segunda-feira, 13 de junho de 2016

A Necessidade Faz O Monstro


The Glory - Bastien Lecouffe Deharme

Em outro mundo, eu consegui construir uma vida tranquila. Trabalhava como garçom, tinha um bom salário, família honrada, muitos amigos, uma bela esposa, belos três filhos. Estudava Economia à noite, trabalhando durante a semana de manhã e nos finais de semana dize horas por dia. Levava uma vida pacata, me encaminhava para um futuro melhor cada vez mais, sonhando bem alto. Contudo, um desejo foi crescendo cada vez mais em mim, uma necessidade de me completar, insana, indecente, clamando para ser satisfatoriamente cumprido. Uma doença, pensei, no início; procurei um psiquiatra e ele me disse que estava tudo bem comigo, era apenas a ansiedade, o estresse, o cansaço. Fui levado a me questionar cada vez mais sobre aquele desejo, entrando cada vez mais em mim mesmo, oferecendo um tempo considerável para refletir sobre minha vida, a vida que eu pensava ter algum significado. Eu necessitava de algo para preencher o vazio que encontrei, cada vez mais me horrorizava, enojava e desprezava tudo que me rodeava, que ergui, que construí. Foi, então, que a necessidade que eu tinha de me compreender foi alimentada quanto envenenei cada um dos meus familiares, meus amigos, minha esposa e meus filhos em uma festa na qual comemorava meu aniversário de quarenta anos. Essa necessidade me levou a isso. A necessidade se encarregou disso. A necessidade me legou isso.

Em outro mundo, fui auxiliar de limpeza em uma cozinha. Lavava pratos, recolhia o lixo, jogava comida fora, fazia a manutenção da limpeza do meu ambiente de trabalho. Estudava Design Gráfico à noite, trabalhava durante o dia, cuidava da minha casa nas horas de folga. Morava sozinho, não tinha pai, não tinha mãe, não tinha namorada, nem esposa, filhos ou amigos. Falava quando necessário, saia de casa quando necessário. Convivia com meus colegas de trabalho e superiores em quase perfeita harmonia, mas me via junto a eles como plenamente estranho. Eram pessoas muito medíocres os que me rodeavam, todas apegadas a propósitos mundanos, a condições existenciais que envolviam a tríade comer-beber-foder. Eles me incomodavam, eu vestia uma máscara todo dia para disfarçar minha repulsa e asco diante de cada um deles. E uma necessidade estranha começou a me envolver, a me questionar, a me intrigar, a me instigar a fazer algo para verdadeiramente me adaptar ao mundo que me levou até aquele emprego medíocre. E eu fiz, causando um curto-circuito na instalação elétrica da cozinha, fechando cada entrada e saída da mesma, ouvindo os gritos de socorro de trinta e cinco pessoas sendo queimadas vivas. E o fogo se espalhou pelo hospital onde se encontrava aquela cozinha, matando outras seiscentas e trinta e duas pessoas em uma hora, já que eu tratei de fechar cada saida do hospital. Escapei da morte fugindo calmamente pela porta da frente e ouvindo os gritos de dor e socorro dos que eram queimados. Foi necessário que eu fizesse isso. Aquela necessidade me ensinou como fazer isso. A necessidade me consagrou nisso. A necessidade me fez renascer dentro disso.

Em outro mundo, eu era um Brigadeiro da Aeronáutica que muitíssimo rápido subiu na carreira com menos de quarenta anos. Era um Gênio Militar, lutei em três guerras e sempre me sai vitorioso defendendo a bandeira do meu país e os objetivos dos aliados deste. Era casado, tinha cinco filhos e meus pais se orgulhavam muito ao me verem fardado, um herói nacional acima de muitos heróis de minha nação por conta da minha bravura e destaque em campos de batalha. Eu não fumava, não bebia, não me drogava, era um cristão católico fervoroso, devoto de São Jorge e de São Cipriano. Era amigo de todos, simpáticos e agradável, sempre com um sorriso no rosto. Mesmo assim, tendo sucesso na carreira e na vida pessoal, me sentia incompleto, vazio, incorreto e rigidamente formado como um autômato. Me tornei um militar porque meus pais insistiram para que eu tomasse tal caminho. Me casei porque me diziam na igreja que um homem não deve ficar sozinho. As Maiores decisões foram tomadas por outros em minha vida, desde a minha infância. Meus antigos superiores é que decidiram como eu deveria liderar minha tropa nas guerras que travei como Sargento, Capitão e Marechal-de-Ar. E tudo isso, toda minha robótica vida construída para agradar os outros me fazia odiar cada coisa que consegui construir e gerar como herói, marido, pai e exemplo para todos os militares do meu país. Foi por isso que na comemoração dos vinte e dois anos da última guerra na qual meu país saiu como vencedor, que direcione o meu caça contra todos os espectadores nas arquibancadas do desfile militar que ocorria. Matei duas mil duzentas e cinquenta e três pessoas em meia hora, incluindo militares que desfilavam, Generais, Brigadeiros, Almirantes, meus pais, minha esposa, meus filhos, meus amigos e parte da população que me considerava um herói. Herói… A única vez na qual me senti um herói foi matando todos eles como o infalível Imperador Do Ar que eu era, pilotando de modo único o mais avançado dos instrumentos de guerra do meu mundo, um caça que materializava mísseis de maneira ininterrupta. Fugi derrubando sessenta outros caças que participavam do desfile, alguns tentando me impedir de massacrar aqueles vermes. Eu gostei de tomar uma decisão minha pela primeira vez, uma decisão movida pela minha necessidade em ser eu mesmo. Aquela necessidade me satisfez existencialmente. A necessidade me alimentou com isso. A necessidade me deu de beber disso.

Em outro mundo, eu fui um filósofo, pesquisador da área da Teoria do Conhecimento e professor da maior e melhor universidade daquele. Vivia concentrado nos livros, estudando nos mais diversos idiomas sobre conhecimentos antigos e contemporâneos à minha época. Abdiquei do luxo, do dinheiro e da fama para me dedicar unicamente ao Pensamento Humano. Abortei qualquer tipo de relacionamento, mantendo apenas os profissionais, para que pudesse ser auxiliado em minhas pesquisas. Me afastei de minha família, pois qualquer tipo de emotividade me afastaria do meu derradeiro objetivo. Este era compreender o porquê da necessidade do Conhecer, o objetivo do Conhecer, o estabelecimento da relação Sujeito-Objeto em cada ser. Escrevi cinquenta e quatro livros sobre o assunto, era reconhecido e respeitado internacionalmente, já que fui traduzido para trinta idiomas. E todos os intelectuais do mundo me interessavam porque eu queria saber o porquê do desejo é da necessidade inerentes ao Conhecer. Isso me consumia, me enlouquecendo pelos caminhos mais positivos para a continuidade da minha única linha de pesquisa. Era uma loucura por Conhecimento e pelo Poder do Conhecimento aliado a uma Sabedoria o que eu mais almejava. Isso crescia, me instigava, me inspirava e me fazia voltar para caminhos primordiais para a obtenção das respostas que eu queria. Comecei a caçar e matar pessoas para dissecar-lhes os cérebros, com o auxílio dos meus conhecimentos medicinais e de autópsia, para poder encontrar minhas respostas. Já são oitenta e um dissecados e nada de uma resposta… Em meu laboratório secreto na minha casa, oitenta e um cérebros em conservação não me dizem nada… Eu preciso de outros cérebros que possam me dar todas as respostas que quero para a minha única pergunta: O QUE É O CONHECER? É a necessidade por tal resposta que me motiva a isso. A necessidade me carregou para isso. A necessidade me transportou nisso.

Em outro mundo, eu fui estoquista em uma loja de sapatos após empobrecer, minha mãe ficar doente e perder a chance de ter uma vida melhor cursando uma faculdade. Eu queria muito crescer, fazia Educação Física, mas tudo veio abaixo com a crise financeira da minha família. E, de repente, no giro sempre infeliz da Roda da Fortuna, me vi entre pessoas nojentas, medíocres, enfadonhas, miseravelmente pequenas, desgraçadamente existentes. Odiei intensamente o convívio com cada um dos ratos daquela loja, nunca me aproximava, mas eles tentaram de mim se aproximar. Eu me afastava, fingia tolerância, aceitação é tudo que me fazia suportar todas aquelas pessoas imundas que me davam ânsia de vômito. E a cada hora de trabalho naquele lugar, rodeado por cada um daqueles lixos malditos em forma de bípedes supostamente racionais, uma grotesca necessidade assolava-me todo o Ser. Eu sonhava em vê-los mortos, os homens e as mulheres de lá estuprados, torturados, degolados, esquartejados, decapitados, metralhados… Consegui, enfim, graças aos meus contatos com alguns amigos de infância, que hoje são bandidos, uma Ingram automática e bastante munição, bastante mesmo. Eu a batizei de Átila, em homenagem ao conquistador da Europa e da África de meu mundo, estreando a eficiência dela na festinha de fim de ano preparada pelos funcionários daquela maldita loja. Ao som do MC Cagado matei cento e doze vermes, incluindo esposas, maridos, namorados, namoradas e filhos dos meus coleguinhas de trabalho. Eu gargalhava atirando e até hoje à lembrança do impacto das balas nos corpos deles me faz rir até mijar nas calças. Aquela necessidade foi toda saciada, minha verdadeira felicidade foi completa quando matei todos aqueles merdas. A necessidade me guiou nisso. A necessidade me instruiu nisso.

Em outro mundo, eu fui o mais famoso poeta da minha época, o mais lido, o mais comentado, o mais requisitado em convenções e palestras. Minha riqueza superava a de vários países do meu mundo e através de obras de caridade extingui a fome e a miséria em regiões desoladas que Governos Estatais ignoravam por não terem a face dos grandes expoentes da sociedade nelas residentes. Era chamado O Poeta Salvador, O Poeta Ungido, O Leão Do Amor, O De Todos Os Nomes Da Paz. Como um Deus eu era adorado, reverenciado, ovacionado e amado pelos povos mais humildes. Respeito e admiração advinham das classes mais altas, usufrui muito desta minha possibilidade de ter o meu mundo aos meus pés. Os temas de meus poemas eram sempre universais, esotéricos, românticos e tocavam fundo nas almas dos meus leitores. Mas, duas mulheres me fizeram ter um outro tipo de necessidade, uma necessidade bem diferente do poetizar. A primeira foi uma cigana com dons mágicos, a segunda foi uma dançarina do ventre com sensuais dons. As duas quebraram meu coração, minha mente e minha alma, jogando no lixo minha veneração e amor por elas, cada uma a seu tempo. E percebi um dia, por causa delas, que todas as demais mulheres com as quais me envolvi fizeram o mesmo comigo, de uma forma ou de outra. E eu, antes um Poeta do Amor, me tornei um Arauto do Sangue, O Colecionador De Cabeças, como a Imprensa de meu mundo denominou o estranho assassino em série de mulheres que desaparecia com as cabeças de suas vítimas. Apunhalei novecentas e noventa e nove vezes e decapitei aquelas duas que mais me marcaram e machucaram. Fiz o mesmo com as sessenta e cinco namoradas que tive. E continuo fazendo com qualquer mulher que me atraia, tomei gosto infinito pela necessidade de apunhalar e esquartejar. Ao todo, já apunhalei e esquartejei setecentas e cinquenta e uma mulheres, guardando-lhes as cabeças em meu museu nos subterrâneos de minha mansão nas Terras do Verão. A necessidade me destacou nisso. A necessidade me atirou nisso.

Em outro mundo, fui O Maior Mestre De Artes Marciais, O Mestre Supremo, O Invencível Dragão Fátuo Dos Ringues. Desde os sete anos de idade, derrotei dois milhões de lutadores de diversos estilos pelo mundo. Criei meu Estilo Misto de Arte Marcial e novos que incorporei em um Estilo Secreto que me faz continuar tendo a supremacia nos Ringues. Aproveitei o crescimento do Quarto Reich pelo meu mundo inteiro, em uma guerra vencida pelos Agentes Da Supremacia Ariana para realizar a necessidade maior de minha existência: a criação de torneios até a morte, onde eu pudesse enfrentar e matar à vontade meus inimigos. Já são cento e dezesseis anos do Quarto Reich, meu Esporte chamado Arena Do Dragão, no Coliseu de Roma, a pleno céu cada vez mais se eleva. Graças a experimentos com Genética levados a cabo pelos gênios que hoje governam meu mundo, pude atingir uma longa idade de cento e cinquenta e cinco anos com a aparência de trinta. E já matei até o momento um bilhão de lutadores, treinados entre os escravos feitos pelo Regime Planetário após a conquista mundial. Raças inferiores com homens e mulheres que matei, que continuarei matando, saciando minha insaciável necessidade de sangue. A necessidade me presenteou com isso. A necessidade me decretou nisso.

Em outro mundo, eu fui um escritor de livros de Terror e Horror Gore, um grande desconhecido escritor. No meu mundo, a população está muito mais preocupada com o comer, o beber, o foder e o orar a Deuses que não existem do que com Cultura, Razão e Conhecimento. No meu mundo, jogos e lutas são mais importantes do que livros, bibliotecas e museus. No meu mundo, o crime e a Política, ao lado da repressão e da Polícia, tomam mais espaço nos noticiários do que eventos culturais, convenções artísticas e exposições de todo tipo de arte. Os Nobres Marginais: é assim que os artistas como eu, no mundo onde vivo, são chamados, representando uma categoria social abaixo de todas as demais. Somos aqui massacrados, perseguidos, ridicularizados, enxotados de todos os locais quando erguemos nossa voz contra a cegueira mundial diante do domínio do sistema de riquezas que retira o senso crítico das pessoas. E, revoltado, vi que uma necessidade gritando dentro de mim se elevava cada vez mais e eu precisava transpor para a materialidade o que minha mente desenvolvia em meus livros. Meu artístico objetivo era agredir, chocar, fazer pensar. Escolhi como os objetos a serem destroçados para o desenvolvimento da minha arte os “artistas” aceitos pela sociedade: os cantores de merdas cagadas dos cus deles; os cineastas de vômitos descarregados pelas salas de cinema; os apresentadores de programas cujos caralhos comestíveis são um insulto a todas as inteligências; enfim, todos os excrementos que a mídia de meu mundo chamam de “Culturas do Momento”. Duzentas e vinte e duas vítimas evisceradas até o momento pelo Flagelo Dos Artistas, como me chamam na prática de minha nova arte. Cada órgão deles é picotado para que eu possa disponibilizá-los ao solo criando frases simbólicas entendidas por poucos. Meus irmãos artistas à margem da sociedade de meu mundo me chamam de O Revolucionário Esteta. Ninguém sabe quem eu sou, percorro incógnito todo o meu mundo, um artista nas sombras criando arte através do que há dentro dos pseudoartistas. Artística necessidade me engaja nesta minha marcha a favor da Verdadeira Arte. A necessidade me pintou nisso. A necessidade me gravou nisso.

Em outros mundos, sou muitas coisas. Em qualquer mundo, eu sou uma coisa. Em seu mundo, eu sou qualquer outra coisa. Posso ser, no seu mundo, um terrorista do Estado Islâmico; um terrorista da Al Qaeda; um policial corrupto, racista e assassino; um carcereiro sádico, cruel e sanguinário; um traficante do Comando Vermelho; um traficante do Terceiro Comando; um traficante do PCC; um estuprador e assassino de mulheres; um neonazista exterminador de minorias; um soldado psicótico do Exército Norte-Americano; um pedófilo assassino de meninos e meninas; um matador da Máfia Italiana; um matador da Máfia Irlandesa; um matador da Máfia Russa; um matador das Tríades Chinesas; um matador da Yakuza; um chefão do crime em majestosas cidades do mundo; um ditador sanguinário de um país moribundo; um homofóbico assassino de LGBT’s; um atirador em campos de centeio de concreto, areia e ferro; a mão que balanço o berço do vício em drogas assassinas; a invocação de um mal inimaginável; a evocação de um mal palpável; o cisne negro de poluídas lagoas sangrentas; o mercenário em vaidosas fogueiras de perversidade e brutalidade...

Por uma necessidade que você jamais poderá entender, serei em seu mundo o que sua mente puder e quiser ter a coragem de imaginar. A necessidade me avisa disso. A necessidade me ajusta nisso.


Inominável Ser
UM SER
DE TAMBÉM
INCOMPREENSÍVEIS
NECESSIDADES





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O Terror Inominável. O Horror Inominável. A Loucura Inominável. A Cova Aqui É A Do Puro Pesadelo Das Covas Mais Profundas E Elevadas. Vozes Estranhas Aqui. Sons Estranhos Aqui. Palavras Estranhas Aqui. Estranhas E Inomináveis. Sintam-Se Conduzidos Pelo Carro Inominável Do Terror Inominável. Sintam-Se Conduzidos Pelo Carro Inominável Do Horror Inominável. Sintam-Se Conduzidos Pelo Carro Inominável Da Loucura Inominável.

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