terça-feira, 25 de outubro de 2016

A Loja Dos Corações De Mooh Jor Ho Huo - Parte IV


Story of my heart so dark - sceptic666soul


Foram dezessete dias de uma corrida desesperadora e raivosa. Dezessete dias inconstantes, movidos pelo desespero e o ódio. Dezessete dias nos quais Ivana mais se debilitava e Flora transferia toda a fortuna delas para o Banco Ivanilovich. Pertencente à família dos famigerados larápios tão desprezados por Flora, não tem uma base física e se encontra virtualmente dividido em diversas contas de bancos menores que levam outros nomes, todos totalmente obscuros e desconhecidos. Ela teve que dividir tudo que tinha em quinhentas e trinta e oito contas diversas em nome de membros da sorumbática família. Além da vultosa conta no Santander, diversos outros milionários investimentos delas foram transferidos para as contas pessoais de Nargel e Agon, os quais mantiveram Ivana cativa na Loja. Todas as noites, Flora passava a noite em claro ao lado da esposa; e, durante o dia, punha-se a colher tudo que financeiramente tinham acumulado por conta de suas respectivas carreiras. Tudo que fisicamente tinha também vendeu, como os móveis, a arma, a casa e o carro, à vista, apenas para mostrar a seus inimigos que ela estava disposta a tudo para salvar a esposa. Esta definhava cada vez mais, se atrofiava e nem mais falava, sempre com os olhos mortos, estáticos e a olharem o nada.

Flora não se alimentou direito durante os dezessete dias de idas e vindas de bancos, escritórios e multinacionais. Emagreceu vinte quilos e tornou-se um amontoado de nervosos ossos caminhando de um lado para o outro. E o último dia desta tenebrosa marcha marcou a desocupação da casa onde viveu com Ivana momentos densos e frutíferos de amor, calor e expansivas noites ardentes. Com lágrimas contidas, parou alguns instantes em cada cômodo da casa, sorrindo ao lembrar de muitos dos descontraídos momentos que teve com aquela que conquistou-lhe a alma. Por fim, se dirigiu, após fechar a casa, para um táxi que chamou uma hora antes. No porta-malas do mesmo, a escultura que iniciou toda a desgraça em seu casamento, na mesma caixa em que fora levada para a casa dela. Ao colo dela, uma caixa do mesmo material que contém a escultura, tendo em seu interior o pulsante coração de Ivana.

O táxi pára na entrada do beco e Flora é auxiliada pelo taxista com as caixas. Após pagar-lhe cinquenta e cinco reais pela corrida, caminha com as caixas embaixo dos braços até a Loja. Abre a porta desta com um chute e caminha até Ivana, ainda sentada na mesma cadeira. Joga com raiva a caixa contendo a escultura aos pés de Nargel e Agon, que sorriem suavemente para ela. Se ajoelhando à frente de Ivana, abre a outra caixa, e o coração dentro da mesma passa a flutua à frente do tórax enfaixado de sua possuidora natural.


— Tudo que nós tinhamos, seus velhos malditos, agora é de vocês. — Ela diz de costas para eles, fixa em Ivana, ajoelhada ainda. — Eu cumpri a minha parte no trato que fizemos para que minha esposa fosse salva.
— E nós cumpriremos a nossa, sua esposa não vai mais sofrer. — Nargel abre a caixa e abraça a escultura. — Esta é uma obra muito especial, eu…
— Não me interessam suas histórias, seu verme! Quero a minha esposa de volta!
— O que eu contarei tem a ver com sua…
— Eu não quero ouvir nem mais um segundo sequer a sua voz, seu miserável filho da puta! Restabeleça agora mesmo Ivana, cumpra a parte de vocês em nosso trato!
— Nós vamos cumprir, mas de um modo que você…
— O que mais querem de nós duas? Já não tiraram tudo de nós?
— O dinheiro de vocês nunca foi, realmente, o nosso verdadeiro objetivo, Flora Esteves Bueno de Albuquerque.


Flora se ergue e encara os sorridentes irmãos gigantes oito metros à sua frente. Mesmo com um corpo em frangalhos, seu olhar ainda é desafiador o suficiente para não esmorecer totalmente diante deles.


— O que você…
— O que meu irmão quer dizer, Flora Esteves Bueno de Albuquerque, é que para Mooh Jor Ho Huo não importa nenhum tipo de riqueza material. — Agon dá cinco passos em direção a ela. — E nós não usufruimos das riquezas daqueles que Mooh Jor Ho Huo traz à nossa Loja. São apenas recursos que fazemos questão apenas de guardar, nunca usando-os. Mooh Jor Ho Huo nos concede tudo e é assim que nossa família transita pelo mundo. Somos colecionadores de riquezas desde a Antiguidade que os livros de História da sua Humanidade desconhecem.
— Vocês jogaram seu doentio jogo mais uma vez…
— Doentio em sua humana visão, mas para nós é um estudo do quanto a sua Raça não tem sequer a mínima ideia de como enfrentar a nossa.
— E você foi mais uma que nos concedeu mais uma parte do nosso imemorial estudo, Flora Esteves Bueno de Albuquerque. — Nargel põe a escultura em uma das estantes da Loja. — Seu desespero alimentou Mooh Jor Ho Huo. Sua dor ativou Mooh Jor Ho Huo. Suas lágrimas alegraram Mooh Jor Ho Huo. Sua riqueza é praticamente um inútil recurso para nós e para Mooh Jor Ho Huo.
— Vocês… Então…
— Como dissemos, Ivana não sofrerá mais. Porém, isto não quer dizer que a salvaremos.
— Cachorros desgraçados! Filhos da puta! Miseráveis! Velhos miseráveis!
— Seu ódio apenas serve para que Mooh Jor Ho Huo se manifeste aqui e agora, Flora…
— Não! Não! Ivana… IvcoraçãolAo olhar para Ivana, Flora vê que a mesma já não respira, o olhar profundamente branco e a pele destacando-se dos ossos. Lágrimas, enfim, quebram a armadura guerreira dela, que ergue o olhar para cima… Gravitando a um metro e setenta do cadáver de sua esposa, uma escultura em formato de coração, azul-escura, branca e cinza-clara emite uma ofuscante luz violeta. É o coração de Ivana, o coração de sua esposa, o coração de sua amada.


— Essa é a matéria-prima a partir da qual fabricamos nossos Corações para Mooh Jor Ho Huo, Flora Esteves Bueno de Albuquerque. Todo coração escolhido pelo Nosso Artista Indescritível é coração pertencente ao nosso Povo. Mooh Jor Ho Huo se aproxima agora e se agrada do seu coração, Flora Esteves Bueno de Albuquerque. Mooh Jor Ho Huo lhe dá duas escolhas: se tornar uma Escrava dele como nós somos ou uma prisioneira naquele lugar que te mostramos. Qual é a sua escolha agora, humana fadada ao eterno sacrifício na Roda da Matéria e da Imaterialidade?


Flora olha novamente para Ivana. Olha novamente para sua esposa. Olha novamente para sua amada. Olha novamente para o único amor de sua vida. E as lembranças retornam. Lembranças como a do primeiro olhar que trocaram. Lembranças como a do primeiro beijo que compartilharam. Lembranças como a da primeira noite de sexo que tiveram. Lembranças como a do casamento, apoiado apenas pelos amigos delas, reprovado por suas respectivas famílias. Lembranças como a da primeira rota de viagem em redor do mundo que realizaram juntas. Lembranças como a do primeiro aniversário de casamento, que comemoraram com todos os amigos delas em uma grande festa na amada casa que construíram juntas. Lembranças. Lembranças. Lembranças.


— Tudo isso será um passado esquecido, Flora Esteves Bueno de Albuquerque, quando sua Escravidão em Mooh Jor Ho Huo se concretizar. Seu coração foi escolhido por Mooh Jor Ho Huo, sinta-se agradecida pelo que Ele lhe concede: a Imortalidade, para que outros corações possam ser escolhidos para a nossa Arte ou como nossos Irmãos Nele. Seja nossa Irmã, humana de febril coração, Mooh Jor Ho Huo está próximo daqui e te concederá a mais gloriosa Escravidão.


E neste instante, Flora concebe a verdade que esteve ocultada desde que o coração de Flora foi requisitado pela escultura que tanto odiou. Ela mesma sempre fora o verdadeiro objetivo de Nargel e Anton; o verdadeiro coração que atraiu a atenção de Mooh Jor Ho Huo. Ivana, então, foi apenas um descartável recurso para lhe aproximar Daquele que lhe quer como Escrava. Verdade clara, simples, direta e bárbara. Ela põe a mão esquerda na cintura e retira um revólver calibre trinta e oito com balas comuns, que pertencia a Ivana, a quem ensinou a atirar. Retomando seu combativo olhar, se volta para Nargel, Agon e Algo que se abre no espaço todo da Loja. Aponta o revólver para os irmãos.


— Essa é a escolha dela, Nargel.
— Uma corajosa escolha para alguém tão pequeno diante de Mooh Jor Ho Huo, Agon.
— Eu quero que vocês dois enfiem nos cus Mooh Jor Ho Huo, velhos filhos da puta! E você, Mooh Jor Ho Huo: VAI TOMAR NO OLHO DO SEU CU ETERNO, SEU GRANDE VERME DESGRAÇADO FILHO DA PUTAAAAAAAAA!!!!!!!!!!!!!!!!!


Flora atira.

………

— Mais um que Mooh Jor Ho Huo escolheu se aproxima, ao lado da esposa e dos três filhos, Agon.
— Mostremos a ele o caminho até nossa Loja.
— Será ele outra decepção para Nosso Artista?
— Creio que não, já falhamos muito neste século.
— Mesmo assim, Nargel, teremos que tomar medidas diferentes daquelas que escolhemos da última vez.
— Concordo… Vá para a entrada agora, eles estão chegando aqui.


Agon se dirige à porta, enquanto Nargel deposita em uma estante ao fim da Loja o último Coração que moldaram. O Coração cuja origem foi o órgão que pertencera à esfuziante e alegre Ivana. O outro coração, o de Flora, encontra-se acima desta na dimensão de prisioneiros que pela História Terrestre desafiaram a Mooh Jor Ho Huo e seus escravos. Sempre com uma inacabável sede, ela eternamente beberá do sangue a gotejar do coração dela. Sempre com um fulminante horror, o mesmo horror de todos em redor na mesma punição sem fim exigida por Mooh Jor Ho Huo, ela eternamente nunca saciará a grande sede pelo sangue de seu próprio coração. Este ainda bate. Ainda pulsa. Ainda arde de amor por Ivana.


[E O CORAÇÃO DE MOOH JOR HO HUO ETERNAMENTE BATE PELOS HUMANOS CORAÇÕES POR ELE ESCOLHIDOS]





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