terça-feira, 26 de julho de 2016

O Sussurrante


Sin Título - Olivier de Sagazan


Uma bala no pulmão direito. Duas balas no intestino grosso. Uma bala no fêmur esquerdo. Três balas na coluna vertebral. Uma bala no pescoço… Em um dos mais violentos becos de uma cidade que pode ser a sua, a minha e a de todo mundo, um homem agoniza, tentando ainda lutar por sua vida. Não importa o que ele é: bandido, policial, pastor, padre, advogado, médico, jogador de futebol, cientista, pintor, escritor, poeta, desenhista… Pode ser qualquer um. Pode ser você. Pode ser eu. Pode ser todo mundo. Ninguém possui um nome ou status quando está a bordo de uma das Barcas da Cadavérica. O que importa é que Ele se aproxima, Aquele Que Sussurra. Se aproxima do homem agora caido no beco e de outros que agonizam pelo mundo todo, em qualquer beco, em qualquer lugar. Ele estará a sussurrar em seus ouvidos quando você estiver a morrer. Ele estará a sussurrar em meus ouvidos quando eu estiver a morrer. Ele estará a sussurrar nos ouvidos de todo mundo quando estiverem a morrer.

Ele caminha em direção ao moribundo, trazendo atrás de si sombras que falam de todos os tempos antigos que já percorreu. É com a aniquilação do Tempo/Espaço que ele agora molda uma suspensão na agonia do moribundo em um beco qualquer do mundo. Para poder sussurrar, Ele tem que garantir que todo aquele que vai morrer possa ouvi-lo em espaço, profundidade e densidade. Ele se aproxima do futuro cadáver com pesados passos denunciando sua imemorial idade. Você um dia ouvirá esses passos. Eu um dia ouvirei esses passos. Todo mundo um dia ouvirá esses passos. Passos do Sussurrante próximo ao moribundo. Passos do Sussurrante a ajoelhar-se à esquerda do moribundo. Passos do Sussurrante que agora se tornam As Palavras Sussurradas…


— Você Está Próximo Do Caminho Para Este Lado, Não Tente Resistir. Até Aqui, Onde Você Agora Está, Houve Dor, Sangue E Crueldade Em Seu Redor. Muita Dor Você Recebeu, Desde Que Foi Abandonado Naquele Orfanato Pela Sua Mãe E Muita Dor Você Extraiu De Outras Pessoas Após Encontrá-La Anos Depois E Matá-La. Muito Sangue Seu Foi Derramado Naquele Orfanato E Muito Sangue Você Depois Derramou Após Matar Cada Um Dos Seus Coleguinhas De Orfanato Que Te Espancavam. Muita Crueldade Foi Feita Contra Você Naquele Orfanato E Muita Crueldade Você Cometeu Contra Tudo E Todos Que Atravessaram O Seu Caminho Fora Daquele Orfanato. Você Estuprou E Matou Crianças Porque Foi Estuprado Naquele Orfanato. Você Estuprou E Matou Mulheres Pelo Mesmo Motivo Relacionado Ao Mesmo Orfanato. Você Estuprou E Matou Homens Igualmente Pelo Mesmo Fato Mencionado Acerca Do Orfanato. Você Se Sentia Supremo Atravessando O Mundo Inteiro E Descartando Tudo Que Lhe Fazia Lembrar Sobre O Quão Fraco Foi Naquele Orfanato. No Entanto, Você Ainda É Um Órfão, Mas Não Falo De Mãe, Pai Ou Família, Não Me Refiro A Este Tipo De Orfandade. Você É Um Órfão Da Vida, Esta Nunca Lhe Amamentou, Acarinhou Ou Lhe Afagou Nos Braços Dela. A Vida Nunca Lhe Foi Paternal Ou Maternal, O Que Te Fez Rastejar Até Este Beco Foi O Vazio Que Reside Em Tua Alma. Isto Está Se Acabando, No Entanto, Sua Mortal Carcaça Vai Ser Abandonada E Seu Espírito Entrará No Reino Da Morte. Suas Vítimas Lhe Aguardam, Meu Querido Assassino, Com Os Braços Abertos. Creio Que Deve Saber O Que Te Aguarda Aqui Deste Lado, A Proximidade Da Morte Revela Tudo A Adormecidos E Despertos. Receberás Continuamente Os Estupros Que Cometestes Na Terra. Serás Continuamente Enforcado Como Enforcastes Aqui Na Terra. Serás Continuamente Decapitado Como Decapitastes Aqui Na Terra. Serás Continuamente Torturado Como Torturastes Aqui Na Terra. Você Alimentou Aqui Na Terra Os Senhores Bestiais Do Sangue E Agora Deve Alimentá-Los, Caro Assassino. Você Sempre Foi Deles E A Partir De Agora Será Mais Ainda. Vou Te Deixar Agora, Não Sou Eu Quem Encaminho Para O Abismo Almas Como A Sua. Eu Apenas Sussurro Sobre O Destino Dos Bons E Dos Maus Fora Da Carne Quando A Morte Chega. E Os Emissários Da Cadavérica Já Estão Aqui, Morra Em Guerra Como Você Sempre Viveu. Melhor Dizendo, Como Você Acreditava Viver Sendo Um Verdadeiro Cadáver Rastejante A Pisotear Quem Tinha Uma Verdadeira Vida Para Cuidar. Adeus, Assassino, Há Outros Ouvidos Por Todo O Mundo Agora Nos Quais Devo Sussurrar.


O Homem Agonizante ouve os Passos do Sussurrante se afastando e luta para não morrer. Ele não quer ser estuprado como fora durante sete anos de sua infância… Ele não quer ser morto de novo como tantas vezes matara após sua infância pelo mundo inteiro… Ele luta para não morrer… Ele tenta sussurrar para si mesmo que não vai morrer… E se lembra de como estuprou e matou a primeira menina que escolheu como sua vítima… E se lembra de como decapitou pela primeira vez uma família inteira em uma tenebrosa noite de uma das suas sangrentas glórias… E se lembra de como torturou por meses as últimas mulheres que matou em uma mansão abandonada… E sabe que continuará morrendo fora da carne que sempre foi podre para ele mesmo… Uma carne que sempre desejou cortar, perfurar, rasgar e triturar outras carnes… Será continuamente baleado… Estuprado… Decapitado… Torturado… Cortado… Perfurado… Rasgado… Triturado… E, até, mastigado, como algumas vezes mastigou a pele de muitas das suas vítimas assadas em espetos…

Ele luta para não morrer, já não ouvindo mais os Passos do Sussurrante. Mas, ouve agora outros Passos que anunciam para sua alma o final da sua assassina trajetória na Terra. São os Passos dos Cadavéricos preparando-se para encaminhá-lo ao Abismo. E os urros, gritos e passos de suas vítimas ele já está a escutar.


Inominável Ser
AQUELE
DE INOMINÁVEIS
PASSOS




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Prosa De Um Coveiro Inominável

O Terror Inominável. O Horror Inominável. A Loucura Inominável. A Cova Aqui É A Do Puro Pesadelo Das Covas Mais Profundas E Elevadas. Vozes Estranhas Aqui. Sons Estranhos Aqui. Palavras Estranhas Aqui. Estranhas E Inomináveis. Sintam-Se Conduzidos Pelo Carro Inominável Do Terror Inominável. Sintam-Se Conduzidos Pelo Carro Inominável Do Horror Inominável. Sintam-Se Conduzidos Pelo Carro Inominável Da Loucura Inominável.

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