segunda-feira, 10 de outubro de 2016

A Loja Dos Corações De Mooh Jor Ho Huo - Parte II


Dream - Grzegorz Kmin


Por uma semana, Ivana e Flora se mantiveram distantes, brigadas por causa da aquisição da escultura. Flora insistiu que o gasto na compra da mesma foi desnecessário, uma vaidosa atitude de sua esposa. De sua parte, Ivana defendeu a aquisição como o primeiro “presente decente”, nas palavras dela, que identificava a união das duas. Durante os dias nos quais se mantiveram afastadas, somente falando uma com a outra o básico e necessário, uma crise inédita nasceu entre elas. Nunca antes haviam brigado e se afastado tanto uma da outra; houve, em algumas ocasiões, apenas pequenas desavenças resolvidas debaixo dos lençóis… E a maneira como se reaproximaram foi novamente abençoada pelos suores, beijos, carícias e dedos penetrantes uma na outra abaixo da segura verdade dos lençóis… Como nunca antes ocorrera, os corações das duas bateram em um ritmo explosivo, caótico e aceleradíssimo na madrugada da segunda-feira a marcar uma semana da aquisição do belíssimo Coração. Este, posto no quarto delas acima de uma mesinha de vidro, testemunhou a guerra travada por elas no campo de batalha dos lençóis. E, no momento do orgasmo simultâneo provocado pelo poder dos dedos delas em ação, o som de batidas altíssimas foi ouvido durante os trinta segundos de duração do êxtase final. O gozo escorreu abundante,enquanto elas olhavam para a peça a dois metros e onze centímetros da cama.



— Você… ouviu isso… Flora?
— Ouvi, Ivana…
— Foi uma alucinação?
— Essa coisa…
— Não comece com isso de novo, Flora! Caralho!
— Ivana…
— Ivana, o caralho! Vai começar a falar de novo contra minha atitude? Não gostou que eu gastei o nosso dinheiro com algo útil para nós duas?
— “Útil”, Ivana? Uma coisa bonita, sim, mas que…
— Decidiu parar de gostar de Arte agora, depois que comprei sem a sua “autorização” o nosso presente?
— Eu gosto de Arte, somente não gosto disso aí é de onde veio…
— Aqueles senhores que você julga pela aparência por puro preconceito são grandes artistas! E não são os bandidos que você tanto pensa que são!
— Eu não os discrimino, apenas não gostei daqueles dois!
— E por isso me criticará o resto da vida por causa da minha compra na loja deles?
— Porra, Ivana, eu vou ter que te explicar de novo?
— Explicar de novo que “aqueles dois nos induziram a comprar o Coração por obscuros motivos distantes da humana razão”? Você ficou paranóica desde que comprei essa obra ou já era assim é eu não percebia? Daqui a pouco, vai montar uma teoria da conspiração sobre a loja, os donos, a família destes…
— Desde que essa coisa entrou em nossa casa, Ivana, que não estamos mais nos relacionando como antes.
— Ah, é, Flora? E adivinha de quem é a culpa? Você é tão apegada ao dinheiro que deve estar com muita raiva por ter comprado o Coração sem o seu consentimento!
— Não seja bu…
— Burra? Me chamou de burra? Burra é você, sua cretina, por acreditar que uma obra de arte tenha a capacidade de manipular os nossos corações como se os mesmos fossem brinquedinhos de crianças! Vá se foder, cretina!
— Vá se foder você, Ivana, estou cansada das suas idiotices românticas estimuladas por impulso e instinto!
— Então, Flora, se está cansada de mim, que tal nos separarmos?
— Bom, seria uma atitude sensata de nossa parte, Ivana! Não vou me contentar jamais com a perda de onze milhões de dólares na compra dessa merda que encheu seus olhinhos babacas de romântica estúpida!
— Ahá! Enfim, Flora, você confessou que está assim mais é por causa do dinheiro que eu gastei!
— Entenda como você quiser, sua puta!
— Putas, nós duas somos mesmo putas, muito bem! Me ofenda mais um pouco, Flora, estou gostando de ver cair a sua máscara de mulherzinha fina, fria e educada!
— Eu vou para a sala agora, Ivana, fique aqui com essa merda horrorosa de muito mau gosto que você comprou!
— Vá tomar bem dentro do olho do seu cu, sua vadia!
— Vadia é a sua mãe, Ivana, que te mimou demais!



Flora saiu do quarto batendo com extrema violência a porta do mesmo. O coração dela pulsava como máquinas de uma fábrica de carburadores em pleno funcionamento só mesmo tempo. Cada batida, enquanto se encaminhava para a sala, produzia terremotos intensos em suas emoções, uma ascensão de sentimentos negativos em alta escala expandindo-se com ferocidade. O desejo no coração de Flora era pegar uma faca na cozinha, voltar para o quarto é esfaquear Ivana duas mil e trinta e quatro vezes por todo o corpo. Outro desejo no coração dela era pegar o álcool no armário da cozinha, aguardar que Ivana dormisse, espalhar aquele pela cama e acender um fósforo para ver sua esposa queimando viva aos gritos até morrer. Um outro desejo no coração dela era estrangular Ivaba, correndo de volta ao quarto. Mais um outro desejo correspondia a espancar Ivana até a morte com uma pesada chave de fenda que mantinham na garagem, golpes constantes na cabeça até que a mesma se tornasse apenas um amontoado de ossos, sangue e miolos. O coração de Flora fez surgir outros desejos. O coração de Flora transitou por mais Assassinos desejos. O coração de Flora instigou desejos de todos os tipos relacionados a mortes ultraviolentas, bizarras, cruéis. O coração de Flora batia a favor de nefastos desejos que a educação e a morao aplacam no íntimo humano, mas não extinguem por completo. O coração de Flora desejando estar Ivana de todas as formas, repetidas vezes, ininterruptas vezes, insanas vezes, eternas vezes…



— Não, eu não sou assim… Eu nunca fui assim… Eu nunca serei assim…



Sentada no sofá da sala, com o rosto coberto pelas mãos, Flora aquieta os tenebrosos desejos que se manifestam em seu coração. Recuperando a razão, ela meditou por um considerável tempo, mantendo aquela posição, sobre o que aconteceu no quarto. Ela não era tudo aquilo pelo qual fora por sua esposa acusada; nem está era tudo o que dá mesma disseram em uma estranha explosão de raiva. Mesmo milionárias e pessoas renomadas, conhecidas tanto no Ocidente quanto no Oriente por causa de seus intelectos, as duas sempre foram pessoas simples, humildes e caridosas, preocupadas com o próximo e dispostas a tudo para auxiliar os mais necessitados. Isto pode parecer o mísero clichê das “riquinhos que gostam de fazer caridade apenas para se mostrarem como boas samaritanas diante da sociedade mundial”, mas as duas nunca mediram esforços e nem negaram auxílio a quem não podia ajudar a si mesmo. Poderiam estar atualmente residindo em uma grandiosa mansão em Manhattan, Londres ou Pequim, mas decidiram se misturar ao povo de sua amada Recife, sem ostentarem a fortuna que possuem, aplicando os rendimentos de parcelas da mesma em bolsas de valores para fins de grandes projetos sociais. Estes, coordenados pessoalmente por elas, já contribuíram para diminuição de problemas como doenças e falta de alimentos nas regiões mais pobres do mundo. Já capitalizaram em ações, mesmo em momentos de crise financeira, o quíntuplo do que atualmente possuem no Santander, sem se anunciarem como as administradoras daqueles projetos publicamente.


A vaidade, portanto, nunca fez parte de Flora e nem de Ivana. A casa delas situa-se no Bairro de Casa Forte, de classe média; mas, isso não significa que elas morem em uma casa luxuosa. Residem em uma construção simples de alvenaria suspensa por pilares em um terreno de cento e onze metros quadrados. O carro que possuem há dez anos é um Renault Clio branco que elas mesmas conservam com muito carinho. As roupas que usam são igualmente comuns, mais parecendo com as de mulheres do povo mais simples do que com as madames que arrogantemente desfilam pelos bairros nobres recifenses em carros luxuosíssimos. Na simplicidade, transitam nos mais diversos meios; carismáticas, vão de galerias de arte a favelas com a mesma desenvoltura; abertas, se relacionam com mendigos, prostitutas e marginais, sendo por todos respeitadas e bem consideradas. Alguns a considerariam como “esquerdistas”, mas as mesmas detestam Política e não se intrometem neste assunto. São humanas no termo mais completo da palavra, se interessando de todo o coração em humanos relacionamentos e fatos, sem discriminarem o próximo por suas origens ou condição social.


Por isso, meditando sobre a maneira de ser delas, Flora começou a perceber que algo de muito errado havia nelas desde que o famigerado Coração que ela tanto odiava adentrou na casa. Ela se lembrou dos olhares e sorrisos de Nargel e Anton, de como seu coração bateu na conversa que teve com o primeiro… Se está em jogo alguma força fora de seu humano intelecto, ela concluiu que bater de frente com Ivana, conquistada pela sugestão da aquisição do objeto por inteiro, somente resultaria em infindas discussões inférteis. Flora precisou de muito mais tempo ainda, com o rosto coberto, para tentar encontrar um modo de se livrar do odiado objeto no quarto. Recorrer à conhecida delas, Mãe Glória de Omulu? Utilizar de sua genialidade para bolar um mirabolante plano sem que Ivana fosse brutalmente afetada? Ela não queria acreditar, se negava a acreditar, que estava paranoicamente culpando um objeto inanimado pelos problemas conjugais inéditos com sua esposa após vinte anos de casadas… Porém, era mais do que certo que seu coração correspondia negativamente à visão daquele no quarto cada vez mais. E seus ouvidos captaram as batidas do Coração bem elevadas… Uma cientista diante de uma situação curiosamente bizarra como esta, beirando o roteiro mais trash possível de um filminho de Terror furreca, constitui matéria para qualquer comediante stand up que se acha engraçado. Nada se divertindo com sua situação, Flora consultou seu pacificado coração, tirou as mãos do rosto, levantou-se e começou a lentamente caminhar até o quarto.


Pedir perdão de joelhos era uma atitude ridícula e brega para uma mulher como ela, mas em Ivana, extremamente sensível, o efeito seria acalentador. Não seria humilhação, mas um ato de amor provido de intensa profunda sinceridade. Da sala até o quarto são nove metros de distância, calmamente sendo agora percorridos. Cada batida do coração de Flora é lento, meditado, suficientemente suave para que ela confirme a calmaria restabelecida no mesmo. Ivana é o único laço que tem para com a vida, a única mulher que amou; houveram quarenta relações rápidas e fugazes antes de Ivana, mas esta é a única que verdadeiramente lhe conquistou há vinte anos atrás. Perdê-la por causa de uma obrazinha estúpida de arte que chega a ser grotesca a seus olhos? Ela não poderia dar chance para que isso ocorresse, nenhuma chance. Mesmo que tivesse que retirar o Coração à força do quarto onde já viveram arrebatadoras noites de infinitas luxúrias, ela teria que salvar seu casamento. Tudo por amor à sua Ivana, a companheira perfeita, a parte inquestionável de sua vida que ela jamais perderia por causa de uma coisinha obtida em uma bizarríssima loja. E, ao pôr a mão na maçaneta da porta do quarto, o coração de Flora novamente se acelera nervosamente.


O quarto está nas trevas, Ivana apagou até mesmo os quatro abajures em cada canto daquele. Olhando para baixo, ao lado esquerdo da porta, ela percebe Ivana sentada de costas para ela. Ouve-a chorar e gemer muito baixo, se ajoelhando para abraçá-la.



— Ivana, me per…



Ao abraçar sua esposa, ela não sente as batidas do coração da mesma. O corpo ainda continua quente, ela ainda respira, mas estremece tremendamente em seus braços. E quando as mãos de Flora tocam em seu tórax, afundam em um buraco úmido e mais quente ainda.



— Ivana!



Com o coração a explodir como inumeráveis bombas atômicas, Flora se ergue e liga o interruptor, iluminando o quarto. Se ajoelha agora à frente de Ivana e perde a voz… Um buraco que fez os seios da mesma desaparecer é o tórax da mesma agora. Os pulmões funcionam normalmente, bombeando mecanicamente o oxigênio; o sangue escorrendo abundante, se expande pelo tapete do quarto. O corpo e o rosto de Ivana assumiram as feições de uma idosa de oitenta anos; os cabelos já não existem, uma enrugada careca substitui os mesmos. Os olhos continuam ativos, vivos, se voltando para a direção da cama; os olhos de Flora estão embaçados de lágrimas e se voltam também para a cama quando Ivana aponta para a mesma com uma enrugada mão direita.



— Meu coração foi requisitado pelo nosso presente, Flora…



Um metro e quarenta centímetros acima da cama, o coração de Ivana flutua. Parado. Batendo. Bombeando sangue produzido por ele mesmo. Firme. Poderoso. Perfeito. Belo. Estabilizado. Um espetáculo aterrador exibindo um milagre dos mais profundos de um Verdadeiro Inferno.



[OS CORAÇÕES BATERÃO UMA TERCEIRA VEZ]




Share:

0 Cadáveres Aqui Escavaram Suas Covas:

Meu Perfil No Facebook

Esta Cova No Facebook

Prosa De Um Coveiro Inominável

O Terror Inominável. O Horror Inominável. A Loucura Inominável. A Cova Aqui É A Do Puro Pesadelo Das Covas Mais Profundas E Elevadas. Vozes Estranhas Aqui. Sons Estranhos Aqui. Palavras Estranhas Aqui. Estranhas E Inomináveis. Sintam-Se Conduzidos Pelo Carro Inominável Do Terror Inominável. Sintam-Se Conduzidos Pelo Carro Inominável Do Horror Inominável. Sintam-Se Conduzidos Pelo Carro Inominável Da Loucura Inominável.

O Coveiro Inominável

Minha foto
Nos Infernos, O Abismo
Visualizar meu perfil completo

Cavam Aqui Suas Covas:

Arquivo do blog

Marcadores


Firefox

Firefox
Obtenha visualizações gratuitas no Snap.com
Add to Technorati Favorites

Arquivo do blog

Recent Posts

Unordered List

Theme Support