domingo, 10 de abril de 2016

Estranguladores




Susana sempre foi a mais prática de sua familia: nos métodos menos dispensadores de recursos economicamente grandiosos para a manutenção material de sua casa; na facilidade em lidar com cada dificultoso momento vivido ao lado do marido e dos quatro filhos pequenos; na habilidade em arquitetar maneiras de sair de cada drama familiar sempre de modo otimista; no uso deste otimismo para fortalecer o muitas vezes frágil marido; na ampliação desse mesmo otimismo, sempre esboçando um largo sorriso, quando ao carinhosamente tratar dos filhos que nos momentos difíceis muito reclamavam por não terem muito para encher suas barriguinhas; na faculdade de guardar para si as mágoas, as dores, as fraquezas e um abissal ódio que a levou a estrangular o marido e os quatro filhos após dar-lhes o último jantar que saborearam.


Bernardo sempre procurou um equilíbrio em seu trabalho como cabeleireiro: para apresentar o trabalho mais cuidadoso e sofisticado para a sua patroa; no modo como tratava suas amigas de salão; no modo como dispensava muitas destas, que se interessavam por ele, com educação; no estudo na Faculdade de Biologia que à noite frequentava, sem faltar a nenhuma aula; no grande esforço que fazia para não deixar que ninguém percebesse sua falta de apatia ou consideração por qualquer ser humano, uma qualidade de sua natureza que lhe ajudou até hoje a esconder de todos o fato de já ter estrangulado desde a adolescência vinte e duas mulheres.


Rafaela sempre buscava caminhar nas diariamente repetitivas ações politicamente corretas: dava bom dia a cada vizinho de sua rua, sempre sorridente, sempre simpática; dava esmolas a cada mendigo que encontrava pelas ruas; ajudava idosos a atravessarem a rua; trabalhava como voluntária em asilos; trabalhava como voluntária em abrigos para animais abandonados; realizava visitas a doentes em estado terminal nos hospitais; e tudo fazia para continuar sendo bem vista por todos, a mulher perfeita, tão perfeita que em uma manhã de domingo estrangulou os pais idosos e a irmã doente mental, enterrando os corpos no quintal de sua mansão em um nobre bairro.


Daniel sempre se esforçou em ser o médico mais atencioso, o mais educado e infalível do hospital onde trabalha: como clínico geral, atendia a cada paciente com uma dedicação ímpar; sempre amparava os parentes daqueles que chegavam na emergência e não podia salva; sempre se voltou para os estudos, dispensando amizades e relacionamentos amorosos; sempre, sempre é sempre tomando a rotina de plantões que o faziam relaxar após dias de folga nos quais sai pelas ruas para caçar e estrangular moradores de rua.


Sofia sempre foi a professora mais querida de todas as escolas onde trabalhou: fazia os alunos se sentirem como nas casas deles; dava aulas sempre sorridente, brincalhona e amável; conversava com cada aluno problemático, aconselhando-os a modificarem seus comportamentos; auxiliava diretores e outros professores a sempre montarem planos de ações em conjunto para melhorias na estrutura das escolas; e com o mesmo sorriso e simpatia estrangulou vinte alunos em uma noite quando todos se encontravam com ela em um hotel fazenda, parte de uma excursão escolar.


Igor sempre foi o mais fechado, solitário e recluso de sua família: nunca gostou de Futebol; nunca gostou de festas; nunca gostou de sair de casa; preferia estudar Matemática e Física Quântica; um gênio com um QI de 350; se tornou doutor em Física Nuclear aos nove anos; durante vinte anos lecionou nas melhores universidades do mundo; publicou 234 livros com assuntos inteiramente dentro de sua área de estudos; e foi com o mesmo silêncio de sempre que calmamente estrangulou sua primeira e única namorada quando está lhe propôs casamento.


Josué sempre foi o meteoro avassalador de mudanças em sua religião: o pastor mais querido de sua Congregacão; o pastor mais devotado ao poder do Espírito Santo; o pastor mais procurado pelas instituições de caridade; o pastor mais ferrenho na defesa da moral e dos bons costumes; o pastor mais nobre na defesa das convicções do tradicionalismo; o pastor que gosta de gargantas femininas, mas que somente teve coragem de estrangular uma fiel de sua igreja depois do último culto de domingo à noite.


Renan sempre foi obcecado pelos detalhes: os minimalismos de um ambiente por ele decorado; os empregos corretos das cores em uma casa por ele decorada; a disposição simétrica dos móveis em todas as casas que, como decorador mais requisitado da cidade, sempre embelezou com muito cuidado e carinho; a decoração em si sempre perfeita, o que não foi acompanhado pelo pintor que não respeitou o plano decorativo do perfeccionista obcecado, este que estrangulou-o em meio a tintas, pincéis e escadas.


Bianca sempre enfocou seu trabalho como politicamente centrado: como policial, alerta toda hora; diligências que a motivavam; prisões que a excitavam; tiroteios que a exercitavam; perseguições que faziam-na sentir-se viva; e um ou dois dias de extremo estresse nos quais estrangulou seis bandidos baleados no caminho até o hospital dentro do camburão sem que seus colegas percebessem.


Eles são repugnantes?


Eles são monstros?


Eles são doentes?


Eles merecem a pena de morte?


Merecem qualquer pena de morte?


Olhe para você aí, sempre julgando os outros, sempre apontando os outros, sempre sempre sempre fazendo com que “sempre” seja uma eterna nota a ser bem alto tocada! Como não dizer que, amanhã um deles pode ser você? Como dizer que se agora mesmo seu sangue pedir pelas mãos envoltas em um pescoço você se manterá firme em sua sanidade? Como dizer que um dia você não vai estrangular alguém, literalmente falando?


Como dizer?


Como dizer?


Como dizer?


Pense nisso, futura estranguladora!


Pense nisto, futuro estrangulador!


Inominável Ser
ESTRANGULADO



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