segunda-feira, 5 de junho de 2017

Uma Grande Multidão


Art by Toshihiro Egawa


Era um agrupamento incontável de pessoas em uma larga praça, todas parecendo hipnotizadas, robôs que aceitam tudo que lhes cai à mesa. Alguns erguiam bandeiras, outras encontravam-se estáticos, na mesma letargia anunciante de dominante sobremesa. Eu caminhava acima de todos, em uma arquibancada, observando sem conseguir notar cada rosto na estranha multidão tão vasta. E por cima dela, um tipo de bordel, pintado de verde e branco, símbolos esotéricos gravados na parede, se encontrava. Dentro do bordel, conversas, gargalhadas e o barulho de uma música cujos tons pareciam sussurros de zombaria. E quanto mais eu caminhava na arquibancada, mais eu via, como imagens de Entidades de todos os tipos em um telhado. E me fixei em uma imagem que me chamou a atenção, a de um antigo ídolo de uma era e civilização há muito extintas. E senti o cheiro de um cigarro… Olhei à minha frente e vi o dono do cigarro… Meu interesse, então, se fixou em tal misterioso fúnebre fumante de ar sábio.

Seu rosto estava ocultado por uma névoa, mas seus cabelos identifiquei como negros e grandes. Trajava um terno branco, mas o sinistro em sua aura arrepiava o mais profundo de minha alma. Por um instante encaramos um ao outro; por um instante, não existiu a arquibancada, o telhado, o bordel e a multidão; por um instante, o silêncio reinou naquela intersecção entre Realidades. E o cigarro fazia danças diante de meus olhos, sua fumaça formando estranho desenhos no ar congelado. E o seu dono falou, projetando até mim uma penetrante voz rasgada, antiga e tumular.


— “Você Me Ama, Mas Eu Não Te Amo. Vê Esta Multidão Toda Aqui? Aquele Bordel Ali? Estas Imagens Por Lá? São Todos Resquícios Da Corrupção De Sua Gente, De Sua Raça Inútil E Bastarda. Vocês, Humanos, Defecaram Nas Maravilhas Deste Microverso Chamado Terra E Cada Vez Mais Poluem E Assassinam Seu Mundo Com Ondas De Atitudes Oriundas Do Esgoto E Da Lama. Estancaram O Sangue Que Lhes Dava Verdadeiros Tesouros E Hoje Acumulam Os Restos Mortais De Um Sonho Dourado Do Qual Você Ainda Se Lembra. Vocês E Alguns Que Beberam Do Elixir Antigo Da Verdadeira Força Que Aqui Havia, Aqui Na Terra Onde Estamos Neste Momento. Assim Está Hoje O Teu Mundo, Humano, Uma União De Uma Grande Multidão Abaixo Da Grande Cidade Prostituída Babilônia, Sede De Santificados Ídolos Da Destruição De Tua Civilização. Eu Apenas Fumo O Meu Cigarro, Caminho Pelos Quatro Cantos Deste Charco E Inundo De Algumas Esperanças Os Corações Desesperados. Pode Me Chamar Do Que Quiser, Mas Estou Lhe Avisando Que O Teu Mundo Está Todo Errado. A Chaves Do Portão Da Liberdade Foi Quebrada E Os Reis Da Grande Prostituta Se Refastelam Sobre A Lavagem Formada Pela Multidão De Sua Raça. Sua Gente Tola Se Acomoda, Se Entope De Mentiras, Arrota Arrogância E Peida Prepotências Sobre Cada Lei Da Natureza. É, Rapaz, A Humanidade Deste Mundo Estabelece Cada Vez Mais Uma Fossa Para Onde Todos Vocês Já Estão Se Encaminhando. Os Das Luzes Tentam, Os Das Trevas Atacam E Os Neutros Como Eu Apenas Observam. O Adversário Se Vangloria E Aquele Que Caiu Para Trazer A Luz Para Todas As Nações Distante Da Una Perfeição Se Desespera. Outros Mundos Apresentam O Mesmo Distúrbio, O Juízo Final De Muitas Hunanidades Se Apresenta A Tais Mundos. E Você, A Quem Eu Não Amo E Que Me Ama, Meu Amigo, Não Pode Fazer Nada. E Nenhum Daqueles Que Batem Altas Asas Pode Fazer Alguma Coisa. É O Destino. A Soberana Vontade Evolutiva. A Justa Medida Pertencendo Aos Mistérios Matriarcais E Patriarcais. A Rebelião Das Forças Que Sua Raça Deturpou, Vocês São Criminosos… Mas, O Que Isso Realmente Me Importa? Eu Continuarei Caminhando E Fumando Meu Cigarro, Surgindo Em Músicas E Poesias De Diversos Modos Imaginários. Eu Sou A Imagem E Semelhança De Vosso Eu E Você É A Imagem E Semelhança Do Meu Eu. Todos São Assim, Todos Desta Ridícula Raça Humana Reunida Como Uma Grande Multidão Aguardando A Misericórdia De Algum Deus. Eu Apenas Observo… Observo Toda Queda… Observo Toda Malfadada Obra… Observo Toda Quebrada Horda… Multidões E Mais Multidões Assim Se Reúnem Por Todo Lado, Procurando Bençãos. Mas, Todas Estão Amaldiçoadas E Repletas De Crianças No Caos Afogadas. Crianças Como Você, Meu Amigo Que Me Ama E Que Eu Não Amo.”


E a névoa no rosto dele se tornou mais densa, marcando o desaparecimento de sua presença diante de mim. E olhei para a grande multidão, ainda estática, ainda inerte, ainda morta. E me vi entre eles, tão estático, tão inerte, tão morto quanto qualquer um daqueles que estavam em meu redor. Eu orava quando oravam. Eu me ajoelhava quando se ajoelhavam. Eu acendia velas quando acendiam velas. Eu me divertia quando se divertiam. Eu sorria quando sorriam. Eu gargalhava quando gargalhavam. Eu chorava quando choravam. Eu transava quando transavam. Eu me masturbava quando se masturbavam. Eu parava quando paravam. Eu morria quando morriam. Eu renascia quando renasciam. Eu morria de novo quando renasciam de novo. Eu renascia de novo quando renasciam de novo. Tudo roboticamente fazendo uma roda de torturas girar em sentido horário e anti-horário ao mesmo tempo, emitindo frequências a todas as mentes e almas tão famintas como as minhas. E no bordel todos zombavam de mim e de todos em meu redor. E no telhado as imagens ganhavam vida e também gargalhavam, zombando de mim e de todos em meu redor. E na arquibancada, enfim, me sentei e permaneci apenas observando, retirando do bolso de minha calça um maço de cigarro, acendendo um e fumando.

Entendo agora o que O Diabo com aquelas palavras me revelara.

Entendo agora o que nenhuma humana palavra será capaz de revelar de alguma forna.

Inominável Ser
OBSERVANDO
E FUMANDO
SENTADO
EM UMA
ARQUIBANCADA




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O Terror Inominável. O Horror Inominável. A Loucura Inominável. A Cova Aqui É A Do Puro Pesadelo Das Covas Mais Profundas E Elevadas. Vozes Estranhas Aqui. Sons Estranhos Aqui. Palavras Estranhas Aqui. Estranhas E Inomináveis. Sintam-Se Conduzidos Pelo Carro Inominável Do Terror Inominável. Sintam-Se Conduzidos Pelo Carro Inominável Do Horror Inominável. Sintam-Se Conduzidos Pelo Carro Inominável Da Loucura Inominável.

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