segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

A Folia Dos Ceifadores


The Blessed - Hanna Jaeun


Todas as coisas se aproximam de seu fim determinado algum dia. Hoje, a minha casa está vazia, cheia de fantasmagóricas lembranças, todas formas melancólicas da minha amargura ganhando vida através de mim. Meus pais, minha esposa, meus filhos, meus irmãos, meus amigos: todos mortos. E eu fico aqui ainda, rastejando por esgotantes direções onde não quero estar… Puxaria a corda se pudesse… Apertaria o gatilho se quisesse… Saltaria de um arranha-céu se me permitisse… Infelizmente, sou do tipo fraco e covarde… Já me acostumei ao som da embarcação perdida que vai levando cada vez mais para longe a minha esperança de poder reencontrar a paz e a felicidade junto com o amor que um dia me preencheu. Muitos festejam agora; outros, choram em suas casas; alguns, agonizam acima de suas camas… Ainda estou vivo, vivo e confessando aos meus pesadelos cada arraso que constrói cidades em minha alma. Mas, o meu convidado já está aqui e em mais uma noite vamos conversar sobre tudo que acontece neste mundo onde somos obrigados a permanecer.


— Boa noite, amigo.
— Boa noite.
— Por que não saiu de casa hoje?
— Você já sabe a resposta para esta sua pergunta.
— Sim, não há muito para se aproveitar lá fora agora.
— Nunca há.
— É calamidade por todo lado.
— Os que estão pulando lá fora agora não vêem isto.
— Isso te incomoda.
— E a você não incomoda?
— Amigo, cada Ser aqui no nosso mundo está em uma faixa evolutiva diferente.
— Será que você defende a bagunça dessa festa permanente naquela gente?
— Nossa gente, amigo.
— Nós não fazemos parte deles.
— Fazemos, sim, mesmo não querendo.
— É isso que mais me incomoda.
— Não há como escapar.
— Apenas há como não se contaminar.
— Você está mais amargo hoje, meu amigo.
— Sempre sou assim, ainda mais nesta época de loucura extrema.
— É um sinal isso tudo.
— Sinal de toda a decadência que levará ao fim deste planeta.
— É muito mais do que isto.
— O que há além disto?
— A Raça Humana está fadada a ser a vampira de si mesma. O sangue sugado já não é o bastante, é necessário que novo sangue seja utilizado. Assim, o sugar de sangue continua.
— A Humanidade assassinando a própria Vida…
— A Besta tem nos humanos sua legal e exata representante, não é apenas uma alegoria bíblica. Os cadáveres dos Deuses e dos Demônios moldados pelo comportamento humano apodrecem nas mesmas ruas onde agora a carnalidade é intensamente explorada.
Estão pisando sobre os corpos putrefatos do Arqueiro e do Flautista, da Bela e da Horrenda, ao mesmo tempo. Isso tem um grande preço a ser imediatamente cobrado de cada ser humano, mesmo daqueles que não estão na mesma frequência.
— Sinto tudo isso daqui…
— E não procura fazer nada contra essa autoaniquilação?
— Não sou Mago Supremo ou Alto Ser, irmão, apenas observo mais uma Queda Humana se formando no horizonte terrestre. Não sou um Salvador de mundos, nem de mim mesmo…
— Para este mundo atual não há salvação, só destruição, condenação e extinção.
— A Folia Dos Ceifadores.
— Uma Festa desagradável que eu sou obrigado a assistir bem de perto.
— Queria estar junto com você vendo tudo que na verdade está ocorrendo.
— Ainda não chegou o seu momento, meu irmão.
— Quando chegará?
— Você vive me fazendo a mesma pergunta…
— Isto aqui… este mundo… Já não aguento ficar aqui…
— A Ceifa da sua atual existência ainda não está completa.
— Depois de tudo que perdi…
— Você nada perdeu, eles sempre te visitam como eu.
— Porém, eu não posso conversar com nenhum deles tanto quanto converso com você.
— Eles ainda não souberam canalizar para poder enfocar em uma comunicação como a nossa. Com o tempo, vocês vão conversar.
— Haverá ainda muito tempo para mim, então…
— Haverá, irmão.
— Cada vez fico pior aqui…
— Piores estão muitos outros, acredite em mim.
— Sei que a civilização inteira não está nada harmonizada com a Balança e nem os efeitos de algumas mudanças podem modificar o padrão da Queda que se levanta cada vez mais feroz. Viver assim, com a minha dor e a dor de todo um sistema… você me entende?
— Entendo, meu amigo, porque eu e os outros sentimos o mesmo.
— Estudei tanto, acumulei diplomas, publiquei centenas de livros, alcancei altos graus iniciatórios em diversas doutrinas… Para quê? Para Saber de muita coisa e ser por elas torturado!
— Preferia ser tão ou mais ignorante do que a grande parcela da massa humana?
— Eu queria ser normal…
— Nunca realizará este seu desejo.
— Maldito seja meu caminho…
— Você é uma das Testemunhas Da Ceifa, meu amigo, escolhido quando foi formado há imemoriais eras como um Espírito para testemunhar cada Ceifa dos mundos fadados ao Fim.
— Meus olhos já viram diversas Raças de diferentes mundos perecerem… Eu me membro de tudo…
— Então, você sabe que mais esta etapa da sua Evolução é extremamente necessária para que chegue daqui a alguns milênios a ser um membro da minha Confraria Secreta.
— A cada Existência abro os meus olhos somente depois do parto da Dor em minha alma…
— Eu e meus Irmãos na Confraria sabemos que assim é melhor para você. Aguente mais um pouco, o Expurgo da Raça deste planeta está bem próximo.
— Se é este o meu destino…
— Há um Destino Maior para você bem lá no Futuro, meu amigo. Vou me despedindo agora, estou sendo chamado.
— Obrigado por mais uma visita, meu amigo.
— Boa noite.
— Boa noite.


Meu amigo vai embora e deixa uma rosa negra depositada no bolso de minha camisa. O símbolo dos Ceifadores, Arautos Da Senhora Morte, os Verdadeiros Deuses Da Morte, eu deposito entre meus livros. Não posso falar o nome dele, assim como não posso falar o meu próprio nome. Ele tem uma idade desconhecida e eu somente posso lhes dizer que cheguei a este planeta há exatos trinta e um mil e dezoito anos para cumprir de veste em veste a minha Missão como Testemunha. Esta Humanidade atual vai desaparecer junto com tudo que a mesma construiu e destruiu para dar lugar a uma Nova Humanidade que repetirá os mesmos erros e acertos das anteriores. Muitas outras Humanidades ainda surgirão aqui na Terra e eu Testemunharei o Fim de cada uma delas até que a Humanidade Perfeita surja neste orbe planetário. Não há prazer ou recompensa em ser uma Testemunha do desaparecimento de Raças decadentes. Não estou entre os Anjos Caídos e nem sou um dos Escolhidos Ungidos ou qualquer outro Ser Cósmico ou Anti-Cósmico conhecido ou desconhecido pelas Doutrinas Místicas e Ocultistas terrestres. Testemunhas pertencem à mais dura de todas as Linhas Evolutivas e não devem ser veneradas, cultuadas ou amadas. Mas, elas amam… Amei cada um dos meus amigos, filhos, esposas, parentes e conhecidos a cada uma das minhas Existências… Amei e fui amado porque eles não sabiam quem eu sou… Depois de mortos, sabendo quem eles amaram, estranharam e se afastaram, mesmo muitas vezes se comunicando intensamente comigo ainda na Matéria… E esta é A Dor que cada Testemunha carrega: deixar de ser amado por ser considerado um frio monstro que nada faz para salvar uma Raça destinada à Obliteração Suprema. A Foice assim me amaldiçoa e abençoa.


Inominável Ser
INOMINÁVEL
TESTEMUNHA
DO FIM
DE UMA
HUMANIDADE





Share:

0 Cadáveres Aqui Escavaram Suas Covas:

Meu Perfil No Facebook

Esta Cova No Facebook

Prosa De Um Coveiro Inominável

O Terror Inominável. O Horror Inominável. A Loucura Inominável. A Cova Aqui É A Do Puro Pesadelo Das Covas Mais Profundas E Elevadas. Vozes Estranhas Aqui. Sons Estranhos Aqui. Palavras Estranhas Aqui. Estranhas E Inomináveis. Sintam-Se Conduzidos Pelo Carro Inominável Do Terror Inominável. Sintam-Se Conduzidos Pelo Carro Inominável Do Horror Inominável. Sintam-Se Conduzidos Pelo Carro Inominável Da Loucura Inominável.

O Coveiro Inominável

Minha foto
Nos Infernos, O Abismo
Visualizar meu perfil completo

Cavam Aqui Suas Covas:

Arquivo do blog

Marcadores


Firefox

Firefox
Obtenha visualizações gratuitas no Snap.com
Add to Technorati Favorites

Arquivo do blog

Recent Posts

Unordered List

Theme Support