domingo, 12 de fevereiro de 2017

Você Precisa Dormir, Menina Martina...


Photo by Konstantin Alexandroff


Todo dia, diante deste espelho, me refugio em pensamentos refletindo poucas lembranças e muitas fugas. Este reflexo aqui, um pedaço de mim parado ou o que está lá do outro lado sou eu? Aquela que está refletida sou eu mesma ou eu sou o reflexo dela? Estas meditações me envolveram durante quarenta anos de minha vida. Desde pequena, desde a idade na qual eu comecei verdadeiramente a raciocinar, eu me indiquei sobre a criatura que via refletida no espelho. Eu me fixava nela, a abordava, questionava, gritava com a mesma até a rouquidão fazer com que eu me calasse. Quarenta anos nisso, afastando todos em meu redor, nada mais pensando a não ser em fazer com que ela me respondesse… E hoje, pela primeira vez, ela falou comigo… E eu não sei se estou em  um sonho que sempre desejei ou em um pesadelo que nunca planejei que de mim se aproximasse.


— Está fraca. Logo você. Você que tanto quis que eu te respondesse.
— Não estou fraca.
— Sim. Você não está. Você é fraca. Abandonou tudo por minha causa. Abandonou tudo para ficar apenas comigo.
— Quem é, na verdade, você? É mesmo o meu reflexo?
— E se você for o meu reflexo?
— Qual lado aqui é o verdadeiro?
— E se não houver um lado verdadeiro?
— Se não houver…
— Seus questionamentos. Cada um deles. E se forem os meus questionamentos e não seus?
— Se forem seus…
— Se tudo for meu. Pense se tudo for meu.
— Você pode estar mentindo.
— E se você estiver mentindo?
— Se eu estiver mentindo…
— Devia ter me deixado ficar calada até o fim da sua vida.
— Não, eu tinha que saber quem é você!
— E você sabe quem você é?
— Eu sei quem você é!
— Não, você não sabe. Nunca soube. Nunca saberá.
— Eu sei, sempre soube, sempre saberei!
— É verdade? É mesmo verdade? Ou mente para você mesma?
— E se você aqui é a mentirosa?
— E se a mentira for você?
— Qual é o seu objetivo?
— Eu apareço diante de ti no espelho há quarenta anos. Vi seus cabelos grandes, pequenos, raspados. Vi sua pele lisa, oleosa, enrugada. Vó seus olhos brilhantes, foscos, mortos. E você me pergunta qual é o meu objetivo?
— Por que eu te vejo?
— Na verdade, sou eu que vejo você.
— Por que eu não consigo parar de te ver?
— Na verdade, sou eu que não consigo parar de te ver.
— Por que você não desaparece?
— Na verdade, é você que não desaparece.
— Por que você existe?
— Na verdade, é você que existe.
— Você existe?
— Eu existo porque você faz com que eu exista.
— Qual de nós duas é real?
— Existe mesmo o que seja real?
— Você não está solucionando nada…
— Não existe solução para nada.
— Te persegui tanto… Te chamei tanto… E você não consegue me dar uma resposta…
— Eu não sou uma resposta. Eu não tenho nenhuma resposta. Nem você é ou tem uma resposta.
— Você zomba de mim…
— Sim, você é uma piada.
— Uma piada…
— Me perseguiu. Me provocou. Me perturbou. Me tirou daqui de onde eu estava. Me desequilibrou para poder saber quem eu sou. Mas, quem está verdadeiramente desequilibrada?
— É só isso que tem para me dizer?
— E o que você tem para me dizer?
— Quem sou eu?
— Uma medíocre pergunta.
— Quem me fez como eu sou?
— Uma insana pergunta.
— Quem me deu este rosto refletido aqui?
— Uma insensata pergunta.
— Me dê uma resposta…
— Não há nenhuma resposta a ser dada.
— Há alguma…
— Não há. Você se engana. Você se perde. Você nem é o que pensa ser. Ou você alguma vez pensou ser algo?
— Penso apenas em você!
— E se você for apenas um pensamento meu?
— Eu sei que você…
— Não, querida. Você não sabe. Assim como eu não sei. Assim como ninguém dos dois lados do espelho sabe.
— Você pode me dizer quem é você?
— De novo. Esta pergunta. Não vou responder.
— Eu preciso…
— Você precisa dormir, menina.
— Não, dormir…
— Você precisa dormir, menina.
— Não, eu…
— Você precisa dormir, menina.
— Pare de repetir isso!
— Você precisa dormir, menina.
— Não quero dormir!
— Você precisa dormir, menina.
— Não vou dormir!
— Você precisa dormir, menina.
— Não, quero continuar falando com você!
— Você precisa dormir, menina.
— Não, não vou te deixar ir embora!
— Você precisa dormir, menina.
— Não, desgraçada, não!
— Você precisa dormir, menina.
— Não, desgraçada!
— Você precisa dormir, menina.
— Desgraçada!
— Você precisa dormir, menina.
— Pare de repetir isso, desgraçada!
— Você precisa dormir, menina.
— Pare, desgraçada!
— Você precisa dormir, menina.
— Pare! Pare! Pare!
— Você precisa dormir, menina.
— Desgraçada! Desgraçada! Desgraçada!

— Você precisa dormir, Martina.


É o médico na porta do banheiro, acompanhado por dois enfermeiros e a enfermeira que traz a camisa-de-força. Eu vou ser posta nesta mais uma vez, sedada, vão me fazer dormir. A porta vai ser arrombada, como foi das outras vezes. A primeira vez que fizeram isso, eu reagi... Sempre me lembro da raiva que pela primeira vez senti na vida, uma raiva igual a esta! Cortei as gargantas de meus pais e três irmãs enquanto eles dormiam! Depois, sempre que me interrompiam, continuei cortando outras gargantas! Me dava raiva, eu cortava, a raiva passava! Até me prenderem aqui há oito anos e não cortei mais gargantas... Mas, eles me interrompem! E a raiva chega! O médico, os enfermeiros, a enfermeira! Com eles, é mais difícil, são muito altos, muito fortes, me dominam, me amarram, me sedam, me tirando da companhia do espelho! E nunca dormem perto de mim... E sempre me deixam amarrada na cama... Eu poderia quebrá-lo e cortar a minha garganta com um caco seu, dando um fim nisso, espelho... Mas, não… Não… Quero falar novamente com ela…  Vou falar com ela novamente… Esperei quarenta anos para que ela me respondesse e eu não vou desistir dela assim! Não vou! Não! Não vou!


— Você vai aparecer de novo falando comigo…

— Martina, abra a porta!

— Você me ouve?

— Martina!

— Sei que me ouve, eu te ouço rir de mim agora…

— Lucas, Rivaldo, arrombem a porta!

— Me acha engraçada, desgraçada?

— Não a machuquem, dominem como sempre fazem!

— Nos falamos outro dia, Martina…

— Segurem ela agora, com calma!

— Boa noite, Martina…


Inominável Ser
REFLETIDO
NO ESPELHO
COMO ELE
MESMO
OU COMO
OUTRO SER




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