domingo, 17 de abril de 2011

Aquele Que Sangra


“Entre as vestes de Maa Teraun Byza, havia vestígios de uma companhia aterradora nascida das mais estranhas profundezas daquela terra. Mais antigo do que o próprio Mal, que oriundo é do Grande Assassinato da Esperança nos corações dos seres, a aterrorizante noção daquele sentimento trazido por aquela companhia imantava os corações mais temerosos com um medo atroz que irrompia nos mais tremulantes noturnos sussurros. Em cada casa de Maa Teraun Byza, tais noturnos sussurros eram de assombro, espera e desilusão para com tudo que era tido como bom e suficientemente reconfortante dos corações mais feridos ou cansados de tanto aguardarem por melhores dias. Nas noites de Maa Terun Byza há outros sussurros, sussurros de uma criatura muito mais antiga do que O Antigo que antecede até mesmo o próprio Mal. Dizem que tal criatura originou O Mal naquelas terras cujos reis e rainhas viveram por mil anos antes da derrocada total de todas as instituições de um mundo aparentemente feliz. A Criatura destruiu o reinado de milhões de anos da Dinastia Wal Ega, mesmo não sendo diretamente responsável pela queda da mesma; o que A Criatura causava na população daquela terra e a falta de empenho dos governantes na resolução de tal problema ocasionou uma guerra civil que durou cento e oitenta anos, guerra que acabou por atrair caos, desordem, pobreza e decadência a tudo que se erguia, em movimento ou inerte, em Maa Teraun Byza. Há quinhentos e nove anos foi assim que A Criatura, que sussurra todas as noites e contribui ainda mais para a decadência tremenda de um reino que já possuiu as mais altíssimas riquezas, destruiu Maa Teraun Byza. Em cada sussurro da Criatura, há sangue. Sangue surge ao nascer do dia em nove casas daquela terra. Não há como fugir da Criatura, Maa Teraun Byza não é um país e nem uma cidade, é um planeta, e como até mesmo a tecnologia desapareceu após a guerra civil, todos os três milhões de habitantes dele estão encarcerados e ameaçados pela Criatura, Aquele Que Sangra, um cataclísmico espetáculo de horrores e pesadelos para todos que presenciaram as casas, todas manchadas de sangue, assim como as ruas, devido à passagem Dele. Ninguém escapa do sussurro Dele, Aquele Que Sangra não permite a sobrevivência de nenhuma das suas vítimas, ele é o mais implacável dos predadores já existentes, um Ser catastroficamente real e cujo raciocínio apenas se limita a este único pensamento: SANGRAR, SANGRAR E SANGRAR. Aquele Que Sangra é um obscuro poeta dos sussurros assassinantes, seus versos rompem as camadas mais impermeáveis das consciências de todos, Ele agita as ondas do ar, da água, da terra do fogo e...”



— Era isto que você queria tanto me mostrar, Edgar?

— É a sinopse, Eduardo, do meu mais novo livro.

— Eu sei que é uma sinopse, mas...

— O que foi, não está ao nível dos meus outros livros?

— Não é isso, eu até posso estar errado, mas é uma história que, hoje em dia, não vende nada.

— Como não vende nada, Eduardo? Não é uma história de terror, um gênero que atualmente está muito na moda? Não é isso que o público quer ler?

Sim, Edgar, é exatamente isso que o público quer ler, mas eu já te falei para escrever como as pessoas que atualmente são os campeões de vendas pelo mundo...

Já sei, você quer que eu escreva como uma Stephanie Meyer...

E o que há de mal nisso, Edgar? Ela é genial, promoveu uma imensa revolução na forma de como os Vampiros são tratados na Literatura e gerou uma série de sucesso no Cinema.

Você quer mais um Crepúsculo...

Não é o que eu quero, é o que o público leitor quer no momento, Edgar! Uma história com romance, um pouquinho de sexo e até mesmo um dramazinho vulgar, desses que vemos nas novelas da Globo. Como editor, Edgar, quero vender cada vez mais e nem me importo com a qualidade dos meus livros, contanto que estes sejam campeões de vendas. Sou seu amigo e não tenho que concordar sempre com a sua forma de escrever, que até fez bastante sucesso há uns sete ou doze anos atrás. Mas, quem é hoje Edgar Azevedo dos Anjos, que não lança um livro inédito há oito anos e vive de relançamentos, coletâneas e eventos como palestras, conferências e entrevistas em programinhas de televisão? Cara, você sabe que precisa vender tanto quanto eu! Você já foi traduzido para nove idiomas e a sua riqueza de hoje veio das vendas de seus livros em vinte e seis países! Você, Edgar, é quase um Paulo Coelho, mas precisa ser mais ambicioso e pensar melhor no que tratar em seus próximos livros! Com historinhas como essa aí, com esse tal “Aquele Que Sangra”, toda a sua carreira vai se tornar uma merda!

— Eduardo, você é apenas um editor, um agente literário, e não um crítico! Aqueles que tem o direito de dizer que qualquer uma das minhas obras é uma merda são aqueles que estudaram para serem críticos!

Estou te falando isso como um amigo, Edgar...

E o que há de mal na minha sinopse, Eduardo? Pelo que eu sei, as histórias de terror não precisam seguir modismos, são atemporais e algumas, como Drácula de Bram Stoker, até já entraram para o cânone das grandes obras-primas da Literatura Universal! Por que um escritor hoje tem que seguir a modinha da vez e, em vez de inovar e ser autêntico, repetir o que a grande maioria dos escritores está fazendo hoje?

Todo escritor quer ser lido; todo escritor quer vender seus livros; todo escritor tem que escrever o que está dentro do gênero mais exigido em sua época; todo escritor tem que seguir a linha de raciocínio dos colegas escritores que o rodeiam e vendem livros; portanto, todo escritor deve, em sua época, escrever como todos estão a escrever para poder vender seus livros e agradar ao público: aqui está a fórmula do sucesso contemporâneo de um escritor, Edgar, você não é burro e sabe do que eu estou falando.

— Eduardo, você finalmente se rendeu ao sistema capitalista... Nunca pensei que um defensor do Livre-Pensamento e da escrita mais autêntica fosse se render a tal tipo de sistema...

— Não estamos mais em 1968, Edgar, e não erguemos mais bandeiras a favor de um “mundo mais justo e igualitário”. Eu me tornei um editor da maior companhia literária do mundo e eu sei que o presidente internacional da minha companhia segue a mesma linha de pensamento que a minha. Desde que o Brasil retomou o rumo democrático e a Shelley-Byron Corporate entrou forte aqui com livros que hoje são clássicos em nosso país, nós dois formamos uma parceria que te ajudou a vender milhões de seus livros pelo mundo. Pela Shelley-Byron, você lançou vinte e dois livros, contando com aqueles que foram lançados lá na Inglaterra durante o nosso exílio; agora, Edgar, não venha me dizer para pensar apenas no capital já que em 1972, quando abandonamos o Comunismo, as suas intenções eram apenas ganhar dinheiro vendendo os seus livros!

— Cara, eu sempre escrevi os meus livros de terror com autenticidade e nunca imitei nem mesmo o Edgar Allan Poe, meu ídolo maior! Confesso que eu queria vender mesmo, ganhar dinheiro, muito dinheiro, e consegui fazer isso, sim! Mas, porra, pensa comigo: porque hoje eu devo deixar de ser autêntico para poder vender tanto quanto esses escritores fabricados em laboratório de hoje em dia seguindo a modinha dos “Vampiros Românticos bonzinhos”? Que porra é essa, Eduardo, que você quer que eu faça hoje? Quer que eu venda a minha arte a favor de uma estética forçada, bastante bizarra e ridícula em tudo que ela prega? Quer que eu seja um escritorzinho barato que se venda apenas para forçar um tipo de vendagem que gere mais lucros para uma grande editora do que para ele mesmo, apesar de que a venda, hoje em dia, de um milhão de livros já torna um escritor daquele tipo bem rico? Você ainda me chama de amigo ao querer me obrigar a ser um vendido, Eduardo?

— Edgar, quer que eu seja bem sincero?

— Seja, Eduardo, seja!

— “Aquele Que Sangra” é uma história fadada ao fracasso porque eu percebi que colocações filosóficas estarão impressas nas páginas do livro, algo que você nunca fez antes. Seus livros anteriores são de excelente capacidade de entretenimento e agradam a um público que em sua maioria são adultos por causa do erotismo muito pornográfico que possuem. O seu livro de maior vendagem, “Lucy Pussy”, o mais elogiado pelo público, pela crítica, pelos presidentes que passaram pela Shelley-Byron e, até mesmo, por outras editoras pelo mundo, mesmo tendo sido lançado em 1983, é um ultra-ícone pop e alternativo ao mesmo tempo. Foi mesmo um livro originalíssimo ao abordar uma atriz pornô londrina que descobriu, após filmar durante cem dias diretos uns sete filmes que a sua buceta possuia o poder de domínio tanto sobre homens quanto sobre mulheres, animais, plantas e espíritos. Com a buceta dela, Lucy partiu em busca da conquista do mundo, transando com tudo que se movia e que não se movia, conseguindo até mesmo alcançar Deus e se oferecer a Ele em troca da imortalidade. Nas novecentas e duas páginas daquele livro, Edgar, está presente uma verdadeira bíblia da inventividade literária e que culmina naquele momento esplendoroso que fecha o livro todo no qual ela, diante de Jesus, mostra a buceta e ele diz isto: “dai de graça o que de graça recebestes”. As religiões te consideraram um subversivo exatamente porque você mexeu com os ícones sagrados de todas elas, evocando um emaranhado de espíritos ancestrais de cada uma, que se rendiam aos encantos da buceta da Lucy em um livro difícil de ser classificado em um gênero literário, apesar da maioria dos críticos que você tanto defende classificá-lo como “comédia erótica”. Aquele livro é entretenimento puro, sem nenhuma pincelada de “filosóficas mensagens de altíssima inspiração e incentivos morais”, o que é uma grande babaquice na minha opinião. O público leitor do final do século vinte para cá, Edgar, não quer saber de Filosofia, o entretenimento sem riscos é a opção da maioria, ninguém quer saber de refletir acerca do “porquê do mundo ser assim e não assim”. Hoje em dia, Nietzsche, Kierkegaard, Schopenhauer, Sartre, Platão, Spinoza, Hobbes, Leibniz, Sócrates, Aristóteles, Kant e todos os filósofos são apenas objetos de culto de uns merdas que se julgam mais inteligentes do que os outros, uns merdas metidos que vivem enfurnados nas faculdades dando ou assistindo aulas ou fumando maconha ou cheirando pó ou dando o cu uns para os outros. O que você pretende com esse tal “Aquele Que Sangra”, abordando temáticas como “origem do Mal”, “sentido do Mal”, “fundamentos do Mal”, “o medo do Mal”, “o que leva alguém a temer o Mal”, “o que torna algo ou alguém como pertencente ao Mal”, essa porra toda que mais causaria sono nos leitores do que um divertimento sem compromissos, que é o que mais está vendendo hoje, sem nenhuma preocupação a mais? E essa linguagem utilizada na sinopse e que eu julgo estar presente no seu projeto literário, me perdoe a expressão, nem em uma novelinha das mais podres da Record seria aprovada pela direção artística da emissora até como discurso de um débil mental atado a uma camisa-de-força. Escreva como os autores de hoje estão escrevendo, Edgar, você vai vender muito mais do que antes e vai até mesmo ultrapassar o que “Lucy Pussy” conseguiu obter em matéria de vendas. Faça como a Meyer, manipula algo tradicional, põe uma pitada de romance, um pouquinho de discursos moralizantes e um tanto da atmosfera de um livro de mulherzinha que faça uma buceta suar de tanto tesão. O Edward Cullen e a Bella Swann são duas merdas cagadas no esgoto, mas a história deles, uma merda total elevada ao cubo, cativa porque é um entretenimento sem compromissos estéticos maiores além de fazer as adolescentes se masturbarem de tanto imaginarem a piroca do vampirinho que brilha à luz do sol dentro delas... Vendem muito os livros, os filmes são sucessos de bilheteria e geraram uma onda de outros produtos do mesmo gênero que estão vendendo mais do que água e a própria Bíblia, que dizem ser “o maior best-seller do mundo” quando, na verdade, não passa de um monte de mentiras escritas por judeus velhos barbudos que se acreditavam “inspirados por Deus”. Para mim, Edgar, hoje, não importa mais o conteúdo, o que eu quero é grana, muita grana, no meu bolso; a grande maioria dos editores e agentes literários do mundo é assim como eu, animais capitalistas que apenas pensam em dólares, euros e reais, aos milhões, aos bilhões, aos trilhões! Agora, meu amigo, eu te peço que, por favor, rasgue essa porcaria que você me deu para ler, queime e reescreva tudo, põe umas fodas bem gostosas no meio, um romancezinho bem tosco entre os protagonistas e dá ênfase ao “Mal” incorporado na sua “Criatura”, “Aquele Que Sangra”! Faz um produto bem bonitinho que seja bastante vendido, sem a porra da Filosofia no meio porque a Filosofia também é uma merda tão grande quanto os livros de terror atuais que estão vendendo muito por aí. Não fique triste comigo, Edgar, eu sou assim mesmo, penso na grana, no sucesso e não no “sentido da vida”; que as preocupações quanto à vida fiquem com os padres, os rabinos, os pastores e toda a massa acefálica que possui uma religião. Somos dois ateus, graças ao único Deus que conhecemos face a face: o dinheiro todo em nossas milionárias, e quase bilionárias, contas bancárias. Não faça essa cara de cu, vá para o seu apartamento, toma um bom banho, rasga e queima o atual “Aquele Que Sangra”; e, daqui a algumas semanas, até alguns meses, volta aqui com uma história que seja vendável e não com um monte de lixo que nem venderia como papel higiênico.

— Não vou mais voltar aqui, Eduardo, e a nossa amizade acabou, assim como o meu contrato com a Shelley-Byron.

— Tudo bem, Edgar, então queira sair daqui agora que eu tenho que conversar com o Tadeu Santiago, autor daquele que vai ser o mais novo sucesso mundial da Shelley-Byron, “O Vampiro Mutante Que Me Ama”.



30 de dezembro de 2010


Eduardo Santana Amarante, o editor. Após mais um longo dia de trabalhos e entrevistas com autores consagrados e novos autores, sendo estes candidatos ao estrelato devido aos fatores ligados às mais diversas fórmulas de sucesso rápido, ele direciona-se para sua mansão no bairro das Laranjeiras, no Rio de Janeiro. Seu trabalho é o mais típico e rotineiro, metodicamente mecânico: 99% das cópias de livros que chegam à sua mesa são jogados no lixo. Dirigindo do Leblon até as Laranjeiras, quase à meia-noite, nem se lembra mais da conversa que teve com seu ex-amigo e ex-contratado da editora multinacional para a qual trabalha. Ocupa a sua mente negócios, nada mais do que negócios referentes às vendas de livros de sucesso fácil, livros que sigam o que é modinha nesta época, como anjinhos caídos, vampirinhos sentimentais bonzinhos, lobisomens versus vampiros, bruxinhos, bruxinhas e o que mais se vende atualmente em matéria de “Literatura” nas livrarias todas do mundo. Dirigindo seu carro importado como um imponente rei dos mais sábios, senhor de um império literário todo próprio, ele sequer se lembra da primeira linha da sinopse de seu ex-amigo, sinopse lida com muito descaso e desprezo. O que importa para Eduardo é o que vende, ele não está nem aí para o que antigamente se escrevia e, muito menos, se interessa pelos escritores mais antigos do mundo, os autores dos clássicos universais; estes, para ele, são apenas peças de museu que não vendem mais e que fariam muito bem se desaparecessem de todas as bibliotecas do mundo após um incêndio. Com a empáfia e a pose de um grande homem de negócios que desperta, adormece e sonha apenas com negócios, chega em sua mansão, na qual é recebido pelos cães da raça Rotweiller e por mais ninguém, já que por ser tão auto-suficiente, dispensou todos os empregados há dois anos e, aos finais-de-semana contrata diaristas para limparem todos os cômodos da moradia. É meia-noite e um sussurro, que ele não ouve, advém de dentro da mesma...

Na verdade, Eduardo não mora exatamente em uma mansão, mas gosta de dizer arrogantemente aos seus amigos e companheiros de negócios que mora em uma. É uma casa com cinco quartos, três banheiros, uma ampla cozinha, ampla sala-de-estar e três andares, luxuosa e aparelhada com os mais recentes lançamentos em matéria de tecnologia. Tudo o que o seu dinheiro lhe possibilitou comprar está em sua casa, que exibe aos domingos para as garotas de programa que contrata para distrair alguns dos seus amigos e a ele mesmo, uma forma semanal de relaxamento e descontração. Já foi casado três vezes, mas por ser tão egoísta e por apenas ter as suas esposas como mais algum dos objetos caríssimos que tem em sua casa, separou-se amigavelmente de cada uma, sem ter filhos, já que crianças não lhe interessam nem um pouco. Um banho rápido ele toma, sem se dar conta do sussurro dentro de sua casa, mais forte e audível, o que incomoda os cães que tanto ama e ainda não é por ele percebido...

Ao terminar o banho, Eduardo direciona-se ao seu quarto no terceiro andar da casa e nem liga para os latidos intermitentes de seus cães. Como estes sempre latem de modo ininterrupto, para ele é normal que eles estejam tão agitados. Os cães, conhecedores mais da Natureza do que aqueles que pensam ser seus donos, Sabem do perigo presente nos sussurros que estão ouvindo, sussurros cada vez mais fortes, sussurros cada vez mais possantes, sussurros cada vez mais insistentes na venenosa sonoridade de sua constituição e corporeidade...

Eduardo veste seu pijama de seda indiana, deita na cama e lê, antes de dormir, cinco páginas do terceiro volume da série “As Crônicas Dos Nove Lobos”, de Richard King Steel, um best-seller do tipo que ele gosta, muita ação, sexo e entretenimento sem nenhuma preocupação para com o conteúdo da história. Ao terminar, desliga a luz do quarto, deita-se novamente na cama e fecha os olhos; ao fechar estes, ouve um sussurro...

...dois sussurros...

...três sussurros...

...quatro sussurros...

...cinco sussurros...

...seis sussurros...

...sete sussurros...

...oito sussurros...

...nove sussurros...

...dez sussurros...

...onze sussurros...

...doze sussurros...

...treze sussurros...

Eduardo pensa ser o que ouve apenas produto originário de sua tão cansada mente a pensar apenas em dinheiro. Mas, sua atenção volta-se para o fato de seus cães não estarem mais a latir, não estarem mais a correr pelo quintal e e nem a uivar! Seus cães jamais ficaram assim, tão calados, e sua casa, à noite, ele sente, jamais ficou tão desprotegida! Ele pensa em descer e ver o que houve com seus cães, no entanto, os sussurros, em sua cabeça, não lhe deixam sair da cama...

...os sussurros...

...os sussurros...

...os sussurros...

...os sussurros...

...os sussurros...

...os sussurros...

...os sussurros...

...os sussurros...

...os sussurros...

...os sussurros...

Eduardo, assustado, não consegue se mover, os sussurros prendem-no à cama, estão muito mais altos, estão muito mais perto, preenchem o quarto inteiro, preenchem a casa inteira! As paredes sussurram! Os lençóis sussurram! O travesseiro sussurra! A cama sussurra! Como uma criança, Eduardo se enrola nos lençóis, perturbado, pondo o travesseiro acima de sua cabeça, pressionando seus ouvidos para não ouvir mais os sussurros que lhe atormentam em toda sua constituição como ser humano! No entanto, para o desespero mais aprofundante da alma egoísta e insensível dele, os sussurros continuam, continuam, continuam...

...os sussurros...

...os sussurros...

...os sussurros...

...os sussurros...

...os sussurros...

...os sussurros...

...os sussurros...

Eduardo começa a chorar, paralisado de tanto medo! Eduardo começa a mijar no pijama, aturdidamente ferido por tanto medo! Medo! O Medo! O Supremo Medo! O Absoluto Medo! O Infinito Medo! O Eterno Medo! O Imbatível Medo! O Indestrutível Medo! O Antigo Medo De Tudo Que Nas Trevas Sussurra! Nas Trevas, Sussurra! Nas Trevas, O Sussurro! Nas Trevas, Sussurros! Sussurros! Sussurros! Sussurros! Sussurros! Sussurros! Sussurros! Sussurros! Sussurros! Sussurros...

...os sussurros...

...os sussurros...

...os sussurros...

...os sussurros...

Eduardo começa a gritar, mas os sussurros abafam o som de seus gritos! Eduardo começa a se debater, começando a cagar, além de continuar a mijar, no pijama! E os sussurros estão em sua alma! Os sussurros enroscam-se em sua alma! Os sussurros esmagam-lhe a alma! Os sussurros pisoteiam-lhe a alma! Os sussurros trituram-lhe a alma! Os sussurros mastigam-lhe a alma! Sussurros! Sussurros! Sussurros! E o som de alguém subindo os degraus das escadas em direção ao terceiro andar! Sussurros! E o som de alguém se direcionando ao seu quarto no terceiro andar! Sussurros! E o som de alguém derrubando a porta de seu quarto e sussurrando SANGRAR, SANGRAR E SANGRAR ao entrar! Sussurros...

...os sussurros...



30 de dezembro de 2020


Aos 77 anos de idade, Edgar Azevedo dos Anjos ainda é um dos mais requisitados autores do mundo para entrevistas, palestras e conferências. Com quarenta e quatro livros lançados ao todo, ultrapassou Paulo Coelho em número de vendagem de livros e é, no ano de 2020, o maior e melhor escritor do mundo. Tudo isso graças ao maior best-seller de todos os tempos, “Aquele Que Sangra”, baseado na terrível morte de seu “amigo” Eduardo Santana Amarante, um crime que até aquele ano não fora solucionado ocorrido na madrugada de 31 de dezembro de 2010. O livro fora lançado em 22 de janeiro de 2012 pela Editora Asas Quebradas, que ele fundara no ano de 2011 e tornou-se o livro mais vendido de toda a História Da Humanidade: 2,3 bilhões de cópias até o ano de 2020. Consagrado e ovacionado por intelectuais e não-intelectuais do mundo inteiro, em 2020 Edgar ocupa a cadeira nº 1 da Academia Brasileira de Letras e foi considerado “O Brasileiro Do Século” após uma votação popular ocorrida no ano de 2018; por causa de tal votação, no ano de 2019, aos 22 de abril, foi condecorado pelo Presidente Lindhberg Farias com a Medalha Luis Inácio Lula da Silva, que o atual presidente brasileiro criara logo ao primeiro dia de sua posse em 1º de janeiro de 2019. Encontramos Edgar no programa de entrevistas apresentado por Preta Gil na Rede Record, o “Bate-Papo Com Acarajés”, ao vivo, às 22:45 h; após ser cumprimentado pela apresentadora, a primeira pergunta é feita:



— Senhor Edgar, sabemos que “Aquele Que Sangra” foi baseado na morte de seu amigo e agente literário Eduardo Santana Amarante, cujo crime até hoje não foi solucionado. Na época, até mesmo a Presidente Dilma Roussef, no primeiro dia de seu mandato, pediu para que as investigações fossem o mais fundo possível na busca do autor ou dos autores do crime, um dos mais horrendos da História Brasileira. Sei que, para o senhor, é difícil falar nisso, mas como foi possível escrever um livro baseado na morte de alguém que teve todos os seus membros e órgãos espalhados pela casa onde morava, casa que foi suja com o sangue dele e com um sangue que até hoje não foi identificado, sendo tal pessoa, ainda por cima, sua amizade dos tempos de luta contra a ditadura militar? E como foi, ainda, diante de tal fato horrível, ainda pôr nas quinhentas e noventa e nove páginas do livro uma Filosofia autêntica que conquistou até os acadêmicos, que lhe consideram o primeiro grande filósofo em Literatura do século vinte e um?

— Bem, Preta, já me acusaram de ser um aproveitador e insensivelmente ter me tornado um bilionário através do crime que praticaram contra o meu amigo. Na verdade, eu incrementei bastante a história com vários outros elementos e sugeri algumas abordagens para as origens de um crime que, ao que me parece, não será jamais solucionado. Moldei uma lenda urbana-cósmica baseada na morte de meu amigo exatamente porque não queria que a mesma fosse esquecida e peço perdão aos familiares dele, que estiverem assistindo a este programa, se, por um acaso, dei a entender que, talvez, eu tivesse me aproveitado do crime mais horrível da nossa história para poder me “dar bem”. O livro começa, sim, com o crime, mas utilizei a minha imaginação para pôr nele o que o antecedeu: o escritor e amigo que mostrara a sinopse dele ao Eduardo na manhã do dia 30 de dezembro de 2010; a recusa e o escárnio do Eduardo diante de um livro que ele considerara que seria um fracasso total; e o que poderia realmente ter acontecido, algo que não vou contar aqui no programa para que as pessoas que ainda não leram o livro possam, sabendo do conteúdo, não comprá-lo mais para poder conferir a história. Após a morte dele, saltei para as origens da criatura denominada “Aquele Que Sangra” de um modo que não fosse possível fazer com que o assassinato do Eduardo fosse esquecido dentro do contexto da história; então, tendo a minha imaginação imaginado um investigador hipotético que buscaria informações onde não fosse nem mesmo possível tê-las acerca do que realmente ocorreu, levei a história toda para o suposto mundo original daquele ser, Maa Teraun Byza, e incrementei a história com uma filosofia bem pessoal que desde a minha época de faculdade, lá pelos anos sessenta, eu já desenvolvia em cadernos que estão muito bem guardados em minha casa. Condensei essa minha filosofia acerca das origens de todo o Mal na Terra e em outros mundos, sem ter a mínima intenção de ser academicamente aceito e sem perder o foco central da história de meu livro: perpetuar a memória de meu amigo... Eduardo, ele era meu melhor amigo, era tão... Um grande amigo mesmo, eu o admirava, eu o amava... Amava como a um irmão... Me desculpe, Preta, por estar assim sussurrando, mas é bem grande a minha emoção por me lembrar da tão sangrenta forma através da qual ele morreu... É muito triste... E é muito duro para mim lembrar-me daquilo... Me desculpe, mas quando me lembro daquilo e de como pensam tão mal de mim por querer eternizar a memória de meu amigo, chego a chorar... Me desculpe mesmo, Preta, me desculpe mesmo...



Inominável Ser

AQUELE QUE

ESTANCA

O SANGUE

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