domingo, 15 de setembro de 2013

Desejos E Sonhos De Um Cadáver - Segunda Versão





Era de se esperar esta atitude, típica de alguém que foi enterrado há poucos meses. Aqui, embaixo da terra, nesta cova de merda, deixo-me elevar a um estado de eternos sonhos com os vermes que já me comem. Minhas roupas estão sendo estraçalhadas, minha pele vai sendo mordida, por dentro já vou sentindo a fome vertiginosa desses bichos famintos em minha cova...

E eles falam...

Continuam falando...

Continuam gritando...

Continuam sussurrando...

Continuam...

Quando ainda vivia em outro tipo de cova, chamavam-me de Antônio Silva dos Reis, um bancário medíocre que trabalhou vinte e dois anos na mesma agência, recebendo um salariozinho mais medíocre ainda. Não exigia muito de mim mesmo, em relação ao trabalho, em relação aos estudos e em relação à minha familiazinha miserável... Fui casado com uma ex-bailarina viciada em festas, tive um filho que se tornou um vagabundo de rua e uma filha que se prostitituiu para poder pagar a faculdade. Meus pais não foram diferentes; minha mãe, por exemplo, era uma drogada estúpida e meu pai um policial bêbado que batia em mim e nela. Já muito pequeno, muito pequeno mesmo, eu queria estar aqui embaixo, nesta cova...

Falam demais...

Não aguento a fala deles...

Não aguento...

Eu não posso parar de ouvir...

Eu não consigo parar de ouvir...

Eu queria sair daqui...

Eu queria muito sair...

Casei com Aline apenas por medo de acabar sozinho e, quando morri, a piranha se casou, dois meses após minha morte, com o bode velho do meu pai. Ser um corno pós-morte, como fui em vida (Aline me traia sempre com todos os professores de dança que conhecia), pode provocar gargalhadas nos que não sabem o que é saber disso, aqui embaixo, acordado... Meu pai, além de bêbado e policial, é um excelente dançarino de tango, um conquistadorzinho barato que comia a Aline desde que eu e ela éramos namorados... Eu sabia de tudo, mas ela era a única opção para a minha futura vida, nenhuma mulher além dela me compreendia, apesar de cada traição... Suportei aquela vadia durante trinta e seis anos nos quais fingi gostar dela; e, em certa época, acreditei-me apaixonado por ela... Minha mãe morreu após saber da traição deles e todo o restante da minha família apoiou o novo casal, que já teve até uma filha... Não amei os meus filhos e sei que eles também nunca me amaram... Desejaria erguer-me desta cova para mostrar a eles, a cada um deles, o que os aguarda aqui embaixo! Os vermes que comem todos os cadáveres abaixo do solo são os verdadeiros filósofos deste mundo que nada me deu além de desastres atrás de desastres! Eu daria a cada um deles um punhado de vermes, na boca, tirados aqui da minha barriga!

E nem posso ir para outro lugar...

Não...

Eu não posso...

Irrita-me cada voz deles...

Cada maliciosa voz deles...

Eles que dizem que são agora minha família...

Eles dizem que são tudo para mim agora...

Eles dizem...

E eu continuo ouvindo, sem parar, sem poder parar...

Eu, um Antônio a mais no mundo! Um Antônio a mais enterrado! Um Antônio a mais entregue ao escárnio dos vermes que me comem! Um dia eu estava naquele hospital e acordei aqui dentro, preso, sufocado, esmagado, sendo vítima destes monstrinhos de dentes rápidos! Vejo como cada um é, parecidos com meus pais, com Aline, com os meus filhos, com Deus... Deus, o verme maior que me determinou a ser um fracassado, um maldito homem fadado a ter sempre todo sonho estragado! Segui uma igreja, uma dessas pentecostais, o “Espírito Santo” toda noite lá descia, o “Espírito Santo” todo dia estava na minha vida, o “Espírito Santo” todo dia manifestava a presença “Dele” em mim... Manifestava tanto que, mesmo tendo minha fé, mesmo me ajoelhando tanto para orar buscando a “minha vitória”, o que acabei ganhando foi um câncer e esta cova... Com quem eu estou reclamando disso agora? Com estes vermes em minha cova? Com os meus ossos já sendo comidos? Com o cheiro podre da minha carne? Com este caixão de jacarandá? Com toda a terra acima de mim?

Gozam de mim...

Gozam em mim...

Eles gozam...

Para eles sou uma prostituta barata...

Me comem todo dia...

Me comem sem parar...

Sem nunca estarem satisfeitos...

Desejo sair daqui de baixo, desejo sair! Como desejo! Como anseio por poder rasgar estes vermes, este caixão, escavar até o solo e dar ao próprio Deus uma aula de como é ser resistente a tudo que causa o fim do que “Ele” chama de “filhos”! Não venci a minha morte ainda, mas continuo aqui em meu corpo, participando deste espetáculo deplorável de demente putrefação e mórbido escárnio! Eu assombraria o mundoajor exibindo a podridão de minha carne! Mostraria estes vermes a todos os que acham que lá em cima tudo dura pela eternidade! Faria a minha família implorar pelo meu perdão! Faria Aline e meu pai se ajoelharem aos meus pés me pedindo perdão! E daria uma bela surra em meus filhos, coisa que eu nunca fiz quando estes eram pequenos! É assim, Deus, que você faz? É assim com todo aquele que ora, ora, ora, ora, ora, ora, ora, ora, ora, ora, ora e ora para alcançar, pelo menos, um momento de tranquilidade e paz na vida? Fui enterrado vivo! Não morri naquela manhã! Por um dos mistérios da “Sua Providência”, deram-me como morto e eu voltei para este corpo aqui dentro desta cova! Eu continuo respirando! Eu continuo tentando sair! Eu continuo te xingando, seu tirano maldito, miserável e desgraçado! Por que estou aqui assim? Por que estou aqui enquanto todos aqueles que me humilharam e me abandonaram continuam sorridentes lá em cima, como se eu nem tivesse existido? Está me ouvindo agora? Está me ouvindo como já deve ter me ouvido um dia? Ou nunca me ouviu? E a estes vermes aqui dentro em minha cova, ouves a voz de cada um deles?

 Os vermes falam...

Os vermes gritam...

Os vermes sussurram...

Os vermes que me fodem aqui embaixo...


ANTÔNIO, SEU CORNO!!!”


ANTÔNIO, SEU FRACASSADO!!!”


ANTÔNIO, SEU PERDEDOR!!!”


ANTÔNIO, NÓS VAMOS TE DEVORAR INTEIRAMENTE!!!”


ANTÔNIO, NÓS VAMOS TE COMER BEM DEVAGAR!!!”


ANTÔNIO, NÓS VAMOS TE FAZER SOFRER UM POUCO MAIS!!!”


ANTÔNIO, NÓS TE AMAMOS!!!”


ANTÔNIO, NÓS TE ADOTAMOS!!!”


ANTÔNIO, NÓS FAZEMOS DE VOCÊ O NOSSO SUSTENTO!!!”


ANTÔNIO!!!”


ANTÔNIO!!!”


ANTÔNIO!!!”


ANTÔNIO!!!”


ANTÔNIO!!!”


ANTÔNIO!!!”


ANTÔNIO!!!”


ANTÔNIO!!!”


ANTÔNIO!!!”


E os meus gritos vão sendo abortados...

E Tu, “Senhor”, nem se importa...

Deus, Seu Verme, vá para a casa do caralho!




Inominável Ser
DESEJANDO
E SONHANDO
JÁ ESTANDO
MORTO




Primeira Versão:

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domingo, 7 de julho de 2013

Aquele Que Traz O Inominável Livro Do Abismo




Seus passos constituem as inúmeras marcas de alguém que já caminhou nos mais insanamente constituídos abismos de chamas, fogos, salivas, vômitos, fezes, sangue e barro. Chamas de três passos Dele. Fogos de nove passos Dele. Salivas de vinte e sete passos Dele. Vômitos de setenta e um passos Dele. Fezes de duzentos e treze passos Dele. Sangue de seiscentos e trinta e nove passos Dele. Barro de mil novecentos e dezessete passos Dele.

Seu odor pertence a todas as civilizações já mortas, um odor de insetos, ratos, baratas, lacraias, escorpiões, aranhas e larvas. Insetos determinados a serem extintos de civilizações já mortas. Ratos determinados a serem extintos de civilizações já mortas. Baratas determinadas a serem extintos de civilizações já mortas. Lacraias determinadas a serem extintos de civilizações já mortas. Escorpiões determinados a serem extintos de civilizações já mortas. Aranhas determinadas a serem extintos de civilizações já mortas. Larvas determinadas a serem extintos de civilizações já mortas.

Seus pensamentos são direcionados a tudo constituído pela podridão dos tempos passados, presentes e futuros. Tempos passados a falarem da podridão dos tempos presentes. Tempos presentes a afirmarem a podridão dos tempos passados e futuros. Tempos futuros a navegarem na podridão dos tempos passados e presentes.

Suas vestes são remendos e cada remendo é cantor de glórias e de desgraças nascidas do gozo da Carne e de profundas punhaladas. Gozo de carnes gloriosas. Profundas punhaladas gloriosas. Gozo de carne desgraçada. Profundas punhaladas desgraçadas.

Seus olhos emitem as luzes que se movem nos reinados obscuros das putrefatas verdades. Putrefatas verdades dentro da morte. Putrefatas verdades dentro da vida. Putrefatas Verdades Que São A Deusa Morte. Putrefatas Verdades Que São A Deusa Vida.

Seus lábios são da sedução mais selvagem, já beijaram Deuses Celestiais e Deuses Abismais. Deuses Celestiais Que Ditaram O Livro Que Ele Traz. Deuses Abismais Que Ditaram O Livro Que Ele Traz. Deuses Celestiais Que Junto Com Ele Escreveram O Livro Nas Mãos Dele. Deuses Abismais Que Junto Com Ele Escreveram O Livro Nas Mãos Dele.

Suas mãos já tocaram na Vestimenta Da Virgem e na Nudez Da Serpente. A Virgem cujas lágrimas foram a tinta da pena do Livro que Ele traz. A Serpente cujas escamas são as páginas do Livro que Ele traz. Virgem Gloriosa. Serpente Danosa.

Seus cabelos são mares, rios, lagos, cachoeiras e oceanos. Mares Antigos. Mares Do Abismo. Mares Dos Antigos. Rios Antigos. Rios Do Abismo. Rios Dos Antigos. Lagos Antigos. Lagos Do Abismo. Lagos Dos Antigos. Cachoeiras Antigas. Cachoeiras Do Abismo. Cachoeiras Dos Antigos. Oceanos Antigos. Oceanos Do Abismo. Oceanos Dos Antigos.

Seu rosto é todo rosto perdido e todo rosto encontrado na Escuridão Mãe Dos Prados. Rosto Perdido Dos Aclamados. Rosto Encontrado Dos Vigiados. Rosto Perdido Dos Soldados. Rosto Encontrado Dos Vigilantes.

Ele chegou até mim e me entregou O Livro Inominável Do Abismo. Era a noite mais sanguinária e era o dia mais perturbado. Era a hora menos determinada e era a não-hora menos procurada. Era o momento mais praticado e era o não-momento mais intrincado. Era o ritual menos viciado e era o não-ritual menos recomendado. Era o sonho mais belo e era o pesadelo mais desejado. Era o amor menos querido e era o ódio menos predatório. Era a raiz mais potente e era a árvore mais rangente. Era a sede menos assassina e era a água menos envenenante. Era a rede mais forte e era o peixe mais sobrevivente.

Eu era e eu fui e eu sou aquele que recebeu Dele aquele Livro. Este silenciou meus lábios. E o meu coração foi arrancado. E ele começou a comer o meu coração. Eu me tornei, então, o que Ele era. Eu sempre fui, na verdade, o que Ele era.

Inominável Ser
DO LIVRO
INOMINÁVEL
DO 
ABISMO

    

 
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