime: qual a métrica aperfeiçoante maior da alma do perverso? Crime: qual a consistência máxima do mais perfeito bolo que compete ao degustar da alma do perverso? Crime: qual a inclemente rota de colisões com as morais geradas pelas civilizações que maior possa acrescentar valor à alma do perverso? Crime: quanto de retórica se enquadra nesta qualidade maior da alma do perverso? Crime: qual nota musical mais abordante da mística sinfonia enegrecida maior da alma do perverso? Crime: qual rumo maior de ondulações em um plano de abordagens lógicas dentro da alma do perverso? Crime: qual espetáculo maior incessantemente vigoroso tremula possantemente dentro da alma do perverso? Crime: qual patamar permanentemente visceral dedica-se ao imanente e transcendente sabor da perversa prática criminosa na alma do perverso? Crime: qual inspirador senso maior anima em alturas elevadíssimas a alma do perverso? Crime: qual senso de disciplina tática cruel maior é o máximo lance dentro da alma do perverso? Crime: qual valoração especificamente maior aloja-se ruminantemente dentro dos recônditos inefáveis mais desconhecidos nos gemidos e ruídos e urros da alma do perverso? Crime: qual infinitude intelectivamente básica maior aplica-se à escolástica sã e insana da alma do perverso? Crime: qual batida de tambor maior ultraviolentamente vigora nos salões de tenebrosas musicalidades na alma do perverso? Crime: qual estranha volição maior imperiosamente qualifica a danosidade, a destrutibilidade e as categorias todas de perversidade dentro das maquinações da alma do perverso? Crime: qual transe maior qualificativo da hipnótica dança proporcionada por todos os ferozes bem calculados movimentos da alma do perverso? Crime: qual orientador maior nas direções funcionais das vias de sangrentos caminhos percorridos pelos ardentes criminosos desejos da alma do perverso? Crime: qual incentivador maior na campanha de danificação de todo constitutivamente benéfico panorama social dentro da desordem e da ordem nos instintos da alma do perverso? Crime: qual o motor maior do veículo mais possante para as nauseantes corridas em busca de sangue a ser derramado motivando cada milímetro dos passos em uma estrada da alma do perverso? Crime: qual filosofia maior da alma do perverso? Crime: qual matemática maior da alma do perverso? Crime: qual contabilidade maior da alma do perverso? Crime: qual medicina maior da alma do perverso? Crime: qual ciência anti-social maior da alma do perverso? Crime: qual gene maior da alma do perverso? Crime: qual engenharia existencial maior da alma do perverso? Crime: qual arquitetura vital maior da alma do perverso? Crime: qual literatura maior da alma do perverso? Crime: qual poética maior da alma do perverso? Crime: qual pintura maior da alma do perverso? Crime: qual teatro maior da alma do perverso? Crime: qual cinema maior da alma do perverso? Crime: qual faculdade maior da alma do perverso? Crime: qual diversão maior da alma do perverso? Crime: qual dimensão maior da alma do perverso? Crime: qual estrela maior da alma do perverso? Crime: qual universo maior da alma do perverso? Crime: qual criação maior da alma do perverso? Crime: qual guia espiritual maior da alma do perverso? Crime: qual anjo e demônio maior da alma do perverso? Crime: qual Verdadeiro Deus Creador maior da alma do perverso?


O Assassino é um filósofo. A Vítima é uma filosofia. O Assassino é um músico. A Vítima é uma melodia. O Assassino é um pintor. A Vítima é uma pintura. O Assassino é um ilustrador. A Vítima é uma ilustração. O Assassino é um desenhista. A Vítima é um desenho. O Assassino é um arquiteto. A Vítima é uma arquitetura. O Assassino é um vendedor. A Vítima é um produto. O Assassino é um médico. A Vítima é um paciente. O Assassino é um engenheiro. A Vítima é uma engenharia. O Assassino é um condutor. A Vítima é um veículo. O Assassino é um contador. A Vítima é um valor monetário. O Assassino é um operador. A Vítima é uma ação de valor. O Assassino é um industrial. A Vítima é uma indústria. O Assassino é um padeiro. A Vítima é um pão. O Assassino é um açougueiro. A Vítima é uma carne. O Assassino é um pescador. A Vítima é um peixe. O Assassino é um traficante. A Vítima é um entorpecente. O Assassino é uma chave. A Vítima é uma porta. O Assassino é um pedreiro. A Vítima é um tijolo. O Assassino é um atleta. A Vítima é uma competição. O Assassino é um presidente. A Vítima é uma nação. O Assassino é um carcereiro. A Vítima é um presidiário. O Assassino é um juiz. A Vítima é um réu. O Assassino é um violeiro. A Vítima é uma corda de violão. O Assassino é um atirador. A Vítima é um alvo. O Assassino é um carpinteiro. A Vítima é uma madeira. O Assassino é um professor. A Vítima é um aluno. O Assassino é um pai. A Vítima é um filho. O Assassino é um digitador. A Vítima é um teclado. O Assassino é um guia. A Vítima é um itinerário. O Assassino é um ladrão. A Vítima é um objeto a ser roubado. O Assassino é um leitor. A Vítima é um livro a ser lido. O Assassino é um escritor. A Vítima é um livro a ser escrito. O Assassino é um poeta. A Vítima é um poema a ser escrito. O Assassino é um sacerdote. A Vítima é um crente a ser ludibriado. O Assassino é um mago. A Vítima é uma obra mágica a ser concluída. O Assassino é um orador. A Vítima é uma oração a ser efetuada. O Assassino é um Demônio. A Vítima é possuída por este Demônio. O Assassino é um Deus. A Vítima é obra deste Deus.


O Assassino se pergunta, diante da Vítima, acerca das meditações que assolam-no no momento de agora no qual se encontra prestes a fazer escorrer mais um pouco de sangue neste mundo de vítimas e assassinos, de assassinatos e vitimados, de vitimizações e assassinados. Uma fábrica abandonada a quilômetros de qualquer cidade conhecida, povoada de gatos selvagens, ratos, baratas e serpentes, rico habitat que copia o habitat do humano mundo, o qual serve de palco de execuções para o Assassino desde sempre, é o cenário panorâmico da ação que se julga aqui nascente e presente. A Vítima está amarrada a uma cadeira com correntes de aço, é um homem grande e forte, mas não vem ao caso descobrir-lhe o nome, o nome da esposa, o nome dos filhos, o nome da mãe, o nome do pai, o nome do cachorro, o nome do papagaio ou o valor de sua conta bancária ou a marca do último carro do ano que adquirira ou a cor de sua pele. Ele é apenas A Vítima, mais uma neste imenso maquinário de lógica eliminatória que chamamos de mundo contemporâneo, organizado em prol de uma hipocrisia social latente moldada pela atmosfera pop que gera as Brytneys e os Justins, o videogame e o MP4, as guerras e a falsa sensação de paz, os crimes e os assassinatos, as vítimas e os assassinos. Apenas A Vítima, como nós mesmos que também somos vítimas, permanecendo neste jogo e guerra que chamamos de vida em sociedade, na qual a lâmina do punhal de um assassino é bem mais honesta do que a ponta da caneta de uma autoridade, um tão vitimado quanto nós que permanecemos entre a espada e a espada. O Assassino parado em frente à vítima é um homem de estatura mediana, magro, mas, como no caso da Vítima, não vamos nos atrelar ao comodismo pueril e medíocre de detalhes de nomeações como se tudo fosse possível nomear. Sintamos apenas as respirações dos dois, a da Vítima e a do Assassino, como sendo as nossas respirações, entrando na pele de um, entrando na pele de outro ou deixando com que cada um deles nos conquiste e nos coma em uma mesa lotada de mclanches felizes e televisões de tela plana, sonhos de consumo para todas as vazias almas contemporâneas. Ser O Assassino, ser A Vítima: quem nunca quis estar de um lado incômodo neste aborto torrencial que especulamos ser um tipo de existência que tenha uma finalidade especificamente natural? É a isto que se atenta O Assassino em suas meditações, deixando A Vítima, que tem punhais cravados nas pernas, nos ombros e nos braços, estupefata ao ver o vai-e-vem daquele, agora, a surgir como uma miríade de alucinados relâmpagos.


O Assassino caminha de um lado para o outro brincando com o punhal na mão direita e a adaga na mão esquerda, clássicos instrumentos de morte que fascinam as almas que amam matar à maneira antiga, a mais febrilmente charmosa e elegante maneira de matar. Há um perverso sorriso no rosto esquelético do Assassino e seus perversos olhos mastigam o castigado corpo da Vítima, a olhá-lo como que a pedir que receba logo o golpe final que todos nós sabemos ser hipocritamente chamado de “golpe de misericórdia”. Misericórdia é um estúpido termo para designar a estocada definitiva no corpo de uma vítima, mas não vamos, agora, destruir uma tradição secular (ou, quase secular) determinada por um pensamento coletivo decadente e tão perverso quanto o de qualquer assassino. O Assassino está inquieto, em seu íntimo percorremos vielas obtusas e estreitas cheias de corpos retalhados e flores de cor rosa espalhadas entre dentes e ossos. A Vítima, castigada, está fazendo um hercúleo esforço para desmaiar e morrer mais depressa, mas os ferimentos cirurgicamente causados pelo Assassino foram meticulosamente planejados para deixá-la acordada, a sofrer com a paulatina dor pelas lâminas dos punhais proporcionada. O Assassino pára de caminhar de um lado para o outro e do bolso esquerdo da calça da Vítima retira uma bala Halls extra-forte, a qual saboreia agachado. Após terminar o saborear da forte bala, sempre olhando perversamente para os olhos da Vítima, ele senta-se em frente a esta e finca a adaga em uma ratazana e o punhal em uma serpente, os quais passavam perto dele no chão, com uma rapidez sobre-humana. Não se espantem com esta velocidade, O Assassino é um ser humano tão comum quanto nós que estamos nas duas faces da mesma suja moeda jogada no esgoto por algum cafetão ou cafetina que nos observa a partir do ponto de vista da Eternidade, gozando muito da nossa diária crônica prostituição vivenciada de inúmeros modos e posições, da sarjeta ao restaurante de luxo, do barraco à mansão, do deserto à cidade grande. O Assassino, demasiado humaníssimo como nós, é um leitor da revista Criativa, telespectador assíduo do Jornal Nacional, fã da TV Cultura, fanático por novelas mexicanas, apaixonado pela Xena, viciado em maconha, estudante de Filosofia da UFRJ, maligno carioca da gema que ama a praia de Ipanema e um brasileiro que não desiste nunca da arte de matar com extrema perversidade sangrenta.



Exercito um tipo de fé, de religiosidade, mesmo, nisto que faço. Um exemplo bem claro está no tipo de abordagem que faço diretamente em todos que aqui trago para matar. Com você não foi diferente, passando por aquela rua, falando ao celular, com uma maleta na mão direita, óculos escuros e entrando na H. Stern para comprar uma aliança de ouro para a sua futura noiva... Melhor dizendo, ex-futura noiva, já que o casamento de vocês dois somente se dará quando os ossos de cada um encontrar-se no cemitério... Vejo uma lógica nisso... Não é em vosso futuro verdadeiro reencontro, mas neste meu papel de assassino e no seu papel de vítima. Todo assassino, assim como eu, deveria fazer, de vez em quando, uma crítica da razão de matar que consista na contundência de assimilar uma compreensão sobre sua arte. Minha arte é uma raridade, hoje em dia os assassinos utilizam, em sua maioria, de armas de fogo; detesto as armas de fogo, prefiro lâminas, o brilho delas, os cortes precisos delas, as feridas que abrem... Não posso negar que isto é uma arte para poucos privilegiados que nasceram com o dom de matar. Muitos não nascem para orar? Muitos não nascem para roubar? Muitos não nascem para estuprar? Muitos não nascem para enganar? Muitos não nascem para fotografar? Muitos não nascem para pintar? Muitos não nascem para nadar? Por que não haveria de nascer muitos para a arte de matar? Reflito sobre esse esquema diante de todas as minhas vítimas, atual vítima, me comprazo em observar o sofrimento de vocês enquanto expando-me em felizes monólogos...

Mate-me logo, seu doente mental...

Doente mental, não, minha mente é bem mais saudável do que a de muita gente.

Por que eu... fui o escolhido... agora?

Escolho as minhas vítimas observando paulatinamente o ato de caminhar. Existe um código específico em cada passo e no barulho dos calçados que atraem-me, um padrão que agita-me e faz com que surja em minha mente a presença confirmadora de que aquele ou aquela que observo será minha vítima. É uma lógica, como já disse, uma conquista minha após anos de prática.

Um dia, um dia...

Um dia...?

Você será... preso...

E, também, assassinado?

Verme...

Quando criança, eu tinha vermes em meu estômago... Nada como um tratamento médico de verdade para curar qualquer tipo de inconveniente como este, não? Você quer um médico? Parece-me que há muitos buracos em seu corpo...

Por Deus, mate-me...

A Substância nem se dá conta de nós dois aqui, minha nobre vítima. Para A Substância somos minúsculas peças insensivelmente postas neste mundo, somos formiguinhas esmagáveis dentre todas as humanas formiguinhas esmagáveis. Mais do que tudo, pertencemos a um esquema cósmico de assassinos e vítimas que é coordenado por Inteligências que os espiritualistas supõem como “Superiores”, mas, que na verdade, são apenas os Assassinos Maiores de tudo que seja formiguinha pelos mundos. Esta é uma teoria filosófica minha, contemporânea de um mundo no qual as formiguinhas sentem-se grande coisa, apesar da furiosa investida da Morte em todos os sentidos, moradias e caminhos. Muitos assassinos, hoje em dia, perdem-se no meio de tanto caos, são logo aprisionados no meio de suas viagens de morte, violentados e detonados nos presídios. Principalmente aqui no Brasil, onde a maioria dos assassinos são passionais, amadores por natureza, o índice de aprisionamentos e mortes deles é bem maior; mais do que nos Estados Unidos, onde vigora a tal “pena de morte” que apenas dá mais incentivo para um psicopata arrancar as glândulas mamárias de uma puta ou a piroca de um gay. O Grande Assassino, O Mundo, trouxe-o até mim, eu não te busquei; nas perspectivas e nas probabilidades possíveis, um outro assassino poderia matá-lo ali mesmo na rua; um ladrão poderia assaltá-lo; uma prostituta poderia dar-lhe o “boa noite, cinderela”; ou um travesti poderia enganar-lhe se passando por uma mulher, te levar para um motel e te aplicar este mesmo golpe, quando não, armar um escândalo que te poria nos maiores veículos de comunicação... Você é um homem famoso, rico e, arrogantemente, caminhava todos os dias perfazendo aquele mesmo caminho, o mesmo método, a mesma maneira esnobe de se portar a cada passo, o celular sempre a funcionar na mesma hora. Homens monótonos como você já matei quinze, da mesma forma que agora estou a utilizar para matá-lo. Monotonia, uma peça curiosa de um fenomênico mundo a atualizar-se cada vez mais na vulgaridade... Você é um homem vulgar, apesar de suas roupas caras, e algo que me incomoda é essa discrepância, esse paradoxo, mais um motivo para matar os de seu tipo. Sua família é um pouco melhor... Eu o observei durante sete dias e segui-o até sua casa, sua mulher e seus quatro filhos são maravilhosos... Vai ser a primeira família que vou...

Não, meus filhos, não os...

A menina de seis meses de idade...

Não... não faça... isso...

A outra menina de cinco anos de idade...

Eles, não, apenas eu...

Os gêmeos de doze anos...

Pelo amor...

O seu amor, sua esposa loira de olhos verdes, cabelos ondulados até a cintura, corpo esbelto moldado em academia, trinta e oito anos de idade...

Eles não tem nada a ver... com o seu esquema... o seu método... a sua...

Amiga vítima, quero apenas que você tenha esta única certeza antes que eu desfira em seu corpo a estocada derradeira: eu vou me deliciar escapando um pouco da minha metodologia, vou matar a sua filha de seis meses de idade, a sua outra filha de cinco anos de idade, os seus filhos gêmeos de doze anos de idade e a sua esposa maravilhosa de trinta e oito anos de idade. Vou matar cada um deles aqui, os sequestro de cada um já planejei, a maneira de trazê-los aqui é tranquila e a morte que eles terão será parte também da sua tortura pós-morte. Cada vítima anterior minha me persegue, sabia? Cento e nove mortes aqui, trinta e nove pelo Brasil, cento e quarenta e oito assassinatos cometi... Homens, mulheres; ricos, pobres; brancos, negros; tudo já passou pelas minhas lâminas, menos crianças... Vai ser divertido matá-las... Ver o sofrimento delas... Ouvir o choro delas... Sentir as lâminas penetrando nas carnes macias delas... Delícia, minha vítima, delícia...

Você não pode fazer isso...

Por que eu não posso fazer isso? Por que são crianças? Por que escaparei das escolhas que faço das minhas vítimas? Por que tenho que seguir algum “moral” de assassinos que não matam crianças? Quem disse que assassinos seriais tem que seguir graus de crimes como se matar fosse apenas uma ortodoxia esportiva? Bem, matar não é um esporte, nem chega perto de ser um esporte; matar é Arte, é Filosofia. Arte de exímios experimentadores da poesisa de um verbo denominado matar e Filosofia de excelentíssimos artífices de teorias que protegem o ato de matar. Minha temática é bem clara, tão clara quanto o sangue que eu aqui fiz escorrer neste chão no qual estamos a pisar. Eu vou mesmo matar toda a sua família, aquele arquétipo de coisas belíssimas que você construiu para si mesmo e que manteve, até hoje, como inderrubável. Ousarei sair de meu esquema de assassinatos e assassinarei mãe e filhos, todos juntos, aqui... Sofra mesmo, sofra muito, minha vítima, querida vítima, eu quero que você sofra muito, pensando não em sua morte, mas na dos seus amados entes queridos... Não estou a fazer um jogo psicológico ou a torturá-lo psicologicamente, verdadeiros assassinos cumprem as suas metas e realizam os seus mais ortodoxos objetivos quando não-limitados por esquemas fixos que matematizam a sensorial capacidade de matar. Muitos, do senso comum, diriam que eu sou satanista ou um mero psicopata, um mero assassino serial... Estou além disso, querida vítima, digo-lhe ainda que toda esta minha fala empostada, este meu monólogo, obedece a uma lógica que nem todo assassino como eu possui. É a lógica da fundamentação de um prazer além do imaginado a cada vez que perfuro o corpo de uma vítima minha. Lógica de minha vida, claro, misturada a um heavy metal insanamente inspirador que toca em minha mente durante as execuções de minhas obras de arte... Você é mais uma obra de arte minha, uma poesia, uma escultura, um filme, uma composição arquitetônica primorosa... Sua mulher vai ser outra obra e seus filhos, também... Vejo em seus olhos uma preocupação... Ah, amiga vítima, não se preocupe, eu vou ser bem mais talentoso na capacidade de causar dor e sofrimento a eles do que a você! Posso garantir essa minha marca registrada tanto quanto garanto que a sua morte vai ser deliciosamente lenta e saborosa para mim! Aumento assim o meu prazer...

Eles não merecem...

Não acredito em merecimento, acredito em encontros frutíferos que desencadeiam fatos mais frutíferos ainda.

O que ganhará, assassino, matando a minha família?

Não acredito em ganhos, acredito apenas em perdas, pois a vontade do mundo inteiro é perder, sempre perder, como eu me perco matando cada vítima como você.

Por Deus, eu te peço que não... mate... a minha... família...

Deus permite que tudo morra e eu cumpro apenas um desígnio materialmente moldado Nele.

Deus não protege assassinos... Eu...

Você pensa que Deus vai Descer Em Verdade até aqui para te salvar? Você pensa que Ele Desceria para salvar Sharon Tate das mãos de Charles Manson? Você pensa que Ele Desceria para salvar todas as mulheres assassinadas pelo Maníaco do Parque? Você pensa que Ele Desceria para salvar Daniela Perez das mãos de Guilherme de Pádua e Paula Thomaz? Você pensa que Ele Desceria para salvar cada vítima das mãos de um assassino como eu, sendo amador ou profissional e amante de sua Arte, Filosofia e Poesia Assassinas? Você pensa que Ele é pessoal e viria até aqui salvar um verme dotado de ossos, pele e órgãos que pulsam ao modo de britadeiras quando qualquer objeto perfurante transpassa a linha do horizonte dos limites corpóreos? Tolo sonho, tola esperança, minha vítima! Ah, como sou privilegiado por sempre encontrar uma vítima como você, católicos e protestantes ortodoxos que pensam que Ele se dignaria a Descer para salvá-los das minhas mãos! Você pensa que Deus é pessoal, querida vítima? Oh, deve pensar, pelo que vejo em seus olhos e pelo que verei nos olhos da sua mulher quando ela fizer o mesmo pedido aqui, na mesma cadeira na qual você está sentado! Neste meu mundo, vítima, não há apelos para forças sobrenaturais ou naturais advindas lá de cima ou lá de baixo, aqui eu sou supremo, absoluto, onisciente, onipotente e onipresente! Aqui, em meu mundo de lâminas lentamente incorporadas ao seu corpo, eu concedo a graça da dor e a vitória na morte... Delícia de profissão secreta é esta minha, não, vítima? Vejo pelo seu rosto que está a fraquejar mais, já não aguenta mais esta forma de morrer... Digo a você que vai demorar bastante até que você morra, querida vítima, vai demorar bastante...

Por favor, mais uma vez... peço que tenha... piedade... deles...

A piedade é um conceito desconhecido em todos os dicionários de assassinos como eu.

Monstro... monstro... desgraçado...

Sou tão humano quanto qualquer assassino atual ou do passado, querida vítima: como da mesma comida que eles; sorvo da mesma bebida que eles; trepo com o mesmo tipo de mulher que eles; durmo no mesmo tipo de cama que eles; e me divirto, matando, como eles se divertem matando. É um mal ser tão sanguinariamente humano, querida vítima? Penso que não, claro, pois da minha ótica eu exercito toda a minha experiência em matar com estilo cada vez mais...

Deus terá muita piedade... de sua alma...

Minha alma não pertence a Ele e nem ao Adversário, querida vítima, estou transbordante em outra cadeia evolutiva...

Você também é... um filho.. de Deus...

E se eu te disser que nasci antes Dele mesmo nascer?

Louco... doente...

Acredito nisso e sempre que acreditamos em algo podemos revolucionar mundos, querida vítima! Sou um revolucionário do sangue, produto de um mundo devotado ao sangue, você lia nas páginas dos jornais toda a literatura de sangue que me consagra como um devoto do sangue! Quero que acredite no que eu acredito, será mais fácil assim morrer com suave certeza de que estou falando a verdade mesmo que esteja sonhando devido ao momento feliz que estou a viver com você agora... Um momento, como eu já disse, que vai se prolongar muito... Muito mesmo, querida vítima... Muito mesmo...

Louco... doente... assassino...

Agora, querida vítima, você me chamou pelo nome que mais prefiro: assassino! Já falamos demais um com o outro, vamos continuar... Imagine um sofrimento eterno contra alguém praticado como este que estou a praticar com você... Imagine e sinta, o empalamento é uma morte eficazmente a mais dolorosa e possante de todas...



O Assassino ergue-se e aproxima-se da Vítima, segurando-a pelo queixo. Abrindo-lhe a boca, utiliza a mais longa adaga disponível em sua mão direita para, com precisão cirurgicamente impressionante, arrancar a língua da Vítima. A Vítima debate-se e O Assassino, esboçando um olhar crítico e cínico para a língua que permanece a segurar diante dos atormentados olhos daquela, lança-a à esquerda de si. Pondo as mãos no queixo, O Assassino analisa o que até agora fez ao corpo da Vítima e medita sobre a próxima parte de seu trabalho a ser concluída. Gélido vento irrompe em direção a eles e uma macabra paisagem pontuada pelo negro das vestes do Assassino e o rubro sangue a escorrer pelo chão da Vítima forma-se definindo uma visão que se equilibra entre o grotesco e o onírico, se sonhos ou pesadelos podemos chamar a uma assassina rotina. Instalas-e no Assassino o silêncio e na Vítima gemidos ensandecidos de dor, revolta, medo, ódio e angústia, misturados a toda uma sensação de derrota, fracasso e, até certo ponto, entrega-se ao que, desde que acordara já tendo lâminas cravadas em seu corpo, sua debilitada capacidade de pensar trata como extremamente inevitável. Dedicado à sua meditação, O Assassino, entrando em um estranho estado de êxtase, põe-se a recitar um medieval poema de beleza mui milenar...



Frères humains, qui après nous vivez,
N'ayez les coeurs contre nous endurcis,
Car, si pitié de nous pauvres avez,
Dieu en aura plus tôt de vous mercis.
Vous nous voyez ci attachés, cinq, six :
Quant à la chair, que trop avons nourrie,
Elle est piéça dévorée et pourrie,
Et nous, les os, devenons cendre et poudre.
De notre mal personne ne s'en rie ;
Mais priez Dieu que tous nous veuille absoudre!

Se frères vous clamons, pas n'en devez
Avoir dédain, quoique fûmes occis
Par justice. Toutefois, vous savez
Que tous hommes n'ont pas bon sens rassis.
Excusez-nous, puisque sommes transis,
Envers le fils de la Vierge Marie,
Que sa grâce ne soit pour nous tarie,
Nous préservant de l'infernale foudre.
Nous sommes morts, âme ne nous harie,
Mais priez Dieu que tous nous veuille absoudre!

La pluie nous a débués et lavés,
Et le soleil desséchés et noircis.
Pies, corbeaux nous ont les yeux cavés,
Et arraché la barbe et les sourcils.
Jamais nul temps nous ne sommes assis
Puis çà, puis là, comme le vent varie,
A son plaisir sans cesser nous charrie,
Plus becquetés d'oiseaux que dés à coudre.
Ne soyez donc de notre confrérie ;
Mais priez Dieu que tous nous veuille absoudre!

Prince Jésus, qui sur tous a maistrie,
Garde qu'Enfer n'ait de nous seigneurie :
A lui n'ayons que faire ne que soudre.
Hommes, ici n'a point de moquerie ;
Mais priez Dieu que tous nous veuille absoudre!



A Vítima reconhece o seu poema preferido, proferido pelos lábios do Assassino, L'Épitaphe de Villon ou Ballade des Pendus, de François Villon. O Assassino sorri com um ar de superior total exercício de seu atuante poder e, antes que A Vítima, em seu quase extinto ato de pensar, possa conduzir uma linha de pensamentos acerca do porquê da específica recitação do específico poema, seus olhos voltassem para a sua língua arrancada ao chão, língua a ser mastigada e engolida com sutileza e elegância por um gato rosa...


O gato rosa é a última visão da Vítima, O Assassino perfura-lhe os dois olhos com adagas que reluzem à luz de vaga-lumes a passearem em redor deles.


O Assassino olha para o gato rosa, uma excêntrica e exótica visão que o impressiona.


A Vítima geme mais estridentemente, deixando a cabeça cair para trás e assim permanecer.


E o gato rosa continua a fazer a sua refeição, sem nem prestar atenção ao Assassino e à Vítima.


O ronronar do gato rosa serve de fundo musical para o continuar do trabalho do Assassino.


O ronronar do gato rosa é a última música pela Vítima ouvida.



Inominável Ser

UM ASSASSINO

UMA VÍTIMA

UM INOMINÁVEL GATO INCOLOR





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sábado, 2 de outubro de 2010

Morbid Angel - Where the Slime Lives


Where the slime live

(They are the lowest forms of life)
Where the slime breed
(They make a new one too corrupted)
When the wind blows
(The winds of truth are blowing now)
And the cradle falls....down

Their poison fingers that wrote the poison lines
Their poison lingers
What a tragedy when their fingers are removed

Where the slime live

Their burning dogma
Introducing to our mind - lies
They plot for the total control of the morals
And what a tragedy when the "god-heads" are removed.

They crawl, they breed, they hide but we see
They burn
I see the smoke of the funerals rising
God lives in thier heads now laid to rest

What a sight
As their kingdom comes tumbling down
We burn - the ones with contrite souls be gone!

Long gone are the filthy liars
Long gone are their filthy lies
I know they'll come again some day
Where the slime live and how the slime gets washed away











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Prosa De Um Coveiro Inominável

O Terror Inominável. O Horror Inominável. A Loucura Inominável. A Cova Aqui É A Do Puro Pesadelo Das Covas Mais Profundas E Elevadas. Vozes Estranhas Aqui. Sons Estranhos Aqui. Palavras Estranhas Aqui. Estranhas E Inomináveis. Sintam-Se Conduzidos Pelo Carro Inominável Do Terror Inominável. Sintam-Se Conduzidos Pelo Carro Inominável Do Horror Inominável. Sintam-Se Conduzidos Pelo Carro Inominável Da Loucura Inominável.

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