sexta-feira, 30 de outubro de 2015

A Primeira Vez Na Qual Evoquei O Diabo



Era uma época de depreciação total da minha vidinha, eu estava arruinado. Sim, muito arruinado, abandonado por todos, sufocado por todo lado e me via atolado de dívidas psíquicas, espirituais e materiais. Eu vinha de uma família evangélica escrota, mas aos quatorze anos cuspi na porra da Bíblia na frente do pilantra do pastor que era meu pai e comia todas as irmãs da igrejinha dele. Foi, então, que, expulso de casa e deserdado por ele e pela vaca da minha mãe que fui construir minha própria vida sozinho, na rua, no beco, na favela, na ponta da faca e no cano do revólver.

Mas, eu precisava de uma, digamos, parceria para continuar a ter tudo que eu desejava. Sempre fui uma criança inteligente demais, decorei a porra da Bíblia inteira aos seis anos e com nove já sabia Inglês, Francês, Alemão, Italiano e Espanhol. O que mais me encantava não era estudar, mas apenas um assunto, uma mentira ou verdade que a crentalhada doida da igrejinha do meu pai tanto temia: O Diabo.

O Diabo me atraia mais do que qualquer mulher; eu adormecia imaginando como Ele era; eu despertava ouvindo estranhos sussurros ininteligíveis em meus ouvidos, era Ele tentando falar comigo; eu ia para a escola e escrevia em todos os meus livros e cadernos o nome Dele; fazia poemas para Ele; e nos cultos daquela igrejinha escrota do escroto do meu pai, eu chamava por Ele... Eu amava O Diabo desde criança, eu O via e sentia como meu amigo mais íntimo... Eu nunca amei meus pais, minhas dez irmãs, minha família tão numerosa quanto porcos prontos para o abate, O Diabo sempre foi minha única vida! E naquele momento, quando me vi expulso de casa, decidi que era o momento de chamá-lo, de ter um contato verdadeiro e concreto com Ele!

Fiquei durante nove dias vagando sozinho pelas ruas de São João de Meriti, comendo lixo, fugindo da Polícia após roubar umas velhinhas todos os dias e usando esse dinheiro para comprar uma comidinha melhor. Nove dias a mais e encontrei uma casa abandonada, em ruínas, perto do Rio Sarapuí, na Vila Norma, onde decidi fazer o que tinha que fazer. Meia-noite em ponto (roubei o relógio de outra velhinha) e acendi a vela em uma parede ainda inteira daquela casa, me preparando durante alguns minutos para o que eu planejei. Silencioso estava tudo em redor, eu nada ouvia, o tempo parou e nem mesmo ventava, fazio frio ou calor... Então, sussurrei com fervor e amor:

- Eu te persigo há muito tempo e você nunca me mostrou seu rosto! Eu ouço a sua voz em sussuros e você nunca me beijou os lábios! Eu te desejo mais do que a minha própria vida e você nunca me tocou no rosto com carinho! Eu te adoro como jamais adorei ao maldito Deus da minha maldita família e você nunca me deu sequer uma prova da sua verdadeira existência, sempre se escondendo e fugindo quando eu chegava muito perto! Mas, eu te amo, Diabo, eu te amo como meu verdadeiro pai, como minha verdadeira mãe, como meu verdadeiro escudo, baluarte, Senhor e Salvador! Eu te amo e me entrego a você neste momento, Diabo, te oferecendo esta vela preta como um sinal de que eu me consagro ao Seu serviço, faça de mim o que quiser! Me use, me faça um dos instrumentos da Sua verdade, Diabo! Derrame sobre mim do teu óleo, Diabo, limpa-me das excrescências do filho da puta que morreu em vão naquela cruz desgraçada! Me consagre, Diabo, ao serviço de Sua guarda, ao dispor da Sua legião de guerreiros na face da Terra! Me conduza pelas chamas do Inferno Terrestre, Diabo, e me mostre o Caminho do Seu Reinado Eterno! Diabo, eu te chamo aqui! Diabo, eu te chamo aqui! Diabo, ouça-me  eu te chamo aqui! Diabo! Diabo! Diabo! Diabo! Diabo! Diabo! Diabo! Diabo! Diabo! Diabo! Diabo! Diabo!

E uma mão poderosa tocou em meu ombro esquerdo e eu me virei. Nunca me esquecerei da primeira vez na qual vi aqueles brilhantes olhos verdes-escuros...

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Hoje, aos quarenta e cinco anos de idade, sou o fundador da Igreja Messiânica do Reinado Eterno Do Senhor, presente em todos os países do mundo e mais rica e poderosa do que o Vaticano. Estou casado com uma jumenta que conhecia desde criança, tenho sete filhos e duas filhas, meus pais e irmãs são missionários da minha igreja na Ásia. Tenho ainda uma mansão nos Jardins, comprei seis times de Futebol aqui no Brasil, a bancada evangélica no Congresso Nacional me bajula como Deus, planejo unir todas as igrejas protestantes à minha, tenho contatos nos Governos de todos os países do Primeiro Mundo... Meus planos e realizações são muitos, como já perceberam, não é mesmo?

Ah, esqueci de dizer: sou um excelente orador! E toda a vez que eu prego a Palavra de Deus, na verdade estou a pregar a Palavra do meu Deus: O Diabo, meu amigo mais amado e único. Não sou hipócrita, eu matei, estuprei, roubei do povo e venci na vida mais do que você, imbecil! Através da minha igreja e do meu Deus vou conquistar o mundo inteiro dentro de poucos anos, entendeu? Você tem alguma crença ou é ateu? Seja no que for que você acredite, somente te digo: você está cultuando o Deus ou os Deuses errados...

Inominável Ser
UM OUTRO
AMIGO
DO DIABO


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Prosa De Um Coveiro Inominável

O Terror Inominável. O Horror Inominável. A Loucura Inominável. A Cova Aqui É A Do Puro Pesadelo Das Covas Mais Profundas E Elevadas. Vozes Estranhas Aqui. Sons Estranhos Aqui. Palavras Estranhas Aqui. Estranhas E Inomináveis. Sintam-Se Conduzidos Pelo Carro Inominável Do Terror Inominável. Sintam-Se Conduzidos Pelo Carro Inominável Do Horror Inominável. Sintam-Se Conduzidos Pelo Carro Inominável Da Loucura Inominável.

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