quinta-feira, 20 de outubro de 2016

A Loja Dos Corações De Mooh Jor Ho Huo - Parte III


Black Black Heart - Yuumei


Em todos os mais aterradores momentos existenciais, um ser humano deve encontrar equilíbrio na racionalidade. Mesmo diante do Inenarrável, Incomensurável e Incompreensível, a racionalidade deve implicita e explicitamente imperar tanto no consciente quanto no subconsciente humanos. Partindo da premissa mais básica para momentos de aflição e sem perder tempo com lágrimas, desespero ou desenfreado nervosismo, Flora se comportou equilibradamente diante da grotesca cena no quarto que representa a completude de sua relação com Ivana. Sem perder tempo com palavras consoladoras, ela carregou a esposa para o banheiro, retirando todo sangue da mesma; transportou-a para a sala enrolada em uma toalha, deitando-a no sofá; voltou ao quarto para pegar um kit de primeiros socorros, ignorando tanto a amaldiçoada escultura que tanto odiava quanto o coração de Ivana imóvel acima da cama; e, com três rolos de ataduras conseguiu envolver todo o tórax da esposa, cujo sangue parou de escorrer do buraco no mesmo.


Com carinho, a deitou no sofá e, de novo, retornou ao quarto para pegar algumas roupas, uma touca e um par de sapatos. Vestindo-a cuidadosamente, esforçava-se para não fitar os afundados e vazios olhos de Ivana, que não esboçava nenhuma reação, deixando-se levar como se fosse uma boneca das mais frágeis. Ao acabar de pôr o sapato esquerdo nela, ouve do quarto o celular tocar e, como que obrigada a se erguer, caminhou de novo até o quarto para atendê-lo.



— Estamos lhes aguardando na Loja Dos Corações De Mooh Jor Ho Huo, Flora Esteves Bueno de Albuquerque. Melhor não ligar para ninguém a fim de acompanhá-las, vocês estão diante de uma jornada que não pode ter mais do que duas participantes. E nem mesmo aquela amiga de vocês, Iniciada em Ritos Africanos, poderá lhes ajudar, isto está além dos conhecimentos dela. E de qualquer outro que Saiba Algo dentro desta Realidade. Venha logo, nesta madrugada as ruas estão vazias e os predadores de sua terra não lhes afligirão no caminho até aqui.



Nargel desliga e Flora, imediatamente, troca de roupa, se limpa com uma pequena toalha e volta para a sala, cuidadosamente pondo Ivana nos braços. Como elas tem o costume de deixar encostada a porta da casa, Flora empurra a mesma com o pé direito e se encaminha para o carro. Põe calmamente Ivana no banco de trás, atando-a ao cinto de segurança e se direcionando para abrir a porta da garagem. Tudo feito com calma para não debilitar ainda mais a esposa, após trancar a porta da casa e o portão da garagem, dirige o carro bem devagar em direção ao centro de Recife. Um bilhão de coisas se passam na cabeça de Flora no caminho até a Loja… Um sentimento de impotência se ergue… Uma sensação de frustração irrompe… Um medo que ela não quer alimentar toma forma… Um coração aflito bate muito mais acelerado do que o normal… Ódio profundo a faz várias vezes tocar na cintura…


Mecanicamente, no entanto, ela consegue ser fria o suficiente para chegar ao beco onde a Loja encontra-se. Com Ivana nos braços, ela caminha até a mesma, cuja porta já se encontra aberta. Nargel e Agon se encontram a vinte e um metros da porta, com seus extravagantes ternos e sinistros sorrisos. Dez metros á frente, um cadeirão de madeira se encontra e, com um gesto de cabeça, Nargel indica a Flora para sentar Ivana naesma. Feito isto, ela retira da cintura uma pistola calibre quarenta e cinco, empunhando a mesma com uma segurança que apenas militares possuem. Nargel caminha até ela…



— Bem-vindas à…
— Vá tomar no olho do seu cu, seu escroto! O que você fez com a minha esposa?
— Você quer mesmo atirar em nós, Iva…
— Eu vou perguntar de novo, seu velho escroto! O que vocês fizeram com a minha esposa?
— Qual tipo de resposta você quer? A que qualquer humano com uma mente limitada pode entender ou a que pode ser compreendida apenas por gênios como você?
— A resposta pode ser qualquer uma, seu filho da puta, já que uma bala dundum vai acabar com a porra toda da sua cabeça e da do seu maldito irmão!
— E o que vai fazer depois para salvar a sua amada esposa?
— Vocês me dirão agora o que fazer, depois acabo com os dois, seus vermes!
— Por que você acha que pode nos matar com essa arma primitiva feita por mortais para abater outros mortais?
— Não caio nessa babaquice, seu idiota! Você e seu  irmão são uns lixos que se utilizam de Magia Negra para qualquer tipo de propósito obscuro! Nada mais são do que bandidos que até agora se deram bem, mas comigo a conversa será muito diferente!
— “Magia Negra”?



Nargel paira sobre ela a um metro e meio de distância, gargalhando, sendo seguido por Anton nesta reação às palavras de Flora. Esta, se agachando, retira um punhal ocultado no tornozelo esquerdo, levantando a calça e atirando-o no abdômen de Nargel, neste fazendo três balas explodirem-lhe a coxa esquerda. Retira outro do tornozelo direito e atira-o com precisão ultraveloz na testa de Agon, explodindo cinco balas no tórax dele. E, de costas, apontando para eles a pistola, caminha para trás, arrastando consigo o cadeirão e vendo os dois retirarem os punhais e as balas dos corpos com sorrisos ainda mais sinistros nos estranhíssimos rostos. E os ferimentos se fecham, não chegando a fazer com que qualquer vestígio de sangue aflorasse dos mesmos.



— Já nos atingiram até mesmo com mísseis e ainda estamos aqui, Flora Esteves Bueno de Albuquerque. — Nargel atira o punhal e o que sobrou das balas aos pés dela.
— Em certa ocasião até nos lincharam e queimaram em estacas de madeira, mas também isto em nada nos afetou. — Agon tem a mesma atitude que o irmão. — Não foi a primeira vez que tentaram nos ferir ou matar com punhais ou balas, Flora Esteves Bueno de Albuquerque.
— Seu treinamento no Exército de seu país de nada adianta contra nós, Iva…
— O que vocês são, seus desgraçados?
— Somos tudo, menos “praticantes de Magia Negra”. — Agon caminha até o irmão. — Esta Loja não pertence a Magos ou Feiticeiros, nem podemos ser compreendidos pela linguagem de seu mundo. Mooh Jor Ho Huo não é um Demônio, é Algo muito mais antigo, anterior ao que vocês, humanos, conhecem como Inferno, esta que é uma infantil ideia moldada por infantis mentes. Sinta em seu coração, Flora Esteves Bueno de Albuquerque, o que minhas palavras querem lhe dizer…
— Por que nós duas? Por que? Por que, seus desgraçados? Seus merdas!
— Foi a escolha de Mooh Jor Ho Huo, Flora Esteves Bueno de Albuquerque. — Nargel retoma a palavra. — Nós dois, assim como todos os membros de nossa família, fazemos A Vontade de nosso, digamos… Bem, na sua limitada linguagem humana não há uma definição próximo ao que seja Mooh Mor Ho Huo. E sua mente acima da média humana não poderia compreender Mooh…
— O que querem, filhos da puta, para que minha esposa possa ser salva?
— Para que possamos manter uma Loja de nossa familia em cada cidade, aldeia e vilarejo do mundo, guardadas as devidas proporções, precisamos de infindáveis recursos financeiros. Nossa familia caminha em seu mundo bem antes da construção de qualquer civilização no mesmo e acumulamos riquezas que superam a de todos os países juntos. Não nos envolvemos em Governos, as mesquinhas manobras e vícios da Humanidade não nos interessam. Apenas seus corações, ofertados a Mooh Jor Ho Huo, nos interessam; e, como temos que materialmente nos manter em um mundo onde o que verdadeiramente conta é o capital financeiro de uma criatura acima dos animais, todo tipo de dinheiro, de qualquer pessoa, nos interessa.
— Eu sabia que, na verdade, vocês são apenas ladrões miseráveis com recursos naturais além dos compreendidos pela Razão Humana!
— Ah, então você tem a sabedoria de perceber que o “sobrenatural” inexiste?
— Querem toda a minha fortuna?
— Obviamente, queremos.
— Antes, salvem Ivana!
— Antes, transfira toda sua fortuna para nossa conta bancária no banco de nossa família.
— Isso não funciona sempre do jeito que vocês querem, seus lixos?
— Funciona, mas primeiro queremos ter a garantia que fomos providos com mais recursos financeiros ainda. Fazemos isso há séculos e jamais fomos sobrepujados.
— Seus…
— O coração dela se manterá na mesma posição em que agora está, não se preocupe. — Agon pára ao lado esquerdo de seu irmão. — As Leis pelas quais se concentram as áreas de nossa atuação não são frágeis como as da sua Humanidade. Somos homens de palavra.
— Vocês são tudo, menos homens, seus vermes… Eu posso virar este jogo de um momento para o outro… Vocês sabem disso…
— Sua esposa não vai sofrer, faça o que nós lhe orientamos a fazer.
— Eu não acredito que “tudo voltará ao normal depois”! Eu não sou nenhuma imbecil e sei que este jogo não tem limites determinados, nem explora um fim alcançável! O que mais querem de mim? O que mais querem de Ivana? O que mais querem, filhos da puta? Nossas almas? Nossos corpos?
— Suas almas limitadas não são do nosso interesse, Flora Esteves Bueno de Albuquerque. Seus corpos, idem, não somos estupradores e nem exploradores de mulheres. Seus corações, sim, verdadeiramente nos interessam.
— Seu coração explode pela sua amada, estou certo? — Nargel se aproxima dela, que não diminui a postura ofensiva. — O elemento mais poderoso desta Realidade é o do Poder que vem de cada coração. Os sufistas estão corretos e dentre todas as chamadas religiões de seu mundo o Sufismo é a mais avançada e explica em palavras inteligíveis algo mínimo acerca dos objetivos de Mooh Jor Ho Huo. “O caminho do coração”, Flora Esteves Bueno de Albuquerque… “O caminho do coração”... “O caminho do coração”... Você conhece o caminho do seu coração… Então… O que chega agora ao caminho do seu coração? Quer tentar nos enfrentar quando sabe que cada tentativa será infrutífera? Quer apelar para as forças policiais de seu país quando sabe que nenhuma lei humana se expande por nossas existências e será capaz de nos julgar, assim como todos os tipos de armas das mesmas? Quer chamar seus contatos no submundo para que uma pequena milícia venha nos enfrentar a fim de nos sequestrar e obrigar-nos a salvar sua esposa? Quer chamar aquela Filha de Omulu, a qual me referi ao telefone, para tentar nos vencer com uma Magia sendo que Mooh Jor Ho Huo está além das crenças mágicas terrestres? Veja só, você tem muitas possibilidades, diversos caminhos que se configuram em um resultado: o arrancar dos corações de todos aqueles que ultrapassarem a porta desta Loja para tentarem nos enfrentar. Falando na porta de entrada daqui, olhe para trás.



Ele aponta com o indicador direito e Flora se volta. No lugar da entrada, uma dimensão está aberta, repleta de inumeráveis seres humanos nus, toráxs abertos,  ajoelhados e a beberem o sangue a gotejar de corações imóveis acima deles. Olhando em redor, mais humanos e corações; voltando-se para Nargel e Agon, atrás destes, e em redor, outros humanos, outros corações…



— Aqui estão todos aqueles que nos enfrentaram através dos chamados tempos de seu mundo, Flora Esteves Bueno de Albuquerque. Homens e mulheres como você; homens e mulheres abaixo de você; todos eles, por fim, tão humanos quanto você. Quer ver seus amigos, conhecidos e desconhecidos ao lado deles, eternamente se alimentando do sangue dos próprios corações? Quer ser uma deles ao lado de Ivana ou vai cumprir a nossa determinação?



Vencida, ela quebra sua postura ofensiva, ajoelha-se, põe no solo a pistola e apoia a cabeça no colo de Ivana por alguns instantes. Não chora, não quer e nem vai chorar… Rangendo os dentes, urrando de ódio, ela apenas encara os tenebrosos rostos sorridentes de Nargel e Agon, erguendo-se novamente.



— Essa foi a mais sábia escolha de todo o seu coração, Flora Esteves Bueno de Albuquerque.



[OS CORAÇÕES BATERÃO UMA QUARTA VEZ]




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