domingo, 6 de dezembro de 2015

Oito Tiros




A chuva nas costas é como o carinho de uma mulher, eu sempre pensava assim ao tomar banho de chuva. Mulheres tive em número elevado, até, quando ainda ocupava um corpo na Terra. Melhor dizendo, quando eu ainda estava do lado que você aí agora está, eu era o que se chama “comedor garanhão”, “galinha”, “safado” e por aí vai. No entanto, um dia conheci Alice, me apaixonei e após três anos de namoro, a pedi em casamento, meu momento mais feliz quando ainda sentia frio ou calor. Alice aceitou e íamos nos casar no dia de Natal deste ano de 2015 em uma cerimônia privada católica que apenas a minha abastada conta bancária poderia arranjar. Mesmo com R$ 30.123.500.988,00 de patrimônio, o mesmo não me impediu de perder a vida em um assalto. Levei sete tiros na testa de uma pistola automática nas mãos de um moleque desgraçado de treze anos. Ele não estava drogado, não é pobre, não é favelado e nem precisava me assaltar. É filho de um vizinho meu, muito mais rico e poderoso do que eu. Os sete tiros ainda doem, morri nesta manhã de domingo e quero a cabeça daquele moleque desgraçado!


Os peritos criminais isolaram a cena do meu assassinato, minha biblioteca. Meu cadáver foi conduzido para o IML e rapidamente preparado para os médicos legistas, coisa que apenas o meu dinheiro, agora gerenciado pela minha mãe, foi capaz de realizar para a dor dela e de todos que me conheceram não se prolongasse por longo tempo. Me abriram à tarde como se eu fosse um dos porcos com os quais tanto me fartei nas quinze fazendas de minha família. Fiquei ao lado, enquanto faziam a autópsia, vendo que o meu rosto, que todos diziam ser belo, ficou plenamente arrasado… Culpa total daquele moleque desgraçado… Fizeram o que puderam com a desgraça que ficou meu rosto, as sete balas foram com cuidado retiradas e, do meu cérebro, não restou nada. O cérebro de um gênio com um QI de 450, como eu era considerado, deveria resistir muito mais.


Lacraram o caixão onde meu corpo está, tiveram que fazer isso, a visão do meu rosto é de horrorizar… Minha mãe não sai de perto da minha casca vazia, meus tios, irmãos, primos, amigos… Todos estão verdadeiramente chocados, não há nenhum sinal de falsidade ou a cobiça pelos bilhões que deixei aí desse lado da realidade planetária. Vejo somente agora o quanto me amavam… Ajudei quando pude, amparei, sempre tratei cada um, seja da minha família ou não, da mesma maneira… E o preço que paguei foi ter levado sete tiros na testa dados por aquele moleque desgraçado! O filho do Otávio, aqui e agora ao meu lado!


Como ele, iniciei minha vida executiva com mineração no Leste Europeu e em sete anos ganhei meu primeiro bilhão. Otávio, meu ídolo, o exemplo que o bêbado e drogado do meu pai não foi. Meu pai… Nem aqui no meu enterro, nem aqui, ele foi capaz de comparecer… Um enfarto fulminante o arrastou daí desse lado há vinte anos e, mesmo aqui deste lado, ele continua ausente da minha… Vida? Morte? Que droga é esta agora na qual estou, algo que todo o meu intelecto nem é capaz de decifrar? Eu vejo tudo, vejo o coração de cada um aqui de luto, vejo você aí lendo estas minhas palavras, vejo o escritor que mediunizo neste momento para poder passar o que sinto após levar sete tiros na testa… Nunca me interessei pela Espiritualidade, sou racional demais para crer no Invisível e, ainda, não creio que realmente esteja fora do meu corpo. No entanto, conhecia o bastante do básico dessa parte do Conhecimento Humano e reconheço agora estar em outro Plano… Tudo é culpa daquele moleque desgraçado! Estou me sentindo ali ainda… Mas, está vazio ali dentro daquele caixão fechado… Não há mais nada para mim aqui, mais nada… Eu vou atrás dele… Atrás daquele moleque desgraçado!


Mais, muito mais, rápido do que o vento… Isto é ser um espírito? Estou agora na mansão ao lado da que eu deixei como herança para a minha mãe. É a casa do meu assassino, que agora está no quarto, desgraçado! E com outro nos braços! Ricardo, você nem esperou que me enterrassem, não é? Logo arrumou outro para comer! Me matou porque não podia aceitar que eu iria me casar com a Alice! Ela era a mulher da minha vida, minha paixão para apresentar diante da minha família! Você sempre será meu amor, seu moleque gostoso desgraçado, meu cu sente a falta da cabeça do seu pau! Que se dane tudo, eu ainda quero, mesmo aqui, a cabeça do seu pau dentro do meu cu! Ricardo, você não consegue me ouvir, mas eu nunca vou sair de perto de você! Eu nunca vou sair, mesmo se a Polícia te prender quando e se deacobrirem que você matou! Nem na prisão, irei te abandonar, você é meu eterno amor, seu moleque! Meu verdadeiro amor, moleque desgraçado!


Nem eu e nem ela aqui atrás de mim iremos te abandonar! O oitavo tiro da sua pistola atingiu em cheio o coração de Alice, que entrava na biblioteca naquela hora após ouvir os tiros anteriores! Você também a matou, moleque desgraçado! E,  agora, Alice sabe a verdade… E o olhar dela me condena… O coração dela sangra sem parar, assim como da minha testa sangue continua a escorrer… E a minha cabeça continua a doer… Tudo por sua culpa, seu moleque desgraçado! Tudo por sua culpa, seu moleque gostoso… Você, Alice, tudo isso aqui… Leitor, não me condene como Alice agora me condena, por favor! Eu somente amei um moleque lindo, gostoso e desgraçado que me comia quase todo dia… E continuo amando… E continuarei amando… Você nunca amou desesperadamente como eu amo o meu moleque comendo agora outro em meu lugar?


Alice me condena… Alice me perseguirá sempre me condenando… Ela me culpa e se sente traída… Eu amo Ricardo, ela o odeia… E ela agora me odeia e vai fazer de tudo para arruinar meu pós-vida e a do meu amor… Estamos juntos, no entanto, em um ponto: queremos arruinar Ricardo. Eu, por motivos que expus acima; ela, pelo ódio que a conduz agora aqui deste lado. Oito tiros nos puseram nesta situação, Ricardo, oito tiros dados por você… Não descansaremos até termos você conosco, meu moleque travesso maravilhoso…


Te amo, gatinho…

Inominável Ser
SEMPRE
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TIROS
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