domingo, 11 de dezembro de 2016

Dentro Do Armário



Era bom entrar no meu armário de infância. Minha mãe me deu com muito carinho quando eu tinha cinco anos de idade e, durante dois anos, ele foi esconderijo secreto, parque de diversões e um refúgio para chorar quando ela brigava comigo. Um dia, eu pensei que ela estava brincando comigo ao me pegar nos braços e pôr dentro do armário, me pedindo para ficar quieto. Uma pequena brecha da portinha daquele armário me permitiu ver o que acontecia no chão do meu quarto: o primeiro estuprador da minha mãe estava em cima dela.

Adorava aquele armário, que minha mãe mandou pintar de azul por dentro e por fora. Desenhos da Disney, da Turma da Mônica e de Super-Heróis ela mesma colou nele. Ficava eufórico toda vez que chegava da escola, via meu armário e me trancava para fazer meu dever de casa. Todo dia eu fazia aquilo e me dava muita alegria… Até o dia no qual ela me trancou nele, nervosa, me pedindo para ficar quietinho, com medo… E pela brechinha da portinha, eu vi o segundo estuprador em cima dela.

Meus primos e coleguinhas de escola, quando iam para minha casa, brincavam dentro do armário comigo. Todo mundo era bem pequeno, o armário era grande e tudo se tornava uma grande festa. Minha mãe só reclamava depois que as minhas roupas ficavam todas bagunçadas, amarrotadas e um pouco sujas. Ela, mesmo assim, lavava com muito carinho a minha roupa toda, passava e dobrava, guardando no armário, do mesmo jeito. E, naquele dia, ela também me guardou no armário, me pedindo para ficar quietinho, com aquela voz melodiosa dela… Eu fiquei calado e pela brechinha vi o terceiro estuprador em cima dela.

Nunca conheci meu pai, ele não quis me assumir quando minha mãe engravidou. Ela era médica, trabalhava em hospital público, e contou apenas com a ajuda dos meus avós para me criar. Não quero conhecer meu pai; nunca quis, na verdade, conhecer o desgraçado. Se ele estivesse em casa naquele dia, minha mãe não teria me trancado no armário, me pedindo para ficar quietinho. Se ele estivesse em casa naquele dia, eu não veria pela brechinha o quarto estuprador em cima da minha mãe.

Meus avós sempre foram muito legais comigo, sempre me dando tudo que eles podiam. Com a minha mãe, pagavam minha escola, compravam minhas roupinhas, meus brinquedinhos, eu tinha tudo que uma criança feliz poderia ter. Me levavam ao shopping, ao cinema, ao parque, para onde quer que uma criança precisasse ser levada para se divertir. Foi uma infância muito feliz, um período muito bom da minha pequena vida infantil, até aquele dia no qual minha mãe me trancou no armário. Eu fiquei quietinho, como ela mandou, vendo pela brechinha o quinto estuprador da minha mãe em cima dela.

E o sexto estuprador. E o sétimo estuprador. E o oitavo estuprador. E o nono estuprador. E o décimo estuprador. E o primeiro, que voltou, e a esfaqueou… Pela brechinha, vi uma, duas, três, quatro, cinco, seis, sete, oito, nove, dez, onze, doze, treze, quatorze, quinze, dezesseis, dezessete, dezoito, dezenove, vinte, vinte e uma… Cinquenta e cinco facadas pelo corpo todo da minha mãe. Ela era a mulher mais bonita da cidade, cobiçada por todos os homens. Aqueles que ficaram em cima dela fugiram, mas foram presos e assassinados, um por um, na cadeia. Fiquei sabendo que ficaram em cima deles também. Mas, nas prisões não existem armários.

Eu não me lembro de mais nada da minha infância, eu só sei que meus avós me criaram sozinhos com muito carinho e amor. Quando morreram, me deixaram uma pequena fortuna, que usei para montar uma loja de móveis. Sou médico, pediatra, também, mas não exerço a profissão porque prefiro ser vendedor de móveis. Já tenho filiais em outras cidades e estou indo muito bem como empresário também. E vender tem sido bom, eu passo a conhecer muitas mães e muitos filhos. Visito minhas clientes solteiras com filhos e tranco estes nos armários, pedindo para ficarem quietinhos, enquanto fico por cima delas. Depois, dou cinquenta facadas quando termino e o dobro nos filhos.

Eles poderiam ter me descoberto naquele armário onde minha mãe me trancou… Mas, não vasculharam o quarto e me deixaram vivo para hoje continuar minha vida fora do armário. Mas, ainda estou lá dentro, quietinho, vendo pela brechinha os estupradores em cima da minha mãe e cada uma daquelas facadas… Preciso me livrar dessas lembranças fazendo outras lembranças hoje. Preciso esquecer aquele dia, dentro daquele armário, que até hoje guardo em meu quarto. Preciso esquecer aquilo tudo, preciso mesmo, muito mesmo…

Mas, quanto mais tento, criando novas lembranças, ainda me vejo dentro do meu armário de criança. Preciso continuar tentando, um dia tudo vai desaparecer e eu vou poder sair de lá…


Inominável Ser
ENTERRADO
DENTRO
DE UM
ARMÁRIO




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