segunda-feira, 3 de outubro de 2016

A Loja Dos Corações De Mooh Jor Ho Huo - Parte I


Mr Chompers - Mark Skelton


Ivana e Flora estavam há quatro horas procurando por um presente pelas ruas do centro de Recife, um souvenir que se encaixasse na comemoração de vinte e dois anos de casadas das duas. Vasculharam vinte e nove ruas, entraram em noventa e três lojas, mas nada de encontrarem um presente para as duas relacionado ao amor que sentiam uma pela outra. De repente, sentiram a necessidade de entrar em um beco todo pintado de vermelho com pequenas lojas de souvenirs, sentindo-se atraídas por algo que não conseguiam explicar. Ao final dos vinte e dois metros do beco, pararam diante de uma loja em cuja vitrine giravam, pendurados em correntes, rubros corações ricamente incrustados de ouro e prata, brilhantes, chamativos e geradores de um fascínio que arrebatou-lhes. Por seis minutos se mantiveram paralisadas, admirando as peças de uma artística beleza raríssima, feitas com um apuro estético cuidadoso e precioso. A porta da loja se abre e um magérrimo homem de uns dois metros e vinte e seis de altura, pálido, olhos azuis-escuros penetrantes e um sorriso cativante no rosto pára ao lado de Ivana. As duas, baixinhas de um metro e sessenta e dois (Ivana) e um metro e cinquenta e seis (Flora), assustam-se com o esquelético gigante parado ao lado delas. O homem, francamente sorridente, trajando um berrante terno vermelho, camisa e calças vermelhas, gravata e sapatos vermelhos, dirige a elas uma fala fortissimamente carregada de um exótico sotaque que elas jamais tinham ouvido antes.


— Sejam bem-vindas à Loja Dos Corações De Mooh Jor Ho Huo! Meu nome é Agon Ivanilovich, trabalho há setenta e três anos na construção desses objetos com o meu irmão, Nargel.
— O senhor não me parece ter mais do que quarenta anos… — Observa Flora, Doutora em Química, fluente em sete idiomas (Inglês, Francês, Alemão, Russo, Japonês, Chinês e Grego) e arquiteta bastante gabaritada.
— Eu e meu irmão somos de uma família privilegiada pela natureza, nos rincões da Ucrânia há segredos próprios onde se pode obter uma rotina saudável que possibilita um envelhecimento seguramente saudável.
— De qual rincão da Ucrânia vocês são? Estive seis meses viajando por esse país, aprendi um pouco de ucraniano e seu sotaque, por causa daqueles com quem conversei e falavam português, não me parece ser de lá…
— Pára com isso, Flora! — Reclama, gargalhando, Ivana, escritora de livros infantis traduzidos em quarenta e quatro idiomas, fluente em seis idiomas (Inglês, Francês, Espanhol, Italiano, Árabe e Turco) e pintora famosa em metade do mundo. — Estamos aqui para compras, não para interrogatórios policiais!
— Mas, é que…
— A maratona de CSI vai ser na sexta-feira, fica calma e relaxa! — Voltando a olhar para cima, interpela o dono da loja: — Seu trabalho é algo que eu nunca vi na minha vida, senhor Agon! Já visitei todas as mais importantes galerias de artes mundiais e nunca me deparei com obras como estas! Por que não são mais conhecidas as mesmas?
— Eu e meu irmão optamos por atender clientes sofisticados, um público seleto, há quinze anos aqui no Brasil. Nossa loja anterior ficava próxima ao World Trade Center e, após o 11 de Setembro, foi desvalorizada e viemos para este país. O clima é muito diferente do de New York e do nosso país, mas em dois anos já nos sentíamos adaptados.
— Nem na Internet li algo a respeito desta loja.
— Somos comerciantes à moda antiga, conservamos a tradição de nossa família em divulgar nosso ofício pessoalmente aos interessados. Esta loja aqui é uma pequena galeria de arte aberta à visitação de todos os cidadãos do mundo, não discriminamos ninguém aqui por causa de sua condição financeira, étnica ou sexual. O poderoso conluio amoroso de vocês merece um presente calorosamente muito especial e incomum.
— Como sabe que somos casadas?
— Eu sei, simplesmente.
— Ivana, vamos embora, temos outras lojas para visitar. — Flora, um tanto incomodada com a fala do homem, pega na mão esquerda de sua esposa. — Senhor Agon, muito obrigada pela…
— Eu quero entrar, Flora, vamos, não tem loja melhor do que esta!
— Ivana, eu não quero entrar! E, além do mais, já está quase anoitecendo e ainda…
— Podem entrar e sintam-se em suas casas.


O convite de Agon faz Ivana puxar a amada para dentro da loja. A “pequena galeria de arte”, no entanto, revela-se um espaço de duzentos metros quadrados cujas paredes de dezoito metros de altura estão repletos de brilhantes corações, muitos incrustados com as mais diversificadas jóias e materiais. Todos vermelhos em paredes vermelhas sob um teto e piso vermelhos. Setecentas e nove velas vermelhas em candelabros dispostos de treze em treze, entre as vitrines, iluminam o ambiente. No meio da loja, uma  vela vermelha de onze metros de altura expande sua luminosidade de modo a embelezar ainda mais as peças expostas nas paredes. Ao lado esquerdo da vela, doze metros à frente delas, outro gigante, da mesma altura de Agon e com as mesmas características físicas deste.


— Bem-vindas, Ivana Barros de Lima e Flora Esteves Bueno de Albuquerque, à Loja Dos Corações De Mooh Jor Ho Huo! — O homem caminha calmamente até elas; porta o mesmo traje berrante de Agon. — Eu sou o irmão de Agon, Nargel, e, como ele já disse, o segundo artista responsável pelas peças desta galeria.
— Nós não lhe dissemos os nossos nomes, senhor Agon… — Flora, sempre racional e fria, começa a ficar mais inquieta e nervosa. — Seu irmão deve ter ouvido nossa conversa lá fora, mas em nenhum momento citamos nossos nomes e sobrenomes. Que espécie de loja é esta é quem são vocês?
— Flora, que porra é essa? — Ivana cochicha baixo no ouvido esquerdo dela. — Você sempre gostou de coisas bem exóticas e agora está parecendo uma…
— Nada que eu não possa definir vai ser de meu agrado, Ivana! — Ela grita, muito descontrolada; mas, envergonhada, olha para Agon e Nargel (já próximo a elas) e abaixa a cabeça. — Me desculpe, senhores, é que coisas fora da Lógica Humana me incomodam…
— Deixa disso, Flora, lá no Centro da Mãe Glória de Omulu você não fica incomodada…
— É muito diferente, Ivana…
— Eu compreendo o seu incômodo, Doutora Flora. — Nargel é tão extrovertido quanto o irmão. — Eu e Agon somos de uma família de sensitivos, espalhada pelos cinco continentes, com cada ramo especializado em um tipo de arte e uma habilidade extra-sensorial específicos. Sabíamos que vocês estavam ansiosas por um presente fora do comum para comemorarem seu aniversário de casamento. Ouvimos cada passo de vocês pelas ruas e vimos em seus rostos a frustração por não estarem encontrando o mesmo. Captamos seus pensamentos ansiosos e nos comunicamos telepaticamente com vocês, conduzindo-lhes para a nossa loja.
— Essas “habilidades” que vocês possuem para atrair clientes não me parece muito ética… — Flora observa, encarando séria e novamente equilibrada o olhar profundo dos irmãos.
— Flora, olha a educação… — Ivana solta a mão dela e passa a caminhar pela galeria, admirando as obras. — Lindas, senhores Agon e Nergal, são todas simplesmente lindas!
— Vou lhe mostrar em mãos as que mais lhe agradar, Ivana. — Agon segue atrás dela, deixando Nargel e Flora encarando um ao outro.
— Me desculpe a sinceridade, Senhor Nargel, mas não gosto que terceiros invadam a minha mente.
— Você não gostou da loja e nem gostou de nós dois.
— Exatamente.
— Sua esposa se alegra em estar aqui conosco, ela tem uma alma mais aberta, uma mente fervilhante de idéias e um coração palpitante por profundas emoções.


O tom da voz dele ao falar a palavra “coração” arrepiou a comumente indiferente Flora. Mesmo diante de manifestações fora da Lógica no terreiro de Candomblé que frequenta, ela se mantém com os dois pés fincados ao solo, diferente de Ivana, que se entrega ao êxtase diante da Espiritualidade daquele. Ela lança um olhar para aquela e Agon, distantes trinta metros, e volta a encarar o olhar de Nargel.


— É o nosso dinheiro que mais lhes interessa, não?
— O dinheiro não está acima da nossa arte, Flora. Os quatrocentos e quarenta e três milhões de dólares da conta conjunta de vocês no Banco Santander não nos interessa mais do que a veiculação de nossas obras nos meios onde ela deve estar.
— Somente falta você dizer o número da nossa conta bancária.
— Não somos videntes de feira, Flora, somos artistas com clara vidência de corações que se amam intensamente como vulcões onde possamos nadar.


A entonação da palavra “corações” arrepia novamente Flora, que vê cinquenta metros à frente Ivana segurando uma peça e Agon pondo outra em uma vitrine.


— É realmente extraordinária a obra de vocês, mas não me agrada mais do que as de Aleijadinho.
— Grande artista de seu país, um ancestral nosso o conheceu pessoalmente.
— É muito estranho vocês não serem famosos devido à qualidade de suas obras. Também, o fato de serem, obviamente, trilionários, por causa da imensa quantidade de jóias incrustadas nas peças me intriga. Vocês nem são citados em revistas de arte, a Família Ivanilovich, toda de artistas, jamais foi sequer tema de um livro acadêmico mais obscuro e do conhecimento de poucos. Já li e vi de tudo um pouco, Senhor Nargel, e nada me escapa, há algo de muito suspeito em vocês que ainda não me chegou ao claro entendimento.
— O trabalho de sua mente científica é impressionante.
— Como já deve saber, desde criança me acostumei a desmascarar certos tipos nada confiáveis de pessoas. E de onde vem o nome desta loja? Não é ucraniano, nem se encontra entre os idiomas que conheço, pelo menos em parte, dos países mais estranhos que já visitei. O que significa Mooh Jor Ho Huo?
— Seu coração bate agora em um nível que me arrebata, Flora.


O terceiro arrepio de Flora ocorre ao ouvir o modo estranho de pronúncia carregada da palavra “coração” dos lábios de Nargel. Este se mantém sorridente diante do olhar desafiador dela; os dois ficam em silêncio, encarando-se, por oito minutos. Flora, mesmo que não queira, se sentiu balançada com a última frase de Nargel; um balanço negativo, nada tendo a ver com qualquer tipo de atração física que possa sentir por um tão sinistro homem. Ela não gostou dele, nem do irmão e nem da loja, que parece querer sufocá-la e arrancar-lhe o coração.


— Está na hora de ir embora, Senhor Nargel. — Ela derruba o silêncio com uma voz dura e cortante. — Chame minha esposa para mim, por favor, eu não quero adentrar além daqui em sua galeria.
— Ela já comprou o presente de vocês.
— O quê?
— Flora! - Ivana se aproxima com Agon atrás dela, abraçada a uma caixa de mogno adornada com estranhos símbolos rúnicos, contendo em seu interior um coração incrustado de rubis e ametistas, de um metro e quarenta e cinco centímetros cúbicos de diâmetro, leve como uma pluma. — Já paguei o valor de onze milhões de dólares com o nosso cartão, o banco aceitou na hora, incrível! Já podemos ir para casa agora, encontramos o nosso presente! Muito obrigada, Senhores Agon e Nargel!
— Nós é que lhe agradecemos pela visita e preferência ao adquirir uma das nossas obras, Ivana. — Agon transborda no rosto um sorriso mais franco do que o anterior. — Que o Coração de Ana da Conceição lhes dê as batidas mais perfeitas dos vossos corações.
— A Loja Dos Corações De Mooh Jor Ho Huo lhes agradece a aquisição, Ivana e Flora. — Nargel dá alguns passos e abre a porta da loja. — Não aceitamos devoluções, mas qualquer problema com a peça estaremos disponíveis para resolver dentro do prazo de um mês. Tenham uma boa noite, corações que batem a favor dos raios solares.


[OS CORAÇÕES BATERÃO UMA SEGUNDA VEZ…]







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