domingo, 8 de maio de 2016

Minha Helena, Você Não Está Morta!




Não queria que te encontrassem daquela maneira, naquele dia, por isso te tirei de lá, Helena… Cheguei em nosso apartamento, te vi estrangulada com um pedaço de um dos tecidos que você usava para confeccionar suas coleções de moda e me desesperei… Me desesperei vendo que seu corpo estava duro, frio, sem aquilo tudo que me fazia viver meus dias com mais vigor e ardor… E ninguém poderia saber que eu te encontrei daquele modo… A Polícia… Nossos vizinhos… Sua família…. Minha família… Nossas filhas tão pequenininhas… Cristiane e Caroline sentirão muito a nossa falta, eu não vou voltar, permanecerei com você aqui até o fim dos meus dias! Você não me responde agora, mas pode me ouvir, não pode, minha querida? Você não morreu, não morreu, eu não vou deixar que isso seja uma mentira! Coloquei nossa música, vamos dançar agora, meu amor…


“Well I loved my aunt
but she died
And my uncle Lou,
Then he died
I'm searching for
something which can't
be found, but I'm hoping
I still dream of dad
though he died

Everything dies

My ma's so sick,
she might die
Though my girls quite fit,
she will die
Still looking for someone
who was around,
barely coping
Now i hate myself,
wish I'd die

No, why? Oh God I miss you
No, why? Oh God I miss you
I really miss you”


Lembra de como gostávamos de Type O Negative e decidimos eleger Everything Dies como a nossa música? Nossos amigos estranharam nossa escolha, consideravam a letra bastante pessimista, negativa, sombria e ridícula, como bem expressou a Vanessa. No entanto, Helena, essa letra expressa muitíssimo bem o que pensamos acerca da existencial de tudo e de todos que conhecemos… Fomos influenciados pelo melhor professor de Filosofia que tivemos na faculdade, o Professor Dário, nosso mestre e amigo… Muito do que sabemos sobre a efemeridade de tudo veio das lições que ele nos deu sobre a Filosofia Oriental, sobre o trabalho do desapego pregado pelo Budismo em relação a todas as coisas materiais. E tudo morre… Tudo morre… Mas, me recuso a acreditar que você morreu… estrangulada… deixada no chão da sala daquele jeito… Me recuso, Helena, eu não desaprendi a me apegar a tudo que está em meu redor! Você me entende, não é? Você sempre me ensinou muito acerca de tudo que se refere a coisas que me escapam e são melhor absorvidas por você… Eu aprendi com você a saber relaxar, a ver tudo sob um ponto de vista bastante flexível… É com isto que acredito que você não morreu, que este corpo que estou a segurar agora está vivo, que as suas pernas estão se movendo, que seus lábios estão se abrindo em um sorriso! Helena, quer ouvir nosso poema preferido pela milésima vez?


“Eu sou a que no mundo anda perdida,
Eu sou a que na vida não tem norte,
Sou a irmã do Sonho, e desta sorte
Sou a crucificada… a dolorida…


Sombra de névoa tênue e esvaecida,
E que o destino amargo, triste e forte,
Impele brutalmente para a morte!
Alma de luto sempre incompreendida!...


Sou aquela que passa e ninguém vê…
Sou a que chamam triste sem o ser…
Sou a que chora sem saber por quê…


Sou talvez a visão que Alguém sonhou,
Alguém que veio ao mundo pra me ver,
E que na vida nunca me encontrou!”


A Professora Teresa se agradava em nós ouvir recitar Florbela em sala de aula e nos eventos poéticos de nossa escola, era muito bom, não era? Nossa Musa Maior fez também parte importante de nossa vida, Helena, era alguém que caminhava conosco sem limites, sempre estando entre nós! Assim como a nossa Florbela é imortal, nosso amor é imortal, eu sou imortal, você é imortal! Você não morreu, não vou acreditar em sua morte! Não vou, Helena, não vou! Dancemos a nossa música, Helena! Dancemos! Dancemos! Dancemos! Sinto seu suor… Sinto seu cheiro… Ouço a sua voz… “Você programou o aparelho para tocar repetidamente a nossa música?”, é o que você sempre me pergunta… “Sim, Helena, ela vai tocar incessantemente enquanto tudo morre lá fora…”, eu sempre lhe respondia sussurrando ao seu ouvido esquerdo como faço agora… Dançamos sempre assim colados, de olhos fechados, sentindo cada acorde, cada nota e a voz do Peter… O imortal Peter, como Florbela, como eu, como você… Vou recitar a melhor passagem da Divina Comédia para nós dois, é fabulosa, não é?


“Vês toda a coisa extante
ter ordem entre si e esta é forma
que o universo a Deus faz semelhante.
Vêem altas criaturas se conforma
cá a marca do valor eterno, fim
ao qual é feita a supradita norma.
Na ordem que eu descrevo tende assim
toda a natura, por diversa sorte,
mais ou menos a seu princípio afim;
onde a diversos portos se transporte
no grande mar do ser, e a cada enfuna
instinto que lhe é dado a que lá aporte.
Leve este o fogo à lua a que o reúna;
em corações mortais este é motor;
e este a terra em si constringe e aduna:
não só as criaturas no exterior
da inteligência este arco já projecta,
mas as dotadas de intelecto e amor.
A providência, que ordem tal decreta,
faz do seu lume o céu sempre quieto
e o mais veloz lá dá volta completa;
e então ali, como a lugar dilecto,
a virtude nos leva dessa corda
que só desfecha a alco ledo e recto.
Vero é que como forma não concorda
muitas vezes co a intenção da arte,
porque a matéria é surda e não acorda;
assim já deste curso se departe
às vezes a criatura, com poder
de dobrar, nesse impulso, a outra parte;
e tal como cair se pode ver
fogo de nuvem, tal o ímpeto primo
em terra é torto e por falar prazer.
Não deves admirar, se bem estimo,
mais teu subir do que um regato esquivo,
se de alto monte desce até ao imo.
Maravilha seria, não cativo
de impedimento, em baixo fosses posto,
como em terra quieta um fogo vivo.”


Conforme as palavras do Divino Dante, Helena, a transmitir o que ouviu de Beatriz, Deus destinou cada coisa conforme uma ordem determinada a fazer de cada uma completamente afim em sua complementação. Não é isso que descobrimos estudando juntos a Divina Comédia desde o primário? Não descobrimos, também, que era nosso destino, estabelecido por Deus, ficarmos juntos até nossas respectivas mortes? Por que, então, você queria se separar de mim? Por que não me respeitou, me obedeceu e parou de me pedir o divórcio repetidas vezes? Por que não me escutava e continuava me desafiando, desligando o telefone na minha cara toda vez que eu te ligava enquanto você trabalhava? Eu te pedia perdão toda vez que te machucava… Toda vez que eu batia em você era um ato de desespero, eu tinha medo de te perder… Você tinha muitos amigos, eu tinha ciúmes de cada um deles! Você se tornou amante de um deles e por isso queria a separação? Você ia morar com seu amante e levaria as nossas filhas embora? Por que, então, dizia que me amava? Por que fingia me admirar? Por que fingia me perdoar após eu te espancar milhares de vezes por me desobedecer e irritar? Por que tinha que me denunciar à Polícia da última vez que te bati, me obrigando a te estrangular? Por que, Helena? Por que? Por que? Eu não fui um homem melhor do que você esperava? Sua intenção era me abandonar e fazer com que todos me virassem as costas, me pintando como um monstro agressor? Era isso, Helena? Era isso? Era isso mesmo?


Me perdoe, agora, Helena… Me perdoe por gritar com você… Me perdoe por ter te estrangulado… Você me perdoa, Helena? “Sim, eu te perdôo…”, ah, como é bom ouvir isso de novo! Ouça, nossa música está tocando pela sétima vez e continuamos dançando… Nós dois, apenas nós dois, aqui, Helena, isolados do mundo inteiro, até o fim dos nossos dias… Imortais como Peter, Florbela, Dante e Beatriz… Dançando enquanto tudo lá fora morre… Menos nós dois, Helena, minha Helena… Menos nós dois… Você não está morta! Não está morta! Não está morta! Não está… Helena… Dancemos como sempre dançamos... como sempre dançamos… como sempre dançamos… Minha Helena, você não está morta! Minha Helena, você está dançando comigo! Minha Helena, você está sorrindo para mim! Minha Helena, você está falando comigo! Minha Helena, eu ouço a sua voz! Minha Helena, é a nossa citação preferida que você está repetindo? Nossa citação mais amada? É mesmo ela! Ah, minha Helena, como nós dois somos felizes!


“Nenhum homem vivo é feliz.”


Inominável Ser
UM
MORTO
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