Blog Archive

Obtenha visualizações gratuitas no Snap.com

Unordered List

As Melhores Horas Da Doutora Alice

Alice - Vei Riz

Sair de casa tem sido um ostensivo martírio para você, Doutora Alice. A placa viva das coisas que você observa em seu carro se retorce e contorce, mostrando a nitidez da feiúra interior de cada criatura. A amostra morta de sanidade se estampa na cara de cada pessoa que, perto de você, passa como oriunda de mares calmos ou conturbados. Para você, a inútil presença diante de toda essa gente e paisagens diferentes sempre representou o pior sacrifício possível para quem somente quer o silencioso aconchego da casa. Como Clínica Geral, especializada em Ortopedia, Traumatologia e Fisioterapia como Pós-Doutorados, do maior hospital público da cidade, sua primordial missão é fingir ser uma servidora fiel ao juramento feito em sua formatura como médica. Um juramento que você amaldiçoa porque a cada paciente que você atende, o seu desejo, Doutora Alice, é o de esfarelar os crânios com machados; abrir os músculos orbiculares da boca com bisturis; quebrar as clavículas com martelos; destroçar glândulas mamárias com os dentes; golpear vaginas com chaves-de-fenda; queimar pênis com ferros de passar roupa; preencher jugulares com adagas cravadas; cortar os tendões flexores profundos dos dedos com facas de caça… Tudo isso você imagina todo o dia, Doutora Alice, nas doze horas trabalhadas no hospital, exigindo-lhe uma alta carga de hipocrisia e sorrisos mecanizados para poder controlar a sua predatória natureza. E você consegue se controlar, parabéns, Doutora Alice! Seu controle está na força de seu pensamento voltado para as horas noturnas em sua silenciosa casa, na observação de um osso parietal. Dirigindo toda noite com determinada pressa, como nesta noite, você sempre tem um motivo a mais para querer sempre preferir o faminto silêncio de sua casa. 

A vida social que você construiu tem sido muito bem conservada pela sua educação e fineza no trato de qualquer um. Porém, Alice, você menospreza a todos que tem como amigos ou companheiros de trabalho, também deseja torturar e matar a cada um deles. O Doutor Flávio lhe é um medíocre boçal que você quer matar enfiando um fórceps pela garganta dele; o Doutor Augusto lhe é uma desinteressante criatura que você quer matar em uma tortura com choques elétricos por todo o corpo; o Doutor Heleno lhe é um idiota inútil que você quer matar preenchendo-lhe os pulmões com ácido sulfúrico através de tubos; o Doutor Gustavo lhe é um viado esnobe que você quer matar desmembrando-o vivo com a lâmina de uma katana em brasa; a Doutora Clarissa lhe é uma lésbica nojenta que você quer matar amarrando-a a uma árvore para queimá-la viva com um lança-chamas; a Doutora Cristiane lhe é uma vadia suburbana que você quer matar abrindo-lhe o ventre com uma serra elétrica e retirando o intestino grosso, o intestino delgado, os rins, o fígado, o duodeno, o cólon descendente e o cólon sigmóide com um gancho, com ela consciente; a Doutora Vânia lhe é uma vagabundo rasteira que você quer matar com rajadas de metralhadora na região do músculo peitoral maior; a Doutora Regina, a Doutora Sabrina, a Doutora Samantha, a Doutora Sandra, a Doutora Ruth, o Doutor Saulo, o Doutor Baruc, o Doutor Youssef, o Doutor Artur, o Doutor Diógenes… Todos os médicos de seu convívio pessoal, Doutora Alice, assim como os que conheceu nos tempos de faculdade, em suas viagens e palestras, você quer ver como um cadáver reluzente diante de seu olhar. Quer ver, no entanto, não pode realizar a concepção e a conclusão deste seu sonho infindavelmente secreto, não é mesmo? Para compensar essa dificuldade, a observação de um meato acústico externo compensa a imensa falta de realização desses secretíssimos desejos. Sua direção na estrada hoje, tão eufórica por dentro, acelera os seus batimentos cardíacos, que, normalmente, estão sempre harmonizados. Saudade de sua casa, não, Doutora Alice? 

Morar sozinha lhe trouxe as maiores vantagens e uma liberdade que os seus subterrâneos instintos agradecem a cada noite. Ter morado na casa dos pais de classe alta com duas irmãs lhe custava ter que fingir tanto quanto hoje finge diante da comunidade médica de sua cidade. Um tormento que você suportou até o início de sua vida acadêmica, encontrando alívio no dormitório coletivo onde residiu durante todo o período da faculdade particular, a melhor do país, onde estudou. Doutora Alice, desde criança, até agora, você se destacou: a melhor aluna de Tênis; a melhor aluna de Canto; a melhor aluna de Piano; a melhor aluna de Inglês, Francês, Alemão, Espanhol, Japonês e Mandarim; a melhor aluna da escola; a mais bonita desta; a mais bonita da cidade na adolescência; a mais bonita do país agora na vida adulta; um gênio científico aclamado pelo mundo por sua infinda capacidade de realizar intuitivos e certeiros diagnósticos; ganhadora de diversos prêmios científicos pelo mundo no campo da Medicina; escritora de trinta e um livros de Medicina, todos best-sellers premiados com linguagem acessível ao grande público, tornando aquela Ciência popularíssima neste começo de século no mundo; condecorações recebidas de dois Governadores de seu Estado por contribuir bastante para a melhoria cada vez maior da Saúde Pública; condecorações recebidas de dois Presidentes da República pelos serviços prestados ao Ministério da Saúde, do qual você faz parte como Conselheira-Chefe do Sistema Federal de Saúde Pública; e o reconhecimento da mídia e dos habitantes de seu país por tudo que você conquistou e realizou em prol das vidas dos menos favorecidos. Nas próximas eleições, seu nome aparece forte como candidata à Prefeitura de sua cidade; e até o cargo de Ministra da Saúde no futuro não está longe de você. Muita coisa você é e será, Doutora Alice, parabéns de novo! Coisas que você trocaria apenas pelo silêncio de sua casa em uma admiração especial de úmero à vista de seu clínico olhar. Sinto sua euforia, Doutora Alice, a sua casa bem próxima e, enfim, suas máscaras poderão ser retiradas. 

As suas máscaras, Doutora Alice, sim! As suas máscaras, que desde a prodigiosa criança que você foi foram veículos construtores de uma imagem que é um misto de perfeição intelectual grega e egípcia antigas atada a laços perceptíveis com o Iluminismo Radical Europeu. Baruch de Espinosa é o seu e o meu herói em Filosofia, mas desaprovaria o que você é sem o uso das suas máscaras. Estávamos em sua infância, Doutora Alice, continuemos nela? Sua mãe, a Professora Agatha, com Pós-Doutorado em Direito Internacional, sempre lhe foi uma mulher simplória por se preocupar com assistência social, algo que você faz para melhor polir suas máscaras. Seu pai, o Engenheiro Henrique, da área da Construção Naval com Pós-Doutorado em Física Nuclear, sempre a fez acreditar que certos homens como ele jamais deveriam ter nascido, por ser um autômato limitado por todas as regras sociais, as quais você segue por mera conveniência, como eu te disse acima. Sua irmã mais nova, a Geógrafa Paulina, que trabalha como Vice-Diretora da Associação Geográfica Nacional, sempre lhe proporcionou os momentos de primeiras pequenas experiências de crueldade, desaparecendo, sem deixar vestígios, com os gatos e coelhos de estimação da mesma, que você considera uma retardada emocional de intelecto raso. Sua irmã mais velha, a Estilista Ariana, proprietária da grife Marilyn Afrodite, lhe é uma desprezível criaturazinha canhestra e obtusa, desprovida de visão e ambição, por nunca ter arriscado expandir mundialmente suas criações, mantendo-se no país com linhas de roupas para mulheres de todas as classes sociais. O resto da sua família é formada por homens e mulheres medianos, alguns inteligentes, outros rasos, todos insignificantes para você, o orgulho de uma das famílias mais abastadas do mundo! Se todos eles soubessem, Doutora Alice, como a cada Festa de Natal onde vocês se reúnem a sua imaginação já trabalhou nas torturas e mortes de cada um deles! Família não se escolhe, nós dois sabemos muito bem disto, Doutora Alice! Você desejou desde que tomou consciência de si mesma ter brotado da areia da praia, fruto do esperma de um Anjo que se masturbou nela pensando nas Santas mais gostosas do Céu. Você tem um senso de humor ácido e seu sorriso se abre, sua casa está próxima, silêncio e osso sacro aguardam-lhe. 

Alguns metros a mais e você já estará em sua casa, a construção mais isolada e sofisticada da cidade no alto de uma serra pertencente à sua família há duzentos anos. Ainda temos tempo, Doutora Alice, para relembrarmos seu passado, algo que toda noite em sua viagem para casa você faz. Seus namorados, Doutora Alice, nunca conheceram sua fascinação pelo que de proibido aos olhos sociais você tem praticado. Aliás, nenhum deles você amou ou desejou de verdade; e, voltando ao assunto anterior, com relação à sua família, você jamais sentiu por ela algo; e, indo mais longe ainda, você não demonstra afeto, no seu coração, por qualquer habitante da Terra. Retornando aos seus namorados, sempre foram homens de todos os tipos e etnias, de diversas idades, que lhe deram carinhos que geralmente nada agitavam em seu corpo. Renato, Caíque, Adão, Zéfiro, Adriano, Caio, Edson, Patrick, Brandon, Bruno, Norberto, Nelson, Giancarlo, Geovanni, Ismael, Richard, Paul, Jean William, Jair, Luís, Fernando… Cada um deles, incluindo seus rápidos affairs que duraram apenas uma noite, nunca lhe despertou prazer, desejo e o tão buscado orgasmo pelos que são escravos da carne. Você sabe que és mui bela, Doutora Alice, atuando como interessada em um homem quando, simplesmente, quer fazer com ele as atrocidades que periodicamente pratica. Com todos os homens você não pode, existem regras a serem observadas, princípios a serem regentes de sua caça e planejamentos a serem a métrica reguladora do seu psicótico e único hobby. Ah, você já chegou em casa, estacionou seu carro, caminha agora para entrar no silêncio onde uma escápula lhe aguarda. 

Seu noturno ritual de chegada em casa é sempre o mesmo, Doutora Alice, metodicamente: as luzes da casa são acesas; o Spotify, conectado à aparelhagem de som, é ativado começando a tocar diversas bandas de Industrial Metal em sua playlist; o celular é desligado, assim como o telefone sem fio que mantém na casa; um banho de quinze minutos, cronometrado precisamente; roupa íntima azul, um blazer negro, uma calça negra e chinelos negros no lugar da vestimenta e calçados que usa para ir trabalhar; um maço de cigarros de palha, junto a um notebook e uma chave de prata são pegos no quarto onde você dorme; seus passos se direcionam à abertura de uma porta de aço que leva para o porão de sua casa, a quarenta e dois metros abaixo da superfície; e uma escadaria de cento e nove degraus é atravessada para o acesso a um bunker de paredes de titânio que custou trezentos milhões de dólares. A área de 22,66 m² é o seu parque de diversões macabras particular e desconhecido de todos os olhos mortais, possuindo suas preciosas correntes de titânio, a atração principal de seu particular show. Suspensas nas paredes quadros de homens que você atraiu para sua casa, drogou, desnudou, acorrentou, decepou a língua e assistiu morrer de fome com o passar dos dias trancafiado no bunker. Ocupando outras áreas, diversos aparelhos, produtos químicos e ferramentas para descarte dos cadáveres, que você faz com brilhantismo, finalmente mostram quem você é sem as suas máscaras. A sua obsessão, Doutora Alice, é com a observação de ossos em carne viva, como a do atual homem acorrentado há quinze dias à sua frente. Seu ritual no bunker é sentar em uma cadeira à frente dele dois metros e, fumando os seus cigarros, observar cada osso que a perda gradual de peso põe à mostra na pele. Você ignora o olhar desesperado dele, ignora e não quer mesmo saber do que os desesperados olhos dele transmitem. Ossos visíveis lhe dão o prazer que nunca sentiu transando, a observação deles faz sua calcinha ficar molhada… Você se controla, Doutora Alice, exibe classe e, como uma cientista interessada no processo da morte humana, apenas observa com um rosto divertido e sorridente, advindo de uma emoção real e não fabricada, a degradação de seus ossos escolhidos. 

E morar em uma área isolada, de difícil acesso e com um rígido sistema computadorizado de segurança que aciona diversas armadilhas mortais para invasores, Doutora Alice, onde o vizinho mais próximo está a 4,5 km de distância, facilita a continuidade de seu hobby. Aquela moto de baixo custo em seu estacionamento, roupas de prostitutas e perucas de diversas cores em seu quarto, facilitam a sua caça por ossos escolhidos pelas praias de sua cidade à noite. Não são quaisquer ossos, estes precisam estar em homens de peso e altura avantajados, um fetiche seu, Doutora Alice, já que gordos sempre foram sua secreta preferência como homens para seu hobby. Gordos para que sua ânsia por vê-los deteriorar-se lentamente fosse bem maior, arrastando-os com dificuldade até o bunker, uma rotina que apenas lhe excita mais antes do acorrentamento em si. Ao morrer um e ser descartado, em um espaço de uma semana outro é escolhido para ocupar o espaço das correntes no bunker. Um processo que implica para você apenas utilizar seus atrativos físicos atuando como prostituta e abordando transeuntes gordos que, eventualmente desprezados pela grande maioria das mulheres, montam imediatamente na garupa de sua moto. Por pura sorte, todos os policiais que abordaram-lhe jamais descobriram a sua verdadeira identidade, seus documentos falsos são perfeitos, você é a melhor falsificadora desconhecida do país. Uma sorte que seus ossos escolhidos, Doutora Alice, não possuem; mas, não vou julgar sua conduta sem as diurnas máscaras rotineiras que usa, eu sou um amigável narrador isento de uma moral para julgar aqueles que observo em minhas narrativas. Apenas estou atento ao prazer explodindo em seu rosto e em sua vagina observando o osso nasal, o maxilar, o carpo, o metacarpo, a ulna, a escápula, as costelas, o cândilo… 

Hoje, é o vigésimo sexto ano de aniversário da sua formatura como médica após uma brilhante e formidável passagem pela Graduação, na qual foi a melhor aluna, a estrela maior da faculdade! Parabéns uma terceira vez, Doutora Alice! Continuando seu ritual, você abre agora seu notebook e por três horas, cronometradas, à frente de seus ossos escolhidos, escreverá mais um capítulo de seu trigésimo segundo livro, Básicas Atitudes Práticas Contra A Calcificação Óssea. Seus livros anteriores sempre foram inspirados pelos seus ossos escolhidos, Doutora Alice, este é o segredo do seu sucesso como médica renomada. A prática de sua profissão leva à extrema perfeição. A prática de seu hobby te encaminha, Doutora Alice, para a conquista de algo fora de toda humana compreensão a partir de normas socialmente aceitas. 

Boa escrita e boa noite, Doutora Alice! 


Inominável Ser 
DE
OSSOS
ESCOLHIDOS




< >
    Blogger Comment
    Facebook Comment

0 Cadáveres Aqui Escavaram Suas Covas:

Get Update Article on FacebookX

Find Us on Facebook

Get Update Article on Google+X

Follow Us on Google+