domingo, 21 de fevereiro de 2016

Kata Ton Daimona Eaytoy



A tempestade remete a um desencontro com as multiplicações de realidades em meus sentidos. Há algo fugindo ao controle e, ao mesmo tempo, se definindo nas Correntes Temporais. O que Karen encontrou daquela vez que tentou moldar o meu tempo ao modo dela foi a corrente de desenganos que a levou ao suicídio. Eu nunca matei ninguém diretamente, mas me delicia provocar tempestades nas quais sucumbem os menos dotados. Ontem fiz com um pacto com o Diabo, hoje estou fazendo outro com Belial e amanhã será com Behemoth, apenas para não deixar de me acostumar com a atmosfera demoníaca do meu principal jeito de trabalhar o psicológico dos demais. Ah, antes de lhes mostrar como atuo na execução indireta dos afetados pelas tempestades, deixe que eu me apresente: sou Lourival Henrique Macedo de Carvalho, Psicanalista com quatro Pós-Doutorados e adepto de uma virtude de crueldade que você aí julga como “psicopatia” do seu ponto de vista. No meu, apenas ajudo pessoas como Marcela, que estou agora atendendo, a aceitarem o poder da tempestade avassaladora que as leva ao suicídio. Torno o mundo melhor induzindo sutilmente meus pacientes a se matarem, chamo isso de limpeza evolutiva. Ah, sim, já ia me esquecendo… Tenho que induzir a Marcela agora, me acompanhe nesta sessão e talvez eu até possa te convencer do suicídio como um caminho viável para tudo ser resolvido em sua vida miserável.

— Estive pensando ontem na Roberta, minha namorada, Dr. Lourival… Quer dizer, minha décima namorada virtual, que conheci semana passada no Facebook… Ela me convidou para ir até a cidade dela, Curitiba, mas estou com medo…
— Me fale mais do medo.
— Mais um dos meus medos…
— Quero detalhes.
— É o medo de ser estuprada de novo, Dr. Lourival… Quando eu tinha seis anos, aquelas garotas me violentaram… Depois disso, como o senhor sabe, me fechei em mim mesma, não me envolvendo com ninguém por dez anos, nos quais me mantive calada… Há nove meses, o senhor tem me ajudado a superar isso…
— Como é essa superação?
— Ruim…
— Ruim?
— Dr. Lourival… Não me entenda mal, mas seu tratamento…
— A tem ferido ainda mais.
— Sim, absolutamente…
— Em absoluto, é cada ferida que te prende ao que já passou. Já tentou removê-las?
— Machuca…
— O seu melhor está em suas feridas, Marcela, trabalhe a partir delas.
— Como?
— Transporte-se para dentro de si mesma cada vez mais, tendo a certeza de encontrar-se do outro lado do rio de sua vida. Trabalhar cada ferida dentro da sua consciência dependerá do quanto você terá a audácia de fazer certos sacrifícios a mais.
— Fala das minhas namoradas?
— O que elas são para você, Marcela?
— Distrações… Apenas distrações…
— Maravilhosas ou pegasojas?
— Tremendamente tenebrosas…
— Trabalhe também o que é o tenebroso, entregue-se verdadeiramente a cada terror de sua consciência. Não deixe nada escapar, isole-se ainda mais para saborear o próprio eco de sua dolorida essência.
— Me isolar mais do que o senhor já me recomendou fazer?
— Muito mais, a solidão é um reduto de maravilhamentos para os que como você passam pelo mesmo processo de desvinculamento para com o passado.
— As vozes se tornaram mais pesadas depois que o senhor me recomendou isolamento total…
— É um processo de busca interior, não ignore nenhuma voz que você ouvir. Elas estão te orientando na direção de um caminho melhor.
— Sinto-me cada vez mais arrasada, perdida, desamparada, desesperada…
— É o início da cura, Marcela, um processo que apenas depende da sua capacidade em se entregar ao isolamento total.
— E o Facebook?
— Quebre seu celular, seu computador, até mesmo a sua televisão e o seu rádio. Estas distrações além das suas namoradas te desorganizam cada vez mais, fuja de tudo isso. O Ser Humano deve aprender a se desligar do que a tecnologia contemporânea moldou para a sua escravidão. Você, como uma membra da Humanidade que hoje está mais hiperconectada ao exterior do que ao interior, está dando um passo decisivo no caminho de retorno ao ponto de partida da reentrada da atenção da consciência no hoje tão esquecido inconsciente. Mate o exterior, devote-se ao interior e reequilibre toda a sua existência, como sempre deveria ter sido. Não é o Grupo no Facebook ou o reality show da moda que vai te fazer equilibrada como sempre deveria ter sido. Repense, analise e decida seu futuro como fora dessas ilusões a partir de hoje.
— Será mais doloroso ainda…
— A dor é um inescapável processo para a retomada da consciência de si mesmo. Os hiperconectados de hoje dispensam toda experiência dolorosa em prol de momentâneos arrombamentos das portas dos recintos externos dos outros. E os recintos internos ficam cada vez mais desabitados…
— O senhor diz para visitar a minha casa interior, aquela que o senhor me falou semana passada?
— Exatamente, Marcela, exatamente… Abra cada porta fechada, cada janela, cada parte do teto, com maior velocidade… Encontre suas estupradoras, seu pai violento, sua mãe igualmente agressiva, seu silêncio por dez anos, sua solidão há nove anos desde que seus pais morreram naquele acidente de avião… Encontre cada Demônio da sua realidade interna, encontre e ame cada um deles, entregue-se a eles. Os psicanalistas do oba-oba dizem que devemos enfrentar os nossos Demônios Interiores, mas eu lhe digo para abraça-los como se fossem os seus verdadeiras amores realizáveis e possíveis. Abraçando cada um deles, você compreenderá, enfim, a essência deste tratamento…
— Tenho mais medo ainda deste tratamento…
— É um dos melhores do mundo, já curei novecentos e doze pacientes em dezesseis anos de aplicação do mesmo aqui no Brasil.
— O senhor é o melhor psicanalista que já tive, os outros trinta que tentaram me curar apenas pioraram ainda mais a minha situação… Gastei quase a metade de toda a minha fortuna com um bando de charlatães!
— Mesmo que te agrida ferozmente, meu tratamento tem a sua simpatia?
— Tem, Dr. Lourival, toda a minha simpatia.
— Exercite-se, então, no que lhe prescrevi hoje. E atente-se sempre ao que lhe digo: Kata Ton Daimona Eaytoy.
— “Seja Verdadeiro Ao Seu Próprio Espírito”.
— Esta é a verdade inerente ao meu método de cura, Marcela… Bem, nosso tempo acabou, passamos até dez minutos além do mesmo. Foi excelente esta nossa sessão de hoje, você é uma das pacientes que mais evoluem em vista do meu tratamento.
— Estou mesmo melhorando, Dr. Lourival?
— Está, Marcela, mas deixemos para a semana que vem a continuidade desta nossa evolução. Até as dez horas deste sábado tenho mais quatro pacientes para atender. Ao sair, deixe o cheque do pagamento desta sessão com a Senhora Safira, por favor.
— Obrigada, Dr. Lourival, até semana que vem.
— Até, Marcela, tenha uma excelente semana.

O Tratamento da Tempestade sempre funcionou, mesmo que meus colegas de profissão neguem a minha genialidade por causa dos novecentos e treze pacientes meus que se suicidaram. Um a mais, não é, além daqueles que citei em minha última sessão com a Marcela? Sim, esta aqui não durou mais do que os outros e em cinco dias, orientada por mim, se jogou nos trilhos do metrô da Estação Tijuca aqui do Rio de Janeiro. Os esquizofrênicos como ela são os pacientes mais afeitos aos efeitos do meu tratamento, eles realmente acreditam ouvir vozes externas… Eles ouvem, sim, os que não são meus pacientes ouvem essas vozes… Os meus ouvem as vozes dos escravos que domino através da Ars Goetia, Demônios Menores, mas muito eficazes no que fazem. Tenho centenas de Pós-Doutorados no Abismo Infernal, conhecimentos que você aí pensa que não existem e nem podem ser trazidos para nosso Campo Existencial. No entanto, como domino os mecanismos da mente humana, fica mais fácil abrir abismos nas mentes fracas como as de Marcela para a ação dos meus encantamentos. Me acha asqueroso? Repugnante? Desprezível? Obrigado, pelo menos tenho seu reconhecimento, algo que a sociedade psicanalítica mundial jamais me dará! E nunca fui denunciado por nenhum dos meus colegas brasileiros, pobres coitados imbecis… Você vai me denunciar? Oh, estou chocado, muito chocado! Se importa com inúteis como Marcela? Se importa mesmo? Pois bem, quero que saiba que tanto eu quanto ela ou você apenas seguimos isto:


Kata Ton Daimona Eaytoy


Ela foi verdadeira pela primeira vez na ridícula existência dela ao se suicidar. Eu fui verdadeiro novecentas e treze vezes na minha psicanalítica existência; sou verdadeiro no meu empenho em limpar este mundo jogando no lixo abaixo da terra gente como Marcela; e serei ainda mais verdadeiro no futuro acumulando mais pacientes que levei à definitiva cura. Você é verdadeiro ao seu próprio espírito ou é apenas um seguidor cego das massas? Se for a segundo opção, querida testemunha da minha psicanalítica ação suicidante que seguirá com o decorrer da passagem dos anos, nem o suicídio é digno de curá-lo.

Inominável Ser
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